(...)


Estou a escrever este texto duma sala com três grandes janelas que deixam ver a ruína de uma antiga fábrica têxtil. Descendendo eu duma família de operários fabris numa fábrica têxtil, não consigo deixar de associar a ruína desta antiga fábrica têxtil à construção de uma outra ruína que ficou lá para trás num passado que, às vezes, não consigo lembrar. A ideia de construir a ruína é uma ideia que me agrada bastante, tendo em conta o significado da palavra "ruína", pois penso que a nossa memória, um pouco de cada vez, começa a fazer isso: um pouco de cada vez começa a construir a ruína do nosso passado. Porque a memória do nosso passado não passa disso mesmo: ruína em construção.

Discos (294)



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And I have a feeling that's growing
Somewhere behind my sleeping mind

Swans


Rossio. Sete da tarde. Nas escadas rolantes descendentes: caras cheias de Sintra. Nas ascendentes: rostos cansados, corpos curvados. No comboio o mesmo cenário. Ao meu lado uma senhora adormece ao mesmo tempo que se senta. Passados dois minutos tem a boca aberta, respira fundo. Com o primeiro balançar do comboio abre os olhos, para logo os fechar. Um saco em cada braço.

Livros (158)




No início do Verão passado, consegui comprar este livro num alfarrabista. Primeira edição em relativo bom estado. O preço era convidativo e não resisti. Raul de Carvalho é um poeta que eu muito aprecio. Considero-o um dos grandes da segunda metade do século XX português. Como grande poeta que é: raramente é citado ou considerado uma influência. Mas isso é uma questão completamente diferente. A sombra de Fernando Pessoa (mais heterónimos) percorre as páginas deste livro. A verdade é que, neste livro, podemos ler grandes poemas. Destaco Serenidade, és minha, conhecido por muitos na voz de Mário Viegas.

(...)


Na noite de Sexta para Sábado acordei com a chuva forte. Eram duas e meia da manhã. O gato permaneceu aos meus pés, sem sobressalto algum. Antes de apagar a luz comecei a reler Derrubar árvores — uma irritação, de Thomas Bernhard. Crítica forte à intelectualidade austríaca.
     E de repente penso que em Portugal acontece o mesmo. É vê-los de apresentação em apresentação, de cartão de visita na mão — muito prazer em o conhecer! gostei muito da sua antologia — enquanto o aperto de mão e a palmada nas costas confirmam a bazófia e o lugar comum — obrigado por me ter traduzido. vou traduzi-lo a si também — e lá vão todos para o beberete, para o porto de honra com guitarras portuguesas mais um fado esganiçado. 

Raul de Carvalho


Haikai

O tempo a encurtar
Divinamente estúpido


em Elsinore, com capa de Mário Botas, Porto: Brasília Editora, 1ª edição, 1980, p. 28

Ensino Recorrente


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(...)


Comecei ontem a reler Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard. Aprecio muito o autor austríaco e este livro em particular. Nele, e de uma maneira menos metafórica e mais directa, Bernhard desmascara a "elite literária" austríaca e alemã, bem como todos aqueles que a sustentam. A acidez é enorme.
     Acredito que, num país como o nosso, seja impossível um livro igual. Ou parecido. A nossa "elite literária" está, toda ela, bem instalada e o compadrio é evidente. Denunciar seria necessário. E, quando digo denunciar, não me refiro a ajuste de contas em páginas de jornais diários ou semanários. Bernhard denuncia a hipocrisia. Não faz ajuste de contas.
     

E. Ethelbert Miller


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Cheguei à poesia de E. Ethelbert Miller através de versões de Jorge Luís Barreto Guimarães. Gostei da contenção vocabular e da maneira como trata o quotidiano, sem cair em lugares comuns. Os seus poemas políticos são muito bons, onde a denúncia da opressão aos mais fracos, às minorias, está sempre presente. Comprometido com os direitos cívicos durante os anos sessenta e setenta, nos Estados Unidos da América, Ethelbert Miller foi um dos impulsionadores dos Estudos Afro-Americanos na Universidade de Howard, em Washington DC.

