Um poema de Ruy Duarte de Carvalho


Uma árvore no Zaire


III


De casas preservadas na infância
eis o que eu sei das coisas, para além do tempo:

organizam o porte e a trajectória
na consentida face do silêncio.
Petrificam-se mansas, no interior da pedra
e o abandono é nelas, já vencido
a hesitação que habita as coisas móveis.

Assim se lhes constrói a face
e amadurece
uma presença alheia que as revela.


em A Decisão da Idade, Lisboa: Sá da Costa, 3ª edição, 1977, p. 41.

(...)


Acordas para um novo dia. O gato tenta ajeitar o corpo ao seu lugar no sofá. Roda para um lado e roda para o outro. Não encontra posição, mas não desiste e deita-se na mesma. Talvez o seu exemplo.

Discos (284)



Under the Volcano
(instrumental)

Tomasz Stanko


Há um berbequim na casa ao lado e o gato esconde-se debaixo da cama: olhos assustados. Abro um livro. Leio uns versos que me batem fundo. O dia vai a meio, é certo. Mas sinto que o mundo parou sobre o seu eixo e que assim irá para sempre ficar. Nada digo, escrevo, penso. Fico apenas suspenso naquela última estrofe: «Das palavras,/ com que esqueço e perdoo e maldigo/o destino de nunca/saber aonde vou, o que levo, aonde chego.».

Raul de Carvalho


Pequeno poema à pressa


Nas folhas que tenho
sobre a mesa, ponho
a alma que ganho,
porque o mais é sonho.

Porque o livre espanto
da morte, visita
de novo este corpo
que não acredita.


em Poesia, Lisboa, Portugália, s/d, p.60.

(...)


Quando fores ao rio: vai avisado. A água talvez mais fria. Protege os ossos da melhor maneira possível. 

(...)


Os dias passam. Sabes as horas pelo movimento das sombras dos móveis, pelo silêncio no prédio. Às vezes ouves uma ambulância ao longe. A cidade. 

Sou do tempo



Sou do tempo
em que a União Europeia
interditou vísceras
de vaca

fossem elas
loucas ou não

Nessa mesma
noite no café do Senhor
Fausto houve dobrada
para todos

e Tuborg 7.5
a cinquenta paus

Hoje dia onze
de Junho de dois
mil e dezoito
um país

dessa mesma
União Europeia

interditou
uma barco cheio
de pessoas famintas
de atracar

num dos seus
portos

prestando-lhes auxílio
dando-lhes asilo
Confundiram
as rimas:

chutaram-nos
para o exílio

do mar
de onde vinham
ao som de gritos
de "Victória!" no twiter

Anthony Bourdain (1956-2018)


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(...)


No pátio da escola existem três jacarandás. Confesso que me têm passado ao lado. Mas hoje reparei neles, pois ao chegar as suas folhas enchiam parte do pátio. 

(...)


Ontem, um aluno, com 16 anos, disse que não acredita que existam ossos verdadeiros de dinossauros nos museus. Perguntei-lhe se acreditava que tinham existido dinossauros. Disse que sim, mas que era impossível existirem ossos verdadeiros nos museus, "porque os dinossauros morreram há muitos milhões de anos e nada dura tanto tempo". Depois, um outro, também com 16 anos, disse que não acreditava que o homem tivesse ido à lua. E acrescentou: "O quê? O homem foi à lua em 1969!? Impossível! 'Tá a gozar c'a minha cara!! Nessa altura não havia tecnologia p'ra isso e muito menos p'ra filmar!". E mais: "S' o homem tivesse ido à lua em 1969, hoje os carros já tinham de voar!". Durante momentos pensei que estivessem a brincar comigo. Mas não. Acreditam naquilo que dizem. Acreditam mesmo naquilo que dizem.

Livros (157)




Foi um dos primeiros livros de poesia que comprei. Até esse lia as minhas leituras tinham dependido da Biblioteca Municipal de Manteigas e da Biblioteca Municipal da Guarda. Tinha ouvido falar do livro no programa Acontece. O autor leu alguns poemas e eu gostei. Ainda hoje me diz muito a poesia de Albano Martins. Gosto das suas imagens e da contenção vocabular. A influência oriental é evidente, principalmente os haikus japoneses. É um livro que folheio de vez em quando. 

