(...)


Resumo cada vez mais o pensar à observação das coisas. Gosto de ver o gato pentear cada um dos seus bigodes fazendo uma pausa de vez em quando para se certificar que a luz do sol a esta hora já está no sítio certo onde depois irá velar o resto da tarde.

*

O salmão que grelhei para o almoço ficou pela casa. Decidi por isso acender um pau de incenso. À falta de sandalwood é agora a vez de orange blossom. E de repente todo eu sou Índias e Orientes invisitados.

*

Baixo os estores. Há demasiada luz e os olhos pedem-me um pouco de penumbra. Ajeito o corpo ao sofá.  As horas passam. Ainda não acenderam as luzes nem a noite caiu. E por agora não quero que a vida seja substituída.

Em repeat

 


(...)

 

O som das folhas secas como se o sol eu pisasse. Algures a infância e um Domingo de bola. As nossas gargalhadas a ecoarem por entre os pinheiros e castanheiros.

*

A cidade acordou e eu não a acompanhei nesse despertar. O nevoeiro que a envolve envolveu-me e deixei-me ficar. Penso na Fraga da Cruz e da neblina que às vezes também a habita. Sinal de chuva ou de dia que convida ao recolhimento. Mas voltemos à cidade. Sintra ainda não se vê mais o seu Palácio da Pena. Começo a aprender que também isso aqui e agora é sinal de chuva ou dia que convide a recolhimento embora a aplicação do meu smartphone diga o contrário.

*

Atravessei a noite em sobressalto. E hoje a cabeça é toda ela ruído.

Um poema de Katerina Gógou


7.

Aquela pessoa
aquela em particular
tinha uma vida particular
com actos particulares.
Por isso
a sociedade em particular
para o seu particular objectivo
a condenou
a uma morte indefinida.



em Três cliques à esquerda (Katerina Gógou, 1979), texto introdutório e tradução de José Luís Costa, seguido de Cancro: poemas a partir de Katerina Gógou (Sean Bonney, 2019), texto introdutório e tradução de Miguel Cardoso, Lisboa: Barco Bêbado, 2020, p. 42

Benamôr Sabonete Alecrim



(...)


Vejo-os todos os dias. Saem a correr do comboio para o autocarro. Saem a correr do autocarro para o comboio. Às vezes a correr do autocarro para outro autocarro. E é nesse momento que me sinto com sorte. Sem pressa e sem razões. O meu dia passa por eles. Devagar.

*

Ao fim do dia a manta sobre as pernas. E ainda o velho casaco de lã. Leio um pouco de poesia. Ouço um pouco de música. Às vezes vejo uma ou outra reportagem. Um ou outro programa sobre vida animal selvagem. Lá fora aos poucos a cidade fecha-se em dever cívico. Eu: continuo apenas o mesmo.

*

Novembro nos ossos é pior do que Maio nos olhos.

(...)

 

Cada vez mais é-me difícil falar sobre poesia. Cada vez mais a sua importância cresce nos meus dias. Por isso limito-me a ler e a ficar em silêncio. Mas às vezes há a necessidade de partilhar aquele ou este verso. Aquele ou este poeta. É o caso. Descoberta recente. W. S. Graham. Seis versos que me fizeram ganhar a semana.



1 de Novembro de 2020



 

Um poema de Nuno F. Silva

 

Dano colateral


Um dia,
talvez este corpo
avariado

já não saiba
dar sinais.

Talvez a fome
se confunda
com saudade

E o sangue queira
nicotina
na ausência da paixão

A sonolência
não será mais
que uma secreta vontade
de abandono.


em Epilepsy Dance, Figueira da Foz: Debout Sur L'Oeuf, 2020, p. 16

Cânone

 


José Manuel Heleno

     
     Tudo indica, por conseguinte, que se os estabelecimentos de ensino se afastam daquilo que os estudantes vivem e sentem; daquilo que faz parte da vida deles, não conseguem cumprir uma das finalidades mais dignas de qualquer educação. Diz-se que o mais óbvio, por ser o mais óbvio, não necessita de ser interrogado. Mas é estimulante saber o que é realmente o mais óbvio ou inútil, o que se diz ver ou sentir, sem mais. Como se houvesse um mapa do óbvio que importasse descobrir e desenhar – e fosse essa uma das missões mais dignas de qualquer estabelecimento de ensino. O perigo é os “finalistas”, aqueles que concluíram um ciclo de estudos, nada saberem sobre o óbvio e jamais o interrogarem enquanto tal.

em A resposta de David Foster Wallace a Martin Heidegger, Covilhã: Universidade da Beira Interior, Artigos LusoSofia, 2020, p. 5.

