Luz e Tempo [4]

 





All photographs are memento mori. To take a photograph is to participate in another person’s (or thing’s) mortality, vulnerability, mutability. Precisely by slicing out this moment and freezing it, all photographs testify to time’s relentless melt.
 
 Susan Sontag

Luz e Tempo [3]

 





What the Photograph reproduces to infinity has occurred only once: the Photograph mechanically repeats what could never be repeated existentially. — Roland Barthes

Luz e Tempo [2]




To me, photography is an art of observation. It’s about finding something interesting in an ordinary place… I’ve found it has little to do with the things you see and everything to do with the way you see them.  Elliott Erwitt

Lí por aí


A participação no mundial de futebol do Catar legitima a corrupção, a violação de direitos humanos e a escravatura. É uma tripla que demonstra de modo claro e inequívoco a hipocrisia inerente a diferentes instituições com responsabilidades desportivas e políticas. A mensagem é: o dinheiro relativiza tudo. Portanto, esqueçamos quanto havíamos aprendido sobre ética, moral e axiologia. As tão apregoadas crises de valores já nada têm que ver com conflitos geracionais, são um produto da sobrevalorização do dinheiro e do capital. Face ao valor do dinheiro, a vida humana, o amor, a liberdade, nada valem hoje para quem está no poder e com o poder. É este o significado derradeiro da mensagem enviada por todos quantos desvalorizam e desprezam os direitos humanos, sejam eles quem forem. Menosprezar, por causa de um espectáculo desportivo, a escravatura de milhares de trabalhadores que pereceram em condições miseráveis a construir luxuosos estádios de futebol, não tem apenas um significado simbólico. É ciência pura. O mal está legitimado. Vladimir Putin está legitimado. Tudo quanto julgávamos repugnante e censurável está legitimado. Não há diferença nenhuma entre o mundial do Catar e o Coliseu de Roma. Acabámos de regredir até esses tempos, protegidos pela higiene do ar condicionado com que se disfarçam uma absoluta insensibilidade social e uma anestesiante indolência moral.

Henrique Manuel Bento Fialho
em Antologia do Esquecimento

Luz e Tempo [1]



What makes photography a strange invention is that its primary raw materials are light and time.  John Berger

(...)


Ainda não chegaste a casa. Sei que não estás presa no trânsito. Antes na burocrática modorra de mais uma reunião. No prédio há um silêncio muito dele. Não ouço ninguém no apartamento ao lado. O gato está no seu lugar à janela. Parece contar os carros que passam na rua.

*

Na televisão notícias da guerra que muitos parecem querer total e final. Porque será final. Mas parece que ninguém entende isso. Falam de paz com a boca cheia de ódio comprado talvez com trinta moedas de prata. A agenda trazem-na no bolso. Vou calar-me. Não quero política aqui.

*

Sento-me por breves momentos no sofá. Fecho os olhos. Só faltas tu.

Calendário

 



Depois de ter lido "Breve História da União Soviética", de Sheila Fitzpatrick, leitura que a todos recomendo, chegou a vez de me atirar a estes dois tijolos. Como aprendi, desde pequenino, que "o saber não ocupa lugar" e que da história há sempre mais do que uma versão/visão, senti necessidade de aprofundar algumas questões. Não sei se será a melhor maneira de começar. Ainda assim: um começo.

Indignar-me é o meu signo diário



A imagem que aqui reproduzo foi retirada do jornal Público (caderno P2) do passado Domingo, dia 13 de Novembro de 2022. 

A alteração dos concursos dos professores é algo que está em cima da mesa. Na última reunião com o Ministério da Educação, a FENPROF foi confrontada com um modelo de concurso que irá ser a machadada final na Escola Pública, para não falar na instabilidade que irá provocar em milhares de professores. Na proposta do Ministério da Educação está, entre outras coisas, o recrutamento ser feito através de escolha pelos directores, em função dos projectos aprovados pelos CIM (Conselhos Intermunicipais) e dos objectivos que estes estabeleçam. Mas é, ainda, uma proposta. Nada está, ainda, fechado.

Todavia, o jornal Público garante já que os professores "vão ser colocados através de listas municipais". Reparem na conjugação verbal: "vão". Para o jornal Público é algo que está já fechado. "Vão" e ponto final. Coincidência? Deslize freudiano? De onde vem tanta certeza assim? Será que o jornal Público sabe algo que nós não sabemos? Onde se informou o jornal Público? Quem o informou? Qual a intenção desta "charada"?

