Medula, o folhetim (nº. 7 - Julho 2021)




Andreia C. Faria
Bernardo Atxaga/manuel a. domingos
José Carlos Barros
Mafalda Sofia Gomes
@mulher_a_dias

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Como responsável pela Medula decidi não publicar originais que mais tarde foram publicados noutras editoras. Já aconteceu várias vezes e não me refiro à chamada vanity press, onde o autor paga o seu próprio livro: refiro-me a editoras independentes e, até, editoras de grandes grupos editoriais (daqueles que "regulam" o tão famigerado "mercado"). Essa situação levou-me a questionar a minha capacidade crítica enquanto leitor e a minha capacidade crítica enquanto "editor" (e sim: as aspas aqui são mesmo necessárias), mesmo sabendo que é assim: uns gostam mais de peixe grelhado e outros de picanha. Mas a questão surgiu e tento, às vezes, encontrar respostas. E as respostas, essas, chegam na forma de um "pfffff". Sim: "pfffff". E como não penso na posteridade, nem tão-pouco numa placa com nome de rua ou busto em jardim, não estou preocupado em "comparar mitologias" no futuro.

Ali Duaji



A concretização das ideias não é tão fácil quanto a decisão de as pôr em prática.

Ali Duaji

Medula, o folhetim (nº. 6 - Junho 2021)

 


José Ricardo Nunes
Margarida Vale de Gato
Nuno F Silva
Susana Araújo
W. S. Graham/manuel a. domingos

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Pouco trânsito. O normal numa sexta-feira seria o oposto. Pelo menos a esta hora. Percorri a avenida sozinho. Só no último terço me cruzei com uma senhora. Também ela parecia admirada com o silêncio de buzinas e o vazio de gente. Nada de mochilas paradas nos semáforos nem o habitual quiosque estava ainda aberto. As novidades do dia ficam para outra hora. Por breves horas nada saberei do país e do mundo embora acredite que tudo continue na mesma. 

Medula, o folhetim (nº. 5 - Junho 2021)

 


Ana Isabel Soares
Francisca Camelo
José Carlos Soares Maria Olívia Santos
Vítor Nogueira

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Um poema de Carlos Poças Falcão

 

Completas (um programa)


Proferia sem cessar frases completas
não fosse a realidade bater-lhe sem sentido

Frases completas, tensas, dirigidas
de um caos a outro caos
tecendo o envoltório magnífico de um homem

As frases não cantavam nem tinham de cantar
apenas sustentavam em arco a coisa imensa
a grande ruína de tudo o que aparecia

Era um ermita de tipo moderno
orando na corrente dos transportes públicos
erguendo nas descidas metropolitanas
passando e abençoando desertos suburbanos

Era necessário compor frases completas
não fosse a realidade confundir-se com a mentira
Jurou chegar ao fim numa evocação contínua
teimando na palavra como o sol teima na luz
mas sem poder algum, nem alento, nem usura
— apenas real, como um rei no seu exílio

Se bebia uma cerveja num último reduto
ou se atravessava em grande perigo uma avenida
eram frases quase santas aquelas que o salvavam
tensas, dirigidas, como um arco de guerreiro

Pois que todos sofriam de uma voz entrecortada
de um coração disperso num olhar em fragmentos
ele era o ermita transportador do manto
dessa mortalha leve que a inteligência outrora amava

Não é o insignificante o inverso da verdade?
E assim vestindo o mundo ia ele sem descanso
envolvendo-o nas faixas de defunto ou de menino
segundo as exigências tão claras do sagrado

Anónimo, perdido e cheio de esperança
agora é outra hora, a do silêncio, a melhor hora



em Telhados de Vidro - nº. 2, Lisboa: Averno, Maio de 2004, pp. 11-12.

Do espaço [4]

 



Do espaço [4]
© manuel a. domingos, 2021
(clicar na imagem para aumentar)


(...)