Leituras

 


(...)

 

Janeiro pareceu-me hoje muito distante enquanto observava as laranjas a ganhar cor e disseram "lá para Janeiro já estão boas".


*


Arrefeceu de um momento para o outro. O Outono deixou de ser aquela estação de transição. Agora ela apenas ocorre na cor das folhas das árvores e no número de pássaros que deixamos de ouvir e ver.


*

Durante a viagem o mundo pareceu-me normal. Mas depois liguei a rádio.

(...)


Sei que estou a envelhecer não pelo passar dos anos nem do tempo mas porque começo a preocupar-me com certas coisas. Um exemplo: a impermeabilização do calçado de Inverno. Digo isto pela simples razão de hoje ter-me cruzado com vários rapazes e raparigas e todos eles sem excepção traziam sapatilhas calçadas. E do fundo de mim um "ah! a juventude!" ecoou. 

*

Nunca faço o mesmo caminho até à escola. Procuro dessa maneira encontrar alguma novidade todos os dias. Seja uma janela aberta ou o voo rasante de um pássaro. Seja alguém que fuma o primeiro cigarro do dia ou o pai que espera impaciente dentro do carro pela filha.

*

Frente à janela da sala as árvores começam a ganhar outras cores.


Um poema de João Pedro Azul

 

XVIII


Toda a aurora é promessa de juventude
Todo o crepúsculo anunciação da morte

Por muito que tente abraçar a noite
               ou a manhã

é sempre tarde
              para evitar a natureza

A consciência teima
A pele queima
E há qualquer coisa que escapa
               ao entendimento

uma qualquer falha

onde prontamente monto casa
e ponho mesa para três

à janela



em Um cavalo sentado à porta, s/l: Edição do Autor, 2020, p. 36.

Vago Pressentimento Azul por Cima - Ana Paula Inácio

 


Ana Paula Inácio
Vago Presentimento Azul por Cima
Inclui a oferta de CD-Digital Audio
com canções de João Paulo Esteves da Silva
sobre poemas de Ana Paula Inácio
Alambique
2020

Ana Paula Inácio

 

qualquer dia a morte apanha-te
desprevenido
sem o teu fato
imbuído de alfazema
traz sempre uma camisa branca
um lenço de seda
uma marca
— não tem de ser especial —
porque qualquer dia a morte apanha-te
e quem te transportará a casa
nu e frio
quem te cobrirá com um lençol?
um fruto é um fruto
um fruto cai
é de quem o apanha
mas se a morte
não te devolve a casa
faz um desenho,
pequeno, no braço,
e quando a folha maior da árvore
não se mexer
prepara-te
tudo o que pára
pode ser um sinal



em Vago Pressentimento Azul por Cima, s.l.: Alambique, 2020, p. 29.

Manhã

 


(...)

 

Ao chegar a casa descalço-me e tiro o relógio. É a minha maneira de deixar o mundo lá fora.

*

A realidade deixa-me sem palavras. Qualquer esboço de revolta seria apenas isso mesmo: um esboço. Limito-me a observar em silêncio as imagens.

*

Os dias sem novidade e a novidade já teve melhores dias. Coisas há que nos dão garantia de estabilidade pois são coerentes e não nos causam surpresa. Os dias. 

Três Bucólicos Ingleses: John Clare, Thomas Hardy, Edward Thomas

 



Três Bucólicos Ingleses
John Clare | Thomas Hardy | Edward Thomas

Selecção e tradução de Ricardo Marques
Elysium
2020


Um poema de John Clare


Transgredir

Eu temia andar por onde não havia caminho
e caminhava a passo prudente os trilhos do prado
e sempre me virava para olhar cautelosamente
e sempre temia o dono a aparecer subitamente;
No entanto, todos os sítios onde eu tinha ido
pareciam tão bonitos que continuei a aventurar-me
e quando segui pela estrada onde todos são livres
imaginava que todo o estranho me franzia a testa
e todo o olhar gentil parecia admoestar
"Andou a transgredir hoje ao caminhar."
Andei sempre a pensar, com o dia tão agradável,
como seria bom se este lugar me pertencesse;
Mas, não possuindo nada, nuca me sinto sozinho
mesmo usando o de outrem como meu pertence.


em Três bucólicos ingleses: John Clare, Thomas Hardy, Edward Thomas, selecção e tradução de Ricardo Marques, s.l.: Elysium, 2020, p. 49.