Versões: Charles Simic
Versões: Charles Simic
Versões: Charles Simic
Versões: Charles Simic
Ó exegetas, sombrios hermenêuticos,
Extraordinários criadores de ambiguidades,
Um pequeno homem careca lavava
Os delicados pés de uma gorda senhora.
Numa cadeira debaixo da fresca sombra da árvore,
Ela só ria e abanava os seus enormes seios.
Também havia um rapaz de óculos
Mergulhado num livro de séria aparência.
Uma meia preta a secar na corda,
Um carro funerário com caixotes de lixo na parte de trás,
E uma grande bandeira trôpega presa a um poste
Num dia que ainda não é feriado.
Charles Simic, «Outside a Dirtroad Trailer» de Unending Blues (1986), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.67.
Versões: Charles Simic
Eles pedem uma faca
Eu venho a correr
Eles precisam dum cordeiro
Eu apresento-me como cordeiro
Mil e uma desculpas
Parece que precisam de veneno para ratos
Precisam dum pastor
Para o seu bando de viúvas-negras
Por sorte trouxe as minhas ensanguentadas
Cartas de recomendação
Trouxe a minha certidão de óbito
Assinada e reconhecida por notário
Mas mudaram de ideias outra vez
Agora querem um pássaro que cante, um pouco de primavera
Querem uma mulher
Que lhes lave e beije os tomates
É uma das minhas especialidades
(Asseguro-lhes)
A cantar e assobiar como uma ave
Pelo buraco do cu
Charles Simic, «Help Wanted» de Charon’s Cosmology (1977), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.25.
Versões: Charles Simic
Às vezes quando passeio noite fora
Paro junto a um talho fechado.
Há apenas uma luz acesa lá dentro
Como a luz do condenado que cava o túnel.
O avental pendurado num gancho:
O sangue nele como um mapa
Dos grandes continentes de sangue,
Dos grandes rios e oceanos de sangue.
Há facas que brilham como altares
Numa igreja sombria
Onde trazem aleijados e imbecis
Para serem curados.
Há uma tábua onde ossos são quebrados,
Limpos – um rio seco no seu leito
Onde sou alimentado,
Onde ouço uma voz noite fora.
Charles Simic, «Butcher Shop» de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.3.
Versões: Charles Simic
Pregação
Este nosso calmo mundo está pronto para o fim –
E mesmo assim o sol brilha, os pardais vêm
Todas as manhãs para as migalhas da padaria.
Na porta ao lado, dois homens entregam uma cama a um casal [recém-casado
E param para admirar uma bicicleta presa a um parquímetro.
O dono está a fazer o almoço à avó doente.
Ele aquece a sopa e serve-a numa tigela.
As janelas estão abertas, há uma brisa quente.
Na nossa rua as jovens árvores deliram por ter folhas.
Na rádio há ópera italiana, o som está demasiado alto.
Brevi e tristi giorni visse, canta o barítono.
Todos os que passam pelo quarteirão conseguem ouvi-lo.
Algo sobre os dias que nos restam para gozar
Sendo poucos e tristes. Mas hoje não, Maestro Verdi!
No cabeleireiro uma rapariga salta duma cadeira,
O cabelo loiro a dar-lhe pelos ombros nus
Enquanto sai porta fora nos seus saltos altos.
“Tenho de ir”, diz o rapaz elegante à sua avó.
A bicicleta está onde a deixou.
Ele pedala indiferente pelo muito trânsito
A camisa branca fora das calças a flutuar
Muito depois de todos terem repentinamente parado.
Charles Simic «Preachers Warn» , em The New Yorker, 1 de Março de 2010.