Uma imagem para o dia



(...)


A cabeça parece que vai rebentar. O segundo café não ajudou. A cidade cumprimentou-te com a sua habitual indiferença, algo que te é indiferente. O pára-arranca do trânsito não foi tão intenso desta vez. Ouviste as notícias na rádio. Nada de novo. O anticiclone dos Açores insiste em permanecer no lugar que lhe pertence no Verão. Chegas à escola. A dor de cabeça ainda não passou. Não te atreves a beber um terceiro café. Respiras fundo. Hoje, ensinas a classe do verbo.

Discos (269)




In and out and in and out again
Swans

Sempre que vou dar aulas paro num café que existe perto da escola e bebo o segundo café da manhã. Ontem não tinha dinheiro no bolso e foi-me fiado. Paguei-o hoje. Da mesa onde me sento vejo os alunos que caminham em direcção à escola. A entrada é às oito e quinze minutos da manhã. São oito e meia. Trazem o pequeno-almoço nas mãos: donuts, bolicaos, bolachas de chocolate, refrigerantes. Só vi um aluno com um pacote de leite simples na mão. Outro: uma maçã. E depois há o ar com que caminham. Cabisbaixo, amorfo. Têm entre dez e catorze anos. Olhos vazios, tristes. Na escola, no pátio, as conversas resumem-se aos novos ténis que compraram, ou ao novo telemóvel último-modelo-topo-de-gama. E nem falo das outras conversas, aqueles em que se gabam das fodas que já deram, dos charros que já fumaram, das armas que já lhes passaram pelas mãos.

Uma imagem para o dia



Discos (268)




Mrs. Parker of K.C. (Bird's Mother)
(intrumental)


O despertador tocou. Subiste o estore do quarto e a luz semicerrou os teus olhos. A cidade parece estar no mesmo lugar. Colocas a água a ferver, o pão na torradeira. O gato está confortavelmente deitado no sofá. Abre os olhos e volta a fechá-los. O trompete de Little faz-te bater o pé, enquanto lês as notas de rodapé nas notícias. Nada de novo no mundo. Novo-novo só mesmo a maneira como bebes o café todos os dias, em pé frente à janela. Novo-novo só mesmo a luz do sol reflectida nas janelas do prédio em frente. Little dá a vez a Dolphy. Novo-novo.

(...)


Hoje, pela manhã, houve rusga no Bairro. Deu na rádio e tudo. Talvez apareça nas notícias à hora do almoço.

Um poema de Ian Hamilton


Vizinhos

Das janelas que dão para a baía
No ruinoso hotel do outro lado da estrada
Misteriosos hóspedes por uma noite
Assomam às varandas
Para absorver a frescura do ar.

Deixamo-los espiar
As nossas plácidas vidas.
Eles deixam-nos pensar que será feito deles.


em Cinquenta Poemas, tradução de Nuno Vidal, Lisboa: Livros Cotovia, 1995, p. 67

A propósito de Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos


Em primeiro lugar: não comprei. Folheei e decidi não o fazer.
Em segundo lugar: não vou criticar a escolha dos poetas, nem dos poemas, pois acredito que o grande valor duma antologia está nos nomes que não contém, ou nos poemas que também não contém, desafiando assim outros a fazer melhor, ou diferente.
Mas, permitam-me os desabafos:
1º Ruy Cinatti é Ruy Cinatti e não "Rui Cinatti", principalmente quando vem escrito "Rui", na página onde está incluído o poema, e "Ruy" numa espécie de índice bibliográgico;
2º o poema de Miguel-Manso não está incluído em Bonsoir, Madame, livro que reúne a obra completa de Manuel de Castro, publicado pela Alexandria/Língua Morta e não somente pela Língua Morta, como nos leva a crer o "índice bibliográfico";
3º tenho a certeza que o poema de Raquel Nobre Guerra vem em Senhor Roubado. O poema não tem título, apesar de no "índice bibliográfico" vir indicado o poema "Escuro", publicado em Groto Sato.
Estes são apenas três desabafos que tenho depois de folhear o livro com pouca atenção. Não vou sequer falar do grafismo, que deixa muito a desejar, nomeadamente quando se quebram poemas (que passam para a página seguinte) e não se colocam as restantes estrofes destacas ao nível do título do poema (não sei se me estou a explicar bem), podendo dar a ideia, para os mais distraídos, de que se tratam de dois poemas autónomos. Revisão: considero-a inexistente.

