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Henrique Manuel Bento Fialho


Oração

Senhor, perdoa-me as faltas, andar
aos encontrões distraído com fainas
dispendiosas, sem sossego para preces
nem inquietações, bolsos cheios de asma,

uma descrença no mundo e nos homens
quase tão densa como a que se me forma
na garganta por ti. Queria ver-te além
das horas, trajado de clareza, na cegueira

de um amor inconsútil. Cada vez mais só,
peço-te que acolhas no meu silêncio
os vales onde o sangue corre puro e limpo.
Que enchas de coragem os meus inimigos.


retirado do blogue do autor

Henrique Manuel Bento Fialho


A GRUA (décimo andamento)


desci os estores até ficar tudo escuro

é o primeiro dia de sol do ano
e eu não quero insultá-lo com as minhas dores

prefiro ficar no escuro até que me passem
ou passe eu por elas
a falar sozinho sobre os temas inúteis
que insistem em ocupar-me diariamente:
o cheiro a primavera ao fim de uma noite de trabalho
reuniões sofridas por antecipação
pesadas idades que talvez pudesses levantar
não estivesses também tu condenada ao fracasso

eu ainda tenho o cão por companhia
e do teu perfil ao longe faço o último reduto da esperança
mas tu
quem poderás tu ter
que te reinvente as cores do mundo
e te iluda os caminhos do degredo?

estás só como as coisas mais belas
para quem da solidão saiba apenas o nome
tudo o mais é ignorância consentida
que se satisfaz a si própria

eu e tu unidos em pensamento


a driblar no escuro os estorvos da distância



retirado daqui

Um poema de Henrique Manuel Bento Fialho

Os Bichos

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

em Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe, Rio Maior: Edição de Autor, 2000, p. 29.