Medula, o folhetim (nº. 4 - Maio 2021)



António Ferra
José Bértolo
Maria Brás Ferreira Sakutarō Hagiwara/manuel a. domingos


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José Pascoal

 

Os parentes afastados


Somos todos parentes afastados
E consumimos água, luz e gás.

Temos sono pesado na balança
Nivelada, neurótica, noctâmbula.

Pomos todos a mão no parapeito
Antes do salto eterno sem retorno.

Vemos todos a cova no cemitério
Dos prazeres fáceis prometidos.

Ficamos com o ar triste de bovinos
Deitados num palheiro humedecido.



em Branza, Lisboa: Editorial Minerva, 2019, p. 23.




Bica de bairro


Entras no café,
Pedes uma bica.

Há gente que fala
Com ferocidade.

Há gente que falta
À serenidade.

Devem ter razão.
Não tens a certeza.

Deixas o café,
Fumas um cigarro.



em Ponto Infinito, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 28.




Abegoaria


Pregada numa viga,
A estampa de Santa Catarina
Protege as bestas do mau-olhado.

Esterco e palha
Cheiram a trigo decepado,
Perfume de capela camponesa.

Encostado ao cajado,
O lavrador alisa o couro
Dos ruminantes embevecidos.

E um galo canta fora de horas.



em Excertos Incertos, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 32.




Ver agrava os riscos de cegueira


Fumar,
Afixaram nos maços,
Agrava o risco de cegueira.
Mas também
Praticar o onanismo,
Beber aguardente de bagaço,
Comer açúcar às colheres,
Cobiçar a mulher do próximo,
Ler a bula dos fármacos,
Ler as cláusulas dos contratos,
Ler os classificados do jornais,
Ler as mil e uma noites num dia,
Ver comboios de alta velocidade,
Ver navios depois do sol-posto,
Ver na multidão um rosto,
Ver para acreditar.



em Antídotos, Lisboa: Editorial Minerva, 2018, p. 66.




Imagem e semelhança


Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminhito na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e a vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.



em Sob este título, Lisboa: Editorial Minerva, 2017, p. 22.

José Pascoal (1953-2021)



Fico a saber, através da Tatiana Faia, da morte de José Pascoal, autor do blogue Gazeta de Poesia Inédita. Andava a estranhar o não responder aos meus e-mails. Acabo, assim, o dia triste. Tínhamos combinado um café quando tudo isto passasse. Até sempre, caro José. 


Medula, o folhetim (nº. 3 - Abril 2021)

 



Alexandre Costa
Elisabete Marques
Francisco Javier Irazoki/Ana Catarina Martins Nunes da Rocha

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Ainda não é tarde e Outros Poemas - António José Fernandes




António José Fernandes
Ainda não é tarde e Outros Poemas
Introdução de manuel a. domingos
Medula
2021
103 páginas
Aceitam-se reservas
medulalivros@gmail.com

*

Desaparecido, esquecido, ignorado, o poeta António José Fernandes chegou a ser contemplado nas mais relevantes antologias da sua época. Nasceu em Lisboa, no ano de 1926, e publicou Ainda não é tarde (1955) na colecção "Cancioneiro Geral". Pouco mais se sabe deste misterioso autor. Neste volume recupera-se o livro publicado em vida e coligem-se poemas dispersos por revistas tais como Bandarra, Cadernos do Meio-Dia, Notícias do Bloqueio e Vértice. Marcada pelo mal-estar do pós-guerra, a poesia de António José Fernandes reflecte o processo de desumanização crescente na vida urbana com um vigor que não negligencia hipóteses de redenção. A guerra e o amor são temas centrais, tratados, por vezes, com uma ironia que não disfarça a angústia subjacente aos textos. Recuperamo-lo porque o julgamos adequado ao período de medo e distanciamento social que voltamos a atravessar.


Medula, o folhetim (nº. 2 - Abril 2021)

 





Jorge Vaz Gomes
Henrique Manuel Bento Fialho
Miguel Martins
Sandra Andrade

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Das fotos (45)




© manuel a. domingos, 2021
(clicar na imagem para aumentar)

 

(...)