De Frederico Pedreira conheço um ou outro poema disperso. Aquilo que dele li, neste género, não me entusiasmou ao ponto de comprar um livro seu. E quando saíram Um Bárbaro em Casa (Língua Morta, 2014) e Fazer de Morto (Língua Morta, 2016), o hype foi demasiado e perdi vontade de os ler, isto porque às vezes é preferível não ler aquilo que outros escrevem sobre certos livros (há muito defendo que a não leitura é algo muito importante).
     A Lição do Sonâmbulo (Companhia das Ilhas, 2020) passou-me completamente ao lado até à semana passada, quando foi anunciado pela editora que o livro tinha ganho o Prémio Europeu de Literatura 2021 (Portugal). Os prémios valem o que valem. São muitas vezes, ou quase sempre, mais importantes para os autores e editoras do que para os leitores. Todavia, fiquei curioso e comprei o livro directamente ao editor.
     O autor tem a capacidade de prender o leitor da primeira à última palavra, numa escrita limpa, sem subterfúgios. Há, neste livro um barroquismo depurado, limpo de exageros estilísticos, apesar dos jogos de ideias que vamos encontrando. Um bom exemplo desse jogo (que penso nada ter de lúdico) é o recorrente uso, por parte do narrador e no início do livro, da "imagem" associada à final da Taça dos Campeões Europeus, gravada em VHS, entre o AC Milan e o Benfica. Para os menos esclarecidos nessas coisas do futebol: o Benfica perdeu o jogo. E o narrador revê esse momento uma e outra vez, como se contemplasse a sua própria derrota, ou o desmoronar de uma infância que começa, cada vez mais, a ficar para trás, pois também os interesses começam a ser outros.

Francisco Brines (1932-2021)

 


(...)

 

Fui ver se a roupa já estava seca. Assim que abri a janela um dos melros do casal que decidiu fazer ninho no telhado começou a andar à minha volta emitindo sonoros sriiiiiis agudos. Enquanto não apanhei toda a roupa ele não deixou de me intimidar. Entretanto e enquanto tudo aquilo acontecia as crias deixaram de se ouvir. O gato acordou com toda a cena e chegou-se também ele a uma das janelas. O melo redobrou os sonoros sriiiiiis agudos e as crias começaram também elas num pranto.

*

Creio que em Gaza não há melros. Os sonoros sriiiiiis agudos são ora das bombas israelitas ora dos roquetes do Hamas.

*

Apago a televisão. Chega de mundo por hoje.

Stephen Crane


Um jornal

Um jornal é uma recolha de meias injustiças
Que vai espalhando a sua opinião
Quilometricamente apregoada por rapazes
A milhões de homens piedosos e trocistas,
Enquanto a família se refastela junto à lareira
Atiçada por uma história francamente angustiante.
Um jornal é um tribunal
Em que toda a gente é gentil e injustamente julgada
Por uma cambada de homens honestos.
Um jornal é uma feira
Em que o conhecimento vende a liberdade
E as multidões elegem os melões.
Um jornal é um jogo
Onde um erro dá vantagem a certo jogador
E dá a morte ao talento de outro.
Um jornal é um símbolo;
Uma crónica displicente da vida
Uma recolha de altissonantes lérias
Cheias de eternas estupidezes
Que há eras continuam à solta
A andar num mundo sem beiras.


tradução de Margarida Vale de Gato, no blogue d'ama

Ainda não é tarde e Outros Poemas - António José Fernandes

     


     «Numa conversa telefónica com Isaque Ferreira fiquei a saber que tinha todos os exemplares de Notícias do Bloqueio. Num acto de generosidade digitalizou os poemas de António José Fernandes incluídos nessa revista, mas também aqueles publicados nas revistas Cadernos do Meio-Dia e Bandarra. Sem a boa vontade do Isaque este livro ficaria muito mais pobre e incompleto.
     Não posso deixar também de referir, em jeito de agradecimento, a ajuda prestada por Ricardo Marques no encaminhamento e orientação na pesquisa por mim efectuada na Biblioteca Nacional, bem como pela ponte estabelecida com o Professor Fernando J. B. Martinho, que num e-mail generoso me deu a conhecer a sua admiração por António José Fernandes. Aos dois o meu muito obrigado.
    Por último uma palavra de agradecimento a Henrique Manuel Bento Fialho e Rui Almeida, que dispensaram algum do seu tempo na procura de informação que me pudesse valer na concretização deste livro, pois como escreveu António José Fernandes: «As mãos fraternas estudam a fuga dos cárceres e traçam nos mapas meridianos de esperança».»

in "Introdução" em António José Fernandes, Ainda não é tarde e Outros Poemas, s.l.: Medula, 2021, pp. 12-13.


