José Mário Branco (1942-2019)




Quando um dia a minha Professora de História do 6º ano nos deu a ouvir "Eu vim de longe, eu vou pr'a longe" e nos ensinou a letra que nós cantámos numa aula, eu ainda não sabia quem era José Mário Branco. "Inquietação" será uma canção-poema que irá para sempre ficar em mim. Obrigado, camarada.

(...)


Acabo de me servir de um pouco de armagnac. Gosto de palavras que terminam com o mesmo som: armagnac, cognac, Dvořák.

*

Um dia, no País Basco francês, participei num almoço ao ar livre. À minha frente, na mesa, uma Senhora dos seus oitenta anos, o seu filho de cinquenta e cinco (lembro-me perfeitamente), um Senhor com boina basca e lenço vermelho ao pescoço (ex-Resistência Francesa). A certa altura, a Senhora entorna o vinho tinto que estávamos a beber. E, naquele tom que só os franceses conseguem, começou "oh! oh! oh!", rapidamente arranjou maneira de criar uma barreira com a toalha de papel que cobria a mesa e começou, de imediato, a sorver o vinho. O filho, de cinquenta e cinco anos (lembro-me perfeitamente), começou naquele tom que só os franceses conseguem "mamã! mamã! mamã!", enquanto se ria a bom rir. E eu, do alto dos meus quinze anos, ri também.

*

No fim do almoço, o Senhor com boina basca e lenço vermelho serve-me um pouco de armagnac. Pega num cubo de açúcar, embebe-o no armagnac e leva-o à boca. Demora-se. Depois, bebe o armagnac dum só trago. Aprender, às vezes, não custa nada.

Revisão da matéria



(...)


Hoje o despertador não tocou. Acordei às 06h50. Deveria ter acordado às 06h30. Não gosto quando isto acontece. Não gosto de fazer tudo à pressa: tomar o pequeno-almoço à pressa, tomar o duche à pressa, vestir-me à pressa. Gosto de ter tempo para fazer as coisas devagar.

Memória futura (4)


Em 2009, a extinta OVNI, editora do Entroncamento (se fosse de Lisboa talvez a malta se lembrasse mais dela), publicava Casa da Misericórdia, de Joan Margarit. Foi a primeira tradução portuguesa do poeta. Primeira. A tradução foi da responsabilidade de Rita Custódio e Àlex Tarradellas. O livro foi apresentado na Casa Fernando Pessoa, no dia 14 de Dezembro de 2009, com a presença dos tradutores e do autor. E aconteceu seis anos (seis anos) antes de Misteriosamente Feliz (tradução de Miguel Filipe Mochila, Língua Morta, 2015). 

Livraria Edições 50kg




Fico a saber, através do Miguel Martins, que o Porto irá ter uma nova livraria. Será a Livraria Edições 50kg, de Rui Azevedo Ribeiro. Irá estar localizada na Rua Faria Guimarães, nº. 137. Será a partir de dia 29 de Novembro, com horário de Terça-feira a Sábado das 10h00-13h30 e das 14h30-19h00. 

Em repeat




Arild Andersen | Vassilis Tsabropoulos | John Marshall
The Triangle
ECM
2004

(...)


Descobri, recentemente, os The Residents. Tem sido uma bela descoberta e um admirável mundo novo. Já existem desde os anos 70 do século passado (ainda acho estranho escrever "século passado" quando estou a referir-me ao século XX), mas só os descobri há 3 semanas. Tenho andando a ouvir os álbuns disponíveis no youtube. Ouço-os por ordem cronológica. Até à data ouvi Meet the Residents (1974) e The Third Reich 'n Roll (1976). Gosto do sentido de humor associado à desconstrução dos temas.

(...)


Ler Thomas Bernhard é sempre terrível. Facilmente somos arrastados para aquele mundo claustrofóbico, mortal, doentio. A espiral é evidente.

Rémy Martin



Cognac

(...)


A voz de Iggy Pop atravessa a minha cabeça. Funhouse (1970), dos The Stooges, é um álbum do catano. Aquilo que mais me agrada na música é isto: em 1970 os The Stooges editavam Funhouse; os Black Sabbath davam a conhecer o seu álbum homónimo; os Led Zeppelin editavam Led Zeppelin III; Morton Feldman dava a conhecer ao mundo The Viola in My Life; Miles Davis lançava Bitches Brew; Nick Drake o seu Bryter Layter. E de certeza que foi lançada muita xaropada. Muita mesmo. Mas a diversidade está lá e há lugar para ela. A música tem essa capacidade.

