11.2.12

Versões: Antonio Orihuela



Eu nasci no ano em que Peter Townshend escreveu “My Generation” para os Who.

Eu, que coloquei todo o meu corpo fora da janela do carro do meu pai
enquanto ele fazia a chiar a curva da Cuesta de las Doblas,
em San Lucar, Sevilha.

Eu, que dancei slows em Palos de La Frontera.

Que morria de vergonha quando falava ao telefone
mas telefonava à minha namorada quatro vezes por dia.

Eu que atropelei um Guarda Civil com um Seiscentos
e que capotei na estrada entre Lucena e Bonares numa Dyane,
que dei quatro voltas dentro de um 850 no regresso de Trigueros.

Eu, que tirei mais soutiens do que cuecas,
que amei todo o ser vivo
que o tempo me ofereceu.

Eu, que continuo a passear pela praia
assobiando ao fantasma do meu cão

em novembro

as ondas como se nada disto
tivesse acontecido, realmente…

… Hoping to die before I get old.


Antonio Orihuela, «Yo nasci…», Comiendo terra, Biblioteca Babab,www.babab.com/biblioteca, Setembro de 2000, pp. 89-90

10.2.12

Um poema de Primo Levi

Agave

Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?

10 Setembro 1983


versão de Luís Filipe Parrado a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 133; e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª ed., Londres, 1992, p, 59.

(...)


Tenho um sonho: gostaria de um dia viver num qualquer país do norte da Europa. Mas tenho preferência pela Suécia ou pela Noruega. Mais pela Noruega. Eu sei que é moda toda a gente dizer que os países do norte da Europa é que são bons e essas coisas do costume. Eu gostaria de lá viver, gostaria de ter essa experiência: o frio, a neve, as paisagens, um certo sentido de comunidade que eles parecem ter (mas que não sei se realmente existe). Mas nasci num país com muito sol, pouco frio e que dizem ser de brandos costumes. Não me lembro de ter sido educado entre brandos costumes. Os meus pais inculcaram em mim sentido de justiça e de responsabilidade. Talvez não tenham consciência disso, mas foi o que fizeram. Justiça e responsabilidade doa a quem doer. Nem que seja ao próprio. É claro que tenho os meus podres, esqueletos no armário. E é claro que ir viver para a Suécia ou para a Noruega não iam resolver isso. Mas queria ter essa experiência, para depois poder dizer que sim, aquilo é bom; ou não, aquilo é só conversa.

9.2.12

O Senhor das Pocilgas - Tristan Egolf


Tristan Egolf
O Senhor das Pocilgas
tradução de Miranda das Neves
Teorema
2005

O livro anda por aí em estantes virtuais a 26 euros mais uns trocos. Em sites de leilões também se pode comprar. A mim custou-me 3 euros no passado Sábado, na livraria Almedina Estádio, em Coimbra. Quando saiu em 2005 namorei-o durante bastante tempo. Só o comprei agora. E que boa compra.

Tristan Egolf


Seis dias mais tarde, ao receber o primeiro cheque de pagamento, verificou que ao seu já de si patético ordenado líquido ainda tinha sido retirado o correspondente a um dia inteiro de trabalho para pagar o equipamento obrigatório. Inicialmente ficou indignado por esse desconto adicional, mas por fim foi forçado a aceitá-lo, sabendo que isso significava que tinha sido admitido como empregado permanente e que conservaria o seu posto de trabalho quando fossem dispensados os seus colegas. Tinha superado as exigências da sala de abate com uma perseverança invulgar e, fosse como fosse, alguém das altas esferas o tinha notado. Era vagamente reconfortante.

em O Senhor das Pocilgas, tradução de Miranda das Neves, Lisboa: Teorema, 2005, pp. 167-168.

Lí por aí


Gostar de alguém pelo que escreve é muito semelhante a gostar de alguém por dinheiro. Apesar das palavras não valerem um tostão furado.

Cristina em Malone Meurt

Versões: Antonio Orihuela


QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (8/8)



Adeus mamã, adeus papá, adeus família, adeus.

Adeus nome da única rosa, chuva púrpura.

