Discos (296)




I'll lie down here

Swans


O céu chumbo pesa. O frio é de mãos nos bolsos. Sentes, às vezes, que a vida é um logro consentido. Às vezes olhas para os ramos das árvores sem folhas. Ficas parado a observá-los enquanto a cidade passa por ti em encontrões e sirenes. Pensas no dia em que talvez tu, numa dessas ambulâncias, todo arfar e suores frios – o coração em sobressalto, cansado daquilo que sente. E os ramos das árvores, sem folhas, no céu chumbo. A pesar. A pesar.

(...)


Cada vez mais me convenço que o caminho que percorro, ora sozinho ora acompanhado, é o caminho que para mim desejo, se quero manter intacta a espinha. O "carreirismo" dá-me asco, excepto quando o leio em Mário-Henrique Leiria. E acredito até que Judas se vendeu por muito, em comparação com alguns que povoam certas praças, que cada vez mais evito. Mas eles por aí andam, à cata de uma lugar ao sol, pois a sombra, apesar de fresca, não lhes interessa. O seu objectivo é claro: escalar à conta da sabujice, pois essa é a sua única maneira de ser. E ei-los, esplendorosos arrivistas, porta-estandartes de coisa nenhuma.

(...)


Sempre que aqui venho, pergunto-me sempre "que raio faço ainda aqui?". Nada de novo para reportar, apenas uma morte ali e outra além. As ruas continuam desertas à hora que por elas caminho. As cara são as mesmas, com as mesmas expressões de sempre. E sei que é tudo sempre a mesma coisa. Aqui, ali e além.  

João Almeida


Heimat

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram
Governam com ferro e pandemias.


em As Condições Locais, Guimarães: Opera Omnia, 2014, p. 21.

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Às vezes há alguém que se arma em engraçado e toca à campainha de casa às seis da manhã. Acordo em sobressalto e o gato também. Fico com a cabeça a latejar e já não consigo voltar a adormecer pois o despertador é às seis e meia. Ainda gostava de saber qual o gozo, a piada de tal atitude mais o raio-qu'o-parta.

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Quis a genética que tivesse olhos azuis. Mas de pouco me valeram junto das raparigas. A pior coisa que me podiam dizer era "só te queria os olhos". Apetecia-me logo mandá-las à merda. Mas nunca o fiz. Sempre fui um rapaz educado. Com algum esforço, é certo. Mas tentei sempre ser um rapaz educado. Também é verdade que, até certa idade, as raparigas não me interessavam. Passavam-me ao lado. Estava mais preocupado em ouvir música e beber submarinos nas esplanada do Vinagre, que era a única esplanada minimamente escondida dos olhos curiosos dos adultos e não só, isto porque uma das grandes vantagens de viver numa terra pequena é a seguinte: podes não saber o que fizeste na rua, mas quando chegas a casa os teus pais dizem-te. Assim, a esplanada do Vinagre cumpria a sua função: servia submarinos e estávamos escondidos. É claro que nada disto está relacionado com a minha genética. Ou talvez sim.

Vidigueira Premium



Touriga Nacional | Alicante Bouschet | Syrah

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Enquanto caminhava pela avenida, reparei numa janela que se abria. Uma rapaz, de taça na mão, perscrutava o dia. E comia aquilo que na taça se escondia. Comia e olhava em redor, procurando talvez uma cara conhecida, ou apenas talvez o odor, desta manhã que àquela hora amanhecia. Olhei para ele, e sem o conhecer, acenei com a cabeça em forma de saudação. E, por mais estranho que pareça, o rapaz acenou de volta com a mão.

(...)


Há pouco, depois do almoço, pedi factura com número de contribuinte. Admirado, o funcionário que me atendia, perguntou — o senhor já tem idade para ter um número começado por 1? — ao que eu respondi que sim, pois sou contribuinte desde os meus seis anos (caminho para os quarenta e dois), pois sendo o meu Pai contabilista, e logo que eu soube assinar, foi comigo fazer o registo.
     Mas não é tudo. O meu Pai também me ensinou que, a nível de fiscalidade, o Estado não é "pessoa de bem", e nós temos de actuar com ele sabendo, a priori, este facto. O Estado não é pessoa de bem. Cresci com essa ideia. Mantenho essa ideia e, cada dia que passa, essa ideia torna-se mais funda e mais sustentada. O Estado não é pessoa de bem.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (25)


1. O argumento de Cristas, sobre Liberdade e Segurança, apoia-se num sofisma. Diz a líder do CDS-PP: as pessoas para se sentirem livres têm de sentir-se em segurança, daí ser necessário um reforço da segurança. Nada poderia estar mais errado. Os estados autoritários, que apoiam todo o seu existir no reforço da segurança e no reforço da autoridade dos agentes de segurança (e tantas vezes no abuso da autoridade desses mesmos agentes de segurança), prezam a Liberdade? Mas o mais grave destas declarações é o facto de as mesmas estarem inseridas num contexto de suposto abuso de autoridade por parte de forças de segurança; abuso esse que está a ser investigado, decorrendo o respectivo inquérito. Cristas aproveitou a "acha na fogueira", lançada pelo representante da associação sindical da polícia, para mandar esta bojarda. Cristas é nisso especialista: surfar a onda, sem propostas concretas, fomentando um populismo primário (digno de André Ventura e Mário Machado) para daí retirar dividendos políticos, para o seu partido, e pessoais.