Versões: E. Ethelbert Miller



Billie Holiday


às vezes os surdos
ouvem melhor do que os cegos

alguns homens
quando pela primeira vez
a ouviram cantar

apenas repararam
na flor que trazia no cabelo



E. Ethelbert Miller, First Light: New and Selected Poems, Baltimore: Black Classic Press, 1994.

Ensino Recorrente


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Poema de Outono


À falta de lareira
serve o hotspot

Castanhas cozidas
com erva-doce

vinho abafado
mais a chuva lá fora

O gato aninhado
na manta

o orçamento
de estado aprovado

na generalidade
entenda-se

Cecília Meireles
deputada

esganiçada
a destilar fel

mais aquela
laranja mirrada

que é Negrão
a dizer que é aldrabão

o orçamento —
entenda-se

Joaquim Manuel Magalhães


Quando quem escreve se perde das palavras atinge os sentidos sem significação, sem símbolo. Aí, o inconsciente torna-se um domínio rigoroso e o atento lençol de água da linguagem explode como lâmpada contra pedra. Dessa ordenação da racionalidade esquecida, das emoções sem sentimento, da inteligência em combustão sem cultura, a mente oculta dos discursos irrompe. E fixa, na noite dos sons, sinais de ordenação das coisas pelo saber, a razão, a sensibilidade, a consciência desviados para charcos imprevisíveis onde as aluviões dos nomes esqueciam. É a árdua prefiguração súbita, a imagem que nenhum espelho ainda vira, o som a que nenhum silêncio se seguira ainda, uma função a preparar-se para atingir o seu primeiro destino. Quer seja o problema das classes quer seja o infigurável, quer seja a consideração da alma, a materialidade dos vocábulos só por um furor que nenhuma ciência nenhum sentimento explicam atinge algumas vezes o oco onde as cinzas da vida frutificam e cumprem a sua maldição, o mistério. Dizer o novo, incendiar o conflito, levar o homem para outro homem, qualquer coisa pode ser um poema. Mas o que lhe deu a forma da mudança, a recusa da asfixia, a ligação ao espírito ficou para sempre perdido à compreensão de todos. Foi uma vertiginosa passagem pelo mais vazio dos lugares, um golpe entre a memória, as outras vidas e a tenção talvez mal ferida de quem tão surdamente conhecia a linguagem que por um momento a esqueceu para ela o dizer a si, ao seu mundo, ao que nem ele nem o seu mundo sabiam nomear.


em Consequência do Lugar, Lisboa: Relógio D'Água, 2001, p. 100.

(...)


Em 2001 eu estava muito longe de me encontrar com a poesia de Joaquim Manuel Magalhães. Utilizo o verbo encontrar de propósito, porque não me atrevo a utilizar o verbo conhecer. O encontro aconteceu em 2004, quando estava em Silves e me inscrevi na Biblioteca Municipal. O primeiro livro que li de Joaquim Manuel Magalhães foi Os dias, pequenos charcos (1981). Seguiram-se Segredos , Sebes, Aluviões (1981) e Uma Luz com Um Toldo Vermelho (1990). Mas, voltando a 2001. Foi nesse ano que Joaquim Manuel Magalhães publicou Alta Noite em Alta Fraga. Nele está publicado Laminagem. Considero que esse poema, Laminagem (bem como o livro na sua totalidade), deu o mote para muita da poesia que se escreveu nas décadas seguintes, nomeadamente ao nível do tom (se entendermos tom como estilo).
     Agora que Joaquim Manuel Magalhães publica Para  Comigo (2018), dando continuidade àquilo que iniciou com o livro Um Toldo Vermelho (2010), muitos são já aqueles que, devedores da sua poética e da sua veia crítica, começam a distanciar-se, talvez com medo de que o exercício de depuração e rasura, de Joaquim Manuel Magalhães, os contamine. Todavia, muita da actual poesia portuguesa (nomeadamente aquela publicada na última década) beneficiaria com uma elevada dose de depuração e rasura, tendo em conta o excesso de verborreia que nela se encontra (1).



(1) Devo, no entanto, fazer uma chamada de atenção para o trabalho de depuração e rasura de Jorge Melícias. Apesar de se encontrar, do ponto de vista poético e crítico, do lado oposto ao de Joaquim Manuel Magalhães, Melícias tem levado a cabo um trabalho de rasura na sua obra poética, trabalho esse que pode ser verificado no volume Hybris (2015). Considero aqui o exemplo de Jorge Melícias tendo em conta que publicou o seu primeiro livro em 1994.

Para Comigo - Joaquim Manuel Magalhães



Joaquim Manuel Magalhães
Para Comigo
Relógio D'Água
2018

(...)


Há dois poetas verdadeiramente significantes na segunda metade do século XX português. Joaquim Manuel Magalhães é um. O outro é Herberto Helder. E, verdade seja dita, todos aqueles que começaram a publicar nos anos 90, e nas décadas posteriores, ora escreveram contra um ora escreveram contra o outro, cumprindo o que Bloom preconizou em "A Angústia da Influência". Quem disser o contrário está a mentir, ou a armar-se ao pingarelho.

(...)


