Uma imagem para o dia



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Ao contrário do que muitos pensam, e alguns dizem por aí, é só pedir o catálogo da Companhia das Ilhas e ele chega até nós livre de encargos. Assim, já conseguiremos ter uma "orientação firme e clara". Só que alguns ditos críticos pensam que as coisas têm de ir até eles sem esforço, pois o "crítico" é esse ser superior, que deve ser servido. Estamos bem arranjados, sim senhor.

Lobo e Falcão



Castelão
(casta base)

Estados Filosóficos (105)


Aquilo que dói não é a descoberta da mentira. É antes a descoberta da verdade.

Som e Fúria


Capitão Fausto e Conan Osiris: duas faces da mesma moeda – o hype
Al Berto - Wordsong
Pure - The Golden Palominos
Acervo da Música Independente Portuguesa, Vol. I
A Certain Ratio
Stage - David Bowie
The Sex Pistols
The Idiot - Iggy Pop

Um poema de m. parissy


De um dos quartos retiraram-se os
objectos desnecessários: uma
cómoda de madeira escura, uma
cadeira com assento verde, as
imagens penduradas. Ficou apenas a
cama, a mesa-de-cabeceira e as
cortinas. Brancas para deixar entrar
a luz. Uma janela que destapava o
silêncio. Já não havia choro. A
construção do refúgio ocupou esse
lugar.


em Ferido, s/l: volta d'mar, 2016, p. 18.

(...)


A verdade é simples: ouvi sempre mais música do que li poesia, romance, ensaio. Foi devido a isso que decidi criar o blogue Som e Fúria. Será, à minha maneira (e não é uma referência a Xutos & Pontapés), um blogue sobre música. Até agora escrevi três textos: este, este e este. Nos próximos tempos irão encontrar-me mais por lá do que por aqui.

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Ontem fiz uma coisa que não fazia há muito: escrevi uma carta a um amigo. Hoje foi dia de a enviar. Estados Unidos da América. Com quatro livros dentro do envelope, em correio normal, ficou tudo em quatro euros e meio. Soube bem escrever uma carta. Tenho de repetir. Não me faltam por aí amigos espalhados.

6 anos


1) A Medula faz hoje seis anos. Durante esse tempo foram publicados onze livros, todos eles edições únicas com tiragens de cem exemplares.

2) A Medula continua e continuará a afirmar-se como um projecto editorial independente, porque, em primeiro lugar, não depende do dinheiro dos seus autores; em segundo lugar, não depende ou de subsídios ou de apoios ou de angariações de fundos ou de subscrições.

3) A Medula continuará a depender da carolice dos amigos para traduções, revisão de texto, divulgação e apresentações.

4) A Medula continuará a correr o risco de não ser encontrada nas grandes superfícies livreiras.

5) A Medula continuará a correr o risco de apenas ser encontrada nas pequenas livrarias (que são cada vez menos).

6) A Medula agradece a todos aqueles que a acompanham desde o dia três de Janeiro de dois mil e treze.

Estados Filosóficos (104)


A maior luta, aquela que me consumirá sempre, não é contra a injustiça, a pobreza, a tirania. É contra a hipocrisia. A minha.

Vladimir Karl Abner (1914-1997)


