Calendário (46)

 




Ontem, passados 25 anos, vi pela primeira vez Sigur Rós. Foi tudo aquilo que esperava. E muito mais. Concerto fabuloso.

Normalização - Anabela Fino

in Avante!, 29 de Setembro 2022


Com o aval do pre­si­dente do PSD, Luís Mon­te­negro, o líder par­la­mentar do par­tido, Jo­a­quim Sar­mento, apelou a se­mana pas­sada aos de­pu­tados so­ciais-de­mo­cratas que vo­tassem a favor do can­di­dato do Chega à vice-pre­si­dência da As­sem­bleia da Re­pú­blica. Por seu turno, o PS deu li­ber­dade de voto aos seus de­pu­tados, com Eu­rico Bri­lhante Dias a anun­ciar que iria votar contra.

O re­sul­tado foi novo chumbo, o ter­ceiro, do can­di­dato da ex­trema-di­reita, mas só por in­ge­nui­dade se pode pensar que a si­tu­ação per­ma­nece inal­te­rada. André Ven­tura não perdeu a opor­tu­ni­dade de o fazer notar, agra­de­cendo a «nor­ma­li­zação» do seu par­tido. A eleição de um vice-pre­si­dente do Chega para a AR, disse, re­pre­senta a «nor­ma­li­zação das re­la­ções que que­remos ter com os res­tantes par­tidos e fica claro que em 2026 tem que haver esta nor­ma­li­zação para uma so­lução go­ver­na­tiva à di­reita».

O pre­si­dente do PSD con­corda, em­bora se con­torça em ma­la­ba­rismos po­lí­ticos a fingir con­servar resquí­cios de so­cial-de­mo­crata. A ne­ces­si­dade de «nor­ma­li­zação» é tanta que Mon­te­negro veio esta se­mana apelar ao pre­si­dente da As­sem­bleia da Re­pú­blica que «use o seu ma­gis­tério de in­fluência junto dos grupos par­la­men­tares» para ul­tra­passar o im­passe, como se de uma mera questão formal se tra­tasse.

Mas é de subs­tância que se trata. Pre­tende-se apre­sentar um par­tido pro­to­fas­cista, de­fensor da ex­plo­ração ca­pi­ta­lista e do as­sistenci­a­lismo, que tem as suas raízes no ra­cismo, na xe­no­fobia, no ma­chismo, no po­pu­lismo, na de­ma­gogia mais exa­cer­bada, como par­ceiro «normal» da cena po­lí­tica na­ci­onal.

Como se ex­trema-di­reita fosse si­nó­nimo de pro­gresso e mo­der­ni­dade.

Como se bas­tasse su­primir a suás­tica e a sau­dação nazi, deixar crescer o ca­belo ou evitar ca­misas ne­gras para er­ra­dicar o es­pectro fas­cista que as­sola a Eu­ropa.

Como se bas­tasse haver elei­ções. Como se a his­tória da UE não fosse a re­a­li­dade plas­mada no re­sumo do jor­na­lista francês Jack Dion: «Em 1992, os di­na­mar­queses vo­taram contra o Tra­tado de Ma­as­tricht; foram for­çados a voltar às urnas. Em 2001, os ir­lan­deses vo­taram contra o Tra­tado de Nice; foram for­çados a voltar às urnas. Em 2005, fran­ceses e ho­lan­deses vo­taram contra o Tra­tado Cons­ti­tu­ci­onal Eu­ropeu (ECT); ele foi im­posto sob o nome de Tra­tado de Lisboa. Em 2008, os ir­lan­deses vo­taram contra o Tra­tado de Lisboa; ti­veram que voltar a votar. Em 2015, 61,3% dos gregos vo­taram contra o plano de re­dução de gastos de Bru­xelas, que mesmo assim lhes foi im­posto.»

Como se, enfim, neste sis­tema em que vi­vemos a von­tade dos povos não fosse ma­ni­pu­lável para aco­modar os in­te­resses do ca­pital.

As contas de Mon­te­negro saíram fu­radas: cerca de um terço da ban­cada PSD não se­guiu a ori­en­tação de voto e a «li­ber­dade de voto» no PS não rompeu a linha ver­melha. Mas a «nor­ma­li­zação» co­meçou e não pode ser su­bes­ti­mada.

