Um poema de Rainer Maria Rilke


Aí, há homens que vivem, pálidos, sem cor,
e morrem sem saber por que sofreram.
E nenhum deles vê o pobre trejeito
que ao fim de noites sem nome veio substituir
o sorriso feliz de um povo meigo.

Vão ao acaso, aviltados pelo esforço
de servirem sem ânimo coisas sem sentido,
as roupas vão-lhes ficando mais lassas
e as suas lindas mãos depressa envelhecem.

A multidão empurra-os e passa indiferente,
embora eles sejam fracos e hesitantes,
apenas amedrontados cães vadios
os seguem alguns momentos em silêncio.

Sujeitos aos caprichos de um milhar de algozes
e agradecidos pelo gongo de cada hora,
erram, solitários, em torno dos hospitais
aguardando aflitos o dia da entrada.


em O Livro da Pobreza e da Morte, tradução de Ana Diogo e Rui Caeiro, Lisboa: Livraria Snob, 3ª edição revista, 2019, p. 23.

Estados Filosóficos (113)


A facilidade com que chamamos provincianos aos outros é a mesma com que tapamos os espelhos de casa, não vá o diabo tecê-las. 

Técnica da colagem explicada às criancinhas, ou: talvez seja isto a intertextualidade que Kristeva inventou




Carlos de Oliveira, Sobre o lado esquerdo, 2ª edição, 1969, pp. 23-24

(...)


Às vezes, aqui na estrada que dá acesso à escola, há um menino acompanhado pela avó. Ele de braço esticado à espera que alguém lhe dê "mais cinco". Ontem poucos eram aqueles que lhe davam "mais cinco". Cheguei-me junto a ele e zás! Ele olhou para mim, sorriu e depois abraçou-me. Quase me comovi às lágrimas. E ganhei o dia.

Em repeat




Vassillis Tsabropoulos | Arild Andersen | John Marshall
Achirana
ECM
2000

Um poema de Miguel Martins


Às vezes, preciso ler dias seguidos sem atentar ao mundo,
deambular por tempos e lugares e ser um corpo outro,
não o meu. Preciso de mares revoltos na bonança
ou de uma breve lagoa polinésia
quando por aqui estala um pandemónio
e já não há quem ature esta algazarra.
Um refúgio, é certo, uma fraqueza por postais ilustrados,
cores retocadas, trajes tradicionais, a fala rija e doce
de um boieiro bretão.

Acompanha-me agora —
não te levo pela mão, por falta de fortuna,
mas peço que me embales nessa ladainha
que chega da janela ao bateres os tapetes.
Também tu viajas, sem precisares de livros,
talvez para o mesmo sítio, talvez também comigo.
Limpas-me o pensamento, ofereces-me a modorra,
o bem mais precioso nestes dias febris.

Também tu, meu amor, nasceste no exílio.


em O Caçador Esquimó, Lisboa: Fahrenheit 451, 2017, p. 14.

(...)


Mais uma tarde. Mais uma reunião. Agora, enquanto preparo a minha reunião de avaliação final de período, são os Neu! a minha banda sonora. Na sala ao lado há colegas que falam alto. Desta vez a janela está fechada, pois o tempo arrefeceu e parece que vai arrefecer mais um pouco. Cada vez mais sinto a necessidade de reclusão. E isso passa também pela música. Explico: cada vez mais gosto/preciso de ouvir música que não tenha ninguém a cantar, pois as pessoas, até na música, começam a fazer-me comichão. Daí o meu crescente fascínio pela chamada música ambiente, pós-rock e, claro, jazz. A ausência de vozes não me é um problema; antes: vantagem. 

Uma imagem para o dia



(...)


