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Hoje saiu um clássico: Ervilhas com Ovos Escalfados. As ervilhas são de um produtor local, ali para os lados de Setúbal. Os ovos são biológicos e a chouriça veio da Beira Alta (num cabaz com queijo de ovelha, cabra e limões, que mão amiga entregou).



Acompanhou um tinto alentejano muito competente: Mocho Galego: que casou muito bem com as Ervilhas...



... e melhor casou com a sobremesa que já é um clássico também: Tarte de Chocolate e Natas.

Versões: Sakutarō Hagiwara


À espera de caminhar por entre as multidões


Eu sempre quis a cidade,
estar por entre as agitadas multidões da cidade.
As multidões são enormes ondas cheias de emoções.
São grupos de pujantes vontades e desejos que se espalham por todo o lado.
Oh no lamurioso crepúsculo da Primavera,
querer a sombra entre os edifícios na frenética cidade,
ir por ela a dentro com as enormes multidões, que alegria é.

Olha, esta visão das multidões a ir por aí.
Uma onda a seguir outra onda,
ondas a fazerem incontáveis sombras, e as sombras movendo-se a balançar.
As angústias e tristezas de cada uma das pessoas desaparecem
todas entre as sombras, sem deixar rasto.
Oh com que tranquilidade caminho por esta rua.

Oh esta alegre sombra do grande amor e da inocência.
A sensação de ser levado para lá das alegres
ondas assemelha-se quase a um choro.
No desolador crepúsculo de um dia de Primavera,
estes grupos de amantes a nadar debaixo dos beirais de edifício em edifício,
pergunto-me, donde e para onde vagueiam eles assim?
A minha pesarosa tristeza é envolta na única grande

sombra na terra, as contínuas ondas da inocência sem rumo.
Oh eu quero continuar a ser levado por estas multidões de ondas
não importa onde, não importa onde.
As ondas lá ao longe no horizonte mal se vêem.
Deixem-me ir, em direcção a uma, a uma só.


Sakutarō Hagiwara,  Anthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, pp. 50-51.

Versões: Sakutarō Hagiwara


O Nadador


O nadador estica o corpo inclinado,
os dois braços juntos alcançam a distância,
o coração do nadador é transparente como uma alforreca,
os olhos do nadador ouvem o som que paira dos sinos,
a alma do nadador observa a lua sobre a água.


Sakutarō Hagiwara,  Anthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, p. 48. Agradeço a Rui Almeida os apontamentos para a resolução de um verso.

Em repeat



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Esta coisa do Ensino @ Distância está a dar-me cabo do pouco tempo que tinha para ler. E, depois, quando chego ao fim de mais um dia, tenho a cabeça feita em água. Só apetece fechar os olhos e descansar. Mas, ainda assim, lá vou conseguindo arranjar tempo para esta ou aquela leitura. Desta vez: Caldwell e o seu Motim em Julho.


Mais uma vez a acção decorre num Estado do Sul dos Estados Unidos da América. A segregação racial como pano de fundo. Um negro acusado de violar uma menina branca. Caldwell no seu melhor: escrita limpa, sem artifícios e rodriguinhos. Parágrafos curtos. Capítulos idem. Há autores que não deveriam ser esquecidos.

Versões: Sakutarō Hagiwara


Morte de uma Rã


Uma rã foi morta.
Um grupo de crianças levanta as mãos.
Todas ao mesmo tempo
aos mãos inocentes
sangrentas levantaram.
A lua nasce.
No monte um homem está em pé.
Sob o chapéu o seu rosto.



Sakutarō Hagiwara,  Anthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, p. 48.

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Stephen Crane
Os Cavaleiros Negros e Outros Poemas
Introdução e tradução de manuel a. domingos
Tiragem única de 100 exemplares

pedidos: medulalivros@gmail.com

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O almoço de hoje: Peito de Frango com Especiarias e Arroz de Cúrcuma no Forno. Foi a primeira vez que fiz este prato. O peito de frango ficou um pouco picante, pois abusei da pimenta branca, "abafando" os outros sabores (nomeadamente o manjericão desidratado). Em relação ao arroz: tenho de acertar com a água e o tempo no forno, pois não se ficou a sentir o coração do arroz (como eu gosto), tendo cozido para disso.

Os Cavaleiros Negros e outros poemas - Stephen Crane



Stephen Crane
Os Cavaleiros Negros e outros poemas
Introdução e tradução de manuel a. domingos
Medula
2020

Tiragem única de 100 exemplares

pedidos: medulalivros@gmail.com

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Hoje improvisei ao som de Parker, Gillespie, Powell, Roach e Mingus. Jazz at Massey Hall é um marco do jazz e das gravações ao vivo. Parker chegou atrasado, sem saxofone e toca num sax emprestado e de plástico. Mas adiante. A improvisação chama-se "Ocidente e Oriente". Trata, sobretudo, de sobras. Com a sobra do Feijão Frade e Atum do outro dia: saiu o paté para entrada. Com a sobra do Frango à Pequim (que veio do restaurante Happy Noodles): Frango à Pequim salteado com Cebola, Alho-Francês, Pimento Verde e Molho de Soja à Coreana (outra sobra). Só o Penne ao Alho e Tomate não é sobra de nada. Acompanhou um rosé Coutada Velha (recomendado por Miguel Martins).