(...)


Comecei ontem a ler Betão de Thomas Bernhard. Não é novidade que Bernhard é um dos meus autores preferidos e de eleição. Gosto da sua escrita e da coesão da mesma. E quando falo em coesão não me refiro só aos temas; refiro-me, também, à coesão formal e estilística dos seus romances. Bernhard foi um dos grandes escritores da segunda metade do século XX. Não tenho qualquer dúvida sobre isso.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (27)


1. Muitos são aqueles que estão indignados com o fim dos "chumbos", ou reprovações, ou retenções, no ensino básico. Não sei se essas mesmas pessoas conhecem os vários decretos-lei que regem tal figura. A retenção de um aluno, dentro do ciclo que o aluno frequenta, há muito que é uma medida de carácter excepcional. A reprovação em final de ciclo obedece a regras estabelecidas. Mas existe. Assim sendo, não é totalmente verdade que os "chumbos", ou reprovações, ou retenções, vão terminar. Depende muito daquilo que um professor titular (no caso do primeiro ciclo) entenda, ou o conselho de turma (nos restantes ciclos). Há, sem dúvida, uma pressão dissimulada do Ministério da Educação para que o maior número de alunos transite de ano (temos de fazer boa figura nos relatórios da OCDE, verdade?). Há pressão de certos Directores de Escola para que os alunos transitem de ano e exista o menor número de "chumbos" (é um pouco ingrato, mas a verdade é esta: uma escola com poucos "chumbos" é uma escola que tem mais hipóteses de receber mais alunos; um maior número de alunos garante o lugar a professores e a auxiliares. É a economia a funcionar. Ou melhor: é o capitalismo selvagem a funcionar). Digo isto com conhecimento de causa: já assisti a reuniões onde, entre-linhas, é dito mais ou menos isto: "se existirem muitos alunos a chumbar os pais não colocam cá os filhos e vão para outra escola, deste modo vamos perder turmas; se perdermos turmas perdemos crédito horário e se perdermos crédito horário não há lugar para todos". E, caríssimos, a verdade (em última análise) é esta. Por muito má que nos possa parecer.

2. A principal questão, no meio disto tudo, é que a maior parte das pessoas não acredita, não confia nos professores que existem. Estes foram, durante anos, vexados, humilhados e tratados como incapazes naquilo que fazem. Sempre se ouviu dizer: "não sabes fazer nada: vai dar aulas". Mas agora o Ministério da Educação diz que vai ajudar os alunos com mais dificuldades académicas. Só que não diz como. Vai colocar mais professores nas escolas? Se sim: onde estão eles? É público: há falta de professores. Vai utilizar os professores existentes? Os mesmos que foram vexados, humilhados,  tratados como incapazes e que agora estão mais velhos, cansados, sobrecarregados com turmas numerosas (o limite mínimo são, neste momento, vinte e seis alunos por turma) e desmotivados devido a anos de congelamento nas carreiras? O Ministério da Educação e os seus responsáveis têm sempre ideias muito brilhantes e muito boas. Mas são os professores, no terreno (como é costume dizer) que têm de "descalçar a bota", pois têm a "autonomia" que alguns andaram a reivindicar durante anos (ainda um dia haverá um estudo sobre o nefasto que é e foi a "autonomia escolar"). Só que a bota está muito apertada. E todos nós sabemos o que nos apetece fazer quando uma bota nos fica muito apertada.  

Raoul Vaneigem

     
     Nunca como hoje a história nos tinha permitido lançar um olhar tão penetrante sobre o destino inumano que nos está reservado e nunca como hoje uma tal lucidez se revelou tão cega sobre a hipótese de o revogar.


em Pela abolição da sociedade mercantil por uma sociedade que exalte a vida, tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira,Teorema, 2003, p. 59.

Indignar-me é o meu signo diário (20)



(notícia: aqui)