Em 1915, quando Jevdet Bei mandou cercar a cidade de Van, Vladimir Karl Abner tinha um ano e o pai, Kusan Abner, fazia parte dos resistentes arménios que combateram as forças otomanas. Findado o cerco, depois da intervenção das forças imperiais russas lideradas pelo general Nicolai Yudenich, a família Abner refugiou-se na região do Cáucaso, tendo depois rumado até à cidade de Moscovo, onde Kusan Abner entrou em contacto com um grupo bolchevique, tendo, mais tarde, participado na Revolução de Outubro, liderando um ataque a um posto da Guarda Imperial, situado na actual Rua Tverskaya. Durante o ataque, Kusan Abner foi ferido com gravidade, perdendo o olho direito. Foi elevado a herói do povo e da Revolução. Trotsky, num dos seus vários discursos, referiu-se a Kusan Abner como um «verdadeiro revolucionário e amigo pessoal». Tal referência não caiu bem a Estaline que, em Setembro de 1942, ordenou a deportação da Kussan Abner para um dos gulags perto de Norilsk. Em Agosto desse mesmo ano, o seu filho, Vladimir Karl Abner, foi um dos primeiros voluntários para a defesa de Estalinegrado. Durante os quatro anos anteriores, tinha sido professor na Universidade de Moscovo, onde leccionara Teoria Política, História dos Povos Soviéticos e Análise Retórica. Entre os seus pares era conhecido como um fervoroso membro do partido e admirador das políticas de Estaline. Foi na frente de combate que recebeu a notícia da deportação do seu pai para Norilsk, onde, nesse mesmo Inverno, viria a morrer. Tanto a deportação como a morte do pai tiveram um grande impacto em Vladimir Abner, embora tenha continuado a lutar pela pátria-mãe, tendo participado na conquista de Berlim. Com o fim da Segunda Guerra Mundial regressou a Moscovo, onde voltou a ocupar o cargo de professor na Universidade. Todavia, a experiência da guerra (onde assistiu às atrocidades do Exército Vermelho na Polónia) e a deportação do pai, levou-o a uma crescente descrença no regime de Estaline e no comunismo em geral. Foi proibido de leccionar e exilado na cidade de Birlik, onde conheceu Alexander Soljenitsine, com quem manteve uma relação de amizade muito próxima até à morte do escritor. Em 1963 a sentença de exílio foi revogada. Vladimir Karl Abner decidiu mudar-se para Praga, onde começou a leccionar russo na Universidade. Nesta cidade entrou em contacto com o movimento reformista liderado por Alexander Dubček, mas também com os intelectuais que mais se opunham à ingerência de Moscovo nos destinos do país. É dessa altura a amizade com Václav Havel, que o convida para algumas emissões da Rádio Livre da Checoslováquia.  Com a Primavera de Praga e a invasão da Checoslováquia por forças militares do Pacto de Varsóvia, Vladimir Karl Abner perde o lugar de professor de russo na Universidade. Havel arranja-lhe trabalho na mesma cervejeira onde tinha começado a trabalhar. A amizade entre os dois torna-se mais firme. Um dia, depois de mais um turno, Havel convida Abner para sua casa, onde o instiga a escrever uma Nova História da Checoslováquia. Abner recusa essa espécie de revisionismo tão à maneira soviética. Os dois amigos nunca mais se falaram e Abner abandona a Checoslováquia, rumando a Paris. Aí tenta, sem sucesso, ser professor de russo. Frequentou os cafés mais boémios e entrou em contacto com alguma da esquerda trotskista, que o desilude profundamente, levando-o a regressar à Checoslováquia. Devido a uma amnistia, Vladimir Karl Abner volta a leccionar na Universidade: Russo, Teoria Política, Análise Retórica e História dos Povos Eslavos, disciplina por ele criada, onde explora a questão eslava e desenvolve as suas teorias sobre a Legião Checoslovaca. Durante a Revolução de Veludo, Abner desempenhou um papel importante, principalmente entre os estudantes (que sempre o viram como um fervoroso anti-comunista), tendo apoiado a manifestação estudantil de 17 de Novembro de 1989. Com o fim da influência comunista no país, e com os primeiros sintomas de uma possível dissolução da Checoslováquia, Abner defendeu sempre o diálogo e a união, promovendo debates na Universidade e em algumas rádios. Desiludido e doente, Vladimir Karl Abner refugia-se na região dos Beskides, em sua casa, onde morre em Abril de 1997.

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Conheci Rui Martiniano quando comecei a frequentar a Rua da Anchieta. Eu andava à procura de Céline e sabia que a Hiena o tinha publicado. Rui Martiniano não os tinha disponíveis, mas pediu a minha morada e disse que pagaria assim que recebesse os livros. Foi o que aconteceu. Depois, comprei-lhe mais uns quantos títulos da Hiena. Sempre que regressei à Anchieta passei pela sua banca. Às vezes comprava mais uns livros do catálogo da Hiena. Outras não. Mas Rui Martiniano aconselhava sempre este ou aquele. A Rua Anchieta continuará Rua da Anchieta durante todos os dias da semana, excepto ao Sábado, que será um pouco menos.

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A noite: lá fora. Vergílio Ferreira começa "Invocação ao meu corpo" a invocar, em primeiro lugar, a noite. Depois, sim, vem tudo o resto. No seu extremo individualismo, na linha que traçou, cedo descobriu que o caminho é feito a caminhar sozinho, pois é difícil arranjar quem ande a nosso lado quando a escolha é tão radical. E quando alguns que se diziam de esquerda o acusaram de ser de direita, não ficou preocupado, pois sabia que alguns que se diziam de direita o acusariam de ser de esquerda. Assim, sabia também que estava no lugar que tinha escolhido para si e que era o lugar de sempre. Em literatura aconteceu-lhe o mesmo. E a sua conclusão foi a mesma também. Concluo, agora que é noite, que também eu estou no lugar que escolhi para mim. Nada nem ninguém escolheu por mim. Sou aquele que sempre fui. Continuo no mesmo lugar de sempre. Há quem me veja de costas, num dia; depois de frente, noutro dia; e a seguir vê-me à sua esquerda e ainda à sua direita. E dizem que mudei. Mas estou sempre no lugar de sempre, que escolhi. Eles é que se movimentam.

