Livros (143)



«A história das liberdades concedidas ao homem nunca deixou de se confundir, até agora, com a história das liberdades concedidas pelo homem à economia» (p. 7). Começa assim este livro e é a principal crítica que lhe faço: quase tudo é reduzido à visão económica que o autor tem da sociedade, onde tudo é uma troca mercantil, despindo o ser humano de qualquer tipo de emoções ou caprichos. No entanto, Vaneigem não deixa de ter razão quando explora a expressão time is money, principalmente quando a associa ao conceito do "tempo livre". Para o autor este conceito não deveria existir. Ele serve apenas para mercantilizar o próprio conceito: o "tempo livre" mais não é do que um subterfúgio para retirar ao trabalhador o tempo que, na realidade, não deveria ser livre; isto é, o trabalhador se tivesse efectivamente tempo livre não necessitaria de "tempo livre". Vaneigem afirma mesmo que "férias pagas", por mais justas que possam ser, mais não são do que uma maneira de manter o trabalhador "fiel" ao próprio trabalho. Para o autor: «O homem que não dispõe de 90% do seu tempo é um escravo» (p. 53).  

Um poema de Leonor Castro Nunes


tínhamos os olhos muito abertos.
queimávamos madrugadas de fia a pavio
e as aves desmanteladas que te dava para consertares
conheciam sempre finais felizes.

foram noites gigantes
a olhar pelo buraco da agulha
e a imaginar que do outro lado chegavam as mãos
e as bocas e os peitos.

ocupámos a casa inteira
e suturámos lentamente o coração.

agora estou dentro do sono.
um barco encalhado assinala esta tragédia
e já não sei como convocar os ventos e as marés.
as noites passam lentas e perseguem-me
como animais ainda por nomear.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 45.

(...)


O dia começou para ti ainda cedo. Acendeste o fogão, preparaste o café para o pequeno-almoço. Depois perdeste tempo com pequenas coisas, é certo. Mas são essas pequenas coisas que ainda te vão dando algum alento. O carro do teu pai espera-te. Sempre que o conduzes tens a sensação de conduzir um clássico, pois nada tem de moderno e essas coisas. Vais à vila fazer as compras necessárias para parte do almoço: pimentos para assar: que irão acompanhar sardinhas (para os teus pais) e um hambúrguer (para ti, pois nunca foste de sardinha assada), e tudo isso faz-te pensar na generation gap, que era um dos temas do Inglês quando andavas no Secundário. Agora que regressas a casa, ouves um pouco de Harold Budd e Clive Wrigth (A Song for Lost Blossoms, 2008). O gato dorme no lugar de sempre e tu pensas na simplicidade da sua vida. Talvez um dia consigas, também, uma vida simples. 

Marco Grassi



The Hive
© Marco Grassi

(...)


À medida que anoitecia, começaste a ouvir música Persa e Arménia (valha-te São Youtube). E há qualquer coisa nela, na música, que te leva a um outro lugar, como se fosse teu desde sempre.

Um poema de Ana Caeiro


Primeira morada

talvez seja sempre difícil o azul
quando atrás das casas não se fala de árvores
nem de peixes
quando o corpo não consegue a liquidez dos aquários
a luz a trespassar pequenos seixos e guelras
talvez seja difícil respirar pelo beijo
quando não há mar onde afogar os cabelos
eu queria esse segredo de barcos de papel abandonados à corrente
fechar os olhos e trazer-te à língua dos lençóis
uma cama virada a sul onde as aves assobiassem de madrugada
e a pele soubesse a mel e figos
onde toda a geometria fosse a lentidão das mãos
sobre a porcelana ou vidro
e nada quebrasse a moldura dos dias


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 9.

Anónimo disse... (8)


A tua sede de protagonismo não conhece mesmo limites, pois não? Ele é cada melro, cada tiro! Depois de mostrares o uso que dás à correspondência privada que recebes como é que ainda consegues ter o desplante de acusar quem quer que seja de "cobardia" pelo uso do anonimato? Enxerga-te, cromo!!! Mediante a tua desonestidade o anonimato será sempre muito mais do que aquilo que mereces de qualquer interlocutor.

7 de dezembro de 2016 às 16:11

(...)


"Falarás com a tua voz e não com a voz que alguns te querem dar". Foi uma lição que cedo aprendi. Como aprendi que a Liberdade é uma coisa muito bonita, e que deve ser mantida, cumprida. "Falarás com a tua voz e não com a voz que alguns te querem dar". E depois também aprendi que deverei sempre dar voz aos outros, mesmo quando esses outros falarem com cuspo que me irão atirar à cara.

Jennifer McClure



Laws of Silence (16)
© Jennifer McClure

Um poema de Bruno Béu


Bricolage e outra coisa

como as mãos colocam lâmpadas
assim ela nele.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 24

Anónimo disse... (7)


Chamar-te uma "alminha simples" ou "pobre de espírito" seria sempre um elogio. Tu és, como bem consta por aí, apenas profundamente estúpido, com aquela arrogância tão própria dos néscios e que resulta da mais cega e empenhada ignorância. A burrice, essa advém, de questões endógenas, receio bem, e reflecte-se, dolorosamente, na falta de noção com que alardeias todas essas qualidades. Mas por quem sois? Sobretudo bom natal para o gato e paz na terra aos mansos de espírito.

