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Um poema de Vergílio Ferreira



Só eu o sei, e porque mo disseste?
A minha responsabilidade agora é horrível.
Recebi o teu aviso, tínhamos o céu já preparado
com a noite que lhe competia e o seu absoluto de limpidez,
com o absoluto de um destino.
E havia estrelas novas, fabricadas de propósito,
como a alegria de uma criança a quem vestiram de preto.
Há Inverno à nossa volta com o frio da nossa humildade
e acendemos o lume para estarmos mais perto de nós.
E encomendou-se um pouco de neve para a celebração do início.
E bebeu-se um vinho intenso até à ternura por nós mesmos,
para a vida caber toda dentro da nossa comoção.
Tudo isto tinha que ver com o tencionado encantamento
e o que se combinou ser a esperança, a propósito de tu vires
e confirmares a esperança de que a trouxesses contigo.
No fundo da noite, há o silêncio dos homens,
que é de quem já disse tudo e é altura de tu dizeres.
Tudo isto é muito triste, não sei se fazes ideia.
Como é que eu vou poder agora explicar-lhes?
Vê-los erguer para mim os olhos necessitados,
todos junto da porta à espera que batas à porta?
Tudo fora já experimentado nas combinações possíveis,
não talvez de se ser feliz, mas de ser plausível pensá-lo.
Não, não vou agora dizer-lhes que nunca mais irás voltar,
que a fábula se esgotou e é altura de serem homens,
na desgraça miserável de serem maiores do que eles,
na pequena glória portátil de não serem menores do que eles.
Mas não, não vou dizer-lhes, estava eu bem arranjado.
Corriam-me à pedrada ou pregavam-me no madeiro,
que é o que te estão já preparando,
com pregos e martelo nos bolsos,
quando for a altura de esgotares, como os políticos, a esperança
que tinhas prometido,
e aguardarem até ao ano que a trouxesses outra vez.
Porque, enfim, sem esperança,
como diabo se há-de viver?
Estou só e muito enrascado
com o segredo horrível que me anunciaste.
Não o digo a ninguém. Perder a esperança, sim, mas devagar.
Aliás, mesmo a mim, que sou razoavelmente um homem forte,
é um bocado difícil de engolir
essa coisa trágica, nefanda e absolutamente despropositada
de nunca mais voltares, definitivamente,
nunca mais
nunca mais…



em Conta-Corrente 2, Lisboa: Bertrand Editora, 3ª edição, 1990, pp. 340-341.

Vergílio Ferreira

---«e tu respondes à vitória da minha perfeição, vejo-te ao longe, frágil, intensa, balanceada ao ritmo das ondas, a praia nua no regresso ao nosso ser primitivo e o sol e o sol, o mundo é deserto para recomeço inteiro, a pré-história da vida

que merda a vida.»

em Rápida, a Sombra, Venda Nova: Bertrand, 3ª edição, 1993, p.53.

Vergílio Ferreira


«— Toda a nossa actividade literária é de uma mesquinhez atroz. Nós não temos o direito de escrever. Falo de todos nós. Postos de parte os Tóinos e as Marias dos imbecis, que nos fica? O romance de gabinete, essa porcariazinha «inteligente», essa masturbaçãozinha de impotentes. Ou então, o romancezinho «psicológico», em que se trata o homem com desprezo, se vem contar, com petulância, como é feito por dentro e dá entre nós um génio em cada cinco anos, esse romancezinho feminino que Proust, como «mulher» que era, pôs em moda. Sim, que s´o mesmo uma mulher podia inventar essa coscuvilhice íntima, essas histórias e historiazinhas cheias de pequeninas observações, esses períodos longos e complicados como folhos de rendas de uma boneca. Contra mim falo, meu amigo, ah, contra mim falo. Mas não há outra saída. E todavia a hora é da ardência, do sangue!»

em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p. 23.

Vergílio Ferreira


«— Vem. Vem comigo. Porque não vens? Ah, tu és professor… Nunca te assaltou o vexame dessa mesquinhez? Nunca te assaltou o génio da destruição, da conquista?
---Baixava-se, falava-lhe ao ouvido:
---— Tenho comigo o crime, o sangue, tudo o que é belo e solitário. Poderás comparticipar, tocar com as mãos o secreto lume da vida. Talvez tenhas até a sorte fantástica de me matares…»

em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p.155.