Versões: Derek Walcott


Elegia


A nossa rede balançou entre Américas,
sentimos a tua falta, Liberdade. Che
cai crivado de balas,
e aqueles que gritaram, a República deve morrer
para renascer, estão mortos,
cidadãos livres com uma urna enfiada na cabeça.
Mesmo assim, todos querem ir prá cama
com a Miss América. E, se não há pão,
que comam bolos.

Mas a velha escolha de correr, uivar, velho
lobo ferido floresta adentro,
enquanto os jornais proclamam
o genocídio, desapareceu;
nenhum rosto consegue esconder
a dor tornada pública,
o esgar petrificado.

Uma lasca de seta alojada no cérebro
faz uivar o cantor negro na sua armadilha para ursos,
os seus jovens olhos a arder com o brilho dos loucos,
a cansar os velhos com a sua tristeza residual;
e os primeiros lilases florescem no alpendre,
e a claridade da flor das cerejeiras
cega Washington e murmura
ao assassino na sua sala mobilada
uma América ideal, cujas oscilantes telas
mostram, em lentos bandos, os fantasmas dos Cheyennes
de pés esfarrapados e sussurrantes
em luta pelas planícies rodeadas de cercas eléctricas,

enquanto o casal emoldurado de agricultores góticos
como santos de Calvino, mordazes, pragmáticos, pobres,
seguram a forquilha do diabo
observando hirtos o trigo imortal.



Derek Walcott, «Elegy», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, pp. 109-110.

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