Discos (280)



Homecoming

Dave Holland


Não sei onde estava no dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e cinco. Sei apenas que foi Sábado. Assim, o mais certo era estar em casa, provavelmente a ver um filme na TVE1. Estaria frio, a lareira estaria acesa e o Mickey, o meu cão da altura, estaria deitado junto àquela, pois era muito friorento. A minha Mãe estaria de certeza a fazer malha-para-fora, que era a sua maneira de ganhar mais algum. Ou, então, estaria a fazer malha-para-dentro, que era a sua maneira de poupar dinheiro e manter-me agasalhado e quente. Agora, no dia vinte e três de Abril de dois mil e dezoito, o Mickey há muito que deixou o frio para trás. A minha Mãe há muito que deixou de fazer malha-para-fora e malha-para-dentro. O tempo está ameno. Não chove. Há muito que não vejo a TVE1. E, como é óbvio, estou mais velho.

Moriturus e Outros Textos - Henri Michaux



Henri Michaux
Moriturus e Outros Textos
Língua Morta
2018


Gil de Carvalho



Falar em dívida é ficarmos em dívida com aqueles que nada nos devem. Gil de Carvalho nada me deve. Nada nos deve. Mas considero que estamos em dívida para com o autor de Viagens. Gil de Carvalho é o responsável por um belo conjunto de poemas em nome próprio, mas também pelas versões que doutros poetas e poemas fez. São da sua responsabilidade as recolhas Uma Antologia de Poesia Chinesa e Poemas Anónimos - Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos. Gil de Carvalho é uma presença discreta mas constante na poesia portuguesa dos últimos trinta anos. Passa, na maior parte das vezes, despercebido. 

Um poema de Gil de Carvalho


Na Ásia

As vozes nos telhados de tesoura
São da que gentilmente
Transpõe este rio, curvado
A barcaças de remoção de fundos.
Restos de neve em Hohhot.
O amor passa ou não
Passa, corrente.
Acende a luz no busca-pólos, devagar.
Mene, peres, teqel
Constelações em terro e do firmamento, azul.


em Entrepostos, Lisboa: Cotovia, 1993, p. 23.

Livros (156)



O autor teve o cuidado de avisar o leitor: relatos. Não são contos. Não são estórias. São relatos. Depois das primeiras páginas, dos primeiros relatos, o leitor entende o aviso do autor. A Cidade de Cobre é um livro que nos coloca no centro daquilo que está a ser relatado. As técnicas cinematográficas, e a língua utilizada no cinema, não são estranhas ao autor: o travelling, por exemplo, é recorrente. Mas, aquilo que mais se destaca, é o uso da língua portuguesa. Certas estruturas inusitadas imprimem um tom muito peculiar e próprio, que pode ser considerado estranho ao início. Tal como na sua poesia, Gil de Carvalho cria todo um mundo próprio e original. Essa sua criação, esse mundo, não cede ao facilitismo, à escrita-a-metro. Um autor que merecia, sem dúvida, mais reconhecimento. 

(...)


Cada vez mais, ao acordar para ir trabalhar, penso naquela frase de Kurt Vonnegut: «A vida não é maneira de tratar um animal.».

Das fotos (39)


Anouar Brahem
Dave Holland | Jack DeJohnette | Django Bates


(...)


A tarde a meio. Ouço Voice of Chunk. Lá fora os carros passam ao longe. Há árvores pelo meio. Prédios. O gato anda pela casa. Mia. Penso que não aprova o que estou a ouvir. Gosta mais de Miles, Chet Baker, Cohen, Tom Waits, Anouar Brahem; não suporta Ornette Coleman, Swans, Meredith Monk, Diamanda Galás. É a primeira vez que ouve The Lounge Lizards. Não estão aprovados.

