QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (8/8)
Adeus mamã, adeus papá, adeus família, adeus.
Adeus nome da única rosa, chuva púrpura.
Adeus monstro que vivias debaixo da minha cama,
adeus nervos, medos, inocência, almofada.
Adeus doenças, quedas, tremores, cansaços,
já estou pronto para fechar os olhos,
prometo-vos que não vou trabalhar amanhã.
Adeus camioneta do lixo, não penses que vou estar acordado.
Adeus bolinhas de anil, abismo azul
no qual um dia se agarrou o desenganado cinzento sujo do mundo.
Adeus venenos, conversas, pressas, carteiras, famas, hipócritas,
já não acrescento nada.
Adeus brinquedos, bifaces, livros, pedras de quartzo,
capalas, sementes de mostarda,
cães lutadores do Nebraska,
portas que se abriam e onde me encontrava a mim próprio,
submarinos amarelos, Budas, estrelas,
Vía Láctea e música das esferas.
Adeus Daniel, adeus Jesus, adeus David,
adeus a todos os que me viram no meio do
centeio e me escolheram.
Adeus Méhari, amargor, Angola meu terra,
areia da Líbia.
Adeus beijos, Marrocos, salada Asihla,
fotos azuis com a Ángela no lavadouro de Chaouen,
campaínhas e yantras de cedro do Líbano da minha casa de Mérida.
Adeus minha menina, extensão de mim,
membro errante que me transmites a tua dor.
Adeus Mar, adeus maravilha.
Adeus hinos, adeus CNT, memória, sacrifício,
pássaros que cantastes toda a noite.
Adeus Juan Ramón,
recebido por uma imensa multidão
num porto de Buenos Aires
como o maior poeta das letras hispanas,
enquanto que em Moguer, na tua terra,
atiravam-te pedras e chamavam louco.
Adeus Juan de Yepes, Francisco de Assis,
Marpa o tradutor, Milarepa o mágico,
leão de Manjusri, sandália de Bodhidharma,
sorridente Padmasambhaba, brincalhão Seng Sung,
adeus mestres, lamas de açafrão, loucas nuvens vermelhas,
santinhos radiantes da minha casa.
Adeus irmão sol, irmã lua, irmão lobo,
adeus irmãos meus, namasté.
Adeus ácidos, tablas dobradas pela tristeza,
incensários, branca, fumeiros, psilocibes,
rosa lisérgica havaiana, corpos, cinzas,
esperanças, paraísos, sofrimentos, ignorância,
sonho, engano, sinais, descobertas, borracheiras, satoris,
diamantes cortadores de todos os afectos.
Adeus aprendizagens, koans, tantras, mantras, sutras,
mudras, orações, versículos, revelações,
canções, livros.
Adeus poemas, não haverão mais palavras para a mente.
Adeus Big Bang, não ficarei para ver o final,
porque tudo caíra.
Tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo caíra,
tudo
Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.