Estados Filosóficos (137)


Há o poeta a metro. E há o poeta. O primeiro não é, necessariamente, o segundo.

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Acordar com um sonho onde uma voz me diz — anda anda levanta-te! vamos caminhar! — e com os olhos piscos na penumbra do quarto ter consciência: foi apenas isso: um sonho. Depois, há o levantar e cumprir a rotina de todos os dias. Torradas, café, ouvir as primeiras notícias. E quando digo "rotina de todos os dias" não me refiro apenas à rotina destes dias, mas sim e também à rotina dos dias que estão para trás porque, felizmente, há dias que estão para trás.

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Saí para comprar bens essenciais. A qualidade de vida da "província", que muitos invejam (aquela em que os amigos têm todos uma horta), está presente pelas piores razões numa cidade como Lisboa: sem teatros, sem cinemas, sem museus, sem movimento na rua, mas sempre com muito silêncio e o som dos passarinhos. Aproveitem enquanto podem, que isto, felizmente, não durará para sempre.

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Há pouco, enquanto estendia a roupa, o silêncio à minha volta. O mar lá ao fundo quase que se ouvia. Mas tenho a certeza que ouvi os passos de corrida de alguém ali na rua. Agora, a esta hora, o gato ao meu colo ouve, comigo, Pärt e a sua melancolia. Chatwin repousa um pouco, cansado que está dos meus olhos que o lêem. Se isto for o fim do mundo: por agora está tudo bem.

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Em tempo de reclusão, não há nada como viajar.

Versões: Saburō Kuroda


Natureza


A natureza
tudo diz em silêncio
àquele que passa apressado
a voz é inaudível
um longínquo cabo verde
areia sobre uma cerca
e é tudo


Saburō KurodaAnthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, p. 117.

Estados Filosóficos (136)


Sou apenas um bêbado a quem proibiram beber.

Estados Filosóficos (135)


Sabendo, como sabemos, que o bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo, pedir bom senso é um contra-senso.

Versões: Jun Takami


Unhas dos Mortos


Frios tijolos
cobertos de hera.
Na noite funda
o tempo pesa muito,
unhas dos mortos que tudo guardam.


Jun TakamiAnthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, p. 108.

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Ando há dois anos a debater-me com a tradução de um poema de Yeats: Rumo a Bizâncio. Estou satisfeito com a tradução que fiz da primeira estrofe e relativamente satisfeito com a tradução da segunda. Mas ainda não passei disto: duas estrofes. Ando, há dois anos, a traduzir duas estrofes.

Versões: Shūōshi Mizuhara


Frente ao crisântemo
a minha existência
converte-se em silêncio


Shūōshi Mizuhara, Anthology of Modern Japanese Poetry, versão minha a partir da versão inglesa de Edith Marcombe Shiffert e Yuki Sawa, Tóquio | Vermont: Charles E. Tuttle Company, 1984, p. 167.

Estados Filosóficos (134)


Falam do calor, dos dias que começam a ser mais longos, dos treinos dos filhos, do jantar, do almoço, do novo vírus. Começo a pensar que não tenho vida.

Estados Filosóficos (133)


Estou sentado no sofá e reparo que a barriga cresce desmesuradamente. Olho-me ao espelho e penso “o que te safa é teres esses lindos olhos azuis”. Mas depois lembro-me que sofro de miopia.

Ensino Recorrente



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Os comentários, neste blogue, são moderados. Agora: passaram a ser moderados e a estar apenas disponíveis a pessoas com conta no Google ou no Blogger. Como seria de esperar, os comentários Anónimos desapareceram, pois esses seres não têm coragem suficiente para dar a cara, nem que seja uma "cara inventada". E abrir uma conta dá muito trabalho e deixa rastro. E isso eles não querem.

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No passado dia nove de Março, há um ano, era apresentado Aprendiz, na Livraria Poesia Incompleta. A Ana Isabel Soares teve a amabilidade de vir do Algarve para apresentar o livro. A minha Mãe veio de Manteigas e John Mateer da Austrália (foi, aliás, uma coincidência feliz). Apareceram alguns amigos, mas não muitos, pois isto da cidade baralha sempre o calendário e as horas. A volta d'mar teve a coragem de publicar o livro. Como seria de esperar: ainda não esgotou.

Miguel Martins


Não sou particularmente boa pessoa.
Não tenho especial bom gosto.
A minha família é como as demais.
As coisas muito boas desperdiçam-se em mim.
Dentro dos limites do razoável burguês,
qualquer coisa me serve.

Prefiro conversar com um velejador solitário,
um condutor de tanques de guerra,
um taxista de Istambul
do que com um pensador da pós-modernidade
ou um poeta de palavras astuciosamente enclavinhadas.
Mais: prefiro despir uma operária de Manchester
a qualquer coisa dessas
(por mim, tudo à minha volta estaria em trânsito constante).

Não sou muito competente em nada,
a preguiça não ajuda
e a pressa inexplicável muito menos.

Sou imediatista:
materialista e anárgiro.

Tenho uma aproximação instrumental aos sonhos
e uma abordagem nefelibata às coisas práticas
(é óbvio que se pode ser volúvel sem se ser gelatinoso).

Habituei-me a depender dos outros,
a contar com eles
e a não me considerar, sequer, em dívida.

