Versões: Dylan Thomas


A luz surge onde nenhum sol brilha…


A luz surge onde nenhum sol brilha;
Onde nenhum mar se agita, as águas do coração
Fazem avançar as suas marés;
E, fantasmas destruídos com vermes nas suas cabeças,
Esses objectos de luz
Percorrem a carne onde nenhuma carne esconde os ossos.

Uma candