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Versões: Charles Simic


Nota

Um rato apareceu no palco
Durante a apresentação
Da peça de teatro de Natal na escola.
Maria largou um grito
E deixou cair o menino
Nos pés de José.
Os três Reis Magos permaneceram
Impávidos
Nas suas vestes coloridas.
Conseguia-se ouvir uma mosca voar
Enquanto o rato inspeccionava a manjedoura
Por momentos
Antes de ir para as asas
Onde alguém lhe bateu,
Com veemência,
Uma, e depois duas vezes,
Com um objecto pesado.


Charles Simic, «Note», de Austerities (1982), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, p. 44.

Versões: Charles Simic


Bestiário para os Dedos da Minha Mão Direita


1.

Polegar, dente solto de cavalo.
Galo das suas galinhas.
Trompa do diabo. Verme gordo
Que coseram à minha carne
Quando nasci.
São precisos quatro para o segurar,
Dobrá-lo, até o osso
Começar a doer.

Corta-o. Ele safa-se
Sozinho. Ou ganha raízes na terra
Ou vai caçar com os lobos.


2.

O segundo indica o caminho.
O caminho. Atravessa a terra,
A lua e algumas estrelas.
Vejam, ele aponta mais além.
Aponta para si próprio.


3.

O do meio tem dor de costas.
Rígido, ainda pouco habituado a esta vida;
Homem velho logo à nascença. Parece que procura
Algo que teve e perdeu,
Depois olha para a palma da mão,
Como um cão à procura
De pulgas
Todo dentes afiados.


4.

O quarto é um mistério.
Às vezes quando a minha mão
Descansa sobre a mesa
Ele salta sozinho
Como se alguém o chamasse.

Depois de cada osso, dedo,
Chego a ele, confuso.


5.

Há algo de inquietante no quinto,
Há algo perpetuado logo
À nascença. Fraco e submisso,
O seu toque é meigo.
Pesa uma lágrima.
Tira a remela do olho.


Charles Simic, «Bestiary for the Fingers of My Right Hand», de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, pp. 7-8.

Versões: Charles Simic

Melancias

Budas verdes
Na bancada da frutaria.
Comemos o sorriso
E cuspimos os dentes.



Charles Simic, «Watermelons» de Return to a Place Lit by a Glass of Milk (1974), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, p. 15.

Versões: Charles Simic


À porta de uma caravana

Ó exegetas, sombrios hermenêuticos,
Extraordinários criadores de ambiguidades,
Um pequeno homem careca lavava
Os delicados pés de uma gorda senhora.

Numa cadeira debaixo da fresca sombra da árvore,
Ela só ria e abanava os seus enormes seios.
Também havia um rapaz de óculos
Mergulhado num livro de séria aparência.

Uma meia preta a secar na corda,
Um carro funerário com caixotes de lixo na parte de trás,
E uma grande bandeira trôpega presa a um poste
Num dia que ainda não é feriado.

Charles Simic, «Outside a Dirtroad Trailer» de Unending Blues (1986), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.67.

Versões: Charles Simic


Ajuda precisa-se

Eles pedem uma faca
Eu venho a correr
Eles precisam dum cordeiro
Eu apresento-me como cordeiro

Mil e uma desculpas
Parece que precisam de veneno para ratos
Precisam dum pastor
Para o seu bando de viúvas-negras

Por sorte trouxe as minhas ensanguentadas
Cartas de recomendação
Trouxe a minha certidão de óbito
Assinada e reconhecida por notário

Mas mudaram de ideias outra vez
Agora querem um pássaro que cante, um pouco de primavera
Querem uma mulher
Que lhes lave e beije os tomates

É uma das minhas especialidades
(Asseguro-lhes)
A cantar e assobiar como uma ave
Pelo buraco do cu

Charles Simic, «Help Wanted» de Charon’s Cosmology (1977), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.25.

Versões: Charles Simic


Talho

Às vezes quando passeio noite fora
Paro junto a um talho fechado.
Há apenas uma luz acesa lá dentro
Como a luz do condenado que cava o túnel.

O avental pendurado num gancho:
O sangue nele como um mapa
Dos grandes continentes de sangue,
Dos grandes rios e oceanos de sangue.

Há facas que brilham como altares
Numa igreja sombria
Onde trazem aleijados e imbecis
Para serem curados.

Há uma tábua onde ossos são quebrados,
Limpos – um rio seco no seu leito
Onde sou alimentado,
Onde ouço uma voz noite fora.

Charles Simic, «Butcher Shop» de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.3.

Versões: Charles Simic


Pregação

Este nosso calmo mundo está pronto para o fim –
E mesmo assim o sol brilha, os pardais vêm
Todas as manhãs para as migalhas da padaria.
Na porta ao lado, dois homens entregam uma cama a um
casal [recém-casado
E param para admirar uma bicicleta presa a um parquímetro.
O dono está a fazer o almoço à avó doente.
Ele aquece a sopa e serve-a numa tigela.

As janelas estão abertas, há uma brisa quente.
Na nossa rua as jovens árvores deliram por ter folhas.
Na rádio há ópera italiana, o som está demasiado alto.
Brevi e tristi giorni visse, canta o barítono.
Todos os que passam pelo quarteirão conseguem ouvi-lo.
Algo sobre os dias que nos restam para gozar
Sendo poucos e tristes. Mas hoje não, Maestro Verdi!

No cabeleireiro uma rapariga salta duma cadeira,
O cabelo loiro a dar-lhe pelos ombros nus
Enquanto sai porta fora nos seus saltos altos.
“Tenho de ir”, diz o rapaz elegante à sua avó.
A bicicleta está onde a deixou.
Ele pedala indiferente pelo muito trânsito
A camisa branca fora das calças a flutuar
Muito depois de todos terem repentinamente parado.

Charles Simic «Preachers Warn» , em The New Yorker, 1 de Março de 2010.