Húbris sem némesis.

Tenho todo o tipo de preconceitos.
Apoio-me num andaime de suficiências reveladas.

A avidez tomou em mim o lugar da razão e da justiça.
Demagogia por demagogia, mais vale nenhuma
e a retórica é uma canseira.

É preciso muita objectividade para viver tão enovelado
e é preciso viver muito enovelado para ser tão objectivo
(de igual modo, tenho de ter muita saúde para ter tão pouca
— a gordura armazenada nas bossas dos camelos
ou um acaso genético
ou um sofá herdado).

Ora bem: dito isto,
sou dos tipos menos desinteressantes que conheci.
Tenho olfacto para animar qualquer sala durante meia hora
e só não me dão de beber em ambientes daquela miopia
— empedernidamente fúnebre —
que se topa à légua pela acne tardia,
a pele amarelada,
a cara emaciada dos que só têm uma (e logo assim!),
gente que não sabe soldar dois arames
e faz minetes como os gatos bebem leite.

09/03/2020


retirado do seu blogue: Extra Light

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Há muito que não ouvia o saxofone de Tina Brooks. Às vezes uma pessoa esquece estes outros, tão pouco lembrados. Digo-o porque me acontece. Ouço mais Coltrane, Coleman, Dolphy, Rollins, Shorter, Parker, Adderley. E depois Tina Books fica esquecido, quando é, também, um enorme saxofonista e compositor. A título de exemplo: True Blue: álbum emblemático da discografia de Brooks, discografia que, aliás, não é muito longa — cinco álbuns em nome próprio. Mas soube sempre acompanhar-se pelos melhores: Lee Morgan, Sonny Clark, Art Blakey, Freddie Hubbard, Paul Chambers, entre outros. E acompanhou (a título de exemplo): Kenny Burrell e Jimmy Smith. Tenho de me lembrar mais vezes dele.

McCoy Tyner (1938 – 2020)



Ana Leonor Santos


     Falar de crise da educação é referirmo-nos, a montante dos sintomas que a denunciam, ao reconhecimento da inadequação dos princípios orientadores da acção educativa. A crise corresponde ao momento no qual os preconceitos desaparecem e ressurgem as questões para as quais os mesmos constituíam respostas. Sob esta perspectiva, pode tratar-se de um momento particularmente fértil, se a salvo das ideias feitas e do pathos da novidade. Foi no século XX que, no que diz respeito à educação, se produziram as consequências mais gravosas destes dois factores, precisamente na medida em que abriram caminho para as teorias modernas da educação, relativamente às quais Hannah Arendt destaca três ideias basilares, a saber: (i) existe um mundo próprio das crianças, bem como uma sociedade formada por elas; enquanto seres autónomos que são, devemos deixar que se autogovernem. Consequência: do ponto de vista do adulto, este ficou desamparado face à criança tomada individualmente, restando-lhe permitir que esta faça aquilo que lhe agradar e impedir que aconteça o pior; do ponto de vista da criança, liberta que ficou da autoridade dos adultos, viu-se submetida a uma autoridade mais tirânica —a da maioria. Tomada isoladamente, a criança tem escassas hipóteses de se revoltar ou de fazer algo por iniciativa própria; deixou de estar na situação de uma luta desigual com alguém que detém superioridade absoluta sobre ela— situação na qual podia contar com a solidariedade dos seus pares —, passando à situação de ser uma minoria de um só face à absoluta maioria de todos os outros; (ii) a ideia de que é professor aquele que é capaz de ensinar seja o for. Consequência: porque a sua formação é em ensino e não em conteúdos particulares, muitas vezes pouco mais sabe sobre o que ensina do que os seus alunos; (iii) a ideia, considerada a mais perniciosa de todas, respeitante à substituição do aprender pelo fazer, porquanto se considera, no âmbito de uma concepção pragmatista, que só conhecemos e compreendemos aquilo que fazemos por nós mesmos. Consequência: tendo em conta o pressuposto de que o jogo é o modo mais apropriado de a criança se introduzir no mundo, porque o mais espontâneo e característico, há que suprimir tanto quanto possível a diferença entre trabalho e jogo, em benefício do último, sem tampouco inculcar gradualmente o hábito de trabalhar ao invés de brincar, situação característica da idade adulta.


em A Democracia nos Limites da Escola. Ou da Disjunção entre Educação e Política em Hannah Arendt, Covilhã: Universidade da Beira Interior, Colecção Artigos LusoSofia, 2009, pp. 7-8.

Michael Wolf



Michael Wolf
Architecture of Density
2009

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Não sei se repararam, mas sou asmático. Se lerem os textos que escrevo com atenção vêem que respiram mal. Que respiro mal.

Estados Filosóficos (132)


O problema não é a vida não ter sentido. É o seu sentido estar oculto.

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Será que Kafka tinha lido A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi, quando escreveu A Metamorfose? Posso estar a ver coisas onde elas não existem. Fique claro que não se trata de plágio. No entanto, há semelhanças entre as duas personagens: Ivan Ilitch e Gregor Samsa. Ambas se debatem com o absurdo da morte, com a incapacidade de continuar a viver a vida como até aí tinham vivido. São amadas pela família até que se tornam um fardo. As mortes são relativamente calmas, apesar do sofrimento existente.