Zdenka Zavesky Zoubek (1890-1944)


Nascida em Praga, numa altura em que a cidade ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro, Zdenka Zavesky Zoubek era a mais nova, dum total de onze filhos, do casal Zoubek: Arno e Andula. Arno era alfaiate e tinha o seu atelier no centro da cidade. Entre os seus clientes destacam-se os nomes de Tomáš Masaryk, Edvard Beneš, Monsenhor Jozef Tiso e Emil Hachá. Zdenka, aos seis anos de idade, foi enviada para um convento, devido aos parcos recursos financeiros da família. Este definitivo acontecimento foi marcante na vida da jovem Zdenka que, aos sete anos de idade, tenta a primeira fuga, tendo sido apanhada a poucos quilómetros dos portões do convento das Irmãs da Ordem da Anunciação. Como castigo, Zdenka foi encerrada numa pequena cela durante três semanas, a pão, água e em total, completa escuridão. O espírito indomável da jovem criança levou-a a tentar mais quinze fugas, todas sem sucesso, até aos dezoito anos. Só em 1909 é que Zdenka deixaria o convento, tendo sido expulsa, depois de ter juntado à sopa uma grande quantidade de sene. De regresso a Praga, Zdenka começa a frequentar os cafés mais boémios da cidade, onde entra em contacto com os mais diversos intelectuais. Karel Capek descreveu-a como «um espírito livre e de um magnetismo enorme». Um dia Zdenka decidiu fumar em público. Foi detida de imediato e chegou a ser mencionada por Monsenhor Tiso que, num dos seus sermões, a considerou «um exemplo vivo de libertinagem». Em 1923, Zdenka entra em contacto com as teorias anarquistas de Ales Karel (1880-1940) que defendia, entre outras coisas, a abolição de todas as ordens religiosas. Com a anexação da Checoslováquia pela Alemanha Nazi, Zdenka Zoubek foi a primeira mulher a juntar-se à Resistência, apesar dos seus quarenta e nove anos. Segundo o historiador checo, de origem arménia, Vladimir Abner, Zdenka Zoubek foi uma das principais figuras da resistência checa ao regime nazi, sendo mencionada como a mentora da tentativa de assassinato de Kurt Daluege que, em 1943, sofreu um "ataque cardíaco", segundo a propaganda nazi. Em 1944 Zdenka Zoubek foi capturada pelo regime fantoche da Eslováquia, aquando da insurreição liderada por Ján Golian. Foi deportada para Auschwitz. A ordem foi assinada por Monsenhor Tiso.

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Muitas vezes penso que deveria ter continuado tão-só e apenas nestes pequenos cadernos de capas negras. Regresso a eles sempre que consigo. Saio deles sempre um pouco mais leve.

João Miguel Fernandes Jorge


O lago de prata
avizinha a morte
diante dos olhos.


em Pelo fim da tarde, Lisboa: Quetzal, 1989, p. 32.

Dag Tennfjord Pettersen (1900-1972)


Nascido no seio de uma família humilde da pequena vila de Tennfjord, de onde deriva um dos seus nomes, numa altura em que a mesma não tinha mais de duzentos habitantes, Dag Tennfjord Pettersen nasceu prematuro e nunca conheceu a mãe, que morreu durante o parto. Tal facto marcou para sempre Dag, que escreveu na primeira frase do primeiro parágrafo do seu primeiro romance: «Nada na vida é garantido, nem mesmo o leite materno.»: o que provocou grande escândalo na altura, tendo em conta que, em 1917, a Noruega não estava preparada para romance tão provocatório, começando pelo título (Fødsel) e passando pela idade do autor. A verdade é que Dag foi em tudo prematuro: aos dezassete anos publica o seu primeiro romance; aos vinte casa; e aos vinte e um anos de idade nasce-lhe o primeiro filho e morre-lhe a esposa durante o parto. Tal acontecimento influenciou, em definitivo, o seu segundo romance, publicado em 1919 e com o enigmático título Dyd og Klag. Neste segundo romance o autor disserta sobre a vida, a morte e a interrogação que é Deus. Como aponta Olav Magnus Terje, no seu importante ensaio Dyd og Klag: en tolkende lesning i lys av Husserls filosofi, «Tennfjord Pettersen, neste seu romance, consegue, de maneira exemplar, sintetizar, de forma nunca antes vista, toda uma cosmologia telúrica, completamente inovadora, onde o Homem centra em si as raízes mais profundas da existência, sendo, sem qualquer sombra de dúvida, um romper com um certo e duvidoso naturalismo que depende, de forma inequívoca, das exigências teóricas mais rigorosas, sendo assim ultrapassado pelo próprio historicismo que lhe serve de base.». Tal afirmação chocou as mentes mais obtusas da sociedade norueguesa. O próprio Knut Hamsun, reverenciado por Pettersen, escreveu algures «nada nos romances desse moço tennfjordiano me seduz.». Tal afirmação levou ao definitivo silêncio de Dag Tennfjord Pettersen, que nunca mais publicou um único romance em vida. É visto, por muitos, como o primeiro escritor bartlebiano do século XX.

