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Paulo da Costa Domingos
A espera encobre o fingimento
de vinda do novo mal radical.
Claro que não é o sofrimento
um postulado da razão prática.
São ilusões perdidas, e não
forças mediúnicas ou vidência.
Que aguardam a degenerescência
dos pequenos poderes interiores.
E o rebelde, por isso, espera
lhe venha apetite transgressor.
Ou um sinal televisivo,
posto q' contemple: o delay.
Bate muito com os punhos
sobre a mesa da batalha.
Automutila-se, tatua no corpo
vitórias falsas sobre o real.
em dizimar, Lisboa: Ed. Viúva Frenesi, 2018 p. 7.
Paulo da Costa Domingos
Gestão de Frota
Talvez haja uma saída:
um sentimento avulso
por troca de um sorriso,
uma ligação directa
que queime os dedos
e reanime o corpo.
Talvez mais depressa:
o coração estanque,
sare a indiferença
e torne coesas,
senão aceitáveis,
esperanças e promessas.
Talvez melhor, a manobra:
estacionamento interdito
às portas da Beleza,
cuja supremacia reina
fora d'abcissas ou ordenadas,
fora da lei da geometria.
Talvez a chuva leve lave:
a lama nas ranhuras
invisíveis a olho nu,
os poros negros
sob a barba de dias
nulos, opacos.
Talvez se dê um roubo:
alguém subtraia o beijo
metálico de aranha
na sucção dos fluídos
acelerando o coágulo,
o fim da História.
Talvez acordem:
com o pacto social
invadido pelos monstros
da razão de ser,
paredes ocupadas
pelos seus grunhidos.
Talvez não nos batam:
não pisem, não esmaguem,
não desdigam, não calem,
não omitam, não firam,
não apodreçam, não vençam,
não encostem à parede.
Talvez.
em A Céu Aberto, Lisboa: Averno, 2017, pp. 39-40.
Paulo da Costa Domingos
e nós, tempo há-de haver
de ter cara para aparecer
a quem passa e dizer-lhes na cara:
depressa, «fazei todo o mal que
puderdes». E dos ossos fazei
pentes, e da pele tambores,
e do nervo corda para forcas;
tempo há-de, sem amores, de haver
coragem.
em Cal, prefácio de Vitor Silva Tavares, Lisboa: Averno, 2015, p. 35.
Um poema de Paulo da Costa Domingos
Judas na Catedral de Platão
Pelo amor da morte dissera: eu
não quero trinta dinheiros
múltiplo do santo
indulgência não
quero vingança paga em esperma
e enforcou
- se o desfile das sombras não fosse um jogo espirita de
ninar
condenados o lintel da greta gótica de Platão,
seriam rabos de fogo? Ex
tinta luz nesta era intermédia e
ninguém nos ouvirá Bem, a corrente vibra
fios na sensualidade da forca.
Pelo amor da morte dissera: eu
não quero trinta dinheiros
múltiplo do santo
indulgência não
quero vingança paga em esperma
e enforcou
- se o desfile das sombras não fosse um jogo espirita de
ninar
condenados o lintel da greta gótica de Platão,
seriam rabos de fogo? Ex
tinta luz nesta era intermédia e
ninguém nos ouvirá Bem, a corrente vibra
fios na sensualidade da forca.
em, Pó de Anjo, Lisboa: &etc, 1983.
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