(...)


Cheguei a casa cansado e farto. Costumo chegar muitas vezes cansado. Mas são poucas as vezes em que chego farto. O cansaço é-me natural; os estar farto de algo: não. Só que ontem cheguei farto a casa. O gato estava deitado no lugar de sempre. Miou quando me viu. Abri uma mini e preparei o almoço. Pensei na razão de estar farto. E nada conclui. Talvez o estar farto comece, também, a ser em mim um "é-me".

Cabriz




Encruzado | Malvasia-Fina | Bical | Cerceal-Branco

(...)


Findado o almoço de Sábado, lavei a louça. Olhei para as minhas mãos. Estão secas, ásperas. Precisam de creme. O vinho tinto que comprei e bebi era uma bodega: "Romeira". Dizem que é vinho alentejano. Só que é feito em Rio Maior. Só vi isso quando cheguei a casa. Não aconselho. Ficou mais de metade na garrafa.
O sol já está para lá da Fraga da Cruz. Ligo o aquecedor a gás e começo a ler o primeiro volume do diário de Virginia Woolf. Daqui a nada talvez passe pelas brasas. E é mais uma tarde passada. Só que já vou na página 47 e penso o que já antes pensei ao ler diários de outros autores: "mais interessante do que os romances".
Entretanto, provei a jeropiga deste ano do meu Tio Zé. E, como sempre, não falha: está boa; muito boa. Nunca bebi jeropiga feita por ele que fosse má. E não é por ser meu Tio. Não. Ele sabe o que faz. E faz bem.

Discos (267)



The Fifth of Beethoven
(instrumental)

Ornette Coleman


Espera-me, sobre a mesa da sala, o primeiro volume dos diários de Virginia Woolf. Cheguei há pouco da vila, que permanece tal e qual: vazia e velha. Não encontrei um único amigo com quem conversar. Bebi o café em silêncio e saí. No saco das compras trouxe azeite kosher (produzido por um amigo meu), pão-de-centeio, uma garrafa de vinho tinto, iogurtes. A minha Mãe prepara o almoço: rabo-de-boi estufado. O sol brilha em todo o seu esplendor. Apesar de ser São Martinho: apetece-me chuva.  

(...)


Hoje as aulas são num primeiro andar. Tenho de ter os estores para baixo. Assim, evito que os alunos se distraiam com o pátio. Mas lá fora há alguém que decidiu trazer uma daquelas mega-colunas da moda e há música "a bombar" (como eles dizem). As cabeças (cá dentro) abanam ao som da música que se ouve (lá fora). Os pés começam a marcar o ritmo.

Vinha das Mouras



Syrah | Aragonez | Alicante Bouschet | Trincadeira.

(...)


Uma das salas onde dou aulas é no rés-do-chão, pavilhão C. Os estores estão todos destruídos, rebentados. Como não há dinheiro para os mandar arranjar, a solução é colar uma película translúcida mas que não deixa os alunos (que andam do lado de fora) ver o interior da sala. Mas isso não os impede de bater nas janelas, acabar de destruir os estores, chamarem-me "cabrão", "filho-da-puta", ou, então, "vai-te foder". Não há Auxiliares de Acção Educativa suficientes para vigiar o pátio, ou para controlar o barulho ensurdecedor dentro do pavilhão. E, depois, ainda tenho de controlar a turma que está a ter aula comigo. E dar aula.

