lê a tua vida até ao nome (2)




lê a tua vida até ao nome (2)
© manuel a. domingos
2021

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Um poema de Artur Aleixo

 

O fim da tarde, no pátio da escola,
abrem-se os primeiro buracos
para jogar o berlinde. Milimetricamente
procuram-se os locais do ano
passado. Dos mais velhos
é o primeiro testemunho na arte de invadir
o mundo. Afoitos, explicam também
como os botões sobram na roupa
dos mortos. Durante o velório
esperam o momento certo e zás,
sem contemplações, arrancam-nos dos punhos.

Roubados os botões, fica o relógio
valioso para enumerar os percalços
do mundo.


em Telhados de Vidro - nº. 5, Lisboa: Averno, Novembro de 2005, p. 11.

Estados Filosóficos (142)

 

Quando ouço que alguém morreu de "doença prolongada", pergunto-me se não foi de "vida".

Lawrence Ferlinghetti (1919 – 2021)



lê a tua vida até ao nome (1)

 



lê a tua vida até ao nome (1)
© manuel a. domingos
2021

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Um poema de Rui Nunes

 

não procures um pretexto para os olhos:
é assim que se constrói a cegueira. Alguns
perdem-se na doença da luz, nos caminhos
desorientados onde só encontram o desvio.
Não vás pelo território maldoso da vereda,
talvez encontres ameixoeiras, mas a sombra
apodreceu-as, e dão ameixas como pedras
rugosas. Não vás rente às silvas que escondem
os encontros: visita a fronteira: esse lugar
que não repartiu a luz

a palavra abandonou-te,
e o sentido da partilha é agora um detrito
onde a boca exausta só encontra a estranheza


em Ofício de Vésperas, Lisboa: Relógio D'Água, 2007, p. 44.

Raul de Carvalho

 
Desenho


A terra que me gerou:
Boa ou má, forte ou sargaço,
Há-de lembrar-me o que sou
E o que faço.

Depois de voltas e voltas
Por terras que não são minhas,
Hão-de sempre regressar
As andorinhas...



em Versos (Poesia II), Lisboa: Edição do autor, 1958, pp. 39-40.

Noblesse oblige

 


Versões: W. S. Graham


A besta no espaço

Cala-te. Cala-te. Não há aqui ninguém.
Se pensas que ouves alguém bater
Do outro lado das palavras, não
Prestes atenção. Será tão-só e apenas
A grande criatura que bate a sua cauda
Em silêncio do outro lado.
Se nem isso consegues ouvir
Darei à besta uma rápida palmada
E com engenho e arte a ouvirás ganir.

A besta que vive no silêncio vai
mordendo deste lado e do outro.
Alimenta-se e respira entre nós. Agora
Chega e sorve todo o meu pensar.
Acaba com isso. Atravessa este
curioso e necessário espaço.
Desaparece, terrível habitante
Do silêncio. Não irei aceitar. Vai
Para onde alguém te queira.

Partiu e se para ti também partiu
É justo. Porque deste lado
Das palavras é tarde. A grande mariposa
Bate no vidro. Toda a casa
Está a dormir e recordo
Que não estou aqui, apenas no espaço
Que mando a terrível besta atravessar.
Vê. Ela morde. Ouve atentamente
Toda a canção que grunhe e rosna
E dá-lhe de comer. Não te deseja
nem bem nem mal. Acima
De tudo, cala-te. Dá-lhe o teu amor.


W. S. Graham, "The beast in the space", Selected Poems, Faber and Faber, 1996, pp. 48-49.

Em repeat

 


Versões: W. S. Graham


 Ouve. Veste a manhã.


Ouve. Veste a manhã.
Acordado pela luz que cai.
Um homem imagina

E talvez venha a herdar

Os rápidos séculos passados

Num minuto da sua vida na terra.

E ouve o coro das virgens

A falar com sincopado respirar

Aos rapazes na esquina da rua.

E ouve a raimona da polícia

Na ronda  pela cidade à noite.
E ouve o som dos baloiços

A irmã Maria chamar para dentro.

E ouve o Willie e o Davie

Entre os fetos em Narnain

A cantar num nevoeiro cerrado

Para as murtas e outros ouvintes.

E ouve a alta da cidade

Chorar um abaixo-assinado de medos

Na casa dos pobres tão perto

Do coração do povo.

E ouve as crianças jogar à apanhada

E a correr com os meus pés

Para dentro da rede que arrasta

Uma vontade de suicídio.

Ouve. Veste a luz da manhã.

Desperta para o milagre.

A multidão permanece acordada

Junto aos blocos de prédios

Junto às docas 

Junto às fixadas memórias.

