Estados Filosóficos (102)


Às vezes acontece um anão gritar "Sou um gigante!". Acontece e não é de estranhar, principalmente quando o anão se sentou ao lado de gigantes e com eles conviveu e com eles trabalhou. Aquilo que é estranho é todos à volta acharem que ele é realmente um gigante. E temerem o anão que têm à frente.

(...)


Tendo em conta a fase de misantropia literária que agora atravesso, talvez não seja boa ideia começar a ler A Literatura no Estômago, de Julien Gracq. No entanto, e depois de ler as primeiras páginas, começo a perceber qual a origem do eco, que mais parece um cacarejar, que costuma vir nas páginas de um jornal diário.

(...)



De tarde, em conversa, confessei que atravesso uma fase de "misantropia literária", pois não me apetece ir a apresentações de livros, leituras, ou até a cafés onde sei que posso encontrar este mais aquele. E evito frequentar livrarias independentes, salvo uma rara excepção. Mas tudo o resto me aborrece, cansa e deprime. A verdade é que o "meio literário" nada tem de glamoroso. Lamento, mas não tem. A lama, às vezes, pode chegar aos joelhos. E depois uma pessoa chega todo sujo a casa e sentimos que aquilo demora a sair. Já para não falar naquilo que por vezes ouvimos, mesmo sem querermos ouvir. Corte-e-costura: tenho a minha parte. Não sou santo. E isso levou-me a concluir que são muito poucas as vezes em que se debatem realmente ideias.

Um poema de Robert Louis Stevenson


Fim da Viagem


Deixa que a tua alma encontre uma
Âncora neste mundo da matéria. Fundeia aqui o teu corpo
Que desde já este espectáculo imutável seja
A gravura nos teus olhos; e quando soar a hora
E a verde paisagem escurecer de repente
Os últimos, os que acompanharem o teu cavalo no sonho
Acompanharão o teu corpo morto.


em Poemas, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 177.

Uma imagem para o dia


Diálogos (29)



William Somerset: I just don't think I can continue to live in a place that embraces and nurtures apathy as if it was virtue.

David Mills: You're no different. You're no better.

William Somerset: I didn't say I was different or better. I'm not. Hell, I sympathize; I sympathize completely. Apathy is the solution. I mean, it's easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It's easier to steal what you want than it is to earn it. It's easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.


em Sete Pecados Mortais (Seven) de David Fincher (1995)

(...)


No Sábado passado, durante um almoço com amigos de há muito, uma das amigas disse — gosto cada vez menos de pessoas pois cada vez mais tenho menos paciência para elas — e, verdade seja dita, poucos foram aqueles que estranharam tal afirmação, tendo em conta quem a proferiu. Todavia, tal frase ficou a martelar na minha cabeça, pois também eu começo a sentir o mesmo. Tendo em conta a profissão que tento exercer, tal situação torna tudo um pouco mais complicado. Não sou anti-social, ou antipático. Mas cada vez mais faço um esforço para ser socialmente adequado. 

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (23)


1. Há anos Umberto Eco referiu que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis". Recentemente, numa teia social (prefiro utilizar o termo "teia", pois considero "rede" um eufemismo) as palavras de Eco voltaram a ecoar (desculpem o trocadilho fácil), sendo partilhadas a uma velocidade vertiginosa. Nada contra a partilha. Mas não posso deixar de me interrogar: aqueles que partilham as palavras de Eco têm consciência da ironia do acto? ou consideram-se, apenas, fora delas?

2. Dizer que vivemos num "tempo estranho", ou num "tempo perigoso", começa a ser rotina, banal. A verdade é que todo o tempo é "estranho" e "perigoso" para quem nele vive, sobrevive. Contudo, as várias notícias que, na última semana, têm vindo a público, só nos podem assustar. Exemplo: o CEO da Renault referiu, recentemente, que os próximos anos irão ser muito difíceis e que a indústria automóvel tem que encontrar soluções rapidamente. Isto para justificar a entrada da Renault no mercado chinês e, imagine-se!, com um carro eléctrico. O que quererá ele dizer com anos muito difíceis? Difíceis para quem? 

