Discos (266)




We see them burnin' crosses
See the flames, higher and higher.

U2


Agora, que o jantar terminou. Agora, ao reouvir Joshua Tree. Que ouvi pela primeira vez num sótão quente de Inverno em vinil. O meu primo Zé-Tó sentado no sofá "ouve, ouve e depois diz". Agora, passados estes anos todos sem dedos para contar. Digo: "Bullet the blue sky": era o que queria dizer, primo.


(...)


A primeira semana de trabalho está quase a terminar. Parece que há muito começaste a rotina do dia-a-dia. Tentas encontrar o lado poético dela. Mas, na maior parte das vezes, devolve-te apenas o seu cansaço. 

Simone Weil


E, no entanto, nada existe no mundo que possa impedir o homem de sentir-se nascido para a liberdade. O que quer que advenha, jamais ele poderá aceitar a servidão, pois nele existe o pensamento. Jamais cessou de sonhar uma liberdade sem limites, quer sob a forma de uma felicidade passada, da qual, por castigo, teria sido privado, quer como felicidade vindoura, que lhe seria devida através de uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo concebido por Marx é a forma mais recente deste sonho. Tal sonho, como todos os sonhos, sempre permaneceu vão, e se através dele alguma consolação adveio foi semelhante àquela oferecida pelo ópio; é já tempo de renunciar a apenas sonhar a liberdade e decidir concebê-la.


em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, tradução de Maria de Fátima Sedas Nunes, Lisboa: Antígona, 2017, p. 73.

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Hoje tive um encarregado de educação a reclamar comigo porque o seu educando teve de pagar dez cêntimos pela fotocópia do horário escolar. Alegou que o horário deveria ser gratuito. Expliquei que o horário estava afixado à entrada da escola, junto ao pbx. Expliquei que o educando dele poderia ter passado o horário em vez de pagar dez cêntimos, pelo mesmo, na reprografia da escola. O encarregado de educação continuou a reclamar. Eu calei-me.

Mike Tyson para principiantes - Rui Costa



Rui Costa
Mike Tyson para principiantes
Antologia Poética
Assírio & Alvim
2017

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Lentamente tentas regressar à rotina. As avenidas continuam as mesmas. As ruas. E as caras também. A escola e o bairro continuam com os mesmos problemas de sempre. Talvez tenham, no entretanto, surgido alguns que sejam novos. Pelo menos para ti. Há essa esperança. Pelo menos.

Hoje vi...


Hoje vi
Diógenes numa rua
de Lisboa

Enrolava um cigarro
enquanto
um vento forte

soprava
na sua direcção

Uma imagem para o dia



(...)


Escreves de frente para a montanha. É aquilo que ainda te resta. O gato, esse, descansa aos teus pés. O tempo tem passado contigo a fazer caminhadas todos os dias. Não entras na floresta, pois tens medo de torcer um pé e ninguém te acudir. Preferes, por isso, o alcatrão. Nunca foste muito de terra-batida, apesar de apreciares a ocasional caminhada pelo alto da montanha. Restam-te os livros e os cds comprados ao longo dos anos. Nada de novo, afinal.

Lí por aí


Passos Coelho "matou" 192 pessoas


No quadriénio 2007-2010, suicidaram-se em média, por ano, em Portugal continental, 983 pessoas. No seguinte, 2011-2014, em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, esse número subiu para 1031 mortes. O número médio de suicídios por ano no mandato de Passos foi de mais 48 em relação à média dos quatro anos anteriores. Tudo somado, 192 mortes. Sabemos que esse mandato foi de profunda austeridade. O governo cortou a torto e direito em tudo o que pôde e só não cortou mais porque o Tribunal Constitucional não deixou. O desemprego aumentou brutalmente, os impostos também, as prestações sociais baixaram. Podemos, portanto, pensar: o aumento dos suicídios ocorridos neste período decorreu diretamente da governação liderada por Passos Coelho. Podemos, mas só se utilizarmos a técnica - grunha, para dizer o mínimo - que o líder do PSD ontem utilizou para estabelecer uma ligação direta entre alegados suicídios relacionados com o incêndio de Pedrógão e uma suposta falta, por parte do Estado, no apoio psicológico aos que sobreviveram em sofrimento. ("Tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, pessoas que puseram termo à vida, que em desespero se suicidaram e que não receberam o apoio psicológico que deviam.") A declaração foi tão profundamente má que nem se sabe por onde começar. Um político - muito menos o líder do maior partido da oposição - não usa casos individuais de supostos suicídios como argumento político contra quem quer que seja - nunca, em circunstância alguma. Quem faz isso tem de ter alguém que o informe do efeito de contágio na mediatização de suicídios. Se não sabem o que é, googlem. Por outro lado, ninguém pode dizer que um suicídio decorreu diretamente do facto A, B ou C. Um suicídio é multicausal. E as suas explicações são de uma complexidade absolutamente não enquadrável nas necessidades de simplicidade da política. Por último: um líder que usa esta informação sem ter o cuidado de a confirmar (e não se confirmou) tem de se perguntar se ainda está em condições de se manter líder. Portugal precisa desesperadamente de oposição. Resolvam lá isso, se faz favor.