Erik Olin Wright


     Por fim, as desigualdades de riqueza e de rendimentos intrínsecas do capitalismo criam desigualdades no que o filósofo Philippe van Parijs designa de «verdadeira liberdade». Sejam quais forem os seus outros significados, liberdade é a capacidade de dizer «não». Uma pessoa rica pode decidir livremente não trabalhar por um salário; uma pessoa pobre sem um meio de subsistência independente não pode rejeitar o emprego com tanta facilidade. Mas a liberdade como valor é mais do que apenas a capacidade de dizer não; é também a capacidade de agir positivamente de acordo com os nossos planos de vida. O capitalismo priva muitas pessoas de verdadeira liberdade nesse sentido. A pobreza no meio da abundância nega às pessoas o acesso igual não só às condições para uma vida próspera, mas também os recursos necessários para a autodetreminação.


em Como Ser Anticapitalista no Século XXI, tradução de Jaime Araújo, Edições 70, 2022, p. 51.

Calendário


Há 10 anos estava desempregado. A Troika, Passos Coelho e Nuno Crato ditaram que assim fosse. Como eu, milhares no nosso país. Nos dois anos seguintes, dos 731 dias possíveis de trabalho (dois anos lectivos com horário completo) trabalhei 252 dias: 180 no Cacém, 30 em Pardilhó e 42 em Ponte de Lima. Foi uma experiência que para sempre me marcou e marcará. Ainda assim, e apesar de algumas variações, perdi poucas vezes o sentido de humor. Há 10 anos escrevi:

"ontem fiz greve e não procurei, activamente ou de outra maneira, emprego. hoje almocei um bife de atum que me custou os olhos da cara, pois estou farto de viver abaixo do meu palato. ainda pensei comprar um bom vinho, mas considerei que podia ser despesismo."

Indignar-me é o meu signo diário




A cultura, no nosso país, nunca foi devidamente considerada pelas instâncias superiores (entenda-se sucessivos Governos). Os agentes culturais há muito que reivindicam uma fatia maior do Orçamento de Estado. É uma luta justa à qual deveríamos todos estar associados.

Alguns apoios foram concedidos, nomeadamente aquele que ficou conhecido como "Programa Garantir Cultura". Muitos foram aqueles que a ele recorreram. Outros: dele abusaram. É, segundo tudo indica, o caso da Livraria/Editora Exclamação, do Porto.

Há muito que em surdina se falavam de certas questões que por lá aconteciam. Agora essas questões foram colocadas em voz alta ao Governo.

Calendário

 


Fim de tarde. Subo a um dos terraços. Pode ser que a luz comece a ficar a jeito. Em vez disso: um gato. Ficámos um bom bocado a olhar um para o outro. Ainda o chamei na esperança. Mas permaneceu no seu lugar, sem se mexer, observando cada um dos meus movimentos. Um gato.

Indignar-me é o meu signo diário

 


Se dúvidas houvesse sobre este senhor, essas dúvidas dissipam-se completamente com esta afirmação, contextualizada ou não.

Como todos nós sabemos, principalmente pelo exemplo do BES, BPN E BPP (só para dar assim três exemplos simples, sem ser exaustivo para não vos maçar), os CEO são super-pessoas infalíveis. E é disso que o Serviço Nacional de Saúde (o serviço público) precisa: de um CEO.

Erik Olin Wright


      Em primeiro lugar, o princípio igualitário é captado pela ideia de «acesso geralmente igual» a algo. Isso é um pouco diferente de igualdade de oportunidades. A igualdade de oportunidades podia ser satisfeita por uma lotaria, por exemplo, mas isso não seria uma forma justa de dar às pessoas acesso a uma vida próspera. A igualdade de oportunidades também sugere que o mais importante é que as pessoas tenham o que às vezes se designa por «igualdade de partida»: devem começar com oportunidades iguais; se depois as desperdiçarem, bem, o problema é seu. Como a culpa é sua, não se podem queixar. O «acesso igual» pressupõe uma visão mais generosa e compassiva da condição humana. É também sociológica e psicologicamente realista. As pessoas cometem erros; os adolescentes podem ser pouco perspicazes e tomar decisões estúpidas; acontecimentos fortuitos e a sorte desempenham um papel enorme na vida de toda a gente, para o bem e para o mal. Uma pessoa que trabalhe arduamente, superando grandes obstáculos, e que consiga grandes coisas na vida continua a dever grande parte do sucesso à sorte fortuita. É praticamente impossível fazer uma distinção clara entre coisas pelas quais somos de facto responsáveis e coisas pelas quais não somos. A ideia de que numa sociedade justa as pessoas deviam, ao longo da vida — na maior medida possível —, ter acesso igual às condições para levar uma existência próspera reconhece esses factos sociológicos e psicológicos na vida. A igualdade de oportunidades, evidentemente, continua a ser uma ideia valiosa, mas o acesso igual é uma forma sociologicamente mais apropriada de entender o ideal igualitário.

