20.11.09

O leitor


Divido as pessoas em dois grupos: aquelas por quem tenho alguma estima e aquelas por quem não tenho estima nenhuma. Tu, leitor, não te enquadras em nenhum dos anteriores.

A seriedade e a referência


Nunca consegui tornar este blogue num blogue sério, de referência. De facto, a seriedade foi algo que nunca me interessou. Muito menos ser uma referência. Tenho uma média de 75/80 visitas diárias. E ninguém perde mais de dois minutos a ler-me, o que eu acho que nem é mau de todo, tendo em conta o que por aqui se pode ler.

Wilt


Wilt, essa fantástica personagem de Tom Sharpe, é professor. Ou melhor: tenta ser professor. Eu também tento ser professor. Umas vezes lá consigo. Outras: sou um Wilt autêntico.

19.11.09

Thomas Bernhard


«(…) eu sabia que Roithamer sempre levava a sério tudo o que pensava, o que, porém, as pessoas que o rodeavam nunca verdadeiramente tinham querido acreditar, os seus pensamentos, como os seus sentimentos, tinham sido sempre extremamente sérios, o que de mais sério poderia haver, e os seus pensamentos e os seus sentimentos tinham sempre de coincidir com a sua existência, pois de outro modo ter-lhe-ia sido impossível avançar, progredir (…)»

Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, tradução de José A. Palma Caetano, 2007, pp. 78-79.

Contra Mundum


Já aqui tinha falado dele. A crítica literária passa, definitivamente, por este blogue. Pena é que neste país ainda haja receio de assinar com o próprio nome uma crítica literária que não seja favorável a quem escreveu o livro. No caso do autor do referido blogue isso também se aplica às críticas literárias favoráveis. É pena. Ainda temos muito que andar.

18.11.09

Versões: Bernardo Atxaga


A vida segundo Adão

Adão adoeceu no primeiro inverno depois da saída do paraíso / e assustado com os sintomas, a tosse, a febre, a dor de cabeça, / começou a chorar como anos mais tarde choraria Maria Madalena, / e dirigindo-se a Eva, «não sei o que se passa comigo» gritou «tenho medo» / «meu amor, vem cá, penso que chegou a hora da minha morte».

Eva ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras, amor, medo, morte / e pensou que pertenciam a uma língua estranha, distante do paraísoedês, / e andou com elas na boca, a mastigá-las como milho, como raízes, / até que acreditou, amor, medo, morte, compreender completamente o seu sentido. / Mas nessa altura já Adão andava melhor, e voltava a sentir-se feliz, ou quase.

Este acontecimento extraparadisíaco, foi só o primeiro de vários, / de modo que Adão e Eva continuaram, por assim dizer, a receber aulas intensivas / da língua que dizia amor, medo, morte, aprendendo palavras como / cansaço, suor, gargalhada, cacarejar, velhice, canção, carícia, prisão; / e à medida que o vocabulário aumentava, aumentavam também as rugas na pele.

A hora da morte, a verdadeira, chegou a Adão era já ele muito velho, / e quis transmitir a Eva aquilo que tinha aprendido, a última verdade. / «Sabes, Eva», disse-lhe, «a perda do paraíso não foi na realidade uma desgraça». / «Apesar de todas as dificuldades, apesar do que aconteceu ao pobre Abel e todos os outros conflitos, / conhecemos aquilo a que, muito nobremente, podemos chamar de vida».

Sobre a sepultura de Adão foram derramadas longas lágrimas, de água e sal, / que caíram à terra e não deram origem a jacintos, nem a rosas, nem a nenhuma espécie de flores, / e de todos foi Caim aquele que, paradoxalmente, chorou com mais intensidade. / Mas logo Eva lembrou com saudade o susto que Adão apanhou com a sua primeira gripe, / e todos se acalmaram, e se foram, e beberam algo, e comeram bolo.