Tenho esta hora livre para o almoço. Aproveito e procuro refúgio numa sala de aula desocupada. Abro a janela. Risos, o som de uma bola, corrida. Ligo o computador. Vou até ao youtube. Procuro a banda sonora para a meia-hora que ainda falta até à próxima aula. The Louge Lizards, aprendi, são sempre uma boa companhia. Voice of Chunk começa a fazer-se ouvir. A sala está demasiado quente e sabe bem a janela aberta mais a leve brisa que sinto nas mãos e no rosto. Há pouco na rua passei por alguém que cheirava a guarda-chuva arrumado há demasiado tempo e que nunca chegou a secar por completo. Tinha a cabeça dobrada sobre o telemóvel de última geração. No outro dia, numa loja de penhores onde às vezes vou ver de livros baratos (e costumo encontrar lá bons livros abaixo dos cinco euros), uma família gritava e barafustava. Recordo que eram cinco mas podiam ser mais. Gritavam e barafustavam porque um queria um telemóvel novo e o outro uma daquelas colunas para dar cabo dos nervos a uma pessoa e o outro ainda uma outra coluna mais potente do que aquela que tinha. A mãe de todos gritava. O pai olhava impávido e sereno para tudo aquilo. E a avó tentava deitar água na fervura mas era prontamente repelida com um sonoro e agressivo "cala a boca", tanto dos netos, netas, como da filha. Observei-os a todos e a roupa deles há muito que tinha deixado de ser. Também ainda não eram trapos, farrapos, mas há muito que tinham deixado o nome delas para trás. Ao todo devem ter gasto à volta de cento e cinquenta euros. Os sapatos do pai estavam completamente rotos e a sua camisola tinha encolhido, ou a barriga dele tinha aumentado. Os óculos estavam todos colados com fita-cola. Cheiravam todos, também, a guarda-chuva arrumado há demasiado tempo e que nunca chegou a secar por completo.

Ainda o caso Cristina Bartleby (2)


Ando nisto dos blogues desde 2001. Já assisti a muita, muita coisa. Plágio de textos são histórias que não faltam. Recordo, em particular, uma delas que envolveu Bruno Béu e António Godinho. Bruno Béu tinha um blogue (Paperback Cell, se não me falha a memória) e António Godinho tinha um blogue (Boca de Incêndio). Um dia sou contactado pelo primeiro, pois sabia que eu conhecia António Godinho. Bruno Béu demonstrou-me por a+b o plágio de Godinho. Fui verificar e era verdade: António Godinho tinha plagiado poemas completos (sem variações) de Bruno Béu. Entrei em contacto com António Godinho e disse-me que Bruno Béu exagerava e tal. Ora: Bruno Béu não exagerava. O plágio era mais do que óbvio. Penso que a coisa ficou resolvida com Godinho a apagar os textos plagiados. No entanto, nunca fez um mea culpa público.

Em Novembro do ano passado, Henrique Manuel Bento Fialho publica uma tradução sua de um poema de Calvetti. Quando li o poema, soou-me familiar. Lembrava um outro escrito por Golgona Anghel. Fui verificar e as semelhanças eram óbvias. Mandei um email ao Henrique e sim: Golgona Anghel tinha ido "beber" ao poema de Calvetti. Disso não há dúvida nenhuma. E fê-lo sem referir a fonte. Há quem defenda que não é necessário fazê-lo, que um autor pode decidir omitir, pois faz parte do "jogo poético" e tal. Há até quem chame àquilo "intertextualidade". Mas como Golgona Anghel é uma académica com créditos firmados em Portugal, bem como poetisa publicada na Assírio & Alvim (detida pela Porto Editora), o silêncio à volta do caso foi ensurdecedor. Mas a dúvida permanece: plágio?

Agora tudo regressa com o caso de Cristina Bartleby. Mas aqui tudo é diferente. Aqui o plágio existe sem qualquer sombra de dúvida e ninguém consegue justificar tal facto com a "intertextualidade", ou com o "jogo poético" (ao contrário do caso de Golgona Anghel). Todavia, continua o silêncio ensurdecedor, pois ninguém quer colocar o dedo na ferida, pois isso envolve apontar o dedo também ao editor. A malta prefere assobiar para o lado, como se nada tivesse acontecido.

Discos (299)



Gio
(instrumental)

Markus Stockhausen


Há uma suave melancolia no ar. Talvez seja da chuva. Talvez seja da mudança da hora. A janela aberta e um pássaro lá fora: lugar comum das coisas simples. Pelo caminho uma chuva miudinha e a gabardina. O café no lugar de sempre. A repetição dos gestos. 

Ensino Recorrente



(...)