Fim-de-semana. Regressar às fragas, à vila deserta. Três horas e meia de caminho. Chegar já de noite. Frio e vento. Cansaço nos ossos. Comer uma sopa. Dois dedos de conversa. Cama.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (24)


1. O conservadorismo de direita português sempre foi muito parolo. Exemplo disso são as últimas declarações da líder do CDS-PP, em relação às eleições presidências no Brasil. A máscara de Cristas caiu por terra, desfeita em lama, que era a única coisa que a sustentava. Entre um democrata e um fascista, Cristas opta pela abstenção. Duvido que Churchill, Thatcher e Major dessem a resposta que Cristas deu. Considero, até, que ficariam envergonhados com a resposta de Cristas. A questão é que tal resposta não lhe irá "sair caro". Tudo ficará na mesma, como a lesma.

2. Sou pela Liberdade. Até há pouco era bastante tolerante com os intolerantes. Todavia, e tendo em conta os últimos acontecimentos na Europa (com o aumento de grupos fascistas e nazis [não acredito no prefixo neo]), aplaudo o apelo do Parlamento Europeu à proibição de grupos que promovem a intolerância e o ódio.

Discos (293)


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Journal Violone partie 1
(instrumental)

Barre Phillips


Noite. As ruas quase desertas. Olhas para as janelas que olham para ti. Famílias inteiras do outro lado. O som dos talhares nos pratos. Risos. Ou, então, uma enorme solidão. Tens essa tendência para imaginar o que está do lado de lá. Gostas de imaginar vidas que não são a tua. Silêncios que não são os teus. E, depois, fazes também o inverso: pensas se alguém na rua olha para a tua janela e imagina aquilo que se passa do lado de lá. Talheres nos pratos? Risos? Enorme solidão? E continuas o teu caminho.

Estados Filosóficos (102)


Às vezes acontece um anão gritar "Sou um gigante!". Acontece e não é de estranhar, principalmente quando o anão se sentou ao lado de gigantes e com eles conviveu e com eles trabalhou. Aquilo que é estranho é todos à volta acharem que ele é realmente um gigante. E temerem o anão que têm à frente.

(...)


Tendo em conta a fase de misantropia literária que agora atravesso, talvez não seja boa ideia começar a ler A Literatura no Estômago, de Julien Gracq. No entanto, e depois de ler as primeiras páginas, começo a perceber qual a origem do eco, que mais parece um cacarejar, que costuma vir nas páginas de um jornal diário.

(...)



De tarde, em conversa, confessei que atravesso uma fase de "misantropia literária", pois não me apetece ir a apresentações de livros, leituras, ou até a cafés onde sei que posso encontrar este mais aquele. E evito frequentar livrarias independentes, salvo uma rara excepção. Mas tudo o resto me aborrece, cansa e deprime. A verdade é que o "meio literário" nada tem de glamoroso. Lamento, mas não tem. A lama, às vezes, pode chegar aos joelhos. E depois uma pessoa chega todo sujo a casa e sentimos que aquilo demora a sair. Já para não falar naquilo que por vezes ouvimos, mesmo sem querermos ouvir. Corte-e-costura: tenho a minha parte. Não sou santo. E isso levou-me a concluir que são muito poucas as vezes em que se debatem realmente ideias.

Um poema de Robert Louis Stevenson


Fim da Viagem


Deixa que a tua alma encontre uma
Âncora neste mundo da matéria. Fundeia aqui o teu corpo
Que desde já este espectáculo imutável seja
A gravura nos teus olhos; e quando soar a hora
E a verde paisagem escurecer de repente
Os últimos, os que acompanharem o teu cavalo no sonho
Acompanharão o teu corpo morto.


em Poemas, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 177.

Uma imagem para o dia


Diálogos (29)



William Somerset: I just don't think I can continue to live in a place that embraces and nurtures apathy as if it was virtue.

David Mills: You're no different. You're no better.

William Somerset: I didn't say I was different or better. I'm not. Hell, I sympathize; I sympathize completely. Apathy is the solution. I mean, it's easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It's easier to steal what you want than it is to earn it. It's easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.


em Sete Pecados Mortais (Seven) de David Fincher (1995)

(...)


No Sábado passado, durante um almoço com amigos de há muito, uma das amigas disse — gosto cada vez menos de pessoas pois cada vez mais tenho menos paciência para elas — e, verdade seja dita, poucos foram aqueles que estranharam tal afirmação, tendo em conta quem a proferiu. Todavia, tal frase ficou a martelar na minha cabeça, pois também eu começo a sentir o mesmo. Tendo em conta a profissão que tento exercer, tal situação torna tudo um pouco mais complicado. Não sou anti-social, ou antipático. Mas cada vez mais faço um esforço para ser socialmente adequado.