Um poema de Teresa M. G. Jardim


Eu vivo aqui


Não me deixes
na emboscada de uma sombra
não me concedas um amor
duradouro.
Continua a dar-me em cada manhã
a revelação das mãos, os peixes vermelhos
as ribeiras amansadas pelas buganvílias,
os rituais de preguiça
a urze vigilante.

Eu vivo aqui
no desenho mais alto da Ilha
temente dos muitos caminhos
por onde a água pode sumir-se.


em Jogos Radicais, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 40.

Dave Sandford



© Dave Sandford

(...)


Cheguei há pouco a casa. Fui fazer a minha caminhada habitual pelas ruas da vila. Por mais que me tente encontrar nelas: não consigo. Admiro aqueles que estiveram fora e regressaram para aqui fazer vida. Admiro a sua coragem, resiliência. Desde 2001 que ando por aí. Ponte de Lima é o meu limite a norte; Silves a sul. Há quem me diga que "vida não me falta". Sorrio sempre ao ouvir isto. Entendo aquilo que me querem dizer, mas sorrio sempre. Sei que são muitos quilómetros de estrada por este país. São muitas as experiências. Cruzei-me com pessoas de todos os géneros e feitios. Vivi em sótãos, apartamentos, quartos, vivendas, anexos. Já passei muito frio para poupar na electricidade, numa tentativa inglória de não me sobrar mês. Nunca poupei na comida. Nem na poesia (apesar de não comprar todos os livros que me apetece comprar). E devido a tudo isto há quem me diga que "vida não me falta". No entanto, encontro mais vida numa pedra do ribeiro da vila; mais vida na nogueira e na sua sombra, que sempre me ensinaram a evitar; mais vida nos pastores que deixei de ver a cruzarem as ruas com os seus rebanhos (embora nunca lhes tenha cobiçado a vida que tinham); mais vida numa senhora que sei nunca ter visto o mar e que nunca sentiu falta de o ver. 

Discos (232)




Oh, I don't know how I think this way

New Order

Durante a adolescência há muita coisa escusada. Recordo perfeitamente a excessiva emotividade em relação a tudo. Nada doía mais do que a dor que eu sentia em relação ao facto de tu, algures, não saberes que eu existia. Não havia pior destino do que o meu destino: desterrado numa vila onde a chuva era uma constante e o nevoeiro um pastiche do nevoeiro dessas cidades que chegavam a mim através das bandas que ouvia. Horas e horas a olhar para o tecto. Horas e horas a imaginar-me longe. 

Livros (137)




Foram já três (3) as tentativas de ler tão influente livro. E apenas posso dizer uma coisa: é chato, enfadonho e intragável. Li com gosto (e em inglês) Dubliners e A Portrait of the Artist as a Young Man. Li-os na praia. Ficaram-me. Este também me ficou. Como algo atravessado.


Uma imagem para o dia



Discos (231)




La Boute Du Suffle
(instrumental)


A vila começa a meter-se com os nervos. As montanhas tiram-me a linha do horizonte. Há crueldade em tudo isto e talvez a banda-sonora que escolhi não seja a melhor para este dia quente-abafado. Fecham-se as janelas, pois o sol começa a dar deste lado da casa. Há uma mesa à espera do almoço: bacalhau desfiado com molho-da-avô. Bebo água. Hidrato-me para o resto do dia. Só não há hidratação suficiente contra o mundo e as suas camelices. Uma voz, dentro de mim, diz que me queixo muito. Tem razão.

(...)


