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Versões: Charles Bukowski


Para a Jane


225 dias debaixo de terra
e sabes mais do que eu.

há muito que te sugaram o sangue,
és apenas algo seco no lixo.

é assim que deve ser?

neste quarto
as horas de amor
ainda projectam sombras.

quando partiste
levaste quase
tudo.

ajoelho-me à noite
frente a tigres
que não me deixam em paz.

aquilo que eras
não voltará a ser.

os tigres encontraram-me
e não me importo.


Charles Bukowski, «for Jane», The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills, New York: Ecco, 2002, p. 42.

Versões: Charles Bukowski


Estas coisas

estas coisas que muitas vezes aguentamos
nada têm a ver connosco,
e lidamos com elas devido ao tédio
ao medo ou devido ao dinheiro
ou falta de inteligência;
o nosso espaço e a nossa luz
demasiado pequenos,
tão pequenos que não os suportamos,
por isso erguemos a Ideia
e perdemos o Centro:
muita parra e pouca uva,
e vemos nomes que outrora eram sinónimo de sabedoria
como placas a indicar cidades fantasma,
onde só as sepulturas são reais.


Charles Bukowski, «these things», The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills, New York: Ecco, 2002, p. 24.

Versões: Charles Bukowski


O olhar

Uma vez comprei um coelho de peluche
num grande armazém
e agora está ali sentado com os seus
pequenos olhos cor-de-rosa fixos em mim:

Quer bolas de golfe e paredes
de vidro.
Eu quero o silêncio dum trovão.

O nosso desencanto está sentado entre nós.


Charles Bukowski«The Look», The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems – 1946-1966, New York: Ecco, 2002, p. 114.

Versões: Charles Bukowski


Companhia

a fotografia de Céline olha
para mim.
precisa de fazer a barba.
parece um tarado saído
dum filme.
os olhos vêem através das paredes,
as paredes da humanidade.

sabe bem olhar para a fotografia
de Céline quando
as coisas aqui correm muito
mal.

esta noite olho para ele:

vejo os seus ossos
a dançar:

o médico que vem
do Hades.


Charles Bukowski, «company», Septuagenarian Stew: Stories & Poems, Santa Rosa: Black Sparrow Press, 1990, p. 243.

Versões: Charles Bukowski


Devemos

devemos trazer
a nossa luz
até
à escuridão.

ninguém
o fará
por nós.

quando os rapazes
esquiam
montanha
abaixo

quando o cozinheiro
recebe o seu último
ordenado

quando o cão corre
atrás doutro cão

quando o jogador de xadrez
perde mais do que
um jogo

devemos trazer
a nossa luz
até
à escuridão.

ninguém
o fará
por nós,

quando sozinho alguém
telefona
a alguém
algures

quando a grande besta
treme
de assombro

quando a última morada
se torna
mais nítida

ninguém
o fará
por nós.


Charles Bukowski, «we must», Septuagenarian Stew: Stories & Poems, Santa Rosa: Black Sparrow Press, 1990, pp. 100-101.

Versões: Charles Bukowski


Partida rápida


nós
às vezes
deveríamos
lembrar
o ponto
mais alto
e
emblemático
das
nossas
vidas.

para mim
foi
muito novo
dormir
sem cheta
e sem
amigos
num banco
de jardim
numa
cidade
desconhecida

o que
não diz
muito
de todas
as outras
décadas
seguintes.



Charles Bukowski, «Starting fast», You get so alone at times that it just makes sense, New York: Ecco, 2002, p. 118.

Versões: Charles Bukowski


animais unidos através dos tempos ―
  

Van Gogh a escrever ao irmão sobre os quadros
Hemingway a experimentar a caçadeira
Céline na bancarrota sendo médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sargetas da sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs a matar a sua mulher
Mailer a apunhalar a sua
a impossibilidade de ser humano
Maupassant a enlouquecer num barco a remos
Dostoievski encostado a um muro à espera do fuzilamento
Crane a saltar do barco para as rodas-de-pás
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada
Harry Crosby a criar a Black Sun
Lorca assassinado por militares à beira da estrada
a impossibilidade
Artaud sentado no alpendre do manicómio
Chatterton a beber veneno para ratos
Shakespeare o plagiador
Beethoven com um corno espetado no ouvido contra a surdez
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche a enlouquecer por completo
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
a sua respiração
expira-inspira
inspira-expira
estes sacanas
estes cobardes
estes campeões
estes gloriosos alucinados
a carregar este pequeno pedaço de luz até
nós
impossivelmente