6 de dezembro de 2016 às 21:14

Caro Anónimo:
muito obrigado pelo seu mui precioso comentário. Agradeço-lhe as palavras amigas.
Ainda bem que não me elogiou com o epíteto de “alminha simples” ou “pobre de espírito”. Sinceramente, penso que se adequa melhor “profundamente estúpido”, como “bem consta por aí”. Sempre me interroguei onde seria o “por aí”, tantas vezes o mencionam. Agora sei que é o local onde consta que sou “profundamente estúpido”. Muito obrigado, pois tirou-me um peso de cima, esclarecendo esta minha dúvida.
Em relação à “burrice”: ela deverá, sem dúvida alguma, derivar de “questões endógenas”, que estarão certamente relacionadas com o facto de eu ser “profundamente estúpido".
Respondendo à única pergunta que me fez: sou pela A.D.M.. E não, caro Anónimo, não são Armas de Destruição Maciça, mas sim: Associação Desportiva de Manteigas.
O gato agradece os votos de Bom Natal e retribui.
Volte sempre com a característica comum a todos os Anónimos: a cobardia.
Com os melhores cumprimentos.

(...)


Hoje, numa ida à Papelaria Papelito (aqui em Manteigas), deparo-me com dois livros de Charles Bukowski: A Sul de Nenhum Norte e Histórias de Loucura Normal: ambos com tradução de Vasco Gato. Fiquei surpreendido e satisfeito. Portugal a caminho duma sociedade justa e civilizada.

Nota de leitura (7)


Retratos de Família

3.

Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas horas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.


Fernando Namora
As Frias Madrugadas
Publicações Europa-América, 1971, p. 114.


Novamente, o poeta encontra no quotidiano motivos poéticos suficientes para dizer aquilo que muitas vezes fica por dizer. Fernando Namora (que foi mais romancista do que poeta) consegue, em poucos versos, recriar todo um imaginário: que poderia ser o de qualquer um. Quem é que nunca recolheu gotas de chuva? Só os pobres de espírito, de certeza.
Penso que este poema cumpre a questão da universalidade que já aqui mencionei. É tudo menos umbiguista. Não existe nele qualquer tipo de palavreado oco. É honesto e não procura, quanto a mim, fazer bonito. Não recorre à intertextualidade ou à sabedoria académica bacoca. Nele não é necessário citar Deleuze para dizer o que tem de ser dito. Tudo está. Nada falta.


Um poema de Miguel de Carvalho


Casa-Tempo

porque nem sempre tive uma idade
morreu nela um tempo muito perto
mesmo assim ainda longe
duma idade sem relógio nem instante
e aquela eternidade que me espera por fim
na varanda interior deste ciclo
violenta cada pulsão sem prazo
e cada época sem validade

porque nunca encontrei uma casa
nem uma idade ou uma inocência
nem uma data ou um ponteiro em cada passo?

desde ontem comecei a procurar
outra coisa fora deste tempo
onde não cabe uma idade
muito menos uma concepção de casa.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 61.

Uma imagem para o dia



3º Esq - Malveira (2015-2016)


Talvez
este silêncio

seja a janela
aberta

os cães
lá fora

Nunca
entenderei

a luz do dia
as suas cambiantes

Questões há
na realidade

que nunca devem
ser respondidas


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 51

Das fotos (38)


Sem título
© manuel a. domingos, 2016
(clicar para aumentar)

Livros (142)




Ruben A. é um escritor muito cá de casa. Durante muito tempo estes Páginas foram a única coisa que consegui ler sem me cansar. Dizer que os seis volumes constituem um diário é ser redutor. A intenção até podia ser essa, mas Ruben A. extravasou todo e qualquer género, tornando este conjunto em algo híbrido e um quebra-cabeças para os académicos, embora duvide que os académicos lhe peguem. Mas caso encontrem os volumes à venda: não hesitem: aposto que não se arrependerão. E caso aconteça o arrependimento: olha, paciência.

Nota de leitura (6)


Não sei se vai chover ou não.
Nem se a greve entupirá as ruas.
Haverá comboios? Autocarros?
Barulho no andar de cima?

Certo, só o chá das sete.
Que pode ser às oito ou nove.
Mas é sempre chá e quente.
Feito num bule de porcelana fina.

Dias há que o seu aroma fresco
me transmite algum sossego.
Mais tranquilo e desperto
começo então a escrever.

Umas vezes com rigor.
Outras vezes nem por isso.
Depende muito do chá
e da forma como o tomo.


António Silva Graça
Invenção na Sombra
Relógio D'Água, 1989, p. 14.