Levantei-me cedo. Tratei de mim e do gato. Vesti-me e fui comprar peixe. Só havia carapau grande — hoje o pessoal madrugou? — nã! à quarta não peço muito peixe... o pessoal compra mais à quinta — lá paguei. Voltei a casa para o deixar. Malick: o gato espera-me à janela. Mia mal me vê. Deixei o peixe em cima da mesa da cozinha. No caminho de regresso à vila o silêncio do meu caminhar é a única coisa que se ouve. Os emigrantes começam a partir e a vila retoma a sua normalidade. Ainda ontem, enquanto corria, vi vários a prepararem o carro para a viagem. É assim: logo depois das festas em honra do Divino Senhor do Calvário. Muitos deles esperam pelo fim das festas e só depois regressam ao 75, ou ao 35, 65, 23. E a vila, aos poucos, começa outra vez a ficar vazia. Antes, quando era mais novo, os emigrantes chegavam com bazófia suficiente para deles ficarmos fartos. Vinham e andavam pelas ruas a dizer coisas como "lá na França não é assim, hã!" ou então " fiz Paris-aqui na autorrute sempre a rolar, hã, dois depósitos, hã". Vinham com os seus carros grandes para as suas vivendas. Depois, chegou o cavaquismo e o guterrismo e também alguns de nós passamos a ter carros grandes e vivendas. A bazófia deles diminuiu e alguns deixaram mesmo de vir. Os seus fatos de domingo começaram a ficar démodé ("oh la France, la mode, la elegance"). Alguns deixaram a França e regressaram. Continuavam a dizer "lá na França não é assim, hã", mas agora devido a outras razões: "os auserianos e os marroquãnes estão a tomar conta dos cartieres, hã". Só que os "bons anos" não duraram muito. Chegou Durão Barroso, Sócrates e Passos Coelho. O primeiro foi o primeiro a emigrar. O segundo foi o segundo a emigrar. O terceiro convidou muitos a emigrar. E muitos dos que tinham regressado seguiram o conselho do Senhor Primeiro-Ministro. Voltaram ao "cartiére". E passaram, novamente, a fazer as malas depois das festas em honra do Divino Senhor do Calvário.

Carm



Côdega do Larinho

(...)


O calor foi mais intenso hoje. Transpirei bastante. Mas, mesmo assim, arrisquei a corrida ao fim da tarde. Pesei-me pela manhã, em jejum como manda a regra, e estou a dois quilos de atingir o meu objectivo. Estou, agora, com 77kg.  Há muito que não consegui estar tanto tempo abaixo dos 80kg. Para muitos será fácil. Para mim: não. Houve um tempo em que pesei 98. Comia e bebia sem regras. Nada de exercício físico. Um dia, ao sentar-me num sofá, não conseguia encontrar posição. Até ao momento em que vi ser a barriga a causa. Era ela que me impedia de estar confortavelmente sentado. E eu gosto muito de estar confortavelmente sentado. Estive sem beber durante ano e meio. Aprendi a comer. Vim para os 75. Mas aguentei pouco tempo. Voltei para os 80 e o máximo foram os 85.

Lí por aí


Não é estranho que as pessoas sejam amigas, marquem presença, elogiem-se, não é estranho serem todos umas queridas e uns queridos, passarem momentos fantásticos. Estranho é que seja sempre genial, magnífico, fabuloso. Estranho é não haver ninguém que diga, enfim, foi mais ou menos, não foi assim tão genial, foi assim assim, foi uma seca.


(...)


Na aparelhagem o kamancheh de Kayhan Kalhor. Lá fora há uma leve e fresca brisa, que é interrompida pelo miar de Malick: o gato, que do peitoril da janela interroga o fim do dia com os olhos e os bigodes afiados. Não há nada de extraordinário em tudo isto. Mas talvez a montanha ali em frente explique o mundo, embora eu não consiga decifrar essa explicação. Há, sem dúvida, demasiada metafísica. Não serei eu a tentar compreendê-la.

Moises Saman



(...)


Escrevo antes de uma partida. Partida que preferia não fazer. Mas como chegar se não se partir? 

Meg Hewitt



Rollercoaster
© Meg Hewitt

(...)


Há alguns dias que andas a aperfeiçoar a corrida. Hoje conseguiste correr três quilómetros sem parares uma única vez. É claro que o ritmo não foi muito rápido. Foram trinta minutos de corrida permanente. Trinta minutos para fazeres três quilómetros. Nada mau. Depois alongaste e tomaste banho. Agora ouves Coltrane (Olé, 1961: John Coltrane [saxofone soprano e tenor], Freddie Hubbard [trompete], Eric Dolphy [saxofone alto e flauta], McCoy Tyner [piano] Reggie Workman e Art Davis [contrabaixo] e Elvin Jones [bateria]) enquanto Malick: o gato observa a rua do seu lugar preferido ao fim da tarde: o peitoril da janela. Isso antes de ver que usas o teclado do computador e vir ter contigo, interrompendo, dessa maneira, aquilo que poderia vir a ser um grande texto sobre a inevitabilidade do inevitável. 

Plansel Selecta



Verdelho

Discos (230)



O Berimbau
(instrumental)

Noite. Acabaste de tomar banho depois de jantar. Mas antes preparaste as brasas para um grelhada e antes de tudo isso foste correr um pouco, pois precisas de transpirar o mundo e as suas camelices. Agora, enquanto escreves estas linhas e ouves o berimbau de Nana Vasconcelos, estás atento às vozes que vêm da rua e que são de uma família a jantar do seu pequeno jardim. Os teus pais já estão frente à televisão. O gato dorme numa das camas da casa. Lá fora a noite espera por ti. Mas antes, antes, tens de escrever tudo isto. 