Estados Filosóficos (101)


"Poetas Sem Necessidades". Eis um título que me agrada para uma antologia de poesia. Seria uma antologia com poucos nomes. Principalmente se os poetas nela representados tivessem entre 35 e 50 anos.

Estados Filosóficos (100)


Poetas com necessidade de placa nas ruas, posteridade e dia-santo: há por aí uns quantos. E têm o hábito de ir à pesca com rede de malha-fina, para nada lhes escapar. Têm por hábito adequar os poemas aos convites, ou às revistas para onde os enviam. São uma espécie de franco-atirador vesgo: disparam em todas as direcções mas sem terem, eles próprios, uma direcção. Isto é: têm pouca espinha e vendem-se por menos de trinta dinheiros.

Um poema de Rolando Sánches Mejías


Arqueologia


Encontraram, no fundo dos túneis, ratazanas de metro e meio de comprimento.
Iluminaram-nas com lanternas (os russos disseram olá! olá!) e as ratazanas fugiram, bamboleantes e caóticas, os seus olhinhos vermelhos feridos pela luz.
Um dos russos pediu vodka e outro deu-lhe vodka e então disseram algo sobre a realidade.


em Poesia Cubana Contemporânea, tradução de Jorge Melícias, selecção, prefácio e notas de Pedro Marquês de Armas, Lisboa: Antígona, 2009, p. 125.

(...)


No pátio da escola, hoje pela manhã:
— Mas tu disseste que gostavas dele.
— Deves estar a ouvir pelo cu, porque não disse nada disso.

Estados Filosóficos (99)


Sempre que ouço "Revolução ou morte!", penso sempre que a morte é para aqueles que não querem a Revolução. Ou, quando instituída, se opõem a ela.

(...)


Turiya and Ramakrishna, de Alice Coltrane, é uma daquelas músicas que me transportam para um Sul que ainda não vi. Sei que o tenho em mim, pois o Sul é, para mim, mais do que um ponto cardeal: é uma maneira de ser e estar. 

(...)


Descubro o álbum Faces (1980) de John Clark. Neste admirável mundo novo nem tudo é fascismo na segunda volta. Estas descobertas fazem-me ganhar o dia. 

Paulo da Costa Domingos


A espera encobre o fingimento
de vinda do novo mal radical.

Claro que não é o sofrimento
um postulado da razão prática.

São ilusões perdidas, e não
forças mediúnicas ou vidência.

Que aguardam a degenerescência
dos pequenos poderes interiores.

E o rebelde, por isso, espera
lhe venha apetite transgressor.

Ou um sinal televisivo,
posto q' contemple: o delay.

Bate muito com os punhos
sobre a mesa da batalha.

Automutila-se, tatua no corpo
vitórias falsas sobre o real.


em dizimar, Lisboa: Ed. Viúva Frenesi, 2018 p. 7.

Discos (292)


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Dawn
(instrumental)

Kayhan Kalhor


para Gil de Carvalho


O mundo e as suas camelices. Necessidade de ser pequeno. Recolhimento. Pensar no tempo que passa. Irremediavelmente. Envelhecer ser um exagero para quem tem quarenta e um anos. O trabalho. Os horários. Viagens que não são viagens (cf. Basho, Chatwin, Onfray). Pensar em coisas inúteis. Concluir que, afinal, tudo é inútil. Esboçar um sorriso com tamanha e sábia conclusão. Ouvir música. Ler poesia. Ser. Ou pelo menos tentar.

Henri Godard

     
     Ce que l'humanité révèle d'elle-même à un garçon de seize ans soumis à ces traitements, Céline allait lui donner un nom, qu'il ná pas inventé mais qu'il a marqué de son empreinte: c'est la «vacherie».


em Céline, Paris: Éditions Gallimard, Collection Folio , p. 56. 

(...)