2. Mas, até agora, não ouvimos Cristas reagir aos números assustadores:  nove mulheres mortas desde o início do ano, em contexto de violência doméstica. Estas nove mulheres viram-se efectivamente privadas da sua Liberdade, pois são nove mulheres que hoje, dia seis de Fevereiro, não respiram, não trabalham, não abraçam os seus filhos. Elas sim foram privadas, na totalidade, da sua Liberdade. Elas sim viram a sua Liberdade ameaçada vezes e vezes sem conta. Elas sim, dia seis de Fevereiro, não têm Liberdade.

Lí por aí


Nove mulheres mortas em contexto de violência doméstica desde o início do ano. Presumo que os assassinos não sejam pretos a viver em bairros degradados, nem as vítimas polícias de profissão. Caso contrário, não se falaria de outra coisa.


Henrique Manuel Bento Fialho

Estados Filosóficos (106)


Aquele que procura a sensatez ficará um dia louco.

Castelo D'Alba



Touriga Nacional | Touriga Franca | Tinta Roriz

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Muito frio. Se aqui está assim: fará em Manteigas. Logo hoje que saí mais cedo de casa. Não era necessário; despachei-me mais cedo. E saí. No café de sempre o café de sempre. Estava lá aquele senhor que só anda de camisola, sem outro agasalho. Hoje tinha um casaco vestido. Por isso: deve estar mesmo frio. 

(...)


Agora, Rui, penso no momento em que, chegado ao céu, Deus se virar para si: "Tinhas razão, Rui. Eu, afinal, não existo". E com a perspectiva de tal coisa, esboço um sorriso e lembro as tardes em que tanto aprendi consigo. Ainda hoje não sei se era eu que lhe fazia companhia a si, ou se era o Rui que me fazia companhia a mim, perdido como eu andava numa cidade que me tinha recebido a "300 euros por mês (tudo incluído) num quarto com marquise". Nunca consegui tratá-lo por "tu", apesar de me ter sido pedido. Não fui capaz. Deixo-lhe aqui um abraço que ficará para sempre, pois dizem que há uma "nuvem" algures que tudo guarda. Aqui vai ele, do Varoufakis de Manteigas. Abraço, Rui.

Um poema de Sandra Costa


Herbert List, Lemonade stand (Capri), 1932


Apodera-se de ti o ofício do Verão.

Enquanto houver limões sobre a bancada
de madeira, água e açúcar para manter
o equilíbrio entre o que vês e o que escreves,
e uma colher para que um leve tinido
tudo trespasse de mar e melancolia,
deixarás por aqui um rasto a margens
e a tardias esperas.

Crês que a ilha também pode ser um lugar
onde as histórias de amor
se apresentam em segundo plano.


em Untitled, s/l: volta d' mar, 2017, p. 21.

Uma imagem para o dia



(...)


A natureza do amanhecer. Andar pelas ruas ainda vazias de gente. A cidade a abrir em estores e alumínios. O primeiro café do dia no café de sempre. Os mesmos rostos de sempre. E também, aqui, a mesma repetição de sempre, porque a vida, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a Arte, como forma de tentar dar à vida alguma originalidade. E quando digo Arte incluo todas as suas formas: literatura, pintura, escultura, música, cinema e por aí em diante. Mas, depois, também na Arte a mesma repetição de sempre, porque a Arte, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a vida, como forma de tentar dar à Arte alguma originalidade. E por aí em diante.

(...)


O arroto seguido de vómito começa a ser o estilo mais recorrente naquele que alguns ainda julgam ser o melhor amigo. Cuspir pró ar, também. E todos sabem o que acontece àqueles que cospem pró ar. Mas a mim aquilo que mais me indigna é o facto de praticamente ninguém se indignar. Indignam-se com tudo e mais alguma coisa, menos com o insulto gratuito. A verdade é que a maior parte está à espera das migalhas que o "crítico" irá atirar para o chão, para depois se refastelarem com elas e arrotarem com migalhas entaladas entre os dentes.
     Há quem continue a dizer que o "crítico" nada diz, nada escreve, não interessa. Não se admirem, um dia, que o "crítico" arrote, vomitando, na Vossa direcção. E depois ninguém se indigne com a Vossa preciosa indignação.

(...)



Ontem decidi por um ponto final na leitura de O Tango de Satanás. Custa-me deixar um livro a meio, mas concluí, há muito, que não sou obrigado a ler um livro até ao fim só porque sim. E comecei a leitura de Auto-de-Fé. E, caramba!, que diferença. Canetti sabe prender um leitor desde a primeira linha. Aquela entrada é fulgurante, com um diálogo bem escrito e sem ser massudo. A apresentação do personagem principal. Tudo logo no primeiro capítulo, sem esforço. Penso que tomei a decisão certa. Alguns pós-modernos parecem fazer gala de dificultar a leitura. Talvez ainda não esteja pronto para eles.