Pharoah Sanders (1940-2022)

 


Vladimir Ilitch Lénine


A burguesia europeia agarra-se convulsivamente à camarilha militar e à reacção com medo do movimento operário. O insignificante número de democratas pequeno-burgueses é incapaz de querer firmemente a paz, e mais incapaz ainda de a garantir. O poder está nas mãos dos bancos, dos cartéis e do grande capital em geral.


em Burguesia e a Paz (1913), retirado de Obras Escolhidas de V.I.Lénine - Tomo 2, Editorial Avante!, 1984, p. 97.

Anton Fier (1956-2022)



Músico icónico da cena "no wave" de Nova Iorque, passou brevemente pelos The Feelies e The Lounge Lizzards. Fundou, em 1981, The Golden Palominos, banda muito cá de casa, por onde passaram nomes como Bill Laswell, Nicky Skopelitis, Arto Lindsay, Nicole Blackman, Lori Carson, entre outros. "Dead Inside" é, simplesmente, um dos melhores álbuns dos anos 90 do século passado.

Lí por aí


Alguém decidiu cobrir o edifício da Câmara do Porto com duas telas colossais onde figuram imagens da rainha de Inglaterra. Parecem as páginas centrais de uma gigantesca revista cor-de-rosa, pousada no cimo da Avenida dos Aliados. Papel de revista sem préstimo nenhum, inútil para acender fogueiras ou embrulhar peixe.

Raymond Depardon

 


Uyuni salt-flats, Bolívia 1997

(...)

O frágil trompete de Mikkelborg acompanha o leve e tímido sol que por entre as nuvens começa o dia . Ao longe ainda e talvez alguma chuva.
*
Cortei-me a fazer a barba. Há muito que não me acontecia. Várias gotas de sangue de um vermelho vivo límpido caíram na água. Formaram estranhas figuras. Também elas aparentemente vivas.
*
Às vezes não sei ao certo o que fazer com as mãos. Daí talvez esta coisa da escrita.

Calendário (45)

 




Chegaram na segunda-feira. Poucas são as coisas que genuinamente me alegram. Comprar música é uma delas. Quatro álbuns superlativos. "Swallow Tales", de John Scofield, foi uma agradável surpresa. 

Um poema de Afonso Duarte


Duas Quadras


Podem encher-me os punhos de grilhetas
Ou pregar numa cruz a vida minha.
Não é canto propício de poetas
O velho medo que guarda a vinha.

O antigo é a doença que eu mais detesto
É viciar o que já foi virtude!
O tornar ao passado é sempre um resto,
Ou, pior, uma falta de saúde.


em Obra Poética, introdução, fixação do texto, registo de variantes e apêndices de José Carlos Seabra Pereira, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2008, p. 279.

Calendário (44)



Muitos anos antes do arrependimento ter dado cabo da música de Nick Cave, the "First Born is Dead" foi o segundo álbum do australiano e o primeiro com The Bad Seeds (aqui: Mick Harvey, Blixa Bargeld e Barry Adamson). Os The Birthday Party ainda se ouvem em alguns temas, mas não tanto como em "From Her to Eternity". O tema de abertura, "Tupelo", começa com o som de um trovão, e somos logo avisados: não vem aí a redenção. Nick Cave sabia, como ninguém, exorcizar demónios, confrontar-nos com os nossos medos e libertar-nos das amarras de um cristianismo imposto à custa de muito sangue e pouco pão. O desejo, a luxúria e o pecado são apenas isso mesmo: palavras. Nick Cave sabia, como ninguém (e antes dele: Leonard Cohen), que a tarefa árdua de ser Homem, em toda a sua dimensão terrena, não era fácil. Mas também sabia que a não trocaria por nada de outro mundo. Eis o Nick Cave que me agrada. O Nick Cave que um dia vi num Coliseu dos Recreios à pinha nos idos de 2000.

