Elisangela da Rocha Steinmetz


Judith Teixeira transgride. Revela em seus versos o corpo: uma imagem feminina pactuada com a plenitude da beleza da vida, com os brancos e os vermelhos, frios e quentes dos tecidos da natureza que essa filha de Viseu soube tão bem iluminar. E, com esse corpo, revela uma alma presente, que faz dele e, descobre nele, seus mais profundos desejos. Através dele, junto ao outro/outra, torna-se transgressora, plena e contínua, descontínua, e finalmente contínua, num bordado de versos que alcança nossos dias e faz do sexo algo para além das visões tradicionais de prolongamento da espécie: torna-o um atributo a favor do equilíbrio humano e da excelência do prazer. Na escrita que produziu, a poetisa decadentista inovou: provocou e exaltou paixões que tanto permitiram aos seus textos a experiência da fogueira, como a da ultrapassagem de décadas, para além de sua vida.
Filha desse mundo onde a descoberta de si, onde encontrar a sua voz, seu espaço e a sua condição de ser humano, de ser humano mulher (deve ser dito), exige todo o impulso da força transgressora, a poetisa ousa e cria. Sua obra é condenada, queimada. E, ainda assim, hoje, rompe silêncios. É transgressora.


de «Desejo e Transgressão no Corpo Poético de Judith Teixeira» em Feminino plural: literatura, língua e linguagem nos contextos italiano e lusófono, Debora Ricci, Annabela Rita, Ana Luísa Vilela, Isa Severino, Fabio Mario da Silva (org.), Lisboa: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Novembro de 2016, p.71.

Tão bela como qualquer rapaz - Andreia C. Faria



Andreia C. Faria
Tão bela como qualquer rapaz
Língua Morta
2017

(...)


O nariz entupido. Ora está quente ora está frio e a tua sinusite dá sinal. Soro fisiológico ou água-do-mar? Soro: "sempre é mais barato", pensas, "e o efeito é o mesmo". Lenços de papel? "Sim: bolso do casaco". O céu ameaça qualquer coisa. Logo se vê.  

S. A. - Miguel Martins



Miguel Martins
S. A. 
do lado esquerdo
2017

Discos (247)




Melancholia
(instrumental)

Bobo Stenson

Agora
a esta hora
sinto

a orfandade
duma guerra
perdida

Nada resta no dia
que resgate
desta anacrónica

melancolia —
tal a canga
sentida

E nem
o ronronar
do gato salva

esta "porra triste":
em tudo ver
absurdos

sem nunca
ter dado
para existencialista

Trocar os Mapas - Textos de António Amaral Tavares



(clicar na imagem)

Discos (246)




Fedora
(instrumental)

Kenny Wheeler | John Taylor


A manhã é melancolia. A luz quebra-se na estrada para o trabalho. Sempre disseste que trabalhas para viver. Mas tens cada vez mais dúvidas. Cada vez mais te parece que vives para o trabalho, tal a maneira como ele te absorve. O salário começa apenas a garantir o pagamento das despesas fixas e pouco mais do que isso: renda da casa, luz, gás, água, alimentação. Os "pequenos luxos" começam cada vez mais a ser cada vez menos. Mas ainda te resta a melodia de uma trompete. A leveza de um piano. Ao menos isso.

Uma imagem para o dia



Discos (245)




Für Alina No. 1
(piano)

Arvo Pärt

Da janela vês a montanha à tua frente: branca. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. O gato repousa no lugar de sempre. O aquecimento central garante o conforto necessário ao desencanto. Arrastas um livro para junto de ti, só que os olhos resistem às palavras. Olhas pela janela, mais uma vez, a montanha à tua frente: branca. A vila fecha-se sobre si mesma. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. 

(...)



Quando José Saramago ganhou o Nobel da Literatura, o Tal & Qual sondou várias pessoas e fez a pergunta: "Saramago ou Lobo Antunes?". Lembro-me muito bem da resposta de João Lagarto: "José Cardoso Pires". Também sempre fui mais Cardoso Pires. Em parte devido aos livros que, em casa dos meus pais, existiam do autor de O Delfim. Mas, em especial, devido a esta dedicatória:

Para Rosendo,
mexilhão do Reino,
cordialmente

José Cardoso Pires
out. 73

Uma imagem para o dia



(...)


O gato, ontem durante a noite, decidiu dormir na sua cama. Tal era o sono que tinhas (duas noites mal-dormidas fazem-te isso) que mal apagaste a luz apagaste também. O gato deve ter andado, durante algum tempo, em explorações nocturnas. Talvez procurasse a sua Ítaca. Não sei se encontrou sereias pelo caminho, ou se encontrou "Ninguém". Apenas sei que hoje pela manhã estava aninhado na sua cama e não vi sinais de Circe.

Livros (146)



Agora que comecei a ler a Ilíada, relembro a leitura que fiz da Odisseia. Todos os anos leio, aos meus alunos, a versão de Maria Alberta Menéres: Ulisses. E todos os anos me interrogo: e se Ulisses tivesse dito não? e se ele preferisse ficar com Circe em vez de regressar a casa? e se ele? e se? E sei que já existe bastante recusa em Ulisses, nomeadamente no que diz respeito ao "jogo" que com ele os deuses jogam. Mas, e se?

(...)