Charles Bukowski, «beasts bounding through time ―», em You get so alone at times that it just makes sense, Nova Iorque: Ecco, 2002, p.21


Charles Bukowski



Caso Charles Bukowski fosse vivo ele faria hoje 92 anos. No nosso país ainda está por editar a sua poesia. Em Fevereiro de 2008 lembrei-me de desafiar uma série de pessoas a escrever sofre ele. Fica aqui a ligação para os textos de: João Camilo, Fernando Esteves Pinto, Luís Filipe Cristóvão, Lourenço Bray, Vitor Vicente, Maria João L. Fernandes, Paulo da Costa Domingos, André Moura e Cunha, Henrique Manuel Bento Fialho, Luís, Jorge Vaz Nande, António Godinho e Miguel Marques. Boas leituras.

Versões: Charles Bukowski


olá e adeus

não há pior inferno do que o teu inferno
nenhum se compara,
às voltas na cama à noite,
o teu cu regelado
a cabeça a arder,
tudo sem sentido, sem sentido,
enquanto estás preso ao teu pobre corpo e à
tua pobre vida
e tudo está a dissolver-se, a dissolver-se devagar
em nada.
como todos os outros corpos, como todas as outras
vidas,
estamos a ser excluídos,
postos de lado
pela doença
pelo facto de suportar
dias difíceis, anos difíceis.
não há saída para
isto, temos apenas que suportar,
aceitar –
ou melhor –
não pensar muito
nisso.

calçar e descalçar.
as férias vão e vêm.
olá,
adeus.
vestir, despir.
comer, dormir.
conduzir o automóvel.
pagar os impostos.
lavar os sovacos e
o pescoço
e esfregar tudo o
resto, para ter a certeza.

escolher atempadamente o
caixão.
sentir a boa madeira.
escolher o suave, acolchoado, caro
interior.
o vendedor irá dizer que
tens muito bom
gosto.

depois horrorizá-lo.
dizer-lhe que queres experimentar,
ver se é do teu tamanho.

não há pior inferno do que o teu
inferno e não há ninguém que
o comparta
contigo.

podes muito bem ser a única
pessoa no mundo.
às vezes sentes que
és
e talvez sejas.

entretanto, tira o cotão do
umbigo.
aceita o que tens,
fode de vez em quando,
saúda o vazio.
foi sempre assim, foi sempre
assim.
não grites.
não há ninguém que te possa
ouvir.

coisas estranhas.
coisas estranhas as cidades, as árvores,
os nossos pés a caminhar pelo passeio,
o sangue dentro de nós
a lubrificar os nossos
corações,
os séculos a passarem
enquanto calças as meias e as puxas
até aos
tornozelos.

Charles Bukowski, «hello and goodbye», em Come On In!: new poems, edited by John Martin, New York: Ecco, 1ª edição, 2006, pp. 222-224.

Versões: Charles Bukowski



depois de ler a imortal literatura do mundo

as crianças nas escolas
fecham ferozmente
os seus pesados
livros

e correm
sempre contentes
para o
pátio

ou

ainda mais
alarmante –

para as
suas
horríveis
casas.

não há nada mais
deprimente
do que
a imortalidade.


Charles Bukowski, «upon first reading the immortal literature of the world», em War All the Time: Poems 1981-1984, New York: Ecco, 1ª edição, 2003, p.129.

Versões: Charles Bukowski



cão

um cão
a andar sozinho pelo passeio num verão
quente
parece ter o poder
de dez mil deuses.

porquê?



Charles Bukowski, «dog», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, p. 123.