Tive Francês do quinto ano ao décimo primeiro, mas com a entrada do Inglês no sétimo ano, o primeiro passou para segundo plano, tendo sido muito complicado para mim ter notas sofríveis no secundário. No entanto, ontem, decidi comprar Céline, de Henri Godard. Penso que tenho anos suficientes de francês para o ler. É certo que algumas palavras me escapam por completo, mas não perco a ideia geral do texto (o que acontece, por exemplo, quando tento ler poesia no original francês). Isto tudo para dizer que continuo sem entender o total desinteresse editorial por Céline. É certo que, em Portugal, estão editados os romances Viagem ao fim da noite, De Castelo em Castelo (ou Castelos Perigosos), Norte, Morte a Crédito e De três em pipa. Para quando a publicação de Féerie pour une autre fois, Guignol's band, Rigodon e Normance

Apenas um exercício



Um homem e uma mulher. Sedução mútua. Beijos, abraços, dança. Uns copos. Quarto. Mais sedução. Tudo consentido. De repente, a mulher diz:
Tenho aqui este dildo e quero enfiá-lo no teu cu.
O homem diz num tom assertivo:
Não.
A mulher insiste. O homem mantém a resposta:
Não.
Mas, mesmo assim, a mulher enfia-lhe o dildo no cu.

Um poema de Reinaldo Arenas


Não é por Hamlet que morre a suicida


Não é por Hamlet que morre a suicida,
mas é pelo rio que passa murmurando,
sempre entre barbacãs carcomidas,
a horrível trama do porquê e quando.

Não é por amor que inicia a partida
para as águas que a vão precipitando,
mas porque já enfeitada e na comida
uma mosca ante o seu nariz passou voando.

Ofélia entre as águas vai adormecida,
pensam alguns que a vão olhando.
Infelizes, desconhecem a investida

que um peixe às suas nádegas vai dando.
Triste final, depois que já não há vida
do prazer de viver vai desfrutando.


em Poesia Cubana Contemporânea, tradução de Jorge Melícias, selecção, prefácio e notas de Pedro Marquês de Armas, Lisboa: Antígona, 2009, p. 69.

Discos (291)



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The lights look bright,
When you reach outside,

Joy Division



Regresso àquele quarto fechado no tempo. Ao ruído de fundo de cassetes carregadas de assombro, mais os discos que trazia da casa de um primo. Foram a minha iniciação na traficância dos sentidos e dos dias. Não vivia no centro da cidade. Não vivia numa cidade. Não precisava: ela vinha até mim, num jogo de sombras. Estava longe, eu sei. Em vez das suas ruas, catedrais, jardins, fábricas: a montanha. Aquela que estava sempre a dizer: sai, sai daqui antes que seja demasiado tarde.

(...)


Uma certa misantropia começa a apoderar-se dos meus dias. O pior é no trabalho, pois estou rodeado de pessoas e lido directamente com elas. Sabe-me bem chegar a casa, descalçar-me, procurar o gato e passar-lhe a mão pelo dorso. Depois, escolher um cd e ouvir um pouco de música. É claro que há os livros: um na mesinha-de-cabeceira e outro no braço do sofá. Os vizinhos, por estes dias, ainda não se fazem ouvir, nem de manhã nem à noite. 

(...)


Quando iniciei este blogue, em 2005, estava longe de imaginar que ele durasse tanto tempo. É o meu terceiro blogue. O primeiro chamava-se Pedra no Charco (2003-2004). O segundo foi o Limites de Luz (2003-2004). Estive, depois, algum tempo sem escrever (o que teria sido uma bênção para muitos se assim continuasse: sem escrever nada). Mas em 2005 decidi voltar à carga. E ainda por aqui ando: uma vezes mais assíduo. Outra vezes: nem por isso. O bom de tudo isto foram outros autores de blogues que conheci pessoalmente e de quem fiquei amigo até hoje: Henrique Manuel Bento Fialho, Luís Filipe Cristóvão e Rui Almeida. O resto, aquilo que por aqui vai ficando, não me interessa.

Discos (290)


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Maybe I've changed
Just tell me was this all in vain?

Dinosaur Jr


Com o Verão: as tardes passadas no rio. Os corpos em sobressalto. Cigarros fumados com tiques de gente crescida. Fazer o que apetecia. Sem medo. Rir. Ríamos muito, naquelas tardes.