Paisagem VII
Basta um pouco de dia nos olhos claros
como um fundo de água e invade-a a ira,
a aspereza do fundo riscado pelo sol.
A manhã que volta e a encontra viva
não é doce nem boa: olha-a imóvel
entre as casas de pedra que o céu fecha.
O pequeno corpo sai entre a sombra e o sol
como um animal lento, olhando à volta,
não vendo outra coisa que não sejam cores.
As vagas sombras que vestem a rua e o corpo
ensombram-lhe os olhos, apenas entreabertos
como uma água e na água transparece uma sombra.
As cores reflectem o céu calmo.
Também os passos lentos no empedrado
parecem pisar as coisas, como o sorriso
que as ignora e escorre por elas como água clara.
Na água perpassam vagas ameaças.
Todas as coisas do dia se crispam à ideia
de que a rua estaria vazia, se não fosse ela.
em Trabalhar Cansa, Lisboa: Cotovia, tradução e introdução de Carlos Leite, 1ª reimpressão, 2008, p.87.
Basta um pouco de dia nos olhos claros
como um fundo de água e invade-a a ira,
a aspereza do fundo riscado pelo sol.
A manhã que volta e a encontra viva
não é doce nem boa: olha-a imóvel
entre as casas de pedra que o céu fecha.
O pequeno corpo sai entre a sombra e o sol
como um animal lento, olhando à volta,
não vendo outra coisa que não sejam cores.
As vagas sombras que vestem a rua e o corpo
ensombram-lhe os olhos, apenas entreabertos
como uma água e na água transparece uma sombra.
As cores reflectem o céu calmo.
Também os passos lentos no empedrado
parecem pisar as coisas, como o sorriso
que as ignora e escorre por elas como água clara.
Na água perpassam vagas ameaças.
Todas as coisas do dia se crispam à ideia
de que a rua estaria vazia, se não fosse ela.
em Trabalhar Cansa, Lisboa: Cotovia, tradução e introdução de Carlos Leite, 1ª reimpressão, 2008, p.87.