Bernardo Atxaga, «La vida según Adán» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 45-46. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Ensino Recorrente


Indignar-me é o meu signo diário (11)


Entre Dominica e o Botswana

por Manuel A. Pina

Desde 2005 (o ano pode não significar nada, mas dá que pensar) que Portugal vem descendo no "ranking" de percepção da corrupção da Transparency International, isto é, vem-se alegremente revelando um país cada vez mais corrupto, tendo este ano descido mais três lugares, da 32ª para a 35ª posição, e estando agora, em termos de corrupção, ao nível de Porto Rico, numa honrosa posição entre a Dominica (um pouco menos corrupta que nós) e o Botswana (um pouco mais corrupto).

Os índices da Transparency International resultam da avaliação anual de analistas e homens de negócios, bem como de organizações como o Banco Mundial, o Fórum Económico Mundial, os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia e centros de pesquisa como o Economist Inteligence Unit e o Global Insight. Curioso foi o modo detergente como alguns jornais deram ontem a notícia. O "Jornal Digital", por exemplo, deu-a sob o animador título de "Corrupção: Portugal é o país lusófono menos corrupto". Algo assim como, numa corrida com dois corredores, noticiar: "O nosso ficou em segundo lugar, ao passo que o adversário ficou em penúltimo".


de Jornal de Notícias, 18/11/09

Lí por aí


«Só tenho uma vida, não vou desperdiçá-la com Sócrates e as suas varas (plural de vara, s. f., insígnia de juízes, vereadores e dos irmãos de certas confrarias, manada de gado suíno, o mesmo que porcada). Portanto, estou-me nas tintas para as escutas. Não invejo o enriquecimento, legítimo ou ilícito, de ninguém. Quero que se fodam, quero que não me fodam, o que até me parece ser simples: deixem-me em paz que eu hei-de desenrascar-me.»

Henrique Fialho em Antologia do Esquecimento

17.11.09

Georg Simmel


«Mas a economia monetária e o domínio do intelecto encontram-se numa relação muito profunda. É-lhes comum a pura objectividade no lidar com os homens e as coisas, em que uma justiça formal acompanha, muitas vezes, uma dureza inexorável. O homem puramente intelectualista é indiferente frente a tudo que é especificamente individual, porque deste emanam relações e reacções que se não esgotam com o entendimento lógico, tal como no princípio monetário não ingressa a individualidade dos fenómenos. De facto, o dinheiro busca apenas aquilo que a todos é comum, o valor de troca, que nivela toda a qualidade e peculiaridade à questão do simples "quanto".»


Georg Simmel, As Grandes Cidades e a Vida do Espírito, em http://www.lusosofia.net/, p. 5.

Ensino Recorrente



Versões: Bernardo Atxaga


Una Altra Pietá

As nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
só tarde se deram conta da importância da vida,
nunca antes dos setenta ou dos sessenta,
e estupefactas ante a descoberta,
perdiam o juízo durante várias semanas:
esqueciam o encontro das quintas com os filhos
faziam compras descabidas no supermercado,
falavam ao telefone aos gritos, interminavelmente
como se tivessem visto um ovni no terraço.

Mais tarde, dispostas a recuperar o tempo,
as nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
inscreviam-se em aulas de ginástica
promovidas pela junta de freguesia, «sou a Maria
por favor não me pergunte a idade que tenho»;
a partir daí, bailavam ao ritmo
dos números, fazendo corridas, dando gritinhos, saltos,
Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
O polidesportivo acolhia os seus risos com frieza.

Cumpridoras fiéis das ordens do professor
continuavam com as suas corridas, gritinhos, saltos,
e de vez em quando iam todas jantar fora
pondo de lado a bata e vestindo-se com elegância;
depois, um dia, sentiam-se mal ao pequeno-almoço
e caiam redondas sobre qualquer um dos filhos;
morriam pouco tempo depois, às primeiras horas da manhã,
enquanto as suas amigas, no polidesportivo, em coro
diziam Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.

Bernardo Atxaga, «Una Altra Piéta» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 49-50. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Indignar-me é o meu signo diário (10)



(clicar na imagem para aumentar)

A vida


Apesar de tudo, a piada está em alguém não ter avisado que é suposto rir.

O sotaque


Sempre que alguém me houve falar, duas perguntas se impõem: és de Viseu? estudaste num seminário? É claro que a maior parte das perguntas são feitas por pessoas que não têm qualquer noção de geografia, nunca entraram num seminário e são de Lisboa e referem-se ao resto do país como província.