Jorge Aguiar Oliveira


Aloe V. & Vingança M. 


somos
os vândalos

que depenicam
gaivotas vivas
por vingança
social

e no verão
vamos à praia
papar
areia e sal

as ondas
que se fodam
ao sol
pôr

somos
os miseráveis


em Pena de Morte, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2018, p. 43

Discos (283)


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They told us our gods would outlive us
They told us our dreams would outlive us
They told us our gods would outlive us
But they lied

Nick Cave and The Bad Seeds


Podes fechar as janelas. Podes fechar os estores. Podes, inclusive, fechar os olhos. O mundo, esse, irá permanecer em ti, ou, pelo menos, naquilo que de ti resta, quando fechas a porta de casa e deixas o ruído do dia atrás de ti.

Lí por aí


Sobre a questão do "manisfesto" (título atribuído por Diogo Vaz Pinto a Pombos Lerdos), este texto do Henrique Manuel Bento Fialho.

(...)


Com o aproximar do fim do ano lectivo, alguns alunos deixam de aparecer na sala de aula. Mas consigo vê-los sentados no pátio a ouvir música ou, simplesmente, de cabeça entre as penas a dormir. A verdade é que a o sistema educativo não consegue dar resposta a estes alunos. 

(...)


O gato acordou-te às quatro da manhã. Lá fora o silêncio duma não-hora. Foste até à cozinha. Bebeste água. Sentiste o frio do chão nos pés nus. Arrepio. Deste de comer ao gato. Pensaste "talvez fosse melhor ficar já levantado". Mas pensaste melhor. E voltaste para a cama. 

Medula



(clicar para aumentar)


Diogo Vaz Pinto dedica duas páginas, no Jornal i, a Pombos Lerdos, último livro publicado pela Medula.


Siegfried Kracauer


A sobrevalorização da juventude é tanto um recalcamento quanto o é a desvalorização da idade além do necessário. Ambos os fenómenos atestam indirectamente que, nas presentes condições económicas e sociais, as pessoas não vivem a sua vida.


em Os Empregados, tradução de Manuela Gomes, Lisboa: Antígona, 2015, p. 69.

(...)


Pelo pátio da escola proliferam as colunas wireless. Muitas das vezes estão várias a tocar ao mesmo tempo. A maior parte das músicas não consigo identificar. Hoje perguntei a um aluno o que ele ouvia. Ele disse-me que ouvia isto. E disse "é o som qu'anda a bombar, stôr."

Castello D'Alba





Códega do Larinho | Rabigato | Viosinho

(...)


Desconfio sempre de alguém que sente necessidade de dizer que escreve. Pior quando diz que escreve "umas coisas". Sempre tive dificuldade em entender o que são "umas coisas". No outro dia, no meio de uma conversa, um colega de trabalho disse que escrevia "umas coisas", que tinha um blogue onde as publicava. Não entendi a razão de tal declaração, mas ouvi-o sem me desmanchar e também eu dizer que "tenho um blogue onde escrevo umas coisas". E ele lá continuou com um discurso todo defensor daquilo que escreve e publica no blogue, criado a pedido dos amigos que gostam muito de o ler. É claro que não resisti e fui procurar o dito blogue. Li as coisas que por lá estão e senti um pouco de vergonha alheia: este meu colega não merece os amigos que tem. Porque foram os amigos que o encorajaram a criar um blogue onde pudesse divulgar aquilo que escreve. Cada vez mais me convenço que os amigos são a pior coisa que pode acontecer a alguém que escreve, porque os amigos são, também, os piores leitores, isto é, não possuem qualquer crivo crítico, ou estético, porque são amigos. Os amigos, na escrita, não deviam existir. As afinidades: sim. Mas os amigos: não. Um amigo é um peso morto que não deixa a escrita avançar. Um amigo é necessário: fora da escrita. Dentro dela é um furúnculo que nos incomoda. 

Siegfried Kracauer



Os postos de trabalho não são propriamente profissões talhadas à medida de supostas personalidades, mas criados em função das exigências do processo produtivo e de distribuição na empresa. (...) Assim sendo, o desenvolvimento da personalidade não conta para o que quer que seja.


em Os Empregados, tradução de Manuela Gomes, Lisboa: Antígona, 2015, p. 27.

(...)


Nunca lhe li um livro. Não sei se irei ler. Muitos dos meus amigos dizem que é muito bom. O consenso generalizado assusta-me um pouco e deixa-me desconfiado. Talvez seja defeito meu. Mas vivo bem com ele. E, é claro, estou a falar de Philip Roth.