Adeus monstro que vivias debaixo da minha cama,
adeus nervos, medos, inocência, almofada.

Adeus doenças, quedas, tremores, cansaços,
já estou pronto para fechar os olhos,
prometo-vos que não vou trabalhar amanhã.
Adeus camioneta do lixo, não penses que vou estar acordado.

Adeus bolinhas de anil, abismo azul
no qual um dia se agarrou o desenganado cinzento sujo do mundo.

Adeus venenos, conversas, pressas, carteiras, famas, hipócritas,
já não acrescento nada.

Adeus brinquedos, bifaces, livros, pedras de quartzo,
capalas, sementes de mostarda,
cães lutadores do Nebraska,
portas que se abriam e onde me encontrava a mim próprio,
submarinos amarelos, Budas, estrelas,
Vía Láctea e música das esferas.

Adeus Daniel, adeus Jesus, adeus David,
adeus a todos os que me viram no meio do
centeio e me escolheram.

Adeus Méhari, amargor, Angola meu terra,
areia da Líbia.

Adeus beijos, Marrocos, salada Asihla,
fotos azuis com a Ángela no lavadouro de Chaouen,
campaínhas e yantras de cedro do Líbano da minha casa de Mérida.

Adeus minha menina, extensão de mim,
membro errante que me transmites a tua dor.

Adeus Mar, adeus maravilha.

Adeus hinos, adeus CNT, memória, sacrifício,
pássaros que cantastes toda a noite.

Adeus Juan Ramón,
recebido por uma imensa multidão
num porto de Buenos Aires
como o maior poeta das letras hispanas,
enquanto que em Moguer, na tua terra,
atiravam-te pedras e chamavam louco.

Adeus Juan de Yepes, Francisco de Assis,
Marpa o tradutor, Milarepa o mágico,
leão de Manjusri, sandália de Bodhidharma,
sorridente Padmasambhaba, brincalhão Seng Sung,
adeus mestres, lamas de açafrão, loucas nuvens vermelhas,
santinhos radiantes da minha casa.

Adeus irmão sol, irmã lua, irmão lobo,
adeus irmãos meus, namasté.
Adeus ácidos, tablas dobradas pela tristeza,
incensários, branca, fumeiros, psilocibes,
rosa lisérgica havaiana, corpos, cinzas,
esperanças, paraísos, sofrimentos, ignorância,
sonho, engano, sinais, descobertas, borracheiras, satoris,
diamantes cortadores de todos os afectos.

Adeus aprendizagens, koans, tantras, mantras, sutras,
mudras, orações, versículos, revelações,
canções, livros.

Adeus poemas, não haverão mais palavras para a mente.

Adeus Big Bang, não ficarei para ver o final,
porque tudo caíra.

Tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,

tudo

Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.

Ocupação do espaço (7)


Charles Bukowski ou depois de ler a imortal literatura do mundo (4/4)



Bukowski recusa a complexidade da maior parte da literatura Beat (lembremos, por exemplo, os romances de William S. Burroughs) e a metaficção do experimentalismo pós-moderno que grassou na literatura dos anos 60. Em vez disso, Bukowski opta por uma literatura mais livre, mais simples. É claro que nada disto é inocente. A pretensa simplicidade da escrita de Charles Bukowski pretende ser uma resposta àquilo que Gay Brewer designa como «collegeboy finger exercises». É claro que o autor de Mulheres sabe que expondo o seu trabalho à crítica o mesmo será comparado com aquele dos seus contemporâneos. Daí, talvez, a opinião generalizada de que a escrita de Bukowski é repetitiva, pouco “trabalhada” e muito pouco intelectual. Mas a vida, afinal, não é repetitiva, pouco “trabalha” e muito pouco intelectual?

8.2.12

Versões: Wallace Stevens


Da Superfície das Coisas

I

No meu quarto, o mundo está longe de ser compreensível;
Mas enquanto caminho verifico que é feito de quatro montes e uma nuvem.


II

Da minha varanda, perscruto o ar amarelado,
Leio o que escrevi,
“A Primavera é como uma rapariga a despir-se”.