em Como Ser Anticapitalista no Século XXI, tradução de Jaime Araújo, Lisboa: Edições 70, 2022, p. 30.

Calendário

 

© José Carlos Pratas


Em casa dos meus Pais a figura de Álvaro Cunhal não era acarinhada. Não era maltratada, mas não era acarinhada. O meu Pai admirava-lhe a coerência, mas duvidava das suas ideias para o país. Resumindo: no 25 de Novembro o meu Pai esteve do lado apelidado de democrático e pluralista. Também eu, durante muitos anos, estive desse lado. Hoje, cada vez mais, tenho dúvidas.

No dia da morte de Cunhal, o meu Pai disse-me "como ele já não há e fazem cá falta". E Soares ainda estava vivo.

Álvaro Cunhal foi, e é, uma figura incontornável da nossa história e da nossa democracia, por muito que isso custe a muitos. Só agora começo a conhecer o homem e as suas ideias. Sinto, muitas vezes, que deveria ter começado mais cedo. Mas penso que ainda vou a tempo. Nunca se chega tarde a alguém que nos deu tanto.

Calendário





O despertador tocou eram 06h30min. Como sempre acendi a luz e fiquei um pouco a olhar para o tecto. Passado um bocado ouço "olha, hoje estamos acima do nevoeiro". Abri a janela. Tive ainda tempo de pegar na máquina fotográfica, chegar a uma das janelas da sala e disparar. Eram 06h45min. O dia mais a sua luz começavam.

Indignar-me é o meu signo diário


O BCE anda a aplicar uma fórmula que, como se verá (e já se vê), irá prejudicar muitas famílias no nosso país. As sucessivas subidas das taxas de juro (actualmente a Euribor a 6 meses, a mais utilizada no nosso país, vai já nos 2,296% e não irá ficar por aqui [promessa do BCE]) e a subida da inflação (os aumentos salariais serão completamente absorvidos por tudo isto) irão provocar a tempestade perfeita. Muitos andam preocupados com a falta de democracia dentro do PCP, a propósito do novo Secretário-Geral do Partido, alegando que não foi escolhido pelos seus militantes (leiam os estatutos e depois conversamos). É claro que esta preocupação só acontece porque todos nós sabemos que a senhora Lagarde foi eleita democraticamente para o cargo que desempenha. Entretanto, o PCP continua com o seu trabalho.


Calendário

 


O fim da PAF deve-se a uma pessoa, que na noite eleitoral, quando muitos se preparavam já para cumprimentar e congratular Passos Coelho e Paulo Portas pela vitória, disse algo como "isto não tem de acabar aqui.". Só por isso (havendo ainda muito mais): muito obrigado, camarada Jerónimo.

Indignar-me é o meu signo diário

 


Algumas cirurgias, às vezes, correm mal. E a verdade é que a Constituição da República Portuguesa, que é (apesar de muitos não quererem) um conquista de Abril, nunca agradou a muita gente e houve outros, como o PS, que começaram a ir na música dos flautistas de Hamelin que por aí há. 

As maiorias absolutas dão nisto. Há quem pense que elas, as maiorias, só favorecem o partido que as tem. Não. Nada disso. Há todo um espectro político, económico e financeiro que também. A título de exemplo: a felicidade do patronato na noite das eleições. E agora é o PSD que se encosta a ela para fazer o caldinho.

Lí por aí


That common people are victims of wars between capitalist rivals remains true today in the war between the United States and Russia over Ukraine. While no one is starving — not yet, though this may come to pass — common people throughout the world bear the burden of the war in a cost-of-living crisis and impending recession, while starvation is a very real possibility in low-income countries as a result of disruptions caused by the war.