Uma imagem para o dia



Klaus Fehler Nervig (1875-1939)


Klaus Fehler Nervig nasceu no seio de uma família endinheirada, com pergaminhos, da cidade de Ulm, no estado federal alemão de Baden-Württemberg. O seu pai desde cedo encaminhou o filho para a área do Direito, para assim dar continuidade a uma tradição familiar. Inscreveu-o no melhor colégio interno, que ficava ao fundo da rua onde se situava a casa da família Nervig, que ali existia desde a fundação da cidade. Os Nervig viam o filho apenas no Natal, Páscoa e férias de Verão, altura em que se refugiavam numa casa que possuíam no interior da Floresta Negra, onde o pai, o velho Rupert, tentava sem sucesso reescrever a História do Direito e das Leis Alemãs. Apesar dos esforços do pai, o jovem Klaus não demonstrava qualquer interesse no estudo das leis, embora tenha concluído o curso de Direito sem grande dificuldade. Foi durante os anos da faculdade que desenvolveu e apurou o gosto pelas letras, tendo criado, até, uma revista literária: Organismus. Nela publicou os primeiros poemas, utilizando um pseudónimo, pois nunca conseguiu a aprovação paternal. É sabido que o velho Rupert via a poesia como «uma doença própria dos fracos», o que muito atormentava Klaus. Avesso à prática do estudo e aplicação das leis e ignorado pelos pares, que consideravam a sua poesia demasiado barroca e desprovida de qualquer rasgo de originalidade, Klaus Fehler Nervig procurou trabalho num jornal, onde escreveu sobre tudo: pintura, teatro, escultura, numismática, filatelia, columbofilia e poesia, tendo alcançado relativo sucesso entre os neófitos mais impressionáveis do mundo das artes, que aplaudiam os seus textos e os discutiam à mesa do café, replicando-os depois ao jantar, para gáudio dos mais sensíveis. Com a ascensão do nazismo ao poder, Klaus Fehler Nervig nunca se filiou no partido nazi, mas também nunca o atacou ou denunciou na coluna semanal que mantinha, ao contrário de outros intelectuais da altura, como foi o caso de Franz Frederick Horst. Para memória futura ficará o seu silêncio em relação à bücherverbrennung de 1933. No dia 4 de Setembro de 1939, e depois de uma semana a agonizar com fortes dores abdominais, faleceu em casa. No relatório da autópsia, assinado por Gottfried Benn, pode ser lido: «Causa de morte inconclusiva. Tudo aponta para um episódio de mau-fígado.».

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O sono começa a ser demasiado para fazer qualquer observação sobre a realidade, tal é a carga onírica que trago comigo. Arrasto os pés pelas ruas. Reparo nos telhados.

Lí por aí


Uma proposta de actualização de alguns provérbios pode ser lida aqui.

Pete Shelley (1955-2018)




Sam Peckinpah




Aí está um realizador que me diz muito. Dele vi: The Wild Bunch, Straw Dogs, The Gateway, Patt Gerrett and Billy the Kid e Cross of Iron. Ainda me faltam outros tantos. Excessivo na tela e na vida, Sam Peckinpah mexeu com o sistema estabelecido e com o cinema delicado e sem sabor. Straw Dogs foi um filme que me marcou profundamente. Dele fica-me a resposta que deu a um jornalista, quando este o questionou sobre o carácter pouco realista de algumas cenas de The Wild Bunch. Peckinpah respondeu-lhe à letra: "Se quisesse realismo, dedicava-me a fazer documentários.".