(...)


Pelo caminho vou cumprimentando as pessoas. Antes não o fazia. Era uma espécie de arrongant prick. Mas agora ando a tentar mudar. A meio do caminho não encontrei uma pedra, mas encontrei uma Senhora com um grande e pesado saco de compras, a quem perguntei ― quer que lhe leve o saco? ― não é preciso… ― mas olhe que eu vou prá baixo e não custa nada ― fez uma pausa e ― és o filho da Lélé, não és? ― e como a resposta foi afirmativa, deixou-me levar-lhe o saco. Pelo caminho e na conversa fiquei a saber que a irmã dela é afilhada dos meus avós maternos. Quando chegámos à porta de casa, lá estava a irmã à sombra fresca ― bom dia! fiquei a saber que e afilhada dos meus avós! ― és filho de quem? ― da Lélé ― sim, é isso… os teus avós eram meus padrinhos. Rimos, deixei o saco e vim de lá contente com tudo isto.

(...)


Sinto-me frenético como se a noite tivesse passado em branco claro de insónias. Mas assim não foi e por isso não entendo esta minha pele-de-galinha em estado bruto de nervos.

Bredun Edwards



© Bredun Edwards

Ruben A.


O homem teve família como tantos homens. E tinha uma vidraça como tantas casas. Descrever a família de um homem é tão absurdo como descrever as janelas e as portas de uma casa. Estão ali ― umas mais direitas do que outras, outras menos abertas do que outras, uns distantes, outros apenas altos e largos, uns que ficam casados, outras embaciadas.


em Páginas (IV), prefácio de Isabel da Nóbrega, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 36.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (14)


1. O camarada Arnaldo Matos escreveu um editorial (no Luta Popular) cujo título é Resistência não é Terrorismo. Até aqui tudo bem. É a sua visão da coisa. Se pensarmos na Resistência Francesa, podemos concluir: não é terrorismo. Mas também podemos pensar: “depende do lado em que estamos”: o que nos levaria a uma conversa muito longa. No entanto, tudo muda quando o camarada Arnaldo Matos diz: «os actos de resistência dos povos explorados, oprimidos e agredidos não são actos terroristas; são actos legítimos de guerra, sejam praticados na frente de combate, se houver frente de combate, sejam praticados no interior do país imperialista agressor, como sucedeu nos ataques levados a cabo em Nova Iorque e em Washington, em Paris, em Londres, em Madrid ou em qualquer outro lugar onde o imperialismo possa ser atacado pelos povos agredidos, como ocorreu anteontem em Nice.» (o sublinhado é da minha responsabilidade). Considerar como um acto de resistência o atentado de Nice, ou todos os outros referidos, é pura e simplesmente uma grande irresponsabilidade. Ou, então, uma grande imbecilidade. Mesmo para alguém que pediu morte aos traidores.

2. A Turquia de Erdoğan suspendeu a Convenção dos Direitos Humanos. As convenções são como os dias mundiais disto e daquilo: parecem coisas demasiado óbvias para serem convencionadas ou para serem relembradas no calendário. Mas, verdade seja dita, ainda bem que existem, pois anda por aí gente muito esquecida. A Turquia de Erdoğan suspendeu algo que há muito estava em causa naquele país. Se dúvidas havia em relação a Erdoğan, todas elas ficam agora desfeitas.

(...)


Faço uma pausa na leitura de Páginas IV de Rúben A. (a introdução de Isabel da Nóbrega é muito boa) e bebo uma Bohemia Puro Malte. Tiro a respectiva fotografia e coloco no Facebook. Ainda me lembro do tempo em que nada disto acontecia. Durante quanto mais tempo irei lembrar?

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Uma rapariga sentada aqui na mesa ao lado lê Murakami. Foi autor que nunca explorei devido, em grande parte, ao hype que à sua volta se criou. Do Japão apenas conheço relativamente bem a obra de Basho e Mishima. E para quê ler Murakami se ainda não li, por exemplo, Proust ou Shaw ou Musil ou toda a obra de Hamsun ou Bernhard ou Céline? No entanto, não deixa de ser assinalável o facto de estar uma rapariga a ler numa esplanada em Manteigas. Não é comum. Aposto que não é de cá.

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Há uma leve brisa que refresca o ar. A sombra das árvores é fresca e o vento entre os ramos: relaxante. Pena Bon Jovi nas colunas da aparelhagem.