A constatação


Sou o perigo de mim próprio.

16.11.09

Pensamento do dia


The Sound - Red Paint (live)

O colega


Tive um colega numa escola que todo ele era biológico para aqui e biológico para acolá, só comia fruta biológica, bebia sumos livres de corantes e conservantes, praticava yoga, pilates, meditação. Todas as semanas publicava um conto zen na parede da sala dos professores. E fumava um maço de ventil por dia.

O dom


Fui confrontado, este fim-de-semana, com o único dom que possuo, que me foi concedido: o dom da rabugice. No fundo sou um velho rabugento, resingão. Esse foi o único dom que os deuses me deram. Serás rabugento e a tua rabugice será conhecida por todos. E aqui estou eu.

A viagem


Lá decidi vir de comboio para ver como era. O comboio cheio de soldadinhos de chumbo e eu a ler De três em pipa. O comboio cheio de gente, urina de cavalo, humidade no ar, roupas molhadas, bosta de cavalo, o cheiro a dente podre, o desconforto. O desconforto.

15.11.09

As visitas


As visitas são, às vezes, incómodas. As visitas deste blogue não o são. Estão a cair. No entanto, ainda chega gente aqui ao tasco. Procura: "noite", "dia", "jeropiga", "fotos", "soraia chaves nua", "soraia chaves nude", "um homem tem que viver com um pé na primavera", "ventilan validade", "todo o dia sexo", "bukowski", "fuck", "grátis". Entre outras coisas. Mas nada de muito interessante. Há gente que chega aqui através da seguinte procura "manuel a. domingos". A mim já me aconteceu isso. Não me encontrei. É claro que podia fazer uma série de combinações com as procuras mais procuradas (soa bem, não é?): "fotos grátis da soraia chaves nua", "fotos nude soraia chaves", "soraia chaves fuck grátis", "um homem tem que viver com um pé na soraia chaves e outro em bukowski", "um homem não é um homem enquanto não vir fotos grátis da soraia chaves nua", "soraia chaves nua é melhor do que soraia chaves nude grátis", "soraia chaves noite e dia nua e grátis com jeropiga à mistura e ventilan dentro da validade". E por aí fora.

14.11.09

Um poema de Fernando Namora


Retratos de Família

3.

Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas hoas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.


em As Frias Madrugadas, Lisboa: Publicações Europa-América, 4ª edição, 1971, p. 114.

12.11.09

Pensamento do dia


The Stooges - T.V. Eye

Ensino Recorrente


Queixinhas


Estive a queimar pestanas a preencher grelhas de excel. Comecei às quatro da tarde e terminei eram oito da noite. Pelo meio lá corrigi testes. E preenchi mais grelhas. Foi a tarde nisto. Queixar-me para quê?

Versões: Xavier Montoia


Nos copos

A sua mente
como uma mosca
sobrevoa a imundice que é a sua vida
atraída, ao que parece, por um passado
mais mortífero do que qualquer peste.
Incapaz de ignorar o apelo
da merda acumulada durante anos,
como que empurrada por mãos invisíveis e enormes,
bebe desesperadamente
de uma garrafa escura e sem fim
o álcool destilado do arrependimento.

Xabier Montoia, «De copas», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 133. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

11.11.09

Conversa pós-jeropiga e castanhas


(alguém de cabeça baixa diz depois de um copo de jeropiga. o tom é sereno):
- Um amigo meu tinha um amigo preto, isto é, negro, que para jogar basquete tinha que prender o membro com uma mola a uma meia.
(alguém tosse engasgado com uma castanha assada)

9.11.09

Um poema de Isabel de Sá


Tragédia e Paraíso sempre

O poder redentor das palavras
bala no coração até ao fim
mineral escondido no poço
escuridão no olhar dos amantes.

Crianças vestidas de beleza
estrada cega de luz.

Heróis amarrados a si próprios
rio parado no lodo
tirania do desejo ou privação
a loucura brilhando no rosto.


em Brilho no Escuro - Revista de Poesia, nº. 2, 1ª edição, Porto: Outono de 2009, p. 16.

Ensino Recorrente



Para não se perderem...


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