Um poema de José Bação Leal

 

Noite
Se tivesses boca e fosses mulher
conheceria o morrer de amor



em Poesia e Cartas, introdução de Urbano Tavares Rodrigues, s/l: 1971, p. 17.

Manhã e Noite - Jon Fosse



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Ao abrir a janela: a lua cheia. Ou quase. Enquanto preparo o pequeno-almoço dou conta do apagar das luzes dos candeeiros de rua. Vejo uma a uma as ruas a ficarem mais escuras. A torrada está pronta. O café também. Passo a passo sigo até ao sofá e reclamo o meu lugar.

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Nada de relevante aconteceu no caminho para o trabalho. Carros que aceleram. Outros que buzinam. Um bando de pombos levanta voo devido ao fechar abrupto da porta de um prédio. Alguém resmunga com o frio. No café de sempre o balcão vazio. Não entro. Ando a aprender a viver com menos cafeína.

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 Ao menos há sol.

Terras do Demo - Blanc de Noir

 



Pinot Noir

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O gato anda a miar pela casa. Estou frente à televisão e leio as notas de rodapé. Continua a miar. Parece saber o que faço e tenta sem sucesso avisar-me "não vale a pena leres isso pois o mundo está igual a ontem". Muito provavelmente: tem razão.

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Há pouco li estes versos: "Mundo, só um assim. Viver, / só desta maneira." (Szymborska). Se bem entendi: nada de arrependimentos. É certo que não tenho muitos. Apenas a dose certa para o equilíbrio necessário dos dias.

São sete e dez da manhã. "Nada de ócio e diletantismo" parece dizer o relógio. O dia de trabalho espera-me. Apetece dizer "Mundo, nem só assim. Viver, / talvez doutra maneira.".

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Leio Cartas para este tempo de Hugo von Hofmannsthal. Rapidamente concluo que anda por aí muita gente a escrever mal, muito mal, e onde eu também me incluo. A leitura de autores como Hofmannsthal deveria levar a maior parte de nós ao silêncio.

Balanço

 

Este blogue existe desde Dezembro de 2005. Antes dele existiram Pedra no Charco (2002-2004) e Limites de Luz (2004-2005). Até à data existem 6206 publicações e 3310 comentários publicados. 

Still Life

 



Still Life
© manuel a. domingos, 2021
(clicar na imagem para aumentar)

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Há quatro anos que percorro as mesmas ruas a caminho do trabalho. Há quatro anos que me cruzo com certos rostos. Às vezes consigo saber as horas tendo em conta os rostos. Se me cruzo com o Senhor X tenho tempo para uma bica no lugar de sempre. Se me cruzo com a Dona Y tenho de acelerar o passo. Mas se me cruzo com a Dona Z que passeia o cão estou definitivamente atrasado.

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Tenho o hábito de olhar as silhuetas que os prédios fazem. Às vezes dou por mim parado a observar as sombras e os cambiantes de luz. Tento que a memória guarde esse momento e mais tarde quem sabe ele possa aparecer num destes textos já que me falta o gesto hábil do desenho.

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Está para breve a neve na Serra. Sinto-a nos ossos. 

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Olho o vale desde a janela da cozinha todo ele névoa e chuva e vento. No fundo de si o Zêzere: rio das tardes de Verão mais o Poço dos Moinhos e nele nadar nu enquanto as raparigas se riam com isso. Secar ao sol. Rir com os palavrões de alguém a ser picado pelos tábaros. E esperar a minha vez.
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Baixo o estore. Noite. Hoje uma hora mais cedo por vontade dos homens. Olho para os livros que por aqui ainda ficaram. A maior parte deles não li. Talvez por isso tenham ficado por cá.
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Ajeito o corpo ao sofá. Passo a mão esquerda pelo gato. Com a direita: escrevo.

Casa Cadaval Espumante Bruto Tuisca NV

 



Pinot Noir

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Dez quilómetros de fila na auto-estrada. O gato ao teu colo como única maneira de vir sossegado. Luzes e luzes. Um rio delas. Sempre que me deparo com este cenário só penso na procissão das velas das festas de Nossa Senhora da Graça. Não me perguntes porquê.
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Com a mudança da hora o exaustor do prédio também ele uma hora mais cedo. Acordo sobressaltado pois penso que o despertador não tocou e já estou atrasado. Olho para o relógio e respiro de alívio: ainda posso ficar mais meia-hora deitado.
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Os cães da vizinha de baixo começam a ladrar. A última coisa que ontem ouvi foi o relógio-de-cuco a marcar as dez horas. Depois virei-me "sobre o lado esquerdo" (como faço sempre desde que li o poeta) e adormeci.