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Chegaram hoje. Lá vou fazendo o caminho. Devagar, é certo. Mas lá vou fazendo. Já faltou mais para ter as obras completas de Fialho de Almeida.

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Às vezes acumula-se um peso no fígado. Deve ser a maldade. De certeza.

Rimas impopulares e de gosto duvidoso (9)


Caso adjectivos decidas usar
não esqueças o íssimo no final
pois ao vazio que recusas aceitar
dará um ar mais fino e intelectual

O inho não deves esquecer
já que fica mesmo a matar
e aplausos irás recolher
se o teu objectivo é agradar

Advérbios usa com cuidado —
escolhe os que escolheu Cesário
e apesar do canto te sair gripado
irás cantar como um canário

A Estação Violenta - Octávio Paz



Octávio Paz
A Estação Violenta
Tradução de Sara Belo
Desenhos de Sara Belo | Catarina Domingues
Sr. Teste
2020

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Acabo o dia com o gato ao colo. Há pouco a sopa mais a peça de fruta. Uma espécie de frugalidade franciscana mas sem a convicção religiosa.

Rimas impopulares e de gosto duvidoso (8)


Arremessa versos contra o vento
a um ritmo deveras vertiginoso
É o chamado poeta flatulento
de alto gabarito e virtuoso

Atesta com selados certificados
os cursos que já ministrou
Traz os euros bem contados
de todos os tolos que rapinou

É ele o verdadeiro artista
como diz a conhecida canção
Preferia ser ilustre linguista
mas calhou-lhe ser cagão

Em repeat



Rimas impopulares e de gosto duvidoso (7)


Lá vem o ortodoxo de serviço
pregar a sua bafienta cartilha
Tem a mania que é insubmisso
líder de inexistente matilha

Debita poemas frente ao espelho
pensa que é o maior da sua rua
Na realidade não vale um chavelho
se lho dizem é certo que amua

Já ameaçou de porrada aquele este
o outro mais a geração futura
O seu feitio é conhecido e agreste
todos acusa de subliteratura

No fundo é um pobre triste
falta-lhe um abraço e ser amado
Sempre de punho em riste
ainda acabará institucionalizado

(...)


O caderno onde agora escrevo está quase a terminar. E há em mim uma vontade de aumentar o tamanho da letra e o espaço entre linhas. Tudo em mim pede um fim rápido destas últimas duas páginas para que rapidamente possa ir buscar outro caderno ali à gaveta. Um caderno novo. Imaculado. E começar a enumerar as suas páginas. Nelas escrever.

Rimas impopulares e de gosto duvidoso (6)


Andava pelas letras há anos
poetisa que a muitos dava tusa
Enganou uns quantos veteranos
com o decote exagerado da blusa

Escrevia versos como quem
caga barrotes e mija serradura
Cultivava como ninguém
mistério e pura candura

Um dia o embuste se desfez
foi a barba rija que o traiu
Em vez da feminina nudez
foi outra a coisa que descaiu

Em Beirute procurou paz
mais ninguém dele soube
Todos esqueceram o rapaz
foi essa a sorte que lhe coube

Rimas impopulares e de gosto duvidoso (5)


Para tentar boa crítica escrever
como Pacheco tão bem fazia
não basta apenas tão-só querer
embora a alguns dê jeito viver
no centro da cidade em zona fina

Deveria a pé o jornaleiro mais andar
se quer dizer a todos qu'é escriba
para a barriga também aligeirar
e não ter aquele irritado e zangado ar
de corcunda triste por não ter chiba

Não estando cá para o contrariar
apoia-se nos grandes que viu morrer
cita-os em textos e artigos sem parar
que duas vezes obrigam a respirar
para em muito esforço os conseguir ler

Prega muito este pobre Frei Tomás
que das letras decidiu fazer ofício
Pensa que do baralho é o último ás
quando na verdade apenas jaz
aos pés do seu próprio artifício

Rimas impopulares e de gosto duvidoso (4)


Aquele que reconhecimento anseia
ou procura à força a unanimidade
tudo fará para entrar na alcateia
e será exímio mestre da falsidade

Desconfia por isso de toda a ideia
que te pareça estranha bondade
E cuidado com anca que bamboleia
pois pode esconder tempestade

(...)


José Pascoal tem publicado no seu blogue, Gazeta de Poesia Inédita, poemas inéditos de vários autores portugueses. Hoje está disponível um poema meu. Podem encontrá-lo aqui.