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Um poema de Rute Castro


28.

cheira àquilo que parece povo de boca grande no centro de um
novelo. se tudo estivesse certo seria de diagnosticar o problema que se
deita na rua para ser atropelado. tem de haver dentes e líder e voz, e
cosa que abandeire a vida, senão o corpinho estendido será de efeito
imediato de entrega de prémio, e o não ter nada para dizer desmaia
por falar demais, sempre foi assim, falta-lhe fôlego próprio e é chato
quando se lê e se sabe vazio, é chato quando pelos ares qual balão de
criança, e como se vai ar também falta. havia de se espetar o balão
rapidamente, catraios mais crescidos, mas vão santos e sardinhas
de viagem que é isto que é aquilo que cai e deixa a norte o escuro e
vende a alma no jogo, que é dia frio, caminha bem como esboço que
abre de si o peito e soa a grande abate,

hoje é dia de abraço conjunto da religião e nenhuma fé, santo antónio
da moedinha, o pulinho entre cerveja e corte salarial, a tontura do que
reza a missa, do que se passeia pela trela e se diz que se ama.


em O Sangue da Flores, Lisboa: Artefacto, 2014, p. 40.