Paulo da Costa Domingos


A vida desgasta-nos, a morte
não, só nos trouxe à pedra:
à fresca floresta.

Treze caules húmidos de seiva

ouvem retinir em si mensagens
de longe e de nunca.

Que a percepção da cabra

no seu alto posto de treva,
saboreia, mastiga.

Entre a escarpa e o arvoredo

a passadeira pejada de corpos:
que o frio invade.



em Paisagem durante a batalha, Lisboa: viúva frenesi, 2019, p. 27.

Uma imagem para o dia



(...)


Vi, pela primeira vez, O Espelho de Tarkovsky. Quando depois do filme retomei a leitura de Nítido Nulo, de Vergílio Ferreira, não consegui deixar de pensar nas semelhanças entre o filme do realizador russo e o romance do autor português. Ou: nas possíveis semelhanças. Em Tarkovsky é um moribundo que conta a história e que está para lá da História. Em Vergílio Ferreira é um prisioneiro que conta a história mas que também está para lá da História. Em O Espelho a realidade e o plano onírico cruzam-se constantemente. Em Nítido Nulo: também. Tudo isto pode ser muito rebuscado, escusado e sem pés nem cabeça. Talvez esteja a ver ligações onde elas não existe, pois duvido que Tarkovsky tenha lido Nítido Nulo. Vergílio Ferreira poderá ter visto o filme. É uma forte possibilidade. Mas sabemos que escreveu o romance muito, muito antes.

(...)


Voltar devagar à rotina. O despertador à hora certa. O gato meia-hora antes. E devagar o corpo. E devagar o dia. Vento. Muito. 

Um poema de Francisca Camelo


hoje no meu apartamento


o único som que ouvi

foi o das orquídeas
secas a cair: esqueci-me
novamente de as regar
provavelmente por estarmos
quase no inverno
e eu achar que
com o esforço certo
sobreviveriam
aos dilúvios
que trago
para casa
regularmente
como poderia eu
alimentar uma planta
se só sei dar atenção
ao que se predispõe
a desexistir fui educada
para ser amável com
o desastre, o jantar
queimado no forno azeite
a ferver há demasiado tempo
a mesa mal agarrada na
queda uma faca apontada a
mim — aprender sozinha
que como na escala de richter
as memórias só gritam
através dos séculos
se houver quem se queixe
da quantidade de destroços.


em Photoautomat, s/l: Enfermaria 6, 2019, p. 36.

Robert Frank (1924-2019)



Alexander Soljenítsin


     "O trabalho", dizia ele, "é um remédio de primeira ordem para qualquer género de doença".
     Se se sobrecarregar de trabalho um cavalo, ele acaba por morrer. Isso devia o médico compreender. Se tivesse suado sangue a assentar blocos, certamente mudaria de ideias.»


em Um dia na vida de Ivan Denisovich, tradução de H. Silva Letra, Círculo de Leitores, s/d, p. 27.

(...)


Cada vez mais fina a linha que em poesia é traçada entre o plágio descarado e o plágio encapotado. Depois há a intertextualidade, o pastiche, a colagem, a citação, e por aí em diante. E há ainda o kalkito. O kalkito é aquele poema que lido na voz do poeta que o escreveu, assemelha-se a outro poema que outro poeta escreveu. Não é plágio, não é pastiche, não é intertextualidade, citação ou colagem. É kalkito. E quem um dia brincou com kalkitos, entende o que quero dizer: olhávamos para aquilo, aplicávamos as regras dos kalkitos, colocávamos o kalkito no cenário pré-definido. E aquilo não ficava muito parecido. Mas também não ficava muito diferente.

Um poema de Kobayashi Issa


limpo as mãos ao crisântemo
depois de apanhar as fezes do cavalo —
anoitecer


em Os animais [haikus], selecção, organização e versões portuguesas de Joaquim M. Palma, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 99.

Tarde



Mário Cesariny

   
     Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro — nunca sairá um escravo.


em As mãos na água a cabeça no mar, Lisboa: Assírio & Alvim, 1985, p. 75.