III

A árvore dourada é azul.
O cantor cobriu-se com a sua capa.
A lua está nos vincos da capa.


Wallace Stevens, «Of the Surface of Things», em Harmonium (1923), inserido em Collected Poems, Londres: Faber and Faber, 2006, pp. 50-51.

Em repeat


Leonard Cohen
Old Ideas
2012

Não é a capa mais feliz. Mas as músicas, Senhores e Senhoras, as músicas!

Fernando Assis Pacheco


8. Vive direito. Vive claro. Evita enganar-te neste ponto.


«Regras para Viver em Campo de Ourique» em Nuno Costa Santos, Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, Lisboa: Tinta da China, 1ª edição, 2012, p. 135.

(...)


(clicar na imagem para aumentar)

Escrevo este texto na cama. Não estou doente. Apeteceu-me apenas vestir o pijama e enfiar-me na cama. Às vezes é a maneira que encontro para deixar lá fora o mundo e as suas camelices. Os dias têm passado e dou comigo a emocionar-me com as pequenas coisas – e daí não sejam tão pequenas. No outro dia mandei uma sms a um amigo a dar conta disso mesmo. Deve ter pensado este gajo não está bom da cabeça. Mas, no fundo, aposto que me entendeu. Ando a ler a biografia de Fernando Assis Pacheco e é-me difícil não me emocionar em cada uma das páginas que leio. Ficamos com a impressão que Assis Pacheco era mesmo boa pessoa. Depois leio este texto do Henrique e emociono-me. Os homens não choram foi coisa que nunca me ensinaram; pelo contrário. Há, ainda, a foto que se reproduz em cima. E mais não digo.

As Palavras do Corpo - Maria Teresa Horta


Maria Teresa Horta
As Palavras do Corpo - Antologia de Poesia Erótica
Dom Quixote
2011

Versões: Antonio Orihuela



QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (7/8)


Adeus Jacques Brel* electrocutado enquanto eu brincava
na praia aos treze anos.
Adeus constituição, mentiras, coras de flores,
monarquia, parasitas, papas, nazis, templos,
campos de concentração, estádios, frenopatas,
parlamentos que fedeis como a retrete da prisão,
adeus prisões que cresceram até nos incluírem a todos.

Adeus neolibelarismo, flores do Afeganistão,
revolução sandinista, selva da Amazónia,
florestas do Bornéu de oferta no IKEA.

Adeus John Lennon, Ian Curtis, Rodésia, Tito,
Miles Davis, golpes de estado, neutrões, Truffaut,
CD’s, PSOE, Malvinas, Carlos Cano, Ajiji,
São Miguel de Allende, Mazatlán, Ángel,
Guadalajara, águas quentes, cubatas, horchatas,
haoma, soma, neve, maná.

Adeus aos parques, aos vagabundos,
aos bancos com gravata e câmaras de vigilância
para evitar que roubem os ladrões que roubam lá dentro.

Adeus TV, calamidade,
que provocaste durante o meu século mais tarados que
todas as pragas do Egipto.

Adeus Dylan, vendido,
respostas que se foram com o vento
e que hoje cantam os marines enquanto bombardeiam o Iraque.

Adeus SIDA, que tiraste a alegria do mundo.

Adeus sorrisos que conquistastes a minha adolescência,
quem se atreve hoje a vos ver.

Adeus CEE, fantástica Chernobyl
o dia antes de ir pelos ares e contaminar até
a costa oeste americana.

Adeus cometa Halley, não te vi hoje e temo
que não voltarei a ver-te passar.
Adeus Chagall voador, adeus beijos roubados,
labiríntico Borges.

Adeus Julian Beck que escreveste os versos
do livro fechado da revolução.

Adeus cansado coração, dor
já podes descansar.





Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.


* o autor confunde Jacques Brel com Claude François. Questionado sobre o assunto, o autor referiu que era essa a recordação que tinha da sua infância (Brel e não François), decidindo, assim, manter Brel em vez de François.

