Mostrar mensagens com a etiqueta Emanuel Jorge Botelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emanuel Jorge Botelho. Mostrar todas as mensagens

Emanuel Jorge Botelho


Quatro regressos e uma confissão


para a Rosa Maria Martelo


era tudo tão simples.
nas nuvens havia, sempre, peixes desenhados
ou a primeira letra de um amor secreto.

eu tinha a idade de ser ave,
ia deixando penas
dentro dos buracos da noite.

a rua era nossa.
esse chão de juras lavada
do tamanho da lealdade.

meu pai, às vezes, ia levar-nos sumos Royal.
meu pai sabia que a amizade dá muita sede.

quando se fica sem pai
não se sai mais de casa.
a rua fica mais estreita
por causa do medo.



em Os ossos dentro da cinza, Lisboa: Averno, 2017, p. 9.

Um poema de Emanuel Jorge Botelho


vou dormir meu amor, o primeiro gesto vai
para o apagar do candeeiro, andamos presos
a coisas simples como vês; a mão a ir-se

gastando longe

da pele de leopardo, a boca a dar-se à luxúria da saliva
e o último olhar para o abismo
entre o colchão e a carpete, depois o medo,
o cuidado com que assinalamos a última página

do livro

esta função bizarra dada aos dedos como se amanhã o sangue fosse
uma clave branca convertida ao silêncio — meu amor — há até quem ore,
quem ponha na mão um dardo
para o exorcismo da luz. e depois este corpo sobre a mesa
de cabeceira — a água sempre
uma promessa de despertar agarrada aos lábios; o gesto
que o fogo guarda. coisas simples como vês, nada sobre

o anoitecer da pedra


em Cesuras, Lisboa: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, p. 21.