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Versões: Bernardo Atxaga


A vida segundo Adão

Adão adoeceu no primeiro inverno depois da saída do paraíso / e assustado com os sintomas, a tosse, a febre, a dor de cabeça, / começou a chorar como anos mais tarde choraria Maria Madalena, / e dirigindo-se a Eva, «não sei o que se passa comigo» gritou «tenho medo» / «meu amor, vem cá, penso que chegou a hora da minha morte».

Eva ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras, amor, medo, morte / e pensou que pertenciam a uma língua estranha, distante do paraísoedês, / e andou com elas na boca, a mastigá-las como milho, como raízes, / até que acreditou, amor, medo, morte, compreender completamente o seu sentido. / Mas nessa altura já Adão andava melhor, e voltava a sentir-se feliz, ou quase.

Este acontecimento extraparadisíaco, foi só o primeiro de vários, / de modo que Adão e Eva continuaram, por assim dizer, a receber aulas intensivas / da língua que dizia amor, medo, morte, aprendendo palavras como / cansaço, suor, gargalhada, cacarejar, velhice, canção, carícia, prisão; / e à medida que o vocabulário aumentava, aumentavam também as rugas na pele.

A hora da morte, a verdadeira, chegou a Adão era já ele muito velho, / e quis transmitir a Eva aquilo que tinha aprendido, a última verdade. / «Sabes, Eva», disse-lhe, «a perda do paraíso não foi na realidade uma desgraça». / «Apesar de todas as dificuldades, apesar do que aconteceu ao pobre Abel e todos os outros conflitos, / conhecemos aquilo a que, muito nobremente, podemos chamar de vida».

Sobre a sepultura de Adão foram derramadas longas lágrimas, de água e sal, / que caíram à terra e não deram origem a jacintos, nem a rosas, nem a nenhuma espécie de flores, / e de todos foi Caim aquele que, paradoxalmente, chorou com mais intensidade. / Mas logo Eva lembrou com saudade o susto que Adão apanhou com a sua primeira gripe, / e todos se acalmaram, e se foram, e beberam algo, e comeram bolo.

Bernardo Atxaga, «La vida según Adán» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 45-46. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Versões: Bernardo Atxaga


Una Altra Pietá

As nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
só tarde se deram conta da importância da vida,
nunca antes dos setenta ou dos sessenta,
e estupefactas ante a descoberta,
perdiam o juízo durante várias semanas:
esqueciam o encontro das quintas com os filhos
faziam compras descabidas no supermercado,
falavam ao telefone aos gritos, interminavelmente
como se tivessem visto um ovni no terraço.

Mais tarde, dispostas a recuperar o tempo,
as nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
inscreviam-se em aulas de ginástica
promovidas pela junta de freguesia, «sou a Maria
por favor não me pergunte a idade que tenho»;
a partir daí, bailavam ao ritmo
dos números, fazendo corridas, dando gritinhos, saltos,
Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
O polidesportivo acolhia os seus risos com frieza.

Cumpridoras fiéis das ordens do professor
continuavam com as suas corridas, gritinhos, saltos,
e de vez em quando iam todas jantar fora
pondo de lado a bata e vestindo-se com elegância;
depois, um dia, sentiam-se mal ao pequeno-almoço
e caiam redondas sobre qualquer um dos filhos;
morriam pouco tempo depois, às primeiras horas da manhã,
enquanto as suas amigas, no polidesportivo, em coro
diziam Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.

Bernardo Atxaga, «Una Altra Piéta» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 49-50. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)