Ocupação do espaço (6)


Charles Bukowski ou depois de ler a imortal literatura do mundo (3/4)


Bukowski, como um dia referiu o seu editor John Martin, nasceu com a consciência de que era um génio. Publicou pela primeira vez em 1944, com vinte e quatro anos, mas só aos trinta e cinco é que começa a publicar poesia. É a poesia que constitui grande parte da bibliografia do autor, apesar de ter publicado seis romances e várias colectâneas de contos, perfazendo, ao todo, mais de quarenta e cinco livros publicados em vida.
O problema com os génios é que dificilmente se lhes perdoa toda e qualquer “falha” ou todo e qualquer “defeito”. O génio é suposto ser um paladino da ordem e do socialmente aceitável. Ao génio não é permitido o desvio. Daí, talvez, o facto de a genialidade e a loucura andarem de mão dada. A fronteira, entre ambos, é muito ténue. O que é ser génio? O que é ser louco? Salvador Dali seria um génio-louco ou um louco-génio? Bukowski tinha consciência de tudo isso. De outra maneira não se entende a sua iconoclastia. A sua relação com as mulheres poderá ser justificada tendo em conta essa iconoclastia.
Na altura em que Charles Bukowski escreveu e publicou os primeiros romances (Correios e Factotum), os ideais da segunda onda feminista (iniciada nos anos 60) estavam a ganhar força na sociedade. Era, por assim dizer, “moda”. Ora Bukowski era tudo menos de modas e talvez tenha visto uma oportunidade única para irritar uns quantos (ou umas quantas), fazendo justiça à fama que começava a granjear. No entanto, não é de todo errado pensar que a hostilidade em relação às mulheres é fruto da sua infância, fruto da relação de um pai obsessivo com uma mãe passiva. E não podemos esquecer que toda a obra de Bukowski gira em torno de uma certa marginalidade dominada por homens: «In his underground society he describes a purely masculine world, in wich women are hardly more than splashes of a puddle through wich hardy fellows traipse, mostly drunk, or in wich they wallow.» (Karin Huffsky).

7.2.12

(...)


Durante algum tempo questionei-me sobre a hipótese da “moderação” dos comentários, aqui no blogue. Não o fiz por três razões:

1.       Acredito que os comentários nos blogues são um espaço privilegiado de diálogo: dos leitores com o autor dos textos; e dos leitores com outros leitores. No entanto, o conteúdo dos comentários é da responsabilidade dos autores dos mesmos, mas também da minha responsabilidade, pois sou eu que faço a “gestão” deste espaço;
2.       Poderia restringir os comentários a pessoas com conta no Blogger ou no Gmail. Decidi não fazê-lo;
3.       A moderação de comentários não me livraria de insultos à minha pessoa ou a terceiros, pois implica a leitura dos mesmos para posteriormente os moderar.

Acredito na Liberdade. Contudo, sou apologista do seguinte: quanto maior é a Liberdade maior é a Responsabilidade. É claro que não sou perfeito neste ponto. Nem pretendo atingir a perfeição. Mas procuro todos os dias ir, sempre, de encontro a este pensamento.

6.2.12

Pensamento do dia


Morphine
The Other Side
Good
1993

Estados Filosóficos (37)


Em vez de «Toda a poesia já foi escrita», dizer «Toda a poesia está por escrever».

Versões: Antonio Orihuela


QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (6/8)



Adeus Nino Rota,
que adormeceste os meus sonhos adolescentes de fim de verão com a tua música
                                                                                                                [melancólica


Adeus migalhas de amor, nuvens de fumo que contra o tempo forrei com papel
      [ de prata,
como ciscos de erva ainda vos moveis no meu coração.

Adeus aos Andes, a Böll, aos camponeses,
à Comuna de Paris, à grande beleza de Cádiz,
à frágil luz de Roma, aos veludos, al fascio,
adeus Pau Casals, adeus ETA,
adeus cormorão Carrero Blanco.
Adeus Erice, adeus sul.
Adeus Argentina, não chores por mim como uma mulher
porque isto, Primo Levi, já não é um homem.