Procuras estar atento ao mundo. Todavia, cada vez mais te interessa menos aquilo que nele se passa, como se a ele já não pertencesses. É claro que sabes ser um exagero tal pensamento. Mas também é certo que sempre foste um exagerado, muito dado à hipérbole.



Adenda: é um exagero este pequeno desabafo ter duas recomendações no Google +.

Discos (244)




Siete Ocho
(instrumental)

Andrew Hill


O gato à solta pela casa. Corre de um lado-pró-outro com uma velocidade digna de chita. Corre, salta, simula um ataque sobre presa imaginária. Lá fora o dia tende para o fim. Siete Ocho abre a noite e decides que estás melhor à meia-luz. Só que não há candeeiro que te valha e a meia-luz é-te apenas em pensamento. O gato continua a caça às sombras. Siete Ocho. O dia e o seu fim.

(...)


Várias vezes a ideia de uma volta ao mundo. Cada vez mais a ideia fica para trás. O mundo, como sabes, há muito se tornou num lugar pouco recomendável. E agora: desaconselhável. Dizem que é sinal dos tempos. Para ti é apenas a confirmação duma certeza: não prestamos. Nunca fomos "boa gente". 

Uma imagem para o dia



(...)


Do mau tempo previsto só tiveste aquilo que não estava previsto: uma noite mal-dormida.

Cão Celeste - nº. 10




Capa
Daniela Gomes

Colaborações


Abel Neves | Ana Menezes | Ana Paula Inácio | António Barahona | Bruno Borges | Bruno Dias | Cláudia Dias | Daniela Fortuna | Débora Figueiredo | Emanuel Jorge Botelho | E. M. de Melo e Castro | Fábio Neves Marcelino | Fabio Weintraub | Fernando Guerreiro | Gil de Carvalho | Guilherme Faria | Hélia Correia | Henrique Manuel Bento Fialho | Hugo Pinto Santos | Inês Dias | Isabel Baraona | Isabel Nogueira | Jaime Rocha | João Alves | João Barrento | João Chambel | João Concha | Jorge Roque | José Ángel Cilleruelo | José Feitor | José Miguel Silva | Leonor Figueiredo | Luca Argel | Luís França | Luís Henriques | Manuel A. Domingos | Manuel de Freitas | Manuel Diogo | Maria da Conceição Caleiro | Mário Alberto | Miguel Martins | Miguel Pereira | Pádua Fernandes | Paulo da Costa Domingos | Pedro Burgos | Raymund Krumme | Ricardo Castro | Rik Lina | Rui Nunes | Rui Pires Cabral | Sebastian Brant | Tania de Léon | Thomas Bewick | Urbano | Vanda Brotas Gonçalves | Vítor Silva Tavares | Zepe

Pensamento do dia



«Ramming Speed!»
Ben-Hur
William Wyler
1959

Discos (243)




All or Nothing at All
(instrumental)

Arthur Altman



Nunca foste muito de baladas mas há a chuva lá fora, o gato sobre o sofá e a vontade de dias menos húmidos, frios. "Deve estar a nevar na Serra", pensas, pois é um pensamento que te invade muitas vezes. Não lembras já a última vez que viste nevar e tu no teu quarto debaixo dos cobertores. Também esses são dias bons para baladas. Agora, a esta hora, é a chuva no vidro da janela.

(...)


Nunca te habituaste à humidade e esta chuva dá-te cabo dos ossos, para não falar da paciência. Verdade seja dita: a paciência é algo que começas a perder, ou pelo menos a ter menos. Sim: menos paciência. Ontem começaste a ler a Ilíada e a primeira coisa que veio ao pensamento foi "não sei se vou ter paciência para isto". É raro pensares isso de um livro. Mas, ontem, pensaste. E depois há ainda o "we are taking names" que ouves do lado de lá do Atlântico. "We are taking names": como se o resto da malta fosse uma cambada de miúdos mal-comportados e os nomes estivessem a ser apontados no quadro, como era feito na escola primária. 

Um poema de Emanuel Jorge Botelho


vou dormir meu amor, o primeiro gesto vai
para o apagar do candeeiro, andamos presos
a coisas simples como vês; a mão a ir-se

gastando longe

da pele de leopardo, a boca a dar-se à luxúria da saliva
e o último olhar para o abismo
entre o colchão e a carpete, depois o medo,
o cuidado com que assinalamos a última página

do livro

esta função bizarra dada aos dedos como se amanhã o sangue fosse
uma clave branca convertida ao silêncio — meu amor — há até quem ore,
quem ponha na mão um dardo
para o exorcismo da luz. e depois este corpo sobre a mesa
de cabeceira — a água sempre
uma promessa de despertar agarrada aos lábios; o gesto
que o fogo guarda. coisas simples como vês, nada sobre

o anoitecer da pedra


em Cesuras, Lisboa: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, p. 21.

Uma imagem para o dia



(...)


Acordas e a casa em silêncio. O gato ao fundo da cama. Lá fora está sol e arriscas uma ida ao terraço. Um vento gelado diz bom dia mais os dois graus no termómetro. São dez da manhã. Vais tirar a cinza ao fogão e acendê-lo. O crepitar da madeira é um lugar-comum que te sabe bem. O gato mia e a comida é-lhe servida. O cheiro a café-de-saco.