Indignar-me é o meu signo diário (39)



Como tem sido notório, ainda não me tinha pronunciado sobre a morte de Isabel II. E talvez devesse permanecer como até agora: em silêncio. Reis e rainhas fazem-me tanta falta como um furúnculo no rabo, ou uma unha encravada. Não celebro a morte de ninguém (ah, não, minto: celebrei a morte de Pinochet), muito menos de um rei ou rainha, pois é-me indiferente. Ah, coisa e tal, ela fazia parte das nossas vidas. Não, da minha não fazia. Ah, coisa e tal, mas crescemos com a sua presença. Não, eu cresci com a presença do meu Pai, que muita falta me faz, e da minha Mãe, que está aí para as curvas, contra-curvas e rectas desta vida. Isabel II foi rainha de um país que foi, até bem pouco tempo, imperialista, no profundo e total significado da palavra. Foi rainha de um país cujos sucessivos governos sancionaram ditaduras (Pinochet novamente) e apoiaram invasões, também elas, ao arrepio das leis internacionais (ou ainda pensam que é só Putin que o faz?). Assim sendo, badamerda para estes três dias de luto nacional.

(...)


O gato há pouco acordou assustado. Miou um miar profundo como que a pedir ajuda. Afaguei-lhe o dorso. Acalmei-o com palavras suaves. Não pareceu convencido.

*

Pela casa o aroma a sândalo do incenso percorre cada divisão numa nuvem lenta. Listen, the snow is falling over town diz a canção. Há quanto tempo a não vejo cair?

*

No prédio em frente dois homens no telhado num precário equilíbrio de coragem e pernas. Observo-os enquanto indiferentes ignoram por cima deles as poucas nuvens que se aventuram a atravessar os céus. A cidade acordou há muito com eles. Só eu permaneço ainda aqui neste lugar de pouca serventia.

Um poema de José Pedro Moreira

não tenhas medo
dos fantasmas
são gentis
os seus dedos
fantasmagóricos
afagam-me os cabelos
um dia prateados há que fazer as pazes com os fantasmas eles são o nosso futuro em Prata, s/l: Flan de Tal, 2022, p. 51.

Pensamento do dia

 



Galaxie 500
Don't Let Our Youth Go To Waste
Today
Aurora Records
1988

Karl Marx e Friedrich Engels


Os mais novos dentre eles [jovens-hegelianos] encontraram a expressão correcta para a sua actividade quando afirmam que lutam apenas contra "frases". Esquecem, apenas, que estas mesmas frases nada opõem senão frases, e que de modo nenhum combatem o mundo real existente se combaterem apenas as frases deste mundo.


em A Ideologia Alemã (1° capítulo), tradução de José Barata-Moura, Edições Avante!, 2020, p. 15.

Calendário (43)


Há pouco na rádio ouvi isto sobre um jogador de futebol: "um extremo-direito que finge jogar ao centro". E pensei: é essa, também, a artimanha da extrema-direita.

Indignar-me é o meu signo diário (38)

 


As propostas do PCP foram rejeitadas. Votos contra do PS, PSD, IL e Chega. Entre as várias propostas apresentadas estava a descida universal do IVA (electricidade e gás) para 6%. Esta medida, reitero, é de elementar justiça, pois tanto a electricidade como o gás são bens de primeira necessidade, ao contrário daquilo que muitos pensam. Esta seria, isso sim!, uma medida concreta de ajuda à economia familiar dos portugueses.

Pedagogia da pobreza - Margarida Botelho

in Avante!, 15 de Setembro 2022


Isabel Jonet, pre­si­dente do Banco Ali­mentar contra a Fome, usa volta e meia me­tá­foras para ex­plicar o seu pen­sa­mento.

Em 2012, com as con­sequên­cias do pacto de agressão das troikas no auge, Jonet foi à te­le­visão falar nas «pes­soas que vivem muito acima das suas pos­si­bi­li­dades (...) se não temos di­nheiro para comer bifes todos os dias não po­demos comer bifes todos os dias», se­guindo-se ra­di­o­gra­fias, con­certos rock ou lavar os dentes sem copo como exem­plos de «viver acima das pos­si­bi­li­dades». Também falou de cri­anças na es­cola sem pe­queno-al­moço assim: «é inex­pli­cável. Deve-se, em parte, à não res­pon­sa­bi­li­zação e falta de tempo dos pais. Sem o pe­queno al­moço, os alunos não podem ter ren­di­mento es­colar».

