Em repeat



Um poema de Ivone Mendes da Silva



Os Sátiros

Dos sátiros, sinto-lhes o riso
mas nunca o perfil deles é exacto
debaixo do meu olhar que apenas sabe
a sombra táctil das árvores alongadas
quando a insolência do crepúsculo
rasga a luz e a desdobra
sobre as erráticas evidências do mundo.

Procuro o lago, o espelho, a casa,
a marca de sangue na raiz da rua.
Devolve-me o tempo o verbo que lhe dou.

Sigo por esta rota como se fosse
o mais preferível dos caminhos,
uma bússola de símbolos onde ancorar os dias.
E transbordam de quotidiano
os sátiros invisíveis,
com o seu rido comum
afeito à indiferença dos sinais.


em Antologia Poética Cintilações da Sombra 2, coordenação de Victor Oliveira Mateus, Fafe: Labirinto/Núcleo de Artes e Letras de Fafe, 2014p. 38.

(...)


Três da tarde. Roupa estendida. Louça arrumada. Estas pequenas coisas.

*

Com os dias quentes e cheios de sol começam as obras aqui em algumas casas da vizinhança. Ouvem-se martelos e rebarbadoras. Às vezes uma ou outra voz de comando. Passam comboios à hora marcada e lá longe o mar. Há quem duvide que aqui desta janela vejo o mar. Ainda ontem alguém olhou para mim com ar desconfiado. Mas a verdade é que vejo o mar daqui. Lá longe. Em silêncio. O mar.

*

A única certeza que tenho é a permanente dúvida.

(...)


Um dia irei retirar-me sem deixar rasto ou migalhas de pão para os pardais. A comunicação com os amigos será reduzida ao mínimo. Irei dizer apenas onde me podem encontrar. A porta estará aberta nos dias pares. Os ímpares serão só meus.

*

Sempre que acabo de beber café olho para o fundo da chávena. Não procuro no resto daquilo que ali fica discernir qualquer tipo de futuro. É apenas um hábito que tenho. Isso mais levar a chávena ao nariz e inspirar fundo.

*

Hildegard von Bingen. Um nome que me custa muito pronunciar.

Lí por aí


Desde o início da década de 1980 na edição, Francisco Vale é hoje o mais destacado editor literário português e somou mais um espetacular triunfo ao conquistar Agustina para o seu catálogo. Depois de resistir ao fenómeno da concentração editorial e crescer durante a crise, aliando o rigor dos critérios a uma gestão cautelosa, a Relógio D’Água tornou-se o exemplo a seguir.

Diogo Vaz Pinto, 30 de Abril de 2017


*

Com uma figura que, há décadas, se anda a oferecer a quem queira explorar as sinistras possibilidades do nosso meio literário, um autor que extraia dele uma feição romanesca, Francisco Vale poderia ser descrito como um desses homens envilecidos pela decepção, o escritor falhado que se vinga dos deuses da literatura encarnando o papel de um cadaveroso editor, aquele que, em lugar do entusiasmo de um leitor, regressando das suas expedições entre o sonho e a vigília com algum texto alucinante, mordido e com uma estranha infecção, desejando cuspi-la no sangue de outros, nos surge apenas como um carcereiro orgulhoso com a sua colecção de reclusos, regozijando-se com os uivos abafados que lhe chegam das celas por baixo do seu escritório.

Diogo Vaz Pinto, 03 de Julho de 2020

Em repeat



(...)


Ulisses


Nada me satisfaz mais
do que barcos
a arder

E apenas
me deram barcos
para comandar

Que pode afinal
um homem fazer
se tudo à sua volta

é mar?


em Persona (antologia poética), Coimbra/Fundão: do lado esquerdo, 2015, p. 35.

(...)



Beard oblige

(...)


A verdade é que não tenho nada de relevante para dizer. Acrescentar. Ainda assim arrisco umas palavras a lápis no pequeno caderno que anda comigo quase sempre.

*

Pelos vistos os dias continuam confinados ao discernimento e à inteligência. Começo a ficar farto de certos comentários que às vezes vou lendo por aí. Mas pior do que isso são os comentários que às vezes vou ouvindo também para aí. Para alguns deles fico sem paciência e só me apetece gritar e gesticular com aqueles que os fazem. Mas não. Ainda tenho alguma inteligência e discernimento. Por isso não grito nem gesticulo. Fico antes com cara de quem está a encolher peidos. Daqueles grandes. Mas só eu sei a cara que estou a fazer. A máscara vai-me valendo neste ponto também.

*

À minha frente tenho vários livros que ainda não li. Outros que talvez nunca irei ler. Mas ali estão eles à espera. Impassíveis. Silenciosos. Talvez seja essa a sua grande virtude: a paciência.