Discos (279)


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Romain
(instrumental)

Jim Hall


A chuva. O vento e o gato. Sempre o gato. Pela casa. Pelos lugares de penumbra. A noite. Uma luz sobre a mesa. Um copo de vinho. Tinto, agora que o frio ainda teima. Observo as paredes. Os desenhos de sombra. Penso no dia. Tento resolvê-lo. Como se alguma resolução fosse possível. Nada se resolve. Nem nada se transforma. Tudo se perde: horas, dias, semanas, meses, anos. Vida. Esse absurdo presente. Sempre.

Varanda de Inverno - Marta Chaves


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Marta Chaves
Varanda de Inverno
Assírio & Alvim
2018

Diálogos (28)



Bible: You a praying man?

Norman: I go to church.

Bible: Do you subscribe? Are you saved?

Norman: I'm baptized.

Bible: That's not what I'm asking. And you know it. Wait until you see it.

Norman: See what?

Bible: What a man can do to another man.


em Fúria (Fury) de David Ayer (2014).

(...)


Enquanto fazem uma tarefa, comentam entre si quantos "amigos" têm no facebook. E, depois, com aquela crueldade própria das crianças, riem duma colega que só tem quatro ou seis amigos. Ela continua em silêncio a fazer o que estava a fazer. Mas nos seus olhos desceu uma tristeza que aqui não consigo descrever. 

Kierkegaard



Ninguém regressa dos mortos, ninguém entrou no mundo sem chorar; ninguém pergunta a alguém quando quer chegar, ninguém pergunta quando quer partir.


em Ou-Ou: Um Fragmento de Vida (Primeira Parte), tradução, introdução e notas de Elisabete M. de Sousa, Lisboa: Relógio D' Água, 2013, p. 54.

(...)


Comecei hoje a leitura do primeiro volume de Ou-Ou. Não sei por que razão insisto em ler filosofia, principalmente alguém como Kierkegaard. Dele li Temor e Tremor, Migalhas Filosóficas, Diário de um Sedutor (incluído neste volume que hoje iniciei) e Desespero, a Doença Mortal. O dinamarquês foi um filósofo que me ficou atravessado no secundário, quando, pela rama, o dei em Filosofia no 12º ano. Penso que irá aí continuar. Pela rama.

Li por aí


«Se eu usasse chapéu alto, e devia usar, tirava-o num rasgado gesto,» diz António Lobo Antunes que lhe escreveu Agustina, numa carta em que comentava um livro dele. No prefácio que escreve para Vale Abraão, Lobo Antunes coloca Agustina como planeta na galáxia Lobo Antunes. A literatura portuguesa do século vinte, em retrospetiva, para Antunes enquanto jovem, era olvidável, exceção feita a dois amigos, Cardoso Pires e Manuel da Fonseca, até Agustina publicar «o seu primeiro livro» (qual, se Agustina publicou O mundo fechado quando Lobo Antunes tinha seis anos?) O prefácio é acerca de Lobo Antunes, Agustina é apenas o pretexto. E sobre o livro? Nada.


Rui Baião


De rastos

Chão polido, palavras tontas, grandes cães. À escuta,
a inocência em tal estado de graça, castigauma dor dupla.
Desculpa, o que faço comigo. Mas quanto ao que está,
estamos falados: uma fractura imposta, uma coleira
ao pescoço, um açaimo na fala. Agora é já tarde,
se for para nunca. D'olhos fechados, surdo
mudo a fechadura. Atenção aos batimentos,
atenção aos bastidores. um espanto,
estes canais de cálcio!...


em Barbearia Tiqqun, Lisboa: Ed. Viúva Frenesi, 2017, p. 17.

(...)



Manhã. Ouço Cecil Taylor. O gato todo ele bigodes arrepiados, porque é duro de ouvido, não aprova. Lá fora algumas nuvens tocam os prédios em frente e um resto de sol. De repente «hoje poderia sentir a exaltação, comer/polpa de flores, argila,/deitar-me no verão e serem/asas todo o veneno». Não é habitual isto acontecer. Acontecer-te. Olhas pela janela novamente. O resto de sol e as nuvens em frente desapareceram. Pensas no volátil que é o Tempo e concluis «entre demónios e paredes lisas» que nada disto é novo, te é novo, porque «por sete caminhos partimos,/por um regressamos».