Em 2014, a culpa foi dos de­sem­pre­gados: «dias e dias in­teiros agar­rados ao Fa­ce­book, ou a jogos ou a falsos amigos que não existem», vi­vendo «uma vida que é uma total ilusão», quando po­diam par­ti­cipar em ac­ções de vo­lun­ta­riado que lhe au­men­tassem as chances de ar­ranjar em­prego.

Em 2022, volta à carga, a pro­pó­sito do «apoio» de 125€: «Quando se atribui uma ajuda deste tipo, única, é im­por­tante fazer uma pe­da­gogia e ex­plicar às pes­soas que não podem ir gastar estas verbas todas de uma só vez até porque isso pode ter um efeito que é con­trário ao nível da in­flação. (…) As fa­mí­lias têm de per­ceber que têm de ajustar os seus con­sumos e as suas ne­ces­si­dades a esta nova re­a­li­dade (…) Há quase um in­cen­tivo às pes­soas que­rerem mais apoios so­ciais e menos res­pon­sa­bi­li­dade na pró­pria vida.»

Há quem diga que são de­cla­ra­ções de quem não co­nhece a re­a­li­dade. É di­fícil acre­ditar que seja o caso de Jonet, há mais de 25 anos a tempo in­teiro no Banco Ali­mentar. Na ver­dade, são de­cla­ra­ções de quem acha que há po­breza porque a vida é assim e sempre houve ricos e po­bres. Porque são ve­lhos, não têm ca­beça, são ir­res­pon­sá­veis ou man­driões, pre­cisam de uma «pe­da­gogia» para aprender a viver com o que têm.

Por aqui, pra­ti­camos a «pe­da­gogia» de criar mais ri­queza, dis­tribuí-la me­lhor, usar os re­cursos com ra­ci­o­na­li­dade. Uma «pe­da­gogia» de so­be­rania, di­reitos, igual­dade e luta. São op­ções.

Versões: Karmelo C. Iribarren


O segredo da vida



Ouves o som da chuva,
na cama, à noite,
junto a ela.

Viras-te um pouco
e observas
o seu perfil recortado na penumbra;
nos lábios, serenos,
um indício de sorriso.

E não sabes como mas sabes
que não te faz falta
mais nada,
                     que aí
está tudo o que precisas.



Karmelo C. IribarrenMientras me alejo, prólogo de Luis Alberto de Cuenca, Visor Livros, 2018, p. 49

Calendário (42)

Depois de "Vai para a Rússia!", começa por aí a circular o "Se não queres os 125€ dá a outro!".

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (33)

1. O IVA da energia (luz e gás) não foi reduzido de 23% para 6%, algo que seria de elementar justiça para todos, mas principalmente para aqueles que dependem da botija doméstica de gás. A luz e o gás são bens de primeira necessidade e não se entende a resistência do Governo em relação a esta questão. A redução de 13% para 6% na luz é uma redução, de facto. Mas é uma falácia. A maior parte dos portugueses paga o IVA da luz a 23%. Daí talvez se entenda a escolha do IVA a 13%, que abrange alguns portugueses, é certo, mas que fica aquém da realidade. Não esquecer que 13% de IVA é a taxa intermédia aplicada a todos os contratos com potência não superior a 6,9 kVA. Se tiverem uma potência superior (essencial, por exemplo, para aqueles que aquecem a casa com recurso à electricidade): esqueçam a "benesse". 2. O "benefício" dada aos reformados já outros o explicaram melhor do que eu poderei explicar. Resumindo: dou hoje com uma mão para amanhã não te dar com nenhuma. O mesmo se passa com os 125€ que a maioria de nós vai receber, em Outubro (e apenas em Outubro). Esse valor resume-se 0,34€ por dia (durante um ano), ou 1,37€ por dia (se contarmos — apenas — Outubro, Novembro e Dezembro). Uma fartura, portanto. Tudo isto com uma taxa de inflação a rondar os 9,4% (em Julho), sem perspectivas de abrandamento.