Os séculos destrancam os seus cadeados

E abrem sob o monte

Os livros herdados e as portas

Todos juntos a destilar

Como alegres apanhadores de bagas

Uma só voz que nos fala.

Sim ouve. Leva para longe

Os segundos e os anos

Até o coração estar num casaco de neve

E a cabeça num branco elmo

E a canção adormecida ser acordada

Pela espiga brilhante do amanhecer.

Ouve. Veste a manhã.
Acordado pela luz que cai.
W. S. Graham, "Listen. Put on morning", Selected Poems, Faber and Faber, 1996, pp. 1-2.


(...)

A leitura de Osculatriz revela-se um corpo estranho e fascinante. Vou nas primeiras trinta páginas e na minha cabeça ressoa já um título para um ensaio (que nunca escreverei) decalcado de Günter Grass: "Escrever depois de Rui Nunes". * Ontem durante toda a manhã o vento mais restos de chuva nas janelas. Manhã sem nuvens recortadas — apenas uma mancha cinzenta uniforme a cobrir o céu. Saber que não sei descrever as coisas, sei unicamente olhá-las. E ainda assim arriscar uma frase que diga tudo o que vi. Olhei. * Algures neste prédio há uma porta que range com força de portão medieval em castelo abandonado. Às vezes a desoras e quando o silêncio se impõe em todo o lado. E nesse instante sobressalto-me como criança assustada.

Leituras




Até hoje fui resistente ao nome "Rui Nunes". Não sei explicar a razão. Algo em mim dizia que o autor nada me diria. E depois há aquela minha teoria "autores que só devem ser lidos a partir dos quarenta". Esperei três anos depois dos quarenta enquanto o nome "Rui Nunes" foi crescendo em mim como uma espécie de grito. Cada dia que passava o grito aumentava. Aumentava. Hoje chegaram os três primeiros livros. Podia apenas comprar um e ver como seria. Mas decidi comprar três. Agora ali estão eles. E irei já começar a ler um. Ainda não decidi qual. Talvez feche os olhos e deixe as mãos escolher.
 

Um poema de Maria Brás Ferreira

 
O mimetismo vale o sufoco
de não saber quem nos tocou as mãos
com o coração.



em Hidrogénio, s.l.: Flan de Tal, colecção Elementário, 2020, p. 22.

Os primeiros do ano

 


(...)


Noite. Uma leve chuva nos vidros. A televisão quase sem som onde também chove. Tenho uma manta sobre as pernas. Os pés frios. Não tenho nada para dizer que possa redimir pelo mais alto. Apenas que escrevo nesta noite de Janeiro que parece durar já muito tempo. E como sabemos o tempo nada tem de relativo.

*

Tenho lido pouco. Ainda assim: leio. Mas confesso que já li mais muito mais. E cada vez que leio sou confrontado comigo mesmo. Penso "como posso eu dizer que escrevo?". Ler os outros também traz esse confronto: saber que ficarei sempre aquém.

*

Tive sorte com os meus contemporâneos.

Hayley Lohn



© Hayley Lohn

Karl Ove Knausgård


A história de Édipo é o destino, e ele ignora-o, mas a história de Hamlet e a de Cristo são uma escolha e um caminho por que optam. Hamlet e Cristo fitam a treva de olhos abertos.


em A Minha Luta: 6 - O Fim, tradução do inglês de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 31.

Leituras

 



Tradução
Miguel Serras Pereira

(...)


Às vezes sinto falta do rumor crepitante duma lareira ou do fogão da casa dos meus Pais. O aquecedor a gás cumpre a função de aquecer a divisão mas não traz consigo o entretém do lume e o pensá-lo. O lume também se pensa. Caso contrário: apaga-se.

*

Vejo um documentário sobre casas inteligentes e sustentáveis. Agora só falta a humanidade ser assim também.

*

Olho o horizonte em brasa neste fim de dia. Não me ocorre nenhum pensamento. Ou ideia. Apenas o horizonte. Em brasa.

E. M. Cioran


A complexidade do grotesco reside na sua capacidade de exprimir um infinito interior, bem como um paroxismo extremo. (...) O grotesco nega essencialmente o clássico, da mesma forma que nega toda a ideia de harmonia ou de perfeição estilística.
     Que o grotesco esconde, na maior parte das vezes, tragédias que não se exprimem abertamente, essa é uma evidência para quem capta as múltiplas formas do drama íntimo. Qualquer um que tenha vislumbrado o seu rosto na sua hipóstase grotesca nunca mais se poderá olhar de novo, porque terá sempre medo de si mesmo.


em Nos Cumes do Desespero, tradução de Jorge Melícias, Lisboa: Edições 70, 2020, p. 26.