20.11.09
A seriedade e a referência
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Wilt
Wilt, essa fantástica personagem de Tom Sharpe, é professor. Ou melhor: tenta ser professor. Eu também tento ser professor. Umas vezes lá consigo. Outras: sou um Wilt autêntico.
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19.11.09
Thomas Bernhard
«(…) eu sabia que Roithamer sempre levava a sério tudo o que pensava, o que, porém, as pessoas que o rodeavam nunca verdadeiramente tinham querido acreditar, os seus pensamentos, como os seus sentimentos, tinham sido sempre extremamente sérios, o que de mais sério poderia haver, e os seus pensamentos e os seus sentimentos tinham sempre de coincidir com a sua existência, pois de outro modo ter-lhe-ia sido impossível avançar, progredir (…)»
Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, tradução de José A. Palma Caetano, 2007, pp. 78-79.
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Contra Mundum
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18.11.09
Versões: Bernardo Atxaga
A vida segundo Adão
Adão adoeceu no primeiro inverno depois da saída do paraíso / e assustado com os sintomas, a tosse, a febre, a dor de cabeça, / começou a chorar como anos mais tarde choraria Maria Madalena, / e dirigindo-se a Eva, «não sei o que se passa comigo» gritou «tenho medo» / «meu amor, vem cá, penso que chegou a hora da minha morte».
Eva ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras, amor, medo, morte / e pensou que pertenciam a uma língua estranha, distante do paraísoedês, / e andou com elas na boca, a mastigá-las como milho, como raízes, / até que acreditou, amor, medo, morte, compreender completamente o seu sentido. / Mas nessa altura já Adão andava melhor, e voltava a sentir-se feliz, ou quase.
Este acontecimento extraparadisíaco, foi só o primeiro de vários, / de modo que Adão e Eva continuaram, por assim dizer, a receber aulas intensivas / da língua que dizia amor, medo, morte, aprendendo palavras como / cansaço, suor, gargalhada, cacarejar, velhice, canção, carícia, prisão; / e à medida que o vocabulário aumentava, aumentavam também as rugas na pele.
A hora da morte, a verdadeira, chegou a Adão era já ele muito velho, / e quis transmitir a Eva aquilo que tinha aprendido, a última verdade. / «Sabes, Eva», disse-lhe, «a perda do paraíso não foi na realidade uma desgraça». / «Apesar de todas as dificuldades, apesar do que aconteceu ao pobre Abel e todos os outros conflitos, / conhecemos aquilo a que, muito nobremente, podemos chamar de vida».
Sobre a sepultura de Adão foram derramadas longas lágrimas, de água e sal, / que caíram à terra e não deram origem a jacintos, nem a rosas, nem a nenhuma espécie de flores, / e de todos foi Caim aquele que, paradoxalmente, chorou com mais intensidade. / Mas logo Eva lembrou com saudade o susto que Adão apanhou com a sua primeira gripe, / e todos se acalmaram, e se foram, e beberam algo, e comeram bolo.
Bernardo Atxaga, «La vida según Adán» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 45-46. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
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Ensino Recorrente
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Indignar-me é o meu signo diário (11)
Entre Dominica e o Botswana
por Manuel A. Pina
Desde 2005 (o ano pode não significar nada, mas dá que pensar) que Portugal vem descendo no "ranking" de percepção da corrupção da Transparency International, isto é, vem-se alegremente revelando um país cada vez mais corrupto, tendo este ano descido mais três lugares, da 32ª para a 35ª posição, e estando agora, em termos de corrupção, ao nível de Porto Rico, numa honrosa posição entre a Dominica (um pouco menos corrupta que nós) e o Botswana (um pouco mais corrupto).
Os índices da Transparency International resultam da avaliação anual de analistas e homens de negócios, bem como de organizações como o Banco Mundial, o Fórum Económico Mundial, os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia e centros de pesquisa como o Economist Inteligence Unit e o Global Insight. Curioso foi o modo detergente como alguns jornais deram ontem a notícia. O "Jornal Digital", por exemplo, deu-a sob o animador título de "Corrupção: Portugal é o país lusófono menos corrupto". Algo assim como, numa corrida com dois corredores, noticiar: "O nosso ficou em segundo lugar, ao passo que o adversário ficou em penúltimo".
de Jornal de Notícias, 18/11/09
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Lí por aí
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17.11.09
Georg Simmel
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Ensino Recorrente
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Versões: Bernardo Atxaga
As nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
só tarde se deram conta da importância da vida,
nunca antes dos setenta ou dos sessenta,
e estupefactas ante a descoberta,
perdiam o juízo durante várias semanas:
esqueciam o encontro das quintas com os filhos
faziam compras descabidas no supermercado,
falavam ao telefone aos gritos, interminavelmente
como se tivessem visto um ovni no terraço.
Mais tarde, dispostas a recuperar o tempo,
as nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
inscreviam-se em aulas de ginástica
promovidas pela junta de freguesia, «sou a Maria
por favor não me pergunte a idade que tenho»;
a partir daí, bailavam ao ritmo
dos números, fazendo corridas, dando gritinhos, saltos,
Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
O polidesportivo acolhia os seus risos com frieza.
Cumpridoras fiéis das ordens do professor
continuavam com as suas corridas, gritinhos, saltos,
e de vez em quando iam todas jantar fora
pondo de lado a bata e vestindo-se com elegância;
depois, um dia, sentiam-se mal ao pequeno-almoço
e caiam redondas sobre qualquer um dos filhos;
morriam pouco tempo depois, às primeiras horas da manhã,
enquanto as suas amigas, no polidesportivo, em coro
diziam Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
Bernardo Atxaga, «Una Altra Piéta» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 49-50. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
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Indignar-me é o meu signo diário (10)
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A vida
Apesar de tudo, a piada está em alguém não ter avisado que é suposto rir.
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O sotaque
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A constatação
Sou o perigo de mim próprio.
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16.11.09
Pensamento do dia
The Sound - Red Paint (live)
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O colega
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O dom
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A viagem
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15.11.09
As visitas
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14.11.09
Um poema de Fernando Namora
Retratos de Família
3.
Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas hoas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.
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12.11.09
Pensamento do dia
The Stooges - T.V. Eye
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Ensino Recorrente
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Queixinhas
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Versões: Xavier Montoia
Nos copos
A sua mente
como uma mosca
sobrevoa a imundice que é a sua vida
atraída, ao que parece, por um passado
mais mortífero do que qualquer peste.
Incapaz de ignorar o apelo
da merda acumulada durante anos,
como que empurrada por mãos invisíveis e enormes,
bebe desesperadamente
de uma garrafa escura e sem fim
o álcool destilado do arrependimento.
Xabier Montoia, «De copas», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 133. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
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11.11.09
Conversa pós-jeropiga e castanhas
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9.11.09
Um poema de Isabel de Sá
Tragédia e Paraíso sempre
O poder redentor das palavras
bala no coração até ao fim
mineral escondido no poço
escuridão no olhar dos amantes.
Crianças vestidas de beleza
estrada cega de luz.
Heróis amarrados a si próprios
rio parado no lodo
tirania do desejo ou privação
a loucura brilhando no rosto.
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Ensino Recorrente
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Para não se perderem...
por Lisboa, passem pela Poesia Incompleta e peçam um Mapa.
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