(fragmento)
I
Os gemidos
poéticos deste século não passam de sofismas.
Os primeiros
princípios devem estar fora de discussão.
Aceito
Eurípedes e Sófocles; mas não aceito Ésquilo.
Como Criador
não falteis às conveniências mais elementares, nada de mau gosto.
Rejeitai a
incredulidade, que me dareis prazer.
Não há dois
géneros de poesias; há uma só.
Existe uma
convenção pouco tácita entre o autor e o leitor, pela qual o primeiro se
intitula doente e aceita o segundo como enfermeiro. É o poeta que consola a
humanidade. Os papéis estão invertidos arbitrariamente.
Não quero ser
machado pela qualificação presumido.
Não vou deixar
memórias.
A poesia não é
tempestade, nem mesmo ciclone. É um rio majestoso e fértil.
Só admitindo a
noite fisicamente conseguimos torná-la aceite moralmente. Ó noites de Young! muitas
dores de cabeça me causastes!
Só dormindo
sonhamos. Foram palavras como sonho, nada da vida, passagem terrestre, a
preposição talvez, o tripé desordenado, que infiltraram nas vossas almas essa
poesia húmida dos langores, semelhantes à podridão. Das palavras às ideias vai
só um passo.
em Os Cantos de Maldoror,
tradução de Pedro Tamen, prefácio de Adolfo Luxúria Canibal, Vila Nova de
Famalicão: Quasi Edições, 2004, pp. 247-248.