O botão da camisa!
A tua mão
insinua-se na manga,
pássaro friorento,
o bico arranha um pouco
para excitar o sangue. Eu
olho o rio, a esteira das luzes,
ofereço o rosto
para que o teu olhar viaje,
o barco aproxima-se do molhe,
os teus dedos contornam
o cotovelo; nos lábios
tenho um verso que não se define,
o coração
recebe o sangue que passou
sob os teus dedos, uma esteira
de luz que me atravessa
como se fosse um rio
cruzado pelo barco
que de novo regressa
e é o teu olhar que escorre
irrigando o tecido
desta paisagem que nos olha
e nos integra
como se em nós inaugurasse
um novo olhar.
em A Ferida Amável, Porto: Campo das Letras, 1ª edição, 2000, pp. 75-76.