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Um poema de Francisco Luís Parreira


Kylemore Abbey, Connemara

Apenas ornamentam estas cruzes pretas
os nomes que escolheram para a vida devota –
Sister Lucy, Sister Mary – e nenhuma data.
É exíguo o cemitério, a humildade
não quer perturbar o que, extraviado,
franqueia a cancela e para um momento
entre as nuvens do lago e convento.

Nunca uma cruz foi apenas o que parece.
Como quando na água o suspiro estremece
da vida de outras formas, assim jazente,
assim neste silêncio imenso a pairar
sobre a terrível maravilha do lugar,
a cruz desposa a névoa envolvente,
para que quando de novo aqui venha
seja o Verbo rasgo ou claridade
e um prego entre madeiros o contenha.
Ai de nós, se no que é belo não buscarmos
da beleza apenas o que é sem retorno,
como estas freiras que, descendo ao lago,
pelo Reino, ou Bem, ou Beijo Secreto,
consubstantiat se dilecto.

Porque aqui é que morreram, algo veio
e se converteu nas suas vidas;
mas não remoto, revel à terra, vago,
antes como o bater de um remo ardente
a demanda-las da outra margem do lago,
como se entre a névoa nesse dia se formasse
do Amado sobre mil ombros a face:
pois não se morre senão quando
se cumpriu o tempo da separação
e no remo se junta uma à outra Mão,
e o olhar por tanta beleza preparado
se entrega ao seu incriado.


em Manual de Jardinagem Metafísica, s/l: Usus Editora, 1ª edição, 1997, p. 8.