P.S. - Passos pediu desculpa por ter usado informação falsa. Não percebe que não podia ter usado, mesmo se verdadeira.



João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 27 de Junho de 2017.

Bagatelas (2)



Tour de Force
© manuel a. domingos

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Os dias sem novidade e a novidade já teve melhores dias. Coisas há que nos dão garantia de estabilidade, pois são coerentes e não nos causam surpresa. Os dias. 

Livros (151)




Foi um livro que li há muito. Regressei a ele recentemente. Ambrose Bierce é um autor pouco conhecido entre nós, apesar desse hino à ironia e ao sarcasmo de nome Dicionário do Diabo.  Estas curtas fábulas têm um humor fortemente apurado, sendo certeiras na crítica que efectuam aos vários quadrantes da sociedade. Se Mark Twain não tivesse existido, Ambrose Bierce seria citado mais vezes.

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Manuel Alegre é Prémio Camões 2017. Dizer que esta é uma má notícia, quando há tanta desgraça maior a acontecer no mundo, seria um perfeito e disparatado exagero. Mas, para mim, ela é uma má notícia e, acrescento, uma vergonha. Como é óbvio: é apenas a minha opinião. Vale o que vale. 

Jeff Buckley




O Henrique Manuel Bento Fialho lembra que passam já 20 anos da morte de Jeff Buckley. E esses mesmos 20 anos, que passaram, ninguém mos tira. São meus. Ganhei-os com a dignidade possível, que fica sempre muito abaixo daquilo que é esperado de nós. Nos dias mais indignos, quando a canga foi mais pesada (e sacudi-la mais difícil), chegar a casa era como chegar à Terra Prometida. A música de Jeff Buckley nunca me salvou. Mas consolou-me muitas, muitas vezes.

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Enquanto tomava o café — parece que dão trinta e dois graus para hoje — vindo do nada e eu olho para a pessoa, encolho os ombros — pois. parece que sim — e volto a olhar para a chávena de café — mas parece que já desce amanhã — continua no mesmo tom de voz — agora andamos nisto. ora sobe ora desce. uma pessoa nunca sabe com o que contar — enquanto bebe um pouco do galão que pediu — ó marta! isto hoje ficou demasiado quente. já escaldei o céu da boca! — e na rádio o sinal sonoro das oito horas.

Um poema de Heiner Müler


Dentes podres em Paris

Alguma coisa me consome

Fumo de mais
Bebo de mais

Morro de menos


em O Anjo do Desespero, tradução e posfácio de João Barrento, Lisboa: Relógio D'Água, 1997, p. 55.

Requiem por um sonho - Hubert Selby Jr.



Hubert Selby Jr.
Requiem por um sonho
Tradução de Paulo Faria
Antígona
2017

Discos (265)




Cascade
(instrumental)

Andrew Hill


Os vizinhos ainda não reclamaram. Admito que às vezes a música poderá estar demasiado alta. Mas também o vento lá fora sopra e assobia. E ninguém reclama com o vento. Sabem, talvez, «que o vento não é senão / o vazio que muda de lugar». 

(...)


O pessoal a queixar-se com a chuva quando não é chuva mas só e apenas humidade — os alunos a queixarem-se que nunca mais entrego os testes quando a experiência ensinou-me a não entregar os últimos testes logo que os tenha corrigido — a malta preocupada com as reuniões de avaliação e as provas de aferição e os exames de final de ciclo — o chegar a casa e o gato deitado ao sol do fim da tarde e um miar a marcar presença — Andrew Hill pela casa toda até às dez da noite e só a essa hora é que me lembrei dos vizinhos — Selby a dar-me murros no estômago — os olhos a pesarem.

Um poema de Ulla Hahn


Uma delícia

Que amor que encanto faça favor

Ah pois a emancipação é um
chazinho-de-quinta-feira-à-tarde
Todas trazem qualquer coisa para mastigar

Sirva-se sinto-me tão livre por quem é por quem é

O seu marido minha querida não deve beijar
pior que o seu cão Labrador

Não obrigada a linha sabe como é

O que aqui falta é um poeta a invocar o amor
Mas os mosquitos os mosquitos que horror

Minha distinta querida caríssima amiga

Senhora Doutora faça favor
Eu leio-a eu gramo-a eu gabo-a eu mimo-a eu lambo-
-me toda por poemas seus com um chazinho biscoitos?

Obrigadinho


em A sede entre os limites, versão de João Barrento, Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 119.

Livros (150)




Será um livro que me ficará para sempre. Sei também que o irei recomendar aos meus amigos. Andei vários anos para o ler, até que o encontrei a cinco euros no passado Sábado. Li logo cem páginas e fiquei banzando com a crueza de tudo. A tradução de Paulo Faria também é muito boa, não interferindo com o fluir do texto. Selby escreveu um livro do caraças.