Ensino Recorrente



(...)



A editora Guerra & Paz decidiu presentear os leitores do livro Sombras e Falésias, de Dinu Flamand, com os seguintes dizeres. Estão logo na primeira página. Para além de ser um "aviso" escusado, é duma pobreza franciscana (como é costume dizer) e mau-gosto atroz. Sinceramente, não vejo necessidade de tal coisa. E, em certa medida, considero-o ofensivo.

Um poema de Dinu Flamand


pedes-me como outrora para te passar 
pelo buraco da agulha o fio preto
com os meus dedos grossos

e como outrora as lagartas parecem
um barulho de pedras a esfarrapar
a folha da amoreira

os falcões do infinito seguem o descuido
dos frangos
que passam pela vedação dos vizinhos mortos

o esquecimento coze nos fornos do indeciso Verão
as primeiras ameixas
e nas lamas jaz a sanguessuga

em redor do nevoeiro dos recém-chegados
saem os gestos de palavras que não se deixam
puxar para fora

os seus rostos fundem-se na luz interior
não percebes nada e viras-te para mim
como se o fizesses de costas

eu preparando-me para enganar o indizível
leio ao contrário as tuas perguntas
e ao acordar

digo:

«não te preocupes
que eu traduzo-te
mãe»


em Sombras e Falésias, tradução Corneliu Popa, prefácio de António Lobo Antunes, Lisboa: Guerra & Paz, 2017, pp. 20-21.

Sombras e Falésias - Dinu Flamand



Dinu Flamand
Sombras e Falésias
tradução de Corneliu Popa
prefácio de António Lobo Antunes
Guerra & Paz
2017

Um poema de Andreia C. Faria


Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada.
Esse edifício junto à praia, deixai-o
entregue às ruínas,
às folhas do milho,
ao ar salgado.

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.

Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.

Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.

E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.

Ainda são preciosos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.



em Tão bela como qualquer rapaz, Lisboa: Língua Morta, 2017, pp. 54-55.

(...)


Os bárbaros estão no meio de nós talvez porque os bárbaros somos nós. Começam a restar-me poucas dúvidas em relação a isso. É claro que também já tive mais certezas. As certezas, verdade seja dita, sempre foram muito duvidosas. Mas a verdade é que os bárbaros estão no meio de nós porque os bárbaros somos nós.

Discos (252)



Don't be useless
Waste is obscene, waste is obscene

Swans



É vê-los nos seus carros de manhã e à tarde. E sempre o mesmo rosto aformo, cinzento. Filas e filas de carros. Pára-arranca. O mesmo ram-ram de sempre. Pára-arranca nas caixas do supermercado. Novamente os mesmos rostos amorfos e cinzento. E tu: no meio deles. Amorfo e cinzento.

Emanuel Jorge Botelho


Quatro regressos e uma confissão


para a Rosa Maria Martelo


era tudo tão simples.
nas nuvens havia, sempre, peixes desenhados
ou a primeira letra de um amor secreto.

eu tinha a idade de ser ave,
ia deixando penas
dentro dos buracos da noite.

a rua era nossa.
esse chão de juras lavada
do tamanho da lealdade.

meu pai, às vezes, ia levar-nos sumos Royal.
meu pai sabia que a amizade dá muita sede.

quando se fica sem pai
não se sai mais de casa.
a rua fica mais estreita
por causa do medo.



em Os ossos dentro da cinza, Lisboa: Averno, 2017, p. 9.

(...)


A morte de Herberto Helder levantou a questão: quem é, agora, o maior poeta português vivo? Eu próprio respondi (entre um grupo de amigos) à terrível questão. E a minha resposta foi: António Franco Alexandre. Mas repito: foi entre um grupo de amigos. No entanto, as Edições Esgotadas responderam recentemente a essa mesma questão e de forma pública. É um direito deles. E o nome apresentado foi o de Joaquim Pessoa. Sim, leram bem: Joaquim Pessoa. Na minha humilde opinião Joaquim Pessoa não é “o maior poeta português vivo”; considero, até, que nem é grande poeta. Mas essa é a minha opinião. Vale o que vale. Mas, ao menos, a questão tem, agora, resposta. Escusamos andar preocupados, passar as noites sem dormir. As Edições Esgotadas decidiram resolver o nosso problema. Obrigado, Edições Esgotadas. 

Uma imagem para o dia



Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (17)


1. J. Rentes de Carvalho disse que irá votar no candidato da extrema-direita holandesa. O seu voto terá a forma de protesto. O Senhor lá terá as razões dele, que respeito. No entanto, não posso deixar de considerar que são uma imbecilidade de primeira apanha. Já outra coisa é cruxificar o autor e os seus livros, apenas por ter expressado uma opinião política, que não irá ao encontro da maior parte dos leitores, ou das pessoas com um pouco de senso-comum. Mas talvez esses mesmos leitores leiam Céline ou Mishima, elogiando-lhes a escrita e a verve, esquecendo que estes dois autores estão, cada um à sua maneira, conotados com a extrema-direita. Deixam de ser grandes autores? É a velha questão. Mais digo: nunca li um único livro de J. Rentes de Carvalho. A sua prosa não me interessa (já não me interessava na extinta Periférica). Assim, não sei dizer se ele é um bom ou um mau escritor. Apenas sei dizer que não vou ao encontro das suas declarações políticas, enquanto cidadão. A literatura, neste caso, não entra na equação.

2. A confusão gerada com a conferência de Jaime Nogueira Pinto só veio provar uma coisa: os fascistas andam por aí e andam com fome e sede. Tínhamos o PNR. Agora temos a Nova Portugalidade. O seu líder, o senhor Rafael Pinto Borges, escreveu no dia 1 de Fevereiro de 2017: «Passo a passo, documento a documento, Trump vai tornando o mundo mais limpo». E penso que tudo está dito em relação a este senhor. Limpinho, limpinho.