Em repeat



Um poema de María Zambrano



Multidão


Há mortos que não fazem ruído, choro, e é maior o seu pesar.

Um não humano. Mas de consciência e não de vida. O indiscernível, o máximo, sem cessar, incessante. Ruído de passos humanos, dos pés sobre a terra, sobre o solo, o peso do homem, a sua mancha, sua impureza.

Peso e consciência.

Peso e ritmo.

Asas. Os anjos cinza.

O protagonista: apenas reconhecido. Leves traços, não que o diferenciem, mas que o façam ser notado; simplesmente.

A multidão reaparecerá sempre: multidão sobre o asfalto, sobre o pó, sobre a lama.

Labirinto de louro e murta. A Primavera.


em Poemas, tradução de Ricardo Ribeiro e desenhos de Maria Condado, s/l: Sr Teste, 2020, p. 16.

Poemas - María Zambrano



María Zambrano
Poemas
Tradução de Ricardo Ribeiro
Desenhos de Maria Condado
Sr Teste
2020


(...)


De regresso a Lisboa.


*

Desde o início daquela coisa dos aplausos às dez horas da noite que um grupo de vizinhos cumpre com devoção religiosa o ritual. E tal como me acontece com outras devoções religiosas não consigo entender a persistência destas pessoas que aplaudem e gritam e assim esperam (esperam?) promover um sentido de comunidade. Ou de pertença. Ou de outra coisa qualquer que me escapa. Apenas me enervam os aplausos. Considero-os escusados. A mais. Isto é: não fazem qualquer sentido.

*

Está mais vento aqui do que em Manteigas embora ontem a esta hora também lá.

(...)


A esta hora a brisa forte faz os ramos da cerejeira bater no vidro de uma das janelas da sala. Faz lembrar aquela cena no filme "Doutor Jivago": o jovem Iúri tenta adormecer mas o vento não o deixa mais um ramo de árvore que bate incessantemente no vidro da janela. Só que eu não sou Iúri. Apesar de aqui nesta casa me sentir sempre criança.

*

Num lado da parede a família do meu Pai. Do outro lado da parede a família da minha Mãe. A Morte aos poucos vai ganhando nelas cada vez mais espaço.

*

O gato sossegou finalmente. A viagem deixa-o sempre muito nervoso. Alterado. E depois há os cheiros. As cores. As janelas abertas que o chamam. Mais os pássaros que o provocam com voos tangentes à varanda.

Estados Filosóficos (141)


"Há dois tipos de artistas: os objectivos e os subjectivos." (Sakutarō Hagiwara). E depois há ainda os outros: os que pensam subjectivamente que são artistas quando objectivamente não o são.

Estados Filosóficos (140)


Há uma leve brisa a entrar pela janela da sala. Não é a brisa fresca do início da noite. Ainda assim: uma leve brisa.

Estados Filosóficos (139)


Tenho uma tendência natural para o pessimismo. Mas a verdade é que sou apenas alguém atento à realidade.

Um poema de Inês Francisco Jacob


de início
todos se espantam muito
com o sismo
mas o que realmente
permanece
nas crónicas
é a réplica

o mesmo com tudo
o que resta


em Sair de cena, s.l: (não) edições, 1ª edição, 2020, p. 31.

Calamidade




Calamidade
António Cabrita | Carlos Ferreiro
Gianfranco Sanguinetti | Júlio Henriques | Nuno Moura
Paulo da Costa Domingos | Sandra Andrade
Barco Bêbado
2020

Estados Filosóficos (138)


Há palavras que só a fotografia consegue dizer. Falo de certos cambiantes de luz e de sombra. Ou da maneira como o azul do céu pode ser visto através das folhas da laranjeira que me dá sombra.

(...)



A velha questão: Chet Baker é um bom vocalista ou um bom trompetista? Sou daqueles que considera que Chet Baker faz bem as duas coisas. Mas há quem discorde. E eu entendo-os. Gosto, por exemplo, de ouvir este álbum enquanto cozinho. 


Decidi fazer Imperador assado no forno com batata, tomate, cebola e pimento. Mas antes temperei-o com vinho branco, sumo de limão, salsa, alho, um pouco de pimenta preta e louro. Trinta minutos é tempo suficiente.


Enquanto isso: a cebola, o tomate e o pimento apuravam um pouco. E a batata levava um aperto. Mas só o suficiente. Não exagerar.



Depois de trinta minutos no forno, o Imperador foi acompanhado por uma Salada de Alface e Pepino. Mais um vinho verde fresco. Leira do Canhoto nunca falha, principalmente a 2.29€ (em promoção).


Ensino Recorrente