Discos (278)



Crossing
(instrumental)

Cecil Taylor


Resta o regresso a casa. Tentar o silêncio. Afastar o mundo. Talvez ler um pouco de poesia. Mas os olhos pesam. Os ossos doem. O cansaço alastra. Como afastar o mundo se ele vem a mim colado? Ajeito os olhos à penumbra. Tiro o casaco. Descalço as botas. O gato não vem cumprimentar-me. Deixa-se ficar deitado onde está. Passo-lhe a mão pelo dorso. Há um breve e baixo miar. Uma espécie de murmúrio. Ligo a televisão mas tiro-lhe o som. Leio as notas de rodapé. É só mais um dia.

(...)


Regresso ao ruído, aos gritos. Um dos alunos desenha. Outro dorme. Um outro, ainda, olha pela janela para o pátio. E ainda há um que faz um avião de papel. Tento explicar o Present Continuous. Tento que a aula seja dinâmica, que os alunos participem. Todos estão mais interessados no ruído, nos gritos que vêm do lado de fora. Tento. Tento. Tento. Um destes dias: declaro que desisto.

Garantes a memória


Garantes a memória
com o silêncio
destas fragas

e o ribeiro da vila
depois da chuva
que traz outros Invernos

A barba branca
pode dar-te os anos
que tens ou talvez

um pouco mais
mas não ainda não
a sabedoria

dos pinheiros

Brevemente





Ana Bessa Carvalho | F. S. Hill | Henrique Manuel Bento Fialho
João Alexandre Lopes | Jorge Aguiar Oliveira | José Ricardo Nunes
m. parissy | manuel a. domingos | Maria João Lopes Fernandes
Rui Almeida | Rute Mota | Tatiana Faia

Discos (277)




Metal Machine Music Part 1
(intrumental)

Lou Reed


Não apareceram, até agora, alunos. Na sala ao lado uma colega grita “acabou! acabou!” e bate com algo na mesa. Suspeito que seja o livro-de-ponto. Os alunos, esses, continuam numa algazarra enorme, indiferentes aos gritos e ao bater. Tudo isto é demasiado. Aqui não somos professores. Aqui somos algo de intermédio entre nada e coisa nenhuma.

(...)


O silêncio não pertence a este lugar. Ninguém aqui sabe falar baixo. A voz humana deixa de o ser, tal é a sobreposição de sons. Passado algum tempo: só grunhidos aquilo que consigo ouvir.

Um poema de Joseph Brodsky


Blues

Vivi dezoito anos em Manhattan.
O senhorio era bacano, mas tornou-se bera.
Um safado, a bem dizer. Odeio-o, meu.
O dinheiro é verde, mas é como sangue a correr.

Creio que tenho de mudar-me pr'à outra margem.
New Jersey acena com o seu brilho de enxofre.
Olha, a conta dos anos pouca importância tem.
O dinheiro é verde, mas não cresce.

Levarei comigo a mobília, o meu velho sofá, enfim.
Mas que fazer com a vista da janela? Sinto-me
como se tivéssemos sido casados, ou algo assim.
O dinheiro é verde, mas dá tristeza à gente.

Um corpo, regra geral, sabe para onde vai.
Creio que é a alma que nos leva a rezar,
mesmo que lá em cima haja apenas um Boeing.
O dinheiro é verde, e eu já deixei de esperar.


em Paisagem com inundação, tradução de Carlos Leite, Lisboa: Cotovia, 2001, p. 221.

Li por aí


Onde almoço hoje, almoçam também os dois irmãos que cá estão em todas as vezes que aqui venho. Há meses, vi-os a almoçar com a mãe, septuagenária, ou octogenária, frágil como um caule de porcelana. Hoje, almoçam com ela, ao que entendo, apenas nas palavras que pingam na minha mesa, em ritmo de goteira: «a mãe», «a médica», «bactéria», «antibióticos», «febre», «quarenta graus», «cuidados intensivos». O que entendemos da vida dos outros é sempre uma interpolação entre palavras soltas.