Ensino Recorrente



(...)


Desde o dia vinte e sete de Fevereiro, até ontem, fiz mil quatrocentos e vinte quilómetros. Vi a minha Mãe duas vezes nessas viagens. Os gastos em portagens superam os gastos em gasolina. Mas a vida é assim mesmo. E hoje de manhã, quando entrei no café para tomar a bica, vi um senhor a beber uma média e a comer uma sandes-de-presunto. Talvez estas duas coisas não estejam relacionadas (as minhas viagens + o senhor a beber a média enquanto come uma sandes-de-presunto). Talvez.

Lí por aí


Resgate (Averno, Janeiro de 2017) é, até pelo título, um acto de resistência. O que aqui se resgata é uma forma de escrever sobre livros. Nos textos seleccionados, todos eles provenientes do Expresso, entre 1987 e 2000, quando aí Fátima Maldonado exerceu crítica literária, vislumbramos um tempo que nos é hoje estranho. Sem entrar nos pormenores de estilo devidamente identificados por Manuel de Freitas no prefácio, a estranheza ao ler estes textos, maioritariamente dedicados a obras escritas por mulheres, advém da constatação de várias impossibilidades. Uma delas é a da ampla informação biográfica quando os textos se dedicam a analisar obras de autores com biografia, isto é, autores com passado que mereça ser revelado e relacionado com a obra produzida. Outra impossibilidade à luz dos dias correntes é a da conexão de um texto com o tempo em que foi escrito, apontando leituras desse tempo, mais ou menos testemunhais, cada vez mais vagas «nesta casa do mundo onde à degradação se chama agora divertimento» (p. 113). É sem dúvida um desafio ingrato procurar uma visão do mundo na generalidade dos escritores que preenchem a actualidade, tão arredados que andam desse mesmo mundo dando à luz obras com uma periodicidade matemática. Talvez o cenário seja passageiro, talvez tenha vindo para ficar. Certo é que não está só cada vez mais difícil escrever sobre os outros, está igualmente cada vez mais difícil ler alguém que escreva inteligentemente sobre os outros.

Madalena de Castro Campos


Prova de vida

Talvez a única forma de existir fosse ser
tributável,
fazer-se acompanhar de um documento
de identidade,
do contrato de arrendamento, do extracto bancário,
expor-se em palco nos festivais da moda.
Talvez, haveria quem pagasse,
frequentar os frequentáveis,
ser conhecida dos conhecidos,
tornar o mundo mais evidente,
fazendo parte do pequeno mundo.
Toda a gente, sabia-se, conhecia toda a gente.
Toda gente, supunha, excluía sempre
os excluídos.
Não se propunha contrariá-lo.


poema retirado do blogue da autora.

Ensino Recorrente



Lí por aí


Há qualquer coisa de semelhante entre as chamadas de urgência à Assembleia da República e uma ida às urgências no Hospital. Um tipo espera, espera, espera, espera ansiosamente. No fim, despede-se com uma prescrição de ben-u-ron.


(...)


Hoje é um daqueles dias em que a poesia do mundo deu lugar à canalhice do mundo. Porque, verdade seja dita, o mundo é um canalha. Ponto. Não me venham com eufemismos e coisas como "bom-dia alegria".

Sobre o Poder - Byung-Chul Han



Byung-Chul Han
Sobre o Poder
Miguel Serras Pereira
Relógio D'Água
2017

Discos (251)





Re-Education Through Labour
(instrumental)

Chris and Cosey



É, sem dúvida alguma, uma outra educação: esta do trabalho. A rotina diária do alarme, do duche e em silêncio tomar o pequeno-almoço. No dia anterior ter pensado no vestir, na organização do horário. E não pensar que irá sobrar mês e nunca salário. Como costumas dizer: "quem inventou o trabalho deve ter sido, de certeza, o primeiro patrão". 

Um poema de Álvaro Feijó


Convencional


Todos os dias se lê
«Nada de novo na frente»...
E, para mim, — e para toda a gente —
a prosa militar
encobre
o desespero, a luta, a dor de combater
e de morrer
por quê?

Embora minta
— E por estar afeito
a encobrir-me —
por desistir de olhar o próprio peito,
eu digo sempre
— mesmo não sinta 
«Nada de novo na frente».


em Os Poemas de Álvaro Feijó, introdução de João José Cochofel, Castelo Branco: Evoramons, 2005, p. 44.

(...)


Madalena de Castro Campos tem um novo livro. É uma "poetisa" esquiva. Até hoje não conheci quem a conhecesse (pessoalmente). É claro que isso pouco importa. A sua poesia é provocadora q.b. (e isso basta). Conheço apenas uma fotografia sua (é só procurar no Google) e a mesma levanta muitas dúvidas. A capa do seu novo livro faz lembrar a capa de um outro livro de um outro poeta também ele esquivo. Falo de Vindeirinho e do livro Domésticos (Black Son Editores, 2001). É claro que estes pormenores pouco importam. São apenas curiosidades. Teorias da conspiração.

La marieé mise à nu - Madalena de Castro Campos



Madalena de Castro Campos
La mariée mise à nu
Companhia das Ilhas
2017

Discos (250)



That's the whole problem

Throbbing Gristle



Aquilo que melhor recordas é aquilo que procuras esquecer. Sempre assim foi. É esse o teu maior problema. Isso e uma certa excessividade nas palavras, em alguns gestos. Não suportar a luz do dia ao levantar o estore. A penumbra. Sim: a penumbra sempre foi a tua luz. 

Ensino Recorrente