O argumento mais utilizado por alguns daqueles que defendem uma forma poética mais ligada à palavra, enquanto valor intrínseco e quase inalienável, é o do risco. Isto é: o risco que o poeta corre ao procurar na palavra aquele dom de salvar pelo mais alto. São uma espécie de devedores de Eugénio de Castro e dos seus Oaristos. Para isso, alguns, recorrem à metáfora como uma espécie de tábua de salvação, ou então ao uso de vocábulos mirabolantes, quando na realidade esse uso apenas mascara a sua incapacidade de verdadeiramente arriscar, demonstrando, apenas, uma excelente proficiência no uso do dicionário.
E depois há os outros, aqueles que, na minha opinião (repito: minha opinião), realmente arriscam. Este poema de António Silva Graça é, quanto a mim, um bom exemplo. Nele o poeta arrisca de verdade, pois nada há de mais arriscado do que procurar no quotidiano (e não no dicionário) o material necessário para transfigurar esse próprio quotidiano, procurando o poético nas coisas mais simples do dia-a-dia e da vida. Uma situação banal pode estar carregada de poesia. E neste caso é inegável que está.

(...)




Uma ida à Burel Factory e deparo-me com a seguinte placa (da antiga SOTAVE* em 1985). Nela três nomes se destacam: Manuel Martins Domingos, Manuel Quaresma Domingos, José Quaresma Domingos. Por outras palavras: pai e filhos. Por outras palavras: avô, pai, tio. E também o nome de José Martins Domingos: tio-avô.



*Sociedade Têxtil Amieiros Verdes.

A Porta de Emergência - Américo Rodrigues



Américo Rodrigues
A Porta de Emergência
CalaFrio
2016

(...)



Malick: o gato passou toda a tarde embrulhado nas mantas. E ainda continua. Apesar da casa estar quente, parece gostar da cama que lhe improvisei. A chuva lá fora convida ao resguardo dos ossos e da alma, não vão os dois ficar ensopados de tanta água. Aqui dentro, para além da chuva na caleira, ouve-se o último álbum dos Mogwai. Malick: o gato não se assusta. Segredou-me há pouco que já ouviu pior.

Nota de leitura (5)


10

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto


António Reis
Poemas Quotidianos (1957)
em Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa
do Séc. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora, 2009, p. 1522.



António Reis é o exemplo quase prefeito da abolição quase completa daquilo que poderão ser as mais variadas interpretações do leitor. Os seus poemas, despidos de qualquer artificialismo bacoco, revelam uma simplicidade desarmante. O poema acima transcrito é disso um bom exemplo: versos curtos, limpos; um limitado uso de adjectivos; recusa da metáfora mirabolante que nada acrescente e obriga o leitor a procurar num dicionário o significado de algumas palavras. Tal como nos seus filmes (veja-se, a título de exemplo Jaime), a poesia de António Reis vai ao encontro do essencial, deixando para outros a arte dos rodriguinhos.

Nota de leitura (4)


Falo para ti à escuta.
As palavras escondem-se, não ouças
mais do que este rosto sonoro.

Como se a represa mostrasse
musgo, ramos podres, rãs,
folhas surgem dentro da casa.
Não a vejas.

À sombra do meu olhar
o que tiver de ser.

Joaquim Manuel Magalhães
Consequência do Lugar
Relógio D’Água, 2001, p. 17.



Joaquim Manuel Magalhães é, sem dúvida, a verdadeira "angústia da influência" para muitos dos poetas nascidos na década de 70 e alguns da década de 60: ou escrever a "favor" ou "contra". O outro também é Herberto Helder. Ao reler os poemas inseridos em Consequência do Lugar, sinto que existe uma grande afinidade entre uma grande parte dos poemas e os de Paul Celan. Poderei estar enganado, mas é o que sinto, quer no tom, mas também na economia das palavras, onde certos poemas adquirem um estilo quase epigramático, embora carregados de significado. No exemplo apresentado, a questão da universalidade já não se coloca, tento em conta a enorme subjectividade que o poema encerra. Contudo, a “falta” de universalidade não rouba mérito ao poema ou ao poeta, apenas torna a sua “influência” um pouco mais limitada. E quando digo “influência” refiro-me apenas ao alcance que o poema poderá ter. Sei que talvez esta seja uma maneira bastante maniqueísta de “ler” um poema. Mas também não estou a dizer que é a única.

Livros (141)



Tenho uma teoria: quando não se conhece um autor, e o queremos ler, devemos começar por um livro de contos, caso o autor o tenha escrito. Assim sendo: este foi o meu primeiro Bukowski. É um livro que resume, na perfeição, todo o universo bukowskiano: álcool, mulheres, corridas de cavalos, a mediocridade do ser humano, a misantropia do autor, tudo. Foi reeditado há pouco com nova tradução, desta vez de Vasco Gato, que tem sido o tradutor "oficial" de Bukowski no nosso país (e que tem feito um muito bom trabalho). Para os fãs de Bukowski, onde me incluo, este poderá não ser o seu melhor livro de contos 8e não é). Mas é uma boa maneira de começar a ler Bukowski.