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Versões: Tadeusz Różewicz


Os meus lábios


O dia está a terminar
Termina com o jantar
lavar os dentes
um beijo
e deixar tudo arrumado

foi um dia
entre muitos outros preciosos dias
que nunca se repetem

O que me aconteceu

Passou e andou
entre a manhã e a noite
como o dia anterior

Oh meu dia
meu mais que tudo
o que fiz
o que fiz

Talvez deva
sair pela manhã
regressar à tarde
repetir alguns gestos
pôr as coisas em dia

Oh meu dia
o mais belo diamante do mundo
torre de marfim
baleia azul
lágrima nos meus olhos

Oh os meus obscuros pensamentos
quando estou em pé com as mãos nos bolsos
e vejo através de colunas cinzentas de chuva
o plátano ficar dourado

Os meus lábios
que falaram
a verdade mentiram
mecanicamente afirmaram
negaram mendigaram
gritaram sussurraram
choraram e riram

Os meus lábios
formando entre
eles inúmeras
palavras ditas


Tadeusz Różewicz, «My Lips», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, pp. 39 e 41.

Versões: Tadeusz Różewicz


O Sobrevivente


Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.

Estes são sinónimos vazios:
homem e animal
amor e ódio
amigos e inimigos
escuridão e luz.

A maneira de matar homens e animais é a mesma
vi-a:
camiões cheios de homens despedaçados
que não poderão ser salvos.

Ideias são apenas palavras:
virtude e crime
verdade e mentira
beleza e fealdade
coragem e cobardia.

Virtude e crime têm o mesmo peso
vi-o:
num homem que era ao mesmo tempo
virtuoso e criminoso.

Procuro um professor e um mestre
que possa devolver-me a visão audição e fala
que possa nomear novamente objectos e ideias
que possa separar a escuridão da luz.

Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.



Tadeusz Różewicz, «The Survivor», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, p. 7.