Adeus Bem Gunn, adeus John Silver, adeus tesouros,
ilhas desertas, Stevenson, papagaios,
nunca mais ireis povoar os meus sonhos de criança.
Adeus Enkidú, Hércules, Orfeu, Gilgamesh, Jabato,
Super-Homem, adeus panteão de super-heróis,
secretos polidores das minhas fantasias infantis.
Adeus Bruce Lee e as noites de verão cheirando o dondiego do Cinema Central.
Adeus às ruas suspeitosamente vigiadas,
adeus piscinas, homens que chamavam cavalo
ou diamante, ou raio de lata ou visão longínqua.

Adeus Sam Shepard, hotéis, Nick Drake, cravos
portugueses, Watergate, Sex Pistols, Franco morto
aos oitenta e dois anos sem que ninguém o reformasse antes.
Adeus Jesús López Pacheco,
ferida à saída está a seta.

Adeus Ford, que nunca foste ao Vietname.
Adeus Nixon,
que acabaste com o abastecimento de cannabis do México
e fizeste entrar do sudoeste asiático heroína
suficiente para matar dez gerações de jovens e,
de caminho, o sonho de toda a esquerda americana.
Adeus burguesia, lixo,
nunca mais me dirás como viver a minha vida.

Adeus Sodoma, adeus Gomorra, adeus estátuas de sal
e cabeça aberta de Pasolini assassinado pelos serviços secretos italianos.

Adeus Guerra Civil, mortos meus nunca
o suficientemente chorados,
adeus gente sem sepultura, adeus anarquistas.

Adeus Gernika, muito menos bombardeada do que Almería mas basca.

Adeus templo de Poseidón no Cabo Sunion,
Giraldina solidária de Sevilha,
Mesquita cheia de padres em Córdova,
impossível Alhambra de Granada,
Ramblas rebeldes de Barcelona,
mausoléu de treze anéis de Swayambunath,
bosque sagrado de Dakshin Kali,
adeus aos três mil degraus do templo de Vajra Yogini em Sankhu,
aos monjes em transe do mosteiro de Matho
e à Maitreya que já não virá do Ocidente.

Adeus oriente, Alexandre, lábios como gumes, lolitas.

Adeus Etiópia, já não és um álbum da Patti.


Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.

Tristan Egolf


Exceptuando alguns comentários à margem feitos de tempos a tempos alguns anos mais tarde, a opinião geral de John sobre a sua carreira de onze anos na escola de Holborn (Elementar e Secundária) era limitada, quase exclusivamente, a uma declaração surpreendente. Com efeito, ele declarava que conseguia fazer um mapa detalhado da configuração de todo o terreno que se avistava de cada uma das janelas das salas de aula, mas que nem toda a interminável eternidade chegaria para começar a compreender o que se passava dentro da sala.

em O Senhor das Pocilgas, tradução de Miranda das Neves, Lisboa: Teorema, 2005, p. 48.

Ocupação do espaço (5)


Charles Bukowski ou depois de ler a imortal literatura do mundo (2/4)


Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 1920, filho de pai germano-americano e mãe alemã (o avô materno de Bukowski era um ex-oficial do exército alemão). Os primeiros três anos de vida são passados na Alemanha, em contacto directo e diário com a língua alemã. É então que a família decide mudar-se para os Estados Unidos da América, escolhendo a cidade californiana de Los Angeles como destino final.
O início de vida num novo país não foi fácil para Charles Bukowski. Foi em Los Angeles que ele teve, pela primeira vez, contacto com a língua inglesa, pois até então, em sua casa, só se falava o alemão. A relação com o pai também não foi fácil: era um homem violento, arrogante. Em contrapartida, a sua mãe era submissa à vontade do pai, nunca se opondo a nada que ele decidisse, por mais estranho e descabido que fosse.
Tal facto criou em Bukowski um grande e poderoso sentimento de revolta, pois a única pessoa que o deveria defender contra os ataques de fúria do pai, não o fazia. Bukowski chegou mesmo a dizer que o pai foi quem o ensinou a escrever, a ser escritor. O pai parece ser o motor de arranque de toda a escrita de Bukowski. Poderemos perguntar: sem a “ajuda” do pai Bukowski teria sido escritor? Talvez a resposta seja sim.