 

Tenho começado a deslocar-me pelo bairro de bicicleta para aquelas pequenas coisas do dia-a-dia. Mas também para ir para a escola que não fica muito longe. Sabe bem voltar a pedalar. Há muitos anos tive uma valente queda que revelou um problema de coluna (a espinha sempre esteve intacta). O médico disse para deixar de fazer o que fazia. E deixei. Agora a bicicleta serve apenas para estes pequenos nadas. E é-me suficiente.

lê a tua vida até ao nome (5)




lê a tua vida até ao nome (5)
© manuel a. domingos
2021

(clicar na imagem para aumentar)

(...)


Embate já não está disponível no editor. E com isso começou já a preparação do 016. Tendo em conta os últimos anos, a Medula prepara-se para bater um recorde e publicar, este ano, dois livros. Uma fartura. As tiragens continuarão a ser únicas e limitadas aos 100 exemplares, pois não há dinheiro para mais e os editores têm frigorífico.

015

 




Acabado de chegar da gráfica. 
Tendo em conta as reservas já efectuadas (relembramos que é uma tiragem única de 100 exemplares): existem já poucos disponíveis. Para reservas: medulalivros@gmail.com

(...)

Ontem fui até à Biblioteca Nacional consultar alguns números da revista Vértice. Uma coisa que me assaltou foi o facto da revista ter sido publicada todos os meses, com artigos, inéditos, crítica literária, musical e cinematográfica, mais notícias sobre o mundo das artes. Isto: todos os meses, durante a anos e anos. Hoje, publicam-se revistas duas ou três vezes por ano e é um "must". E deixo de lado, de propósito, os supostos "suplementos culturais" com os quais alguns jornais nos brindam. Sinais dos tempos, dirão alguns. Talvez. Outra coisa: muitas vezes "criticamos" o atraso da crítica literária, isto é, o desfasamento entre a publicação de um livro e a crítica, quando ela acontece. O imediatismo tomou conta da nossa vida, sem dúvida, e a espera, o acto de esperar, são hoje coisas raras. Mas esse "atraso" não é de agora, ao contrário daquilo que muitos pensam (e eu pensava, confesso). Exemplo: um livro publicado em Julho de 1955 teve um breve "apontamento crítico" em Dezembro de 1956. E quando digo breve é mesmo breve: no meio de 14 livros mencionados pelo crítico (Raul Castro) lá aparece aquela que eu procurava. E vale ouro. Pelo menos para mim.

Medula


O livro Estalagem (Medula, 2019), de Henrique Manuel Bento Fialho, tem recensão crítica de José Ricardo Nunes no último número da Colóquio Letras (Setembro/Dezembro 2020). O livro ainda se encontra disponível para venda.   

Estalagem reúne 36 poemas, quase todos compostos por estrofes de quatro versos e, maioritariamente, constituídos por três estrofes. Esta regularidade, longe de ser absoluta, é acompanhada pelo tendencial recurso ao decassílabo, embora também esta medida surja apenas como referência, sendo frequentemente desrespeitada. Estamos aqui, talvez, perante uma provocação, em que uma norma (uma possibilidade, uma aparência de norma) é apresentada para poder ser desrespeitada e subvertida num exercício que não é ostensivo mas se alimenta de pequenas infracções e rupturas que minam o discurso poético e tornam num exercício de pluralidade, impossível de reduzir. A norma torna-se o desprezo pela norma, afirma-se a virtualidade do plural e do divergente. Neste sentido, o último verso do livro, que o interrompe abruptamente — excepcional pela mais curta medida — concretiza o programa enunciado na epígrafe e dá consumação a esta estratégia. Ficamos repentinamente como que sem solo sob os pés. Mais do que ensinar a cair, o poema conduz efectivamente à queda, proporciona-nos a experiência da queda, empurra-nos para o abismo, aponta ao vazio da sua própria destruição.
 
Colóquio LetrasFundação Calouste Gulbenkian, Setembro/Dezembro 2020, pp. 241-243.

