Um dia, um homem - António Amaral Tavares

 




António Amaral Tavares
Um dia, um homem
Fotografia de capa: manuel a. domingos
107 páginas

Tiragem única: 100 exemplares

Podem fazer já os vossos pedidos: medulalivros@gmail.com


Rumo ao 019


troika tomava conta do país e o desemprego tomava conta da minha vida. Era necessário ocupar o tempo e o espaço da inquietação (obrigado, Vergílio Ferreira). E assim nasceu a Medula. Estávamos em 2013.

Brevemente iremos publicar o décimo nono livro. Muitos dirão que não é muito aquilo que temos para apresentar em onze anos de existência. De facto, não é muito: é o possível, tendo em conta que não vivemos de subscrições que garantam o mínimo de vendas, e, muito menos, da carteira dos nossos autores. É, também, uma forma de resistência, pois não cedemos à ditadura do imediato, ao fetichismo da mercadoria (obrigado, Marx), tampouco ao aparecer para ser e parecer ser.

A Medula espera continuar a contar com a carolice dos seus amigos, que amavelmente nos ofereceram já traduções e fotografias. E a contar, também, com os leitores, que têm esgotado, ao longo dos anos, algumas das nossas tiragens únicas de 100 exemplares.

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Este blogue teve o seu início em 2005. Viveu o auge dos blogues e também o seu declínio. Teve altos e baixos. Teve (tem?) os seus leitores. Teve os seus anónimos nos comentários. Uma ou outra polémica que nem aos próprios polemistas interessou, quanto mais ao resto. Serviu, isso sim, para criar pontes, mas também é certo que deitou abaixo outras, ficando de pé as que interessam. Este blogue já esteve por um fio. Agora balança no arame, qual funâmbulo sonâmbulo. 

Ervas de estio

 



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Lí por aí


Os oportunistas e os tolos que comparam o PCP e, já agora, o BE também, ao Chega, falando de extrema-esquerda num caso e de extrema-direita no outro, dizendo que é tudo o mesmo, não há diferença alguma, têm nesta história do processo ao Presidente da República por traição à pátria um bom exemplo para perceberem as diferenças e morderem a língua e engolirem o vómito que regurgitam sempre que falam do PCP. É a diferença entre sentido de estado e ausência total de sentido, quanto mais de estado.

Henrique Manuel Bento Fialho

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Parafraseando Pessoa, digo e acrescento algumas coisas: divirtam-se com homens, se gostam de homens, ou com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque é preciso dizer e afirmar que o corpo, e tudo!, é de quem gosta, prefere ou se diverte. E como diz Cinatti, em relação ao resto, "batata frita"!

Ervas de estio

 



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Um poema de Nuno Guimarães


Com os braços deitados na memória
dos velhos objectos que fazer
que fazer do bronze e da certeza
dos amargos amigos a morrer

dos antigos a boca em cada gesto
amigos o amor que os consome
que fazer se nada reactiva
o mecanismo aos passos e ao nome

se nem pedras nem aves os motores
das estações do ano sobre o corpo
dos rios de metal o que fazer
em cada um de vós o abandono

se queimadas a voz e a garganta
nenhuma forma ou cinza ainda perdura
mais densos os amigos do que a morte
exilados do mar na água dura.



em Entre Sílabas e Lava, organização, textos e notas de Fernando Guimarães, Lisboa: Assírio & Alvim, 2024, p. 50.

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Quando a polícia entra nas Universidades, a pedido das próprias Universidades, para retirar estudantes que protestam (neste caso contra o genocídio do povo palestiniano, mas podia ser por outra causa qualquer), alguma coisa está mal. A verdade é que todos nós nos emocionámos, em alguma altura da nossa vida, com os protestos dos estudantes contra a Guerra do Vietname. Mas agora somos, a maior parte de nós, hipócrita e cinicamente indiferentes aos protestos dos estudantes, e posterior repressão, que ousam dizer que há um genocídio a decorrer; genocídio esse que teremos muita dificuldade em explicar aos nossos filhos, netos, ou (como agora se diz) whatever.

79 anos


 

Há 79 anos Yevgeny Khaldei fotografou este momento: o fim da II Guerra Mundial na Europa. Caía o nazi-fascismo.

Steve Albini (1962-2024)

 


Pixies ("Surfer Rosa"), The Jesus Lizard ("Goat"), The Jon Spencer Blues Explosion ("The Jon Spencer Blues Explosion"), PJ Harvey ("Rid of Me), Nirvana ("In Utero"), Dirty Three ("Ocean Songs"), Low ("Things We Lost in the Fire"), Godspeed You! Black Emperor ("Yanqui U.X.O."), Sunn O))) ("Life Metal").


Obrigado

Ervas de estio


Ervas de estio
 é apenas mais uma tentativa de ocupar o espaço da inquietação. O título é um verso de Bashô. As versões & outras traições, que por lá irão aparecer, serão da minha  autoria.

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Um poema de Hugo Miguel Santos


Station Boltanski


Podemos seguir,
uma vez mais, as cinzas,
o imundo páramo
dos que venceram:

chamemos-lhe história,
por exemplo, memória colectiva,
humanidade.

Podemos achar no cinismo
um dom, nos deuses a mais medíocre
piedade: inocência.

Podemos compactuar
com o silêncio de todos nós:
os culpados.

Podemos apagar rostos,
nomes, famílias inteiras.

