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António José Fernandes


Para a vida perfeita


Não exponhas os teus sonhos à lama da rotina
Não cortes nos teus pulsos a veia de acrobata
Não durmas imprestável na beira da voragem
Não pises o vestígio do riso original
Não temas o silêncio da única viagem
Não fujas da extensão dos golpes encobertos
Não feches a revolta na casa dos segredos
Não canses as surpresas na pressa da alcançar
Não quebres a pureza dos beijos impossíveis
Não finjas as palavras que as lágrimas sustentam


em Ainda não é tarde, Lisboa: Edição do Autor, 1955, p. 47.

Um poema de António José Fernandes


Não descanses agora


Não descanses agora

Não descanses agora porque existem bombas
Baionetas apontadas ao ventre dos jovens
Cidades ameaçadas de ruínas e silêncios
Torpedos e naufrágios espreitando navios na sombra
Não descanses agora
Grita amaldiçoa chora
Mas não descanses agora

Trata-se de manter o vigor dos atletas
A ternura das noivas a arte dos operários
Trata-se de manter o ritmo das lendas
A linha das estátuas a chave dos romances
Trata-se de manter as árvores de pé
A pureza dos frutos o riso das crianças
Não descanses agora

Cresce no horizonte uma paisagem de morte
Resiste-lhe com teu corpo unido a outros corpos
Unhas dentes braços pernas sangue
Resiste-lhe com palavras altas como montanhas
Com lágrimas de fúria grandes como planetas
E mesmo com silêncios que transformarás em pedras
E relâmpagos de memória que transformarás em esperança

Não descanses agora



em Ainda não é tarde (1955), retirado de Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 280.