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Ruy Cinatti


Inevitabilidade


O apelo do mar não tem saída,
como na terra o atalho,
o beco mesmo quando, a sobreolho,
a porta se fecha
e uma janela se entreabre
convidativa.

O apelo do mar é como as estrelas
que cintilam a todo o horizonte;
às vezes ecoa num búzio
ou num baixio
denunciado pela crista das ondas
em redemoinho.

O apelo do mar, mesmo rarefeito,
arripia-se nos teus cabelos.
Convida-te a não mais voltar.
Abre-te todos os caminhos
do vasto oceano eleito
vida ameaçada, o seio aberto
pulsando anseio que não se recusa
por muito que o tentes evitar.


em Corpo - Alma, Lisboa: Editorial Presença, 1ª edição, 1994, p. 19.

Um poema de Ruy Cinatti


Segredo mais íntimo

Invade meu amor a noite antiga,
a memória eficaz, a derradeira
bem-aventurança,
sagaz querela, esperança
de reaver os frutos que ofertei,
tão disponível, como o fim do dia
cerrado aos prazeres habituais.

Fugaz, como a lembrança
de outras idades sepultadas mais,
junto de ti eu quero ter-me nelas,
vivo e literal,
reajustável ao sentir nascido
de uma criança que, sem ter morrido,
reapareceu criança igual a si.

Invade meu amor a noite antiga.
Retoma o teu lugar entre os demais
vultos que te desassossegam.
O que não sabes ter celebra ainda
a festa deslumbrante
que foram teus secretos esponsais.


em Corpo – Alma, Lisboa: Editorial Presença, 1ª edição, 1994, p.48.