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Versões: Leopoldo María Panero




Ars Magna


para o Clemen, com um arrepio


O que é a magia, perguntas
num quarto escuro.
O que é o nada, perguntas,
ao saíres do quarto.
E o que é um homem a sair do nada
e a regressar sozinho ao quarto.


Leopoldo María Panero, «Ars Magna», em Agujero llamado Nervermore (Selección poética, 1968-1999), edição de Jenaro Talens, 2ª edição aumentada, Madrid: Ediciones Cátedra, 2000, p. 228.

Versões: Leopoldo María Panero



Mutis*

Talvez fosse mais romântico quando
arranhava a pedra
e dizia por exemplo, cantando
da sombra às sombras,
assombrado pelo meu silêncio,
por exemplo: «devemos
lavrar o inverno
e existem sulcos, e homens na neve»
Hoje as aranhas fazem-me cálidos sinais dos
cantos do meu quarto, e a luz treme,
e começo a duvidar que seja certa
a imensa tragédia
da literatura.


Leopoldo María Panero, «Mutis», em Agujero llamado Nervermore (Selección poética, 1968-1999), edição de Jenaro Talens, 2ª edição aumentada, Madrid: Ediciones Cátedra, 2000, p. 182.



*em teatro equivale a uma saída de cena.

Versões: Leopoldo María Panero


O Lamento de José de Arimatéia

Não suporto a voz humana,
mulher, acaba com os gritos do
mercado e que não regresse
a nós a memória do
filho que nasceu do teu ventre.

Não há maior coroa de
espinhos do que as recordações
que se cravam na carne
e que fazem uivar como
uivavam
no Gólgota os dois ladrões.
Mulher,
não te ajoelhes mais junto
do teu filho morto.
Beija-me os lábios
como nunca o fizeste
e esquece o maldito
nome
de Jesus Cristo.


Leopoldo María Panero, «El Lamento de José de Arimatea», em Poemas del manicomio de Mondragón, Madrid: Ediciones Hiperíon, 4ª edição, 1999, 55.

Versões: Leopoldo María Panero


Hino a Satã

Tu que és apenas
uma ferida na parede
um golpe na fronte
que leva lentamente
à morte.
Tu que ajudas mais os fracos
do que os cristãos
tu que vens das estrelas
e odeias esta terra
onde moribundos descalços
dão as mãos dia após dia
procurando entre a merda
a razão de viver
já que nasci do excremento
amo-te
e adoro depositar sobre as tuas
mãos delicadas as minhas fezes
O teu símbolo era o veado
e o meu a lua
que a chuva caia sobre
os nossos rostos
unindo-nos num abraço
silencioso e cruel tal como
o suicídio, sonho
sem anjos nem mulheres
completamente nu
menos do teu nome
e dos teus beijos no meu cu
e das tuas carícias na minha careca
rociaremos com vinho, urina e
sangue as igrejas
presente dos reis magos
e debaixo do crucifixo
uivaremos.

Leopoldo María Panero, «Himno a Satán», em Poemas del manicomio de Mondragón, Madrid: Ediciones Hiperión, 4ª edição, 1999, pp. 53-54.