Versões: Joan Margarit


Requiem


É a fotografia de um grupo de poetas.
Tem uma mancha estranha:
vem da sombra duma árvore, ou é o resto
de algum mal revelado*.
Pouca coisa, uns poetas:
são tão fracos.
Simulam ter força,
paixão, indiferença.
Mortos melhoram, dizem.
Felizes aqueles que conseguem
desvendar o mito a partir de alguns versos
e de um amarelado retrato de poetas.
Eu, que não aguentaria
nem uma hora Verlaine,
tenho pena de ti,
amigo que não me regressas
nem com versos ou retratos
onde manchas põem
a morte a marcar
o primeiro candidato
ao mito ou ao esquecimento,
duas formas, afinal, do mesmo engano.


Joan Margarit, Aguafuertes, Sevilha: Renacimiento, 1998, p. 133.

__________________________

procede de la sombra de un árbol, o es el resto/de algún mal revelado. Na tradução para português perde-se o jogo de palavras que o poeta criou com “mal revelado”, que tanto pode ser a “má revelação” da fotografia como um “mal revelado” pela fotografia. Sabendo que posso correr um grande risco: optei pela hipótese apresentada.

Calendário (41)

Ao regressar a Marx encontro sempre algo de actual, o que prova, talvez, que a maior parte dos escritos marxistas (entenda-se, neste caso, Marx) estão datados, apenas, na data que trazem consigo e não nas ideias, ou reflexões. Um dos grandes erros, cometido pela maior parte de nós, é ler Marx sem fazer as devidas actualizações, isto é, caindo no erro da "cristalização de princípios e conceitos" (1), o que de certa maneira impossibilita a interpretação da realidade, porque ignora, assim, os novos conhecimentos e experiências. Um bom exemplo da actualidade de Marx, na minha opinião, é este excerto que agora vos apresento e que poderá explicar muito daquilo que, neste momento, se passa na Europa e no Mundo. Diz Karl Marx:
Louis Bonaparte tomou aos capitalistas o seu poder político, sob o pretexto de os proteger, a eles burgueses, contra os operários e, por sua vez, os operários contra aqueles, mas, a sua dominação favoreceu a especulação e a actividade industrial, numa palavra, o ascenso e o enriquecimento do conjunto da burguesia numa medida inaudita até aí. Todavia, em maior medida ainda, desenvolveram-se a corrupção e o roubo em massa, os quais se reuniram à volta da corte imperial e sacaram deste enriquecimento as suas fortes percentagens.
Mas o segundo Império era o apelo ao chauvinismo francês, era a reivindicação das fronteiras do primeiro Império perdidas em 1814, no mínimo as da primeira República. Um império francês nas fronteiras da velha monarquia, até mesmo nas de 1815, mais reduzidas ainda, isso era impossível por muito tempo. Daí a necessidade de guerras e de alargamentos territoriais periódicos. (2)
Acredito que regressar a Marx, lê-lo e procurar entender aquilo que nos diz, à luz da nossa actualidade e experiência, é fundamental para um melhor entendimento do charco onde o "realismo capitalista" (Mark Fisher) deseja que nós chafurdemos. Ignorar Marx, nos dias de hoje, é ignorar a sua actualidade e importância, já que o marxismo é a "crítica teoricamente mais elaborada e politicamente mais intransigente desse sistema [capitalismo]" (3). E é devido a isso mesmo que o neoliberalismo procura induzir, na opinião generalizada, que o marxismo faliu e perdeu validade, tendo nós todos assistido ao seu passamento e derrocada, quando na realidade o marxismo está mais actual do que nunca, tendo em conta o contexto internacional e nacional.
____________________________ (1) Álvaro Cunhal, O Partido com Paredes de Vidro, Edições Avante!, 1985, p. 22. (2) Karl Marx, A Guerra Civil em França, tradução de Eduardo Chitas, Edições Avante!, 2018, p. 14. (3) Terry Eagleton, Porque é que Marx tinha razão, tradução de Jaime Araújo, Edições 70, 2021, p. 16.

Mark Fisher


O papel da ideologia capitalista não é fazer explicitamente a defesa de algo à maneira da propaganda, mas, sim, esconder o facto de as operações do capital não dependerem de nenhum tipo de crença subjectivamente assumida. É impossível conceber o fascismo ou o estalinismo sem propaganda — mas o capitalismo consegue progredir na perfeição, melhor em certos sentidos, sem que ninguém faça a sua defesa.


em Realismo Capitalista, tradução de Vasco Gato, VS Editor, 2022, p. 26.