(...)



Ainda há quem se preocupa comigo. E dá-me uma lição de moral.

5.2.12

Ocupação do espaço (4)


Charles Bukowski ou depois de ler a imortal literatura do mundo (1/4)


O mal de grande parte da literatura é tentar ser complexa. Quando tenta não ser, falha. É pouca a literatura que consegue ser não-complexa e ser, ao mesmo tempo, literatura. É claro que uma leitura na diagonal – sendo aquilo que mais vezes acontece com a maior parte dos escritores que lemos – poderá induzir o leitor em erro, fazendo crer que a literatura não-complexa, que tem o privilégio de estar a ler, é ridícula e não é boa literatura. Um exemplo: Charles Bukowski.
O autor norte-americano é associado à condição de marginal, de proscrito. É também associado a um estilo de vida que muitos consideram pouco aconselhável para a saúde. Esse é o primeiro erro: acreditar que Bukowski é só álcool, mulheres e fornicação. Não vou dizer que o não seja. Grande parte da sua obra gira em torno destes três temas. Contudo, eles são apenas o ponto de partida para muito mais.
Charles Bukowski é, sem dúvida alguma, alguém que conhece profundamente o ser humano. O ser humano é o principal personagem da obra bukowskiana. O ser humano e a sua relação com o mundo. Disso não devemos ter a menor dúvida. O seu alter-ego, Henry Chinaski, é a prova: «Bukowski created a literary persona named Henry Chinaski as a vessel for expressing his alternative view of the world, (…) Trough Henry Chinaski, Bukowski is able to attempt to reveal the absurdity of the world with an element of distance and without succumbing to despair.» (Daniel Bigna). É claro que, para muitos, Chinaski não preenche os requisitos necessários para ser um verdadeiro personagem; segundo o cânone Chinaski não possui a complexidade nem a profundidade, por exemplo, de Ahab, Meursault ou Raskolnikov.

4.2.12

Pensamento do dia


Tom Waits
Going Out West
Bone Machine
1992

Versões: Antonio Orihuela


QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (5/8)


Adeus Uberto, Tito, Antonio, Ángeles, Eladio, Jorge,
Quique, Lucas, Paco, Felipe, Isaías, Manolo, Isabel,
Ramón, Vicent, César, José Luis,
adeus gatos brigões na praça do meu tempo.
Adeus irmãos, pérolas transparentes,
princípios de felicidade que vos dissolveste no pó
porque, que outra coisa se podia fazer.

Adeus Castaneda, adeus don Genaro,
adeus don Juan Matus,
adeus espíritos da colmeia e do deserto,
águias e cactos.

Adeus Nerchung Pa, misericordioso monge
que celebraste um leilão para um par de estranhos europeus
solitários aventureiros
para lá do Vale da Flores Invisíveis,
na gompa de Hunder,
enquanto um Maitreye de olhos rasgados nos observava comovido
e ria-se para iluminar o universo.
Queimando-se diante daquela luz, sentado a meditar,
completamente vazio, três reverencias.

Adeus a Demócrito, a Leucipo, a Heráclito
a tomar mil vezes banho no mesmo rio
e a Empédocles que tinha sido
antes de perder-se no Etna
um pássaro, uma flor e uma rapariga.

Adeus Spinoza, entidades mentirosas, paixões tristes,
corpos do espaço exterior,
corpos das regiões interiores
e autodeterminação aos corpos.
Adeus necessidade, propriedade, escravidão, moral,
poder, estatuto, ambição, autoridade,
conceitos e deveres absurdos que nunca foram novos.
Adeus ética, liberdade, potência,
adeus a ver tudo ao contrário,
adeus a colher pela raiz aquilo que ninguém ousa ver,
fio vermelho, razões, safanões.

Adeus conhecimento, educação, complexos, ego,
deixo-vos a vocês todos.
Adeus enganos, feridas, verdades absolutas,
cartões de crédito, tristeza, saudade, impotência.

Adeus vazio que não consegui encher de realidade
e tive que tapá-lo com utopias.