Podemos calar
o grito que nos abafa,
transcendendo a terra
a todo o vapor

como um longo cigarro
de pólvora que não se apaga.

Podemos cavar no mais alto dos céus
a mais profunda campa.



em Ballarò e Outros Motetos, s/l: Cutelo, 2024, pp. 48-49.

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Há 79 anos, Michele Moretti (1908–1995) pendurava Mussolini de cabeça para baixo. Fascismo Nunca Mais!
 

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Dois dos grandes. De um ouvimos e cantamos, ainda, as suas canções. Do outro, aos poucos, esquecemos o seu papel no 25 de Abril de 1974. Zeca e Otelo. Homens livres e bons.

Foto: Capital

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Tive o privilégio de dar aulas no Estabelecimento Prisional de Caxias, no ido ano lectivo de 2005/2006. Foi um ano de intensa aprendizagem e, também, de alegria em ir trabalhar. Tive sempre consciência do lugar onde estava. Sabia bem da história daquele forte, principalmente durante a ditadura fascista de Salazar e Marcelo Caetano. Posso dizer que, em liberdade, percorri aqueles corredores. No chamado reduto Sul dei aulas numa antiga camarata, mais semelhante a um bunker (já que não tinha janelas e encontrava-se debaixo de terra [uma humidade atroz]). Lembrei-me muitas vezes de Zeca Afonso e do seu "Redondo Vocábulo", escrito enquanto esteve preso naquele lugar (um dia um guarda prisional disse-me que tinha sido ali a camarata de Zeca Afonso, mas nunca consegui confirmar). Isto tudo porque faz hoje 50 anos que os presos políticos de Caxias foram libertados. O general Spnínola não queria que todos o fossem. Os presos, numa solidariedade extraordinária, exigiram que todos saíssem em liberdade. A iniciativa partiu das mulheres que também estavam presas. E conseguiram. Faz hoje 50 anos.

Foto: João Porfírio/Observador
 

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Comecei a descer a Avenida da Liberdade, no 25 de Abril, desde 2015, quando fiquei colocado na Venda do Pinheiro. Todos os anos cumpro a alegria de gritar "25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!" e cantar o "Grândola" com milhares. Ontem não foi diferente, excepto que os milhares eram centenas de milhares. Nunca vi tanta gente junta e estive na Manifestação de Professores, em 2008, onde estiveram 120 mil pessoas; e, novamente, na Manifestação de Professores, em 2023, onde as autoridades disseram estar 150 mil professores. Mas ontem éramos mesmo "muitos, muitos mil para continuar Abril!". Não costumo dizer isto muitas vezes, mas vim do Desfile de coração cheio.

Sempre e para sempre!

 





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Sebastião Bugalho pela AD. Joana Amaral Dias pelo ADN. Será que também vai haver "confusão" desta vez?

Throbbing Gristle - 20 Jazz Funk Greats (1979)



Nunca me considerei uma pessoa dura de ouvido. Procurei sempre explorar as mais diversas sonoridades. Os Throbbing Gristle chegaram-me através de um artigo sobre Genesis P-Orridge que saiu na revista do Expresso, onde se falava do seu casamento com Jacqueline Breyer, conhecida por Lady Jaye, e do seu "Pandrogeny Project". A verdade é que a leitura do artigo me abriu as portas, também, para os Psychic TV. Mas foram os Throbbing Gristle que me ficaram. Este "20 Jazz Funk Greats" (1979) é o terceiro álbum da banda de Hull, e é considerado, por muitos, o melhor trabalho do quarteto composto por Chris Carter, Peter Christopherson, Genesis P-Orridge e Cosey Fanni Tutti. A sonoridade dos Throbbing Gristle poderá causar estranheza aos mais incautos, quer pela sua rudeza como crueza. O experimentalismo é levado ao limite e a própria produção do álbum pode parecer amadora (todo o álbum foi gravado num gravador de 16 pistas). Todavia, é tudo pensado ao mais ínfimo pormenor, a começar pela capa e título do álbum (onde foi utilizada a técnica do "Tongue-in-cheek"). A música dos Throbbing Gristle desafia todos os limites, começando pelo desafio que lança ao ouvinte, que tem de estar preparado para um "tour de force". 

João Abel Manta

 




Fascistas mal enterrados começam a botar flor
Cartoon para Diário de Notícias, 31-08-1974
Tinta da china e colagem

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Há qualquer coisa que me escapa, mas de certeza que deve ser incapacidade minha. Vou por partes:

1. O Hamas ataca de forma bárbara e condenável Israel;

2. Israel invoca legítima defesa e ataca a Faixa de Gaza, arrasando por completo aquele território e cometendo genocídio sobre o povo palestiniano;

2.1. Nenhuma sanção económica, militar ou de qualquer outro género é imposta a Israel;

3. Israel ataca o consulado do Irão (anexo à embaixada deste país) em Damasco;

4. O Irão, invocando legítima defesa, lança um ataque sobre Israel;

4.1. O ataque é, na sua maioria, neutralizado pelas forças militares de Israel, com a ajuda dos Estados Unidos da América;

5. O Irão sofre, de imediato, novas sanções.

6. Os Estados Unidos da América concordam com o ataque israelita a Rafah, desde que o estado de Israel não volte a atacar o Irão.

E tudo isto escapa à minha compreensão.

25 de Abril, Sempre!

 


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Nada como vir a um dos cafés do bairro para ficar a saber que, afinal, as maleitas que me afectam não são assim tão más. Nada como a relativização social das doenças.