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Versões: Derek Walcott


Elegia


A nossa rede balançou entre Américas,
sentimos a tua falta, Liberdade. Che
cai crivado de balas,
e aqueles que gritaram, a República deve morrer
para renascer, estão mortos,
cidadãos livres com uma urna enfiada na cabeça.
Mesmo assim, todos querem ir prá cama
com a Miss América. E, se não há pão,
que comam bolos.

Mas a velha escolha de correr, uivar, velho
lobo ferido floresta adentro,
enquanto os jornais proclamam
o genocídio, desapareceu;
nenhum rosto consegue esconder
a dor tornada pública,
o esgar petrificado.

Uma lasca de seta alojada no cérebro
faz uivar o cantor negro na sua armadilha para ursos,
os seus jovens olhos a arder com o brilho dos loucos,
a cansar os velhos com a sua tristeza residual;
e os primeiros lilases florescem no alpendre,
e a claridade da flor das cerejeiras
cega Washington e murmura
ao assassino na sua sala mobilada
uma América ideal, cujas oscilantes telas
mostram, em lentos bandos, os fantasmas dos Cheyennes
de pés esfarrapados e sussurrantes
em luta pelas planícies rodeadas de cercas eléctricas,

enquanto o casal emoldurado de agricultores góticos
como santos de Calvino, mordazes, pragmáticos, pobres,
seguram a forquilha do diabo
observando hirtos o trigo imortal.



Derek Walcott, «Elegy», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, pp. 109-110.

Versões: Derek Walcott


O porto


Ao fim do dia os pescadores a remar no regresso a casa
Não se apercebem do sossego que atravessam,
Também eu, desde o fim de tudo, não deveria pedir
Pelo seguro crepúsculo das tuas mãos calmas.
E a noite, carregada de velhas mentiras,
Iluminada pelas estrelas guardiãs dos arqueados montes,
Não ouvirá mais segredos daqui em diante; o tempo sabe
Que o mar é amargo e dissimulado, que o amor ergue muros.
Todavia, aqueles que observam o meu avanço sobre
Um mar mais cruel do que qualquer palavra
De amor, vêem a calma à minha passagem,
Desbravando novas águas com um antigo engano;
E é seguro pensar que os grandes transatlânticos
Ouvem o suave chapinhar de pés junto às estrelas.



Derek Walcott, «The Harbour», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, p. 7.