Versões: Charles Bukowski


os humildes já herdaram

se sofro às mãos
desta máquina de escrever
imaginem como me sentiria
entre os apanhadores
de alface em São Teotónio?

penso nos homens
que conheci em
fábricas
sem possibilidade
de fuga –
a sufocar enquanto vivem
a sufocar enquanto riem
com Fernando Mendes e
Goucha enquanto
2 ou 3 crianças atiram
bolas de ténis contra
as paredes.

alguns suicídios ficam por
registar.


Charles Bukowski, «the meek have inherited», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 139.

Versões: Charles Bukowski

um poema cruel

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…


Charles Bukowski, «an unkind poem», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 212-213.

Versões: Charles Bukowski


um poema quase verdadeiro



Eu vejo-te beber numa fonte com minúsculas
mãos azuis, não, as tuas mãos não são minúsculas
são pequenas, e a fonte é em França
donde tu me escreveste aquela última carta a
que eu respondi e nunca mais soube nada de ti.
tu costumavas escrever poemas sem sentido sobre
ANJOS E DEUS, todos em maiúsculas, e tu
conhecias artistas famosos e a grande parte deles
eram teus amantes, e eu escrevi-te de novo, tudo está bem
continua, entra nas suas vidas, eu não sou ciumento
pois nunca nos conhecemos. estivemos perto um do outro em
Nova Orleãns, pouco tempo, mas nunca nos conhecemos, nunca
nos tocámos, e tu continuaste com os famosos e escreveste
sobre os famosos, e, claro, aquilo que descobriste
é que os famosos estão preocupados
com a sua fama – não com a jovem e bela rapariga que está
na cama com eles, que lhes dá aquilo, e depois acorda
de manhã para escrever em maiúsculas poemas sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que Deus está morto, eles
disseram-nos, mas ao ouvir-te deixei de ter a certeza. Talvez
fossem as maiúsculas. tu eras uma das melhores
poetisas e eu disse aos editores, “ela, publiquem-na,
ela é louca mas é mágica. “nenhuma mentira no seu fogo”.
Eu amo-te como um homem ama uma mulher que nunca tocou,
que só lhe escreve, e guarda dela poucas fotografias. eu podia
ter-te amado mais se tivesse sentado num pequeno quarto
a enrolar um cigarro e a ouvir-te mijar no quarto-de-banho,
mas isso nunca aconteceu. as tuas cartas ficaram cada vez mais tristes.
os teus amantes traíram-te. rapariga, escrevi mais tarde, todos
os amantes traem. mas isso não ajudou. tu disseste
que tinhas um banco onde ias chorar e era junto a uma ponte e
essa ponte era sobre um rio e tu sentavas-te lá todas as noites
e choravas por todos os amantes que te tinham magoado
e esquecido. eu escrevi-te de novo mas nunca
obtive resposta. um amigo escreveu-me e contou-me
do teu suicídio, 3 ou 4 meses depois de acontecer. se eu te tivesse
conhecido provavelmente seria injusto contigo
e tu comigo. foi melhor assim.


Charles Bukowski, «an almost made up poem», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco,  pp. 47-48.

Versões: Charles Bukowski


se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cama de lugar
várias vezes
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentarem ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazerem exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
cu
acima.

Charles Bukowski, «now, if you were teaching creative writing, he asked, what would you tell them?», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 233-234.

Versões: Charles Bukowski


Rosto enquanto faz a barba

O que é um corpo senão um homem
preso lá dentro
durante algum tempo?
a olhar para o espelho,
a reconhecer o funcionário vegetal
ou o desenho do papel de parede;
não é a vaidade que procura o reflexo
mas puro espanto de macaco;
mas ainda assim o reflexo…
braço e músculo que mexem, cabeça de casquinha,
um rosto a olhar para dentro
da antiga dimensão dos sonhos
enquanto uma caloira do Mississipi se maquilha
e pinta os lábios com um beijo de lavanda;
o telefone toca como um lamento
e a lâmina corta por entre a neve,
as rosas mortas, os meses mortos,
pôr-do-sol atrás de pôr-do-sol,
vapor e Cristo e escuridão,
uma pequena fresta de luz.


Charles Bukowski, «Face While Shaving», em The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems 1946-1966, Nova Iorque: Ecco, 1ª Edição, 2002, p. 202.