Still another current condition of society that is an ineluctable consequence of capitalism is the absence of meaningful democracy for the common people. Lenin’s indictment of capitalist democracy was twofold:

First, the formal equalities of capitalist democracy have no meaning if one in every 10 people exploits the remaining nine. Class society necessarily means exploitation of one class by another. There can be no de facto equality in class society, and therefore there can be no de facto democracy.

Think of a slave society. If every adult in a slave society was made formally equal by giving each, both slave and slave-owner, the right to vote, would a society of democratic equality be thereby created? Obviously not. How can a society be democratic if one part of the society exploits another part?

Stephen Gowans
em What's Left

Pieter Bruegel, o Velho

 



The Harvesters
1565

Li por aí


Fazendo um cálculo de cabeça, cheguei à conclusão de que devo ter lido entre sete mil e oito mil livros. O que não retira a sensação de que sou um preguiçoso, de que desperdiço tempo e de que deveria ter lido muitos mais nem a avidez com que pretendo continuar a fazê-lo. Mais do que qualquer outra coisa na vida. 

Mais do que curiosidade, trata-se de um vício. As suas características, no meu caso, estão algures entre as da ciência e as do tabagismo. Leio para saber, mas, sobretudo, leio para ler.

Miguel Martins

Década decisiva - Anabela Fino

in Avante!, 3 de Novembro 2022


A nova «Es­tra­tégia de De­fesa Na­ci­onal» dos EUA, di­vul­gada há dias, afinal é velha. Num do­cu­mento de 48 pá­ginas os EUA ar­rogam-se o di­reito de di­rigir o pla­neta, como consta no texto de aber­tura apre­sen­tado por Biden: «Na me­dida em que o mundo con­tinua à mercê dos im­pactos per­sis­tentes da pan­demia e in­cer­teza eco­nó­mica global, não há nação me­lhor po­si­ci­o­nada para li­derar com força e pro­pó­sito do que os Es­tados Unidos da Amé­rica».

Sem sur­presa, a es­tra­tégia da li­de­rança auto-as­su­mida aponta a China como o «de­safio ge­o­po­lí­tico mais im­por­tante da Amé­rica», pois em­bora Washington con­si­dere que a Rússia re­pre­senta uma «ameaça ime­diata e con­tínua à ordem de se­gu­rança re­gi­onal na Eu­ropa», opina que ca­rece das «ca­pa­ci­dades de todo o es­pectro da Re­pú­blica Po­pular da China».

Se­gundo Jake Sul­livan, con­se­lheiro de Se­gu­rança Na­ci­onal, a «pre­missa fun­da­mental da es­tra­tégia é que en­tramos numa dé­cada de­ci­siva em re­lação a dois de­sa­fios es­tra­té­gicos fun­da­men­tais. A pri­meira é a com­pe­tição entre as grandes po­tên­cias para moldar o fu­turo da ordem in­ter­na­ci­onal. E a se­gunda é que, en­quanto essa com­pe­tição está em an­da­mento, pre­ci­samos lidar com um con­junto de de­sa­fios trans­na­ci­o­nais que afectam as pes­soas em todo o lado».

Está dado o mote. Num do­cu­mento onde os EUA re­a­firmam o di­reito de in­tervir por todos os meios seja onde for que os seus in­te­resses sejam postos em causa, o grande dedo acu­sador do «tio Sam» aponta os ini­migos da pró­xima dé­cada: China, Rússia e quem se atreva a segui-los.

Es­cu­sado será dizer que nin­guém dos po­deres ins­ti­tuídos se es­can­da­lizou. Chamam a isto de­mo­cracia, e ainda se es­pantam que a ex­trema-di­reita vá to­mando conta da ocor­rência. O que está a su­ceder na Eu­ropa é apenas um pro­núncio do que po­derá ser o ce­nário dan­tesco da pró­xima dé­cada, se nada for feito pela paz.

Calendário


Entre leituras e mais leituras, trabalho e preguiça, ando a revisitar a discografia dos Dead Can Dance. Hoje calhou, neste fim de dia, a vez a "Spleen and Ideal" (1985), que é o segundo álbum da banda, onde se instala naquilo que por muitos é designado por "neoclassical dark wave". Mas isto tudo para vos dizer que "Spleen and Ideal" envelheceu muito bem. E, se calhar, todos nós também, principalmente se ainda continuamos a ficar maravilhados com músicas como "Mesmerism", "Avatar" e "Indoctrination (a design for living)".