Espumante Herdade do Esporão (Bruto)



Antão Vaz | Arinto

Bill Bryson


No início de 1993, o estado de Maryland descobriu que tinha um problema quando alguém reparou que o lema estadual Fatti maschii, parole femine (feitos masculinos, palavras femininas) não era somente estranho e imbecil, mas também sexista. A dificuldade era que o lema estava impresso nos documentos oficiais do estado e gravado em todos os seus monumentos e edifícios públicos, e já era conhecido há muito tempo. Depois de muito debater, os legisladores estaduais chegaram a um engenhoso compromisso. Em vez de alterar o lema, decidiram alterar a tradução. Agora, quando um cidadão de Maryland vê Fatti maschii, parole femine, pensa que isso significa “Grandes feitos, gentis palavras”. E todos foram dormir de consciência tranquila.


em Made in America, tradução de Daniela Carvalhal Garcia, Lisboa: Quetzal , 2006, p. 523.

Henrique Manuel Bento Fialho


Oração

Senhor, perdoa-me as faltas, andar
aos encontrões distraído com fainas
dispendiosas, sem sossego para preces
nem inquietações, bolsos cheios de asma,

uma descrença no mundo e nos homens
quase tão densa como a que se me forma
na garganta por ti. Queria ver-te além
das horas, trajado de clareza, na cegueira

de um amor inconsútil. Cada vez mais só,
peço-te que acolhas no meu silêncio
os vales onde o sangue corre puro e limpo.
Que enchas de coragem os meus inimigos.


retirado do blogue do autor

Sobreiro Premium



Castelão | Aragonez | Cabernet Sauvignon

(...)


Não sei por que razão insisto na leitura de  Kierkegaard. Não me sinto mais inteligente ao fazê-lo, muito pelo contrário. Kierkegaard faz-me sentir o oposto. Também não o faço para impressionar alguém. Considero, até, que todos aqueles que se deixam impressionar pelas coisas da Filosofia nunca viram um borrego nascer (isso sim: algo verdadeiramente impressionante). Lei-o, de certeza, por masoquismo. Sim. Só pode ser isso.

(...)


Foi sol de pouca dura: a chuva. Mas está mais frio. O gato já coloca a pata sobre o nariz e procura o calor da manta. Já não se afasta do sol no chão da sala, sobre o tapete. Percebe que o frio veio, talvez, para ficar. Sabe qu'o aroma das castanhas assadas e o sabor da jeropiga se aproximam. E encolhe-se sobre o sofá. Enrola-se um pouco mais. 

(...)


A chuva regressou finalmente. O suficiente para o trânsito ser um pouco mais caótico. Por vezes penso que o trânsito de Lisboa é o caos mais organizado que conheço. É claro que nunca fui a Madrid, ou a Roma (disseram-me que lá, em Roma, o trânsito é impossível). E no caminho até à escola encontrei vários acidentes, e, de repente, pensei: "E se Kierkegaard tivesse lido Nietzsche?".

Guarda Rios Signature




Syrah | Cabernet Sauvignon | Merlot | Touriga Nacional

Um poema de Alda Merini


12


Para ti escrevi árduas sentenças,
para ti escrevi todo o meu declínio;
aniquilo-me agora, e nada pode salvar
a minha voz devota; apenas um canto
pode transparecer sob a minha pele
e é um canto de amor que amadurece
esta minha eternidade sem limites.


em A Terra Santa, tradução e prefácio de Clara Rowland, Lisboa: Livros Cotovia, 2004, p. 43.

Kierkegaard


(...) Em sentido geral, querer provar algo que existe é uma tarefa difícil (...). Assim, nunca concluo sobre a existência, antes concluo a partir da existência, quer me mova no mundo daquilo que é sensivelmente palpável, quer no mundo do pensamento. Não provo, pois, que existe uma pedra, mas sim que algo que existe é uma pedra; (...) Quer se queira chamar à existência um accessorium ou o eterno prius, ela não pode nunca ser provada.


em Migalhas Filosóficas, tradução, introdução e notas de José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 89-90.