Em 2008-2009, quando trabalhei em São Teotónio, presenciei in-loco as (des)condições em que muitos destes trabalhadores viviam e trabalhavam. Um dia vi uma divisão que era só colchões pelo chão, onde dormiam muitos. A cozinha era um fogão de campismo. Casa-de-banho? Se alguém conseguir chamar casa-de-banho àquilo: boa sorte. Fiquei revoltado. Mas o que mais me revoltava era ouvir certas pessoas dizerem: "lá eles vivem pior do que aqui" ou ainda "lá não ganham o que aqui ganham". Um dia desafiei um colega meu a viver e a trabalhar como eles. Ficou calado. Mas agora, de certeza, essas mesmas vozes irão dizer "agora até net e ar condicionado e relva têm!". Serão as mesmas que comecei a ouvir em 2008-2009, agora reforçadas com um deputado do Chega a dizer "as verdades". Mas a verdade é apenas uma: essas pessoas, que consideram que estes migrantes têm demasiados "luxos" e que vêm para cá roubar o trabalho ao português-de-gema, continuarão a ficar caladas, se alguém lhes voltar a dizer que podem sempre trocar, indo para lá eles. Porque o português-de-gema (e que reivindica para si aquilo que depois não quer ver aplicado nos outros) não quer fazer o trabalho que estes migrantes fazem, a ganhar o que eles ganham, nas condições em que eles vivem. Nem por toda a net, ar condicionado e relva do mundo.

Um poema de Ada Salas


Qual a terra do náufrago




senão a grande profundidade
que embala a sua miséria.



em O Lugar da Derrota, tradução de Ricardo Ribeiro, desenhos de Sara Belo, s/l: Sr. Teste, 2019, p. 19.

O Lugar da Derrota - Ada Salas



Ada Salas
O Lugar da Derrota
Tradução de Ricardo Ribeiro
Desenhos de Sara Belo
Sr. Teste
2019

Estados Filosóficos (119)


— Tu pensas em tudo.
— Não. Caso isso acontecesse: enlouqueceria.

As mãos no teclado


Procuro administrar as minhas dúvidas
Só assim conseguirei ultrapassar
os dias sem cair na fácil e rápida loucura

A verdade é apenas esta: não é
fácil envelhecer nem sentir o tempo
Há muito deixei os regressos para
aqueles que procuram ser felizes
porque duvidei sempre da felicidade
e mais duvido quando não é minha
Um jardim sem sol poderá ser triste
para muitos mas não é para mim
já que há nele uma promessa de silêncio
impossível de concretizar se o sol o invadir
mais as gentes com os seus risos e certezas
de dias sempre e gloriosamente assim

Deve ser triste ir pela vida fora
com a promessa da terra prometida
a redenção para lá de qualquer pecado
Depois encontrar apenas o frio o peso
da terra sobre os ossos e aquela escuridão
húmida que vemos nos filmes
Por isso cada vez mais duvido de tudo
o que me dizem ocultam reiteram
Não quero ser apanhado de surpresa
e desiludir-me: para isso basta estar vivo

Desejo apenas com o dia terminado
chegar a casa e com espanto sentir
o dever cumprido e não o peso da canga
ou o osso moído pela desonra do trabalho
Sentir a  tarde morrer lá fora
e no meu peito a vertigem duma única
simples certeza

Mas — ó deuses — duvido

(...)


Quando a campainha toca para o intervalo: há gritos por todo o lado. Apesar de numa escola o silêncio nunca estar presente, nos intervalos o ruído chega a ser ensurdecedor. 

(...)


Só estive uma vez nos chamados trópicos. E outra vez numa ilha algures no Mediterrâneo. O ar, em ambos os lugares, era pesado, dizem, devido à humidade. A roupa colava-se ao corpo. Era-me difícil respirar. Hoje, aqui, sinto o mesmo. Tenho a roupa colada ao corpo. É-me difícil respirar. E, depois, penso: "talvez sejam assim todos os meus dias". Mas, de certeza, que exagero.

Em repeat



John Taylor
Rosslyn
ECM
2003

Anónimo disse... (11)

Rareando o argumentário lá voltamos nós ao costumeiro cotão. Bom, qualquer coisa é preferível aos teus versinhos mal costurados. Mais algum tiro ao lado?
29 de outubro de 2019 às 14:25


Argumento, apenas, com aqueles que assinam com o seu próprio nome, caro anónimo. Sei que não é forte este argumento. É o que consigo arranjar. E como o anónimo tão bem sabe: sou fraquinho nesse ponto, como em vários outros. Mas não sei quem é mais fraco: se eu ou o caro anónimo. Explico: parece-me que o anónimo só se mete com pessoas que não são da sua altura, do seu tamanho. Prefere bater nos pequenotes, pequenitos, pequeninos. Talvez a pequenez seja o seu apanágio, o seu lugar de eleição. Ou melhor: a sua verdadeira natureza.  

(...)


Saí de casa com demasiada roupa vestida. Fiz o caminho até ao posto dos correios e cheguei lá todo transpirado. Mas, ao menos, não havia ninguém e consegui entregar tudo sem me demorar muito. Está abafado. Húmido. Vejo na rua pessoas de calções e t-shirt. Outros com demasiada roupa. Como eu.