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Madalena de Castro Campos


Brexit

Sairia como quem entrou,
relutante,
para se servir
do que o dinheiro pudesse pagar.
Não queria gastar muito.
Sairia como quem se sente apertado
apesar do espaço se ter entretanto tornado mais largo,
no corpo cediço de fêmea seca e de fertilidade duvidosa.
Sairia como quem se limpa para arrancar da pele
o que restou da carne.
À sua volta,
as coisas continuariam como nunca foram.
No cálculo do esforço e do prazer,
tão gastas coxas só prometiam trabalho.
Na história, como nas putas, paga-se sempre,
use-se ou não.


retirado do blogue da autora.

Madalena de Castro Campos


Prova de vida

Talvez a única forma de existir fosse ser
tributável,
fazer-se acompanhar de um documento
de identidade,
do contrato de arrendamento, do extracto bancário,
expor-se em palco nos festivais da moda.
Talvez, haveria quem pagasse,
frequentar os frequentáveis,
ser conhecida dos conhecidos,
tornar o mundo mais evidente,
fazendo parte do pequeno mundo.
Toda a gente, sabia-se, conhecia toda a gente.
Toda gente, supunha, excluía sempre
os excluídos.
Não se propunha contrariá-lo.


poema retirado do blogue da autora.

Um poema de Madalena de Castro Campos


Nua e crua

Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.


retirado do blogue a gun in the garland