Bola(o) de Rosas

 



A imagem foi retirada da internet, pois não houve tempo para fotografar a que serviu de lanche este fim-de-semana.

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Calhou ir ao cemitério. Enquanto caminho por entre as campas observo os rostos nas fotografias. Fico admirado com algumas por as saber ali. Chego mesmo a comentar "não me lembrava já que tinha morrido". Uma vida inteira a cruzar-me com eles na rua e não os fazer mortos. Não me lembrar que estão mortos. Apenas sentir que deixei de os ver.

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Noite. Aproximo-me da janela. Olho o candeeiro de rua e vejo se ainda chove miudinho. E tenho outra vez doze anos quando também fazia isso. Só que o reflexo no vidro devolve a barba branca. O pouco cabelo. Um certo cansaço. 

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Houve chá e bola-de-rosas para o lanche.

Mads Mikkelsen

 


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Esta noite às três da manhã acordei com um toque suave no braço. Depois ouvi um miar. Levantei-me, dirigi-me à cozinha e esperei que o gato chegasse. Como não vinha, peguei no frasco dos biscoitos e sacudi-o uma, duas, três vezes. E nada. Voltei para o quarto e Malick está já deitado no seu lugar, cabeça sobre as patas dianteiras e, ao olhar para mim, voltou a miar. Às vezes penso que passa as noite a velar por nós. Se estamos a respirar, ou não. Se estamos a ter sonhos, ou pesadelos. Penso que hoje é exemplo disso. Talvez eu estivesse a ressonar (acordei com a boca e a garganta bastante secas e estava de barriga para o ar) e ele, estranhando o som, veio ter comigo e acordou-me. E, verdade seja dita, não é a primeira vez que isso acontece. 

Um poema de Miguel Bonneville

 
horas da nudez: época de gritos — CINQUENTA E SEIS DIAS (fragmento)


DIA XV


sou escolhido
por uma noite
para decidir quem sairá vencedor
de uma corrida de coxos.

subo a fasquia.



em Ensaios de Santidade, s/l: Sr Teste Edições, 2021, p. 30

Sam Elliott

 


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Schönberg parou de tocar. O gato deixou a janela e procurou a sombra do sofá. Uma ambulância há pouco atravessou o ar. Ao longe nem uma nuvem.

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No apartamento ao lado um berbequim na tarde. Aqui há silêncio nos intervalos e aquilo que parece ser música cabo-verdiana vinda de lá.


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Não há princípio nem fim. Apenas uma imensidão de azul. O mar ao contrário.

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Parece que vem aí uma tempestade. Dizem os especialistas que é um rio atmosférico. Qualquer coisa tropical que foi destrancada porque o anticiclone dos Açores se moveu mais para norte. Mau tempo extremo como agora é costume dizer. Já nada é intermédio. Normal. Para além das opiniões estarem extremadas também a meteorologia segue as actuais tendências. O extremo é o novo cor-de-rosa.


Sarah Barthel

 


Agradecimento

Enquanto é preparado o nº. 11 do folhetim da Medula, gostaria de agradecer a todos aqueles que tornaram possíveis os primeiros dez:

@mulher_a_dias, Alexandre Costa, Ana Bessa Carvalho, Ana Catarina Martins, Ana Isabel Soares, Ana Paula Inácio, Andreia C. Faria, António Ferra, Elisabete Marques, Francisca Camelo, Francisco Duarte Mangas, Francisco Javier Irazoki, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Morão Dias, João Miguel Henriques, Jorge Vaz Gomes, José Bértolo, José Carlos Barros, José Carlos Soares, José Pedro Moreira, José Ricardo Nunes, Mafalda Sofia Gomes, Manuel Filipe, Margarida Vale de Gato, Maria Aveiro Dias, Maria Brás Ferreira, Maria Olívia Santos, Marta Cunha Caldeira, Miguel Martins, Nunes da Rocha, Nuno Dempster, Nuno F Silva, Sandra Andrade, Susana Araújo, Tiāğö Rõdriğūës, Vítor Nogueira. Muito obrigado.

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Levanto-me todos os dias às 06h30min. A excepção é a sexta-feira: 07h15min. Este horário anda a interferir com os meus hábitos de leitura, isto é, ando a ler pouco. Disponibilidade de leitura é-me fundamental. Depois de uma manhã de aulas, ou uma manhã e tarde, chego a casa estourado. Só me apetece silêncio e fechar os olhos. Com silêncio ainda consigo ler. Mas de olhos fechados a coisa fica difícil.