Embate - Henrique Manuel Bento Fialho




Henrique Manuel Bento Fialho
Embate Medula
2021

Disponível a partir do dia 29 de Março. Aceitam-se reservas:
medulalivros@gmail.com
*
Embate é um livro dedicado aos livros dos outros. Para sermos exactos, porque 2 dos 11 autores abordados não têm livros publicados, Embate é um livro de textos sobre textos. O que os liga é a prática da poesia, núcleo a partir do qual se desenrolam reflexões sobre temas diversos. Neste caso, a poesia é mais um motivo para reflectir o mundo do que tema fechado sobre si mesmo. O que liga os autores em questão é essa abertura ao mundo e à vida, opção que os vem afastando tanto do cânone das academias como do cânone dos danados.

Medula 015

 





(...)


 

Aqueles que me conhecem bem sabem que cozinhar é o meu "momento zen". À volta dos tachos e das panelas não penso em mais nada. É algo que me relaxa. Assim, ontem, depois do Ensino@Distância, decidi ir até à cozinha e experimentar, pela primeira vez, hambúrgueres vegetarianos. Optei por uma receita simples: Hambúrguer de Grão com Coentros. Os próximos deverão ser melhorados, mas para estreia: ficaram bem saborosos.

Medula


A revisão do 015 está concluída. À espera do depósito legal. Entretanto, no "Intróito" podemos ler:

Medula 015

 




Escolhido o papel do miolo (Muken Pure 120gr), agora é rever as 145 páginas do 015 da Medula que dará entrada na Gráfica na próxima semana.

lê a tua vida até ao nome (4)

 


lê a tua vida até ao nome (4)
© manuel a. domingos
2021

(clicar na imagem para aumentar)

(...)


Vilhjálmsson (nome tão difícil de escrever como de pronunciar) transporta-nos imediatamente para uma outra geografia: física e psicológica. Não sei se é possível dizer isto mas as páginas de Arde o musgo cinzento estão cheias de uma luz morna que podemos encontrar nas casas onde um fogo aquece o Inverno. Lá fora: paisagem deserta imensa e som de água.

Thor Vilhjálmsson

     
     No seu interior palpitava a ânsia de sentir, de compreender e de saber. Por um lado, movia-o o desejo de buscar e acumular conhecimento e experiência e, por outro, estimulava-o a ansiosa busca, pelos órgãos dos sentidos, do prazer do instante fugaz, da tentativa de refrear e deter o mundo para contemplar e guardar uma imagem, embora a terra continuasse a girar e os planetas e o sol e todos os astros, e o vento, e embora voassem as folhas que se espantam com as novas cores ao cair das árvores, mas sem asas; e caíram por terra, contidas na sua queda, para acabar amontoadas, e assim achar o dim e embora depois chegasse uma nova Primavera, sem elas. Fixar uma imagem fora do curso do tempo. Deter o tempo, mas deixando que decorra. Lançara-se nos braços de quimeras apenas rompidas pela letargia, que começavam de novo quando recuperava os sentidos. O que era o tempo, então?


em Arde o musgo cinzento, tradução de Carlos Aboim de Brtito, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2012, p. 23.

lê a tua vida até ao nome (3)




lê a tua vida até ao nome (3)
© manuel a. domingos
2021

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Um poema de Théodore Fraenckel


Francis Bacon, numa rua de Soho


Quem visse Francis Bacon
talvez estranhasse um pouco.
Não é que não fosse seu o poema,
a estranheza, o silêncio,
mas a própria experiência
que pouco a pouco
o ia socavando (imprecisa).
Não era bem ele dentro dele dentro
mas ainda as saliências, os excrementos,
a própria experiência do que não houve —
ou como numa estátua, pétreo, o soco.
Então, Francis Bacon tentou a parede,
compôs o movimento,
experimentou o silêncio
onde oco cai, quase trôpego.
Mas não tanto ele, como se
o quadro pendurasse na parede
ou a penetração a tentasse de novo.
Saliência quem que tudo se oferece
entrevisto à língua — extinto e limpo.



em Telhados de Vidro - nº. 6, Lisboa: Averno, Maio de 2006, p. 54.