Em repeat



The Gurdjieff Ensemble | Levon Eskemian
Music by Komitas
ECM
2015

João Miguel Henriques


Incêndio


tens o corpo a arder sobre a colina

esquecida da casa
da penumbra do quarto

alastras fogo

pelo bosque
como musgo

chamam-te chama

assinas labareda

e a um toque de tronco
incendeia-te o planeta
como lava perpétua

hás-de um dia enlevar-me nesse fogo
eu que pela orla do teu mato
há tanto me arrasto
morto de frio


em Incêndios, s/l: (não) edições, 2016, p. 10

Ricardo Marques


O consolo


O consolo

não é habitar
o mesmo solo

é conspirar
no mesmo sangue:


em Lucidez, Lisboa: (não) edições, 2019, p. 43.

Em repeat



Carlos Paredes
O Mundo segundo Carlos Paredes
Integral: 1958-1993
EMI - Valentim de Carvalho
2002

Raul de Carvalho


Mudança de residência



Trato de observar-me em contraluz,

de ler as páginas em branco que deixei
nas margens da preguiça

Sou dos que têm a obrigação

de se conservar alerta,
não vá o bicho apodrecer no estrume
que os diligentes sócios da colmeia
carregam para casa.

Tenho de derrubar pedra por pedra

esta espécie de casa aonde moro,
tenho de consertar com as minhas mãos
os buracos e os golpes
que surgem nas paredes-

Tenho de renovar constantemente

a abstracta decoração.

Tenho de ser

hábil, modesto, firme.

Só assim é que posso

pôr o retrato e os bichos ao contrário,
de forma a que a luz lhes incida de frente
e deixe ver aquilo a que o Santo chamou
as partes vergonhosas do poema.

Entretanto não posso fiar-me nas cantigas

nem confiar demais nas virtudes do mapa
nem desejar viagens que existem para os outros.

O meu lugar,  o meus dever, o meu repouso

é situar na cama os minutos que faltam
para o salto no mito.
Para o dono da casa resolver despedir-me,
para o colchão de arame das gratuitas conversas,
dos lençóis de cambraia, dos licores transparentes,
serem deitados, juntos,
no caixote do lixo.

Aqui coloco, em posição de estátua,

o busto que encontrei nalgum jardim.
Naquele canto, ali, ao pé da minha estante,
irei coleccionando
as cartas que me falam
de ti.

No outro, mais abaixo das curvas do teu peito,

encho-o de rosas, das aromáticas rosas,
e quando os meus amigos perguntarem aonde
fui eu buscar tão esquivas e fantásticas rosas,
direi que as encontrei num domingo, de noite,
quando adormeci no arquipélago.

Direi que elas não são

feitas da carne viva e vegetal das rosas,
mas simples simulacros de barcos de papel
com que me habituei, em menino, a brincar.

Com que, nos sequiosos oásis

da minha planície absolutamente seca,
os homens se entretêm a espalhar a água,
a recordar a idade
vermelha dos navios.

Para que tudo fique no devido lugar,

para que as manchas sejam
completamente expostas,
os insectos lhes possam
picar livremente
e as formigas lhes comam
a humilde e ingénua
superfície marítima.

Para que o tempo fique

à mercê das carícias.

Entretanto, a despesa que me custa viver...

Entretanto, o consumo que faço de emblemas...
Entretanto, os projectos que nunca realizo...
Entretanto, o meu quarto... como vai ficar bonito!

Para que os altos choupos do chão da minha infância

possam ressuscitar no chão do meu quarto.
Para que tu não digas que a memória é um bem
e que o amor só pode trocar-se pelo ódio.
E para que o poema atinja
a extensão que cobre os laranjais do sonho.

Para que todas, todas as coisas infantis

de novo se aproximem da razão, e da grave
atitude dos homens cantando enquanto comem.

Vou dizer que estas rosas, este quarto, este poema

não são mais do que as tuas transfiguradas mãos,
com que aperto no mesmo e violento abraço
a cintura dos nossos transfigurados corpos.

O que eu queria era a fértil

vegetação dos bosques!

em Poesia 1949-1958, Lisboa: Ulisseia Editora, Colecção Poesia e Ensaio, 1965, pp. 21-24.

(...)