Adeus jogos, cânticos, assombro, gozo explosivo,
êxtase,
adeus pureza que já não tenho.

Adeus ao correio,
já posso mandar à merda a chave do apartado 574.
Adeus aos pintores solutrenses de grutas,
aos helicópteros,
às carniceiras praças de touros,
a Fellini balançando num baloiço a pedir uma mulher.

Adeus hopis, kiwas, zunis, sioux, navajos, dogons,
árabes, adeus deserdados da terra.

Adeus transístores dos antigos jogos da pelota,
petróleo negro e aquecimento global
Adeus quiosques, monopólios, inflação,
reduções salariais
e exigências de competitividade para todos
menos para aqueles que mandam.

Adeus respostas que esqueciam as perguntas
e faziam falar de dinheiro.
Adeus sábios, mãos nos olhos a fingir ver,
circo completo de idiotas,
que sois quando o evidente se torna evidente.

Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.

Trindade Poética



No momento em que escrevo estas linhas, eis a minha Trindade Poética.

3.2.12

(...)


O poeta e crítico literário David Teles Pereira sobre, em parte, o meu ciclo de textos Crítica Literária: o vazio. Por muito disparate que os meus textos possam ter (o que admito, pois não se tratam de textos de teor académico; é apenas uma reflexão, boa ou má, relativamente ao que eu penso sobre o assunto), fico contente que tenham suscitado, também, uma reflexão da parte de David Teles Pereira.


Adenda (Sábado, 04 de Fevereiro): este texto de M.C. Dioniso sobre o tema.

2.2.12

Pensamento do dia


The Golden Palominos
Ambitions Are
Dead Inside
1996

Versões: Antonio Orihuela


QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (4/8)



Adeus aos The Who, a Michael McClure a cantar
cheio de peyote até à raiz dos cabelos,
adeus The Clash, adeus Spanish Bombs,
adeus Joe Strummer
que ouviste entre os olivais de Víznar
o grito dos mortos
e fumaste um charro
em memória de Frederico García Lorca.

Adeus Angelic Upstars,
os aqui debaixo nunca mais estaremos unidos.

Adeus punk, extinta raça
que somente quiseste atravessar a rua.

Adeus Imagine, adeus dezoito anos,
adeus Pablo Neruda,
namorado machista de raparigas, meu capitão.
Adeus às canções de amor,
às revoluções laranja,
aos que se sentam nos bares
e bebem para salvar o mundo,
aos animais domésticos, aos amigos, às praias,
às unhas dos pés pintadas de cor-de-rosa,
às marismas, ao riso das gaivotas,
aos grãos de areia dentro do grão de areia.

Adeus a todas as manhãs do mundo,
à viola da gamba que nunca aprendi a tocar,
ao maestro Saint Colombe e ao engomado Marais.

Adeus às Brigadas Vermelhas e a Baader Meinhof,
aos jogos secretos dos filhos da burguesia
aborrecidos com o mundo.

Adeus Bosco, Grünewald, Cranach, Brueghel, Goya,
Staël, Schwitters,
já sois o espelho do mundo onde arranhar os olhos.

Adeus à fome, à Greenpeace, a Buñel, ao sonho,
às cartas bomba, às fendas,
a Pedro G. Romero,
ao Parque da Maria Luísa no inverno, aos sobretudos,
aos chapéus,
às malas de veterinário violetas cheias de Arte,
ao pão duro, aos robalos secos,
aos convencionais aspirantes a Erasmus
e aos crentes no Estado,
aos clones, aos betinhos cor-de-rosa de centro direita,
aos canis de lumpemproletariado, ao tunning e ao tecno,
adeus vivos apesar de mortos,
perdidos por completo, presos a redes estúpidas,
cheios de objectos inúteis,
cegos a tudo o que é claro e próximo,
aqui, aqui, adeus, desde o autocarro digo-vos adeus.

Adeus trabalho de segunda a sexta-feira
onde fazias de conta que trabalhavas
e o patrão fazia de conta que pagava,
adeus empregado do mês, adeus imbecil do ano.


Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.