A caminho do trabalho passo por várias pessoas. Todas elas têm um ar triste. Aposto que também vão a caminho do trabalho delas. 

(...)


Ando a ler Vidas Caídas - Diário de um repórter na Amazónia, de José Amaro Dionísio. Um relato forte. E aquilo que mais assusta é que foi publicado em 1993. Nem quero imaginar aquilo que o autor escreveria caso regressasse, hoje, aos locais por onde passou. 

Agnés Varda (1928-2019)



Ainda o caso Cristina Bartleby


Ficamos a saber aqui que Cristina Fernandes informou os editores da Douda Correria da fraude que é o livro O primeiro poeta que despi. Informou-os em Outubro de 2018, mês do lançamento do referido livro. Sabendo-se que houve uma apresentação no Funchal no dia 25 de Outubro, só me resta pensar (e tentar acreditar) que Cristina Fernandes apenas avisou os editores da Douda Correria depois do dia 25 de Outubro.

Discos (298)





When Shade Was Born
(instrumental)

Harmonia 76


Pouco a pouco as sombras vão desenhando o fim do dia no chão da sala. Pouco a pouco. Centímetro a centímetro. E lá fora a cidade. Pouco a pouco. Cada vez mais tua. Também. 

Um poema de Elisabete Marques


Náufrago


Perdido estás em terra firme.
Poderás inventar casa, hortos,
rostos, imaginar biografias,
os quilómetros bem estudados
— de onde vens, para onde vais —,
poderás riscar o tempo
nas paredes, a soma completa, traço a traço,
mas nada atenua a estranheza: aqui estás,
com susto, suor, coxas, saliva; não sabes,
porém, tomar das tuas fibras o tremor.

Caídos nós, como a água na folha fresca
e, no tanque, os peixes variáveis,
— faltar-nos-á talvez a lâmina, o golpe da ternura.
Esperemos calmos, sobre o areal; nunca se pressagia
o que a vaga trará consigo de manhã.


em Apartamentos (AAVV.), Lisboa: Língua Morta, 2016, p. 25

(...)


A verdade é que acredito que o caso de Cristina Bartleby não será caso único. Acredito que, com o passar do tempo, mais casos serão descobertos e revelados. Mas que fique claro: uma coisa é/são influência(s) e outra, completamente diferente, é o plágio. O caso de Cristina Bartleby é puro plágio. Não há qualquer dúvida sobre isso. As influências existem: ora a favor ora contra. Tentar colar plágio a uma influência é desonestidade. E dizer que o plágio é uma influência, ou intertextualidade, também.

AVISO à navegação


O caso Cristina Bartleby ou Cristina Freitas Branco, reportado aqui e aqui, pela Cristina.

Scott Walker (1943-2019)



(...)


Vonnegut disse-o: «A vida não é maneira de tratar um animal.». E como todos sabemos, porque já alguém o disse, a vida é a principal causa de morte. Morre-se muito e morre-se demasiado cedo. Aos quarenta e um, por exemplo. E ninguém deveria morrer aos quarenta e um. Nem mais cedo.

José Amaro Dionísio


Dança

     Os opositores da tourada sangrenta teriam muito que horrorizar-se com o modo tradicional como são mortos os búfalos na Amazónia, não propriamente sob as balas da caçada mas em prosaica criação doméstica. É também um ritual de dança, em que a relação entre animal e homem não admite erros de cálculo nas aproximações, mas muito mais cruel. Desde logo porque o búfalo está preso, de olhos vendados, a um poste. Depois leva um tiro na cabeça, ou se for preciso dois, para amortecer-lhe a fúria. E só aí entra o matador, de faca na mão, a consumar a morte. Envilecido pela prisão e pelas balas, ciclone de pé, o búfalo parece a cada instante que vai arrancar o poste e transformar a agonia numa última cavalgada. Cai e levanta-se, flecte as pernas e arremete. De cada vez que vai ao chão o matador aproxima-se, numa fracção de segundo, e corta-lhe mais um bocado das carótidas. Primeiro de um lado, depois do outro. Isto dura 15, 20, 30 minutos. Até que por fim o animal tomba solitário sobre um lençol de sangue.


em Vidas Caídas - Diário de um repórter na Amazónia, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1993, pp. 17-18.