Ainda não é tarde e Outros Poemas - António José Fernandes

 



António José Fernandes
Ainda não é tarde e Outros Poemas
Introdução de manuel a. domingos
Medula
2021


reservas: medulalivros@gmail.com

Do espaço [3]

 



Do espaço [3]
© manuel a. domingos, 2021
(clicar na imagem para aumentar)


(...)

 

Hoje voltei ao lugar de sempre. Não o fazia há muito. Soube bem regressar. Era o único ao balcão. A menina que me atendeu não sorriu. Como sempre. Mesmo com máscara consegui ver que não sorriu. A verdade é que também não vou lá pelo sorriso. Um amigo meu dizia "gosto de um café bem tirado com um sorriso". Já eu prefiro o meu quase cheio e sem ser em chávena escaldada. Mas com princípio.

*

À saída estava um senhor a fumar. Cara de poucos amigos. Olhou para mim de lado. Tossiu com força e escarrou. É bom saber que continua tudo na mesma. Afinal vai mesmo ficar tudo bem.

*

Um casal de melros fez ninho entre o telhado e tecto. Hoje acordei com as crias. Houve um ano em que devido ao calor: morreram. Um fedor a morte ficou a pairar pela casa durante alguns dias. Depois passou. Como tudo.

Do espaço [2]

 


Do espaço [2]
© manuel a. domingos, 2021
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Medula, o folhetim (nº. 4 - Maio 2021)



António Ferra
José Bértolo
Maria Brás Ferreira Sakutarō Hagiwara/manuel a. domingos


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José Pascoal

 

Os parentes afastados


Somos todos parentes afastados
E consumimos água, luz e gás.

Temos sono pesado na balança
Nivelada, neurótica, noctâmbula.

Pomos todos a mão no parapeito
Antes do salto eterno sem retorno.

Vemos todos a cova no cemitério
Dos prazeres fáceis prometidos.

Ficamos com o ar triste de bovinos
Deitados num palheiro humedecido.



em Branza, Lisboa: Editorial Minerva, 2019, p. 23.




Bica de bairro


Entras no café,
Pedes uma bica.

Há gente que fala
Com ferocidade.

Há gente que falta
À serenidade.

Devem ter razão.
Não tens a certeza.

Deixas o café,
Fumas um cigarro.



em Ponto Infinito, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 28.




Abegoaria


Pregada numa viga,
A estampa de Santa Catarina
Protege as bestas do mau-olhado.

Esterco e palha
Cheiram a trigo decepado,
Perfume de capela camponesa.

Encostado ao cajado,
O lavrador alisa o couro
Dos ruminantes embevecidos.

E um galo canta fora de horas.



em Excertos Incertos, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 32.




Ver agrava os riscos de cegueira


Fumar,
Afixaram nos maços,
Agrava o risco de cegueira.
Mas também
Praticar o onanismo,
Beber aguardente de bagaço,
Comer açúcar às colheres,
Cobiçar a mulher do próximo,
Ler a bula dos fármacos,
Ler as cláusulas dos contratos,
Ler os classificados do jornais,
Ler as mil e uma noites num dia,
Ver comboios de alta velocidade,
Ver navios depois do sol-posto,
Ver na multidão um rosto,
Ver para acreditar.



em Antídotos, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 66.




Imagem e semelhança


Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminhito na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e a vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.



em Sob este título, Lisboa: Editorial Minerva, 2017, p. 22.