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Versões: Jaime Gil de Biedma

Nem que seja por um instante


Nem que seja por um instante, desejamos
descansar. Sonhamos conseguir.
Não sei, num lugar qualquer
desde que a vida deponha os seus espinhos.

Um instante, talvez. E regressamos
atrás, ao passado enganador fechado
no mesmo medo de hoje, que dia a dia
naquela altura também conhecíamos.

                                                          Esquece-se
pronto, esquece-se o suor de tantas noites,
a nervosa ansiedade que destrói o melhor engano
levando-nos a ele já rendidos
sem outra coisa a não ser esse vazio ao chegar,
a estranha indiferença do que está feito.

Assim de cada vez que este medo,
o eterno medo que tem a nossa cara
nos assalta, gritamos invocando o passado
— invocando um passado que nunca existiu —

para acreditar que ao menos vivemos de verdade
e que a vida é mais do que esta longa pausa,
vertiginosa,
quando a própria vocação, aquela
sobre a qual um dia fundámos o nosso ser,
o nome que demos à nossa dignidade
vemos que não era mais
do que um desolador desejo de nos escondermos.


Jaime Gil de Biedma, «Aunque sea un instante», em Las personas del verbo, Barcelona: Seix Barral, 12ª edição, 2009, p. 39.

Versões: Jaime Gil de Biedma

Domingo

Pouco mais do que este pequeno esforço para viver,
para respirar como respiram
aqueles outros casais além ao longe, escondidos
debaixo dos pinheiros em cascata,

e que parecem manchar o ar
tão sossegados como o fumo da cidade, ao fundo,
enquanto passam queixando-se
estrada abaixo os rápidos autocarros.


Jaime Gil de Biedma, «Domingo», em Las personas del verbo, Barcelona: Seix Barral, 12ª edição, 2009, p. 51.

Versões: Jaime Gil de Biedma


Segunda-feira

Mas depois de tudo, não sabemos
se as coisas não estão melhor assim,
de propósito escassas… Talvez,
talvez haja uma razão para os dias de trabalho.

Tu e eu neste lugar, neste espaço
onde só há luz, entre o escritório
e a noite que se aproxima, não sabemos.
Ou talvez, simplesmente, estejamos cansados.


Jaime Gil de Biedma, «Lunes», em Las personas del verbo, Barcelona: Seix Barral, 12ª edição, 2009, p. 52.

Versões: Jaime Gil de Biedma


Contra Jaime Gil de Biedma

De que serve, queria eu saber, mudar de casa,
deixar para trás um sótão mais negro
do que a minha reputação – e isso é pouco –,
colocar cortinados brancos
arranjar uma criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens logo tu, inoportuno,
incómodo hóspede, mesmo que vestido com a minha roupa,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com as tuas mãos lavadas,
a comer no meu prato e a sujar a casa?

Acompanham-te os balcões dos últimos
bares da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da madrugada
e os elevadores de luz amarela
quando chegas, bêbado,
e paras para ver ao espelho
a cara destruída,
com olhos violentos
que não queres fechar. E se te repreendo,
tu ris, lembras-me o passado
e dizes que envelheço.

Podia recordar-te que já não tens piada.
Que o teu estilo casual e o teu desapego
são truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e que o teu encantador
sorriso de rapaz sonolento
– convencido – é penoso,
uma tentativa patética.
Enquanto olhas para mim com os teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não voltarás a fazê-lo.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há já muito tempo,
que tu és forte quando eu sou débil
e que és débil quando eu me enfureço…
Dos teus regressos guardo uma imprecisão confusa
de pânico, de pena e descontentamento,
e a desesperança
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, mais uma vez,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo levar-te-ei à cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo de impotência a cada passo,
tropeçando nos móveis
sem tino, atravessaremos a casa
tropegamente abraçados, vacilando
com álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
é alguém amar-se a si próprio!

Jaime Gil de Biedma, «Contra Jaime Gil de Biedma» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 125.

Versões: Jaime Gil de Biedma


Não voltarei a ser jovem

Que a vida é a sério
só mais tarde o começamos a entender
— como todos os jovens, eu vim
para levar a vida em frente.

Queria deixar marca
e sair entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Mas passou o tempo
e a desagradável verdade assoma:
envelhecer, morrer,
são o único argumento da peça.

Jaime Gil de Biedma, «No volveré a ser joven » em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.

Versões: Jaime Gil de Biedma


De Vita Beata

Num velho país ineficiente,
como a Espanha entre duas guerras
civis, numa povoação junto ao mar,
ter uma casa e um pequeno quintal
e nenhuma memória. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.

Jaime Gil de Biedma, «De Vita Beata» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.
(versão de manuel a. domingos)