Venho dum desses lugares designado, por muitos, de Portugal profundo ou país real. E, durante muito tempo, também era assim que eu pensava: vivia, sem dúvida, no Portugal profundo (porque estava longe de tudo o que via na televisão); e no país real (pois tudo o resto me parecia uma espécie de ficção, tendo em conta aquilo que chegava, novamente, através da televisão). Mais tarde estes dois termos começaram a complicar-me com os nervos. Agora: não os suporto e considero-os de um paternalismo insuportável. Mas, o que mais me enerva, é o discurso sobre o “repovoamento do interior” e balelas dessas. E enerva-me porque, a maior parte das vezes, esse discurso é proferido por gente que deixou esse mesmo interior vetado ao abandono durante anos (e que agora considera uma prioridade); e por outros que o abandonaram mesmo (e falo do ponto de vista físico), mas que agora estão muito preocupados com as suas raízes e as tretas do costume. E nem venham com a conversa da qualidade de vida. O que é isso da qualidade de vida? Como se mede? Quais são os critérios? Tudo tretas.

Lí por aí



Aborrece-me esta exaltação tão magnânima sobre a morte de Agustina Bessa-Luís. Geralmente isto significa que vai haver muito falatório e pouca leitura. Transformar um escritor em herói da pátria é sempre má ideia.

Por outro lado, é muito cómico descobrir os tiques mais enfáticos da circunstância: os especialistas que se põem nas pontas dos pés tipo “eu é que sou o presidente da junta”; os que estão prestes, prestes, a dizer “Agustina Bessa-Luís sou eu”; e ainda os mais sofisticados que aplicam cientificamente o princípio da troca de Locard com o mindinho: através do contacto entre dois items, irá haver uma permuta.

C.

(...)


Às vezes, no meio de uma conversa, digo que gosto de cozinhar e que cozinho relativamente bem. Cozinhar is my moment of zen: não penso em mais nada, excepto nos ingredientes que tenho à minha frente e como os confeccionar. Não tenho muito jogo de cintura, isto é, não sou muito bom a inventar pratos, conjugar sabores; sigo uma receita à risca e se não tenho todos os ingredientes necessários, nem me atrevo a inventar. Quando estou a cozinhar não gosto que falem muito comigo, pois gosto daquele momento e quero usufruir dele.

(...)


Um dia um colega de trabalho aconselhou-me a leitura de Agustina. Requisitei Vale Abraão na Biblioteca Municipal e tentei ler. Não consegui passar da página 50 ou 70 (já não sei ao certo). Nunca mais li nada dela. Já estive várias vezes com livros seus na mão e quase-quase a comprá-los. Verdade seja dita: nunca foi uma autora que procurei. Defeito meu. Mas agora, com a sua morte, parece que toda a gente a leu e que sempre esteve no top da leitura dos portugueses. Agustina iria rir-se, de certeza, com tamanha patranha.

Zombo - Alberto Pimenta


© Poesia Incompleta

Alberto Pimenta
Zombo
Edições do Saguão
2019

(...)


Ontem, depois das partitas, ainda tive tempo para um pouco de A Arte da Fuga, na transcrição para piano de Sokolov (cheguei a ela através de um amigo recente). Não conhecia esta versão. Sempre gostei muito da versão para quarteto de cordas. Ouvi-a, pela primeira vez, a acompanhar bailado contemporâneo. Ficou-me. Depois o cd que comprei perdeu-se no tempo e nas sucessivas mudanças. Bach é, para mim, um compositor de Verão. Isto é: gosto muito de o ouvir quando o tempo começa a aquecer. Há, em algumas peças, a frescura necessária para tardes quentes e noites à penumbra de um candeeiro. 

(...)


Enquanto ouço Bach e as suas partitas completas (BWV825-BWV830), sopra um ligeiro vento e o gato já pediu duas vezes biscoitos. Olho pela janela e vejo as pessoas que se arrastam com o calor pela rua. Acabei há pouco de beber uma infusão gelada de chá verde e romã. Nem todos os dias pode ser vinho branco ou vinho verde. 

(...)


Hoje, depois das aulas e duma reunião de directores de turma, irei buscar uns livros de Camus que ainda não tenho. Encontrei-os num livreiro alfarrabista a um preço convidativo e decidi comprá-los. Camus é um dos meus escritores preferidos e isso não é segredo para ninguém. Estou muito longe de ter lido tudo aquilo que Camus escreveu, mas caminho para lá. Lembro-me da primeira vez que li A Peste. Tinha estado um dia quente, muito semelhante ao de hoje, e eu tinha chegado do Poço dos Moinhos. O livro também tinha chegado nesse dia, via Círculo de Leitores. Depois do banho tomado, sentei-me no terraço já com o sol atrás do Fragão do Corvo. Passados três dias tinha o livro lido. Agora, demoro algumas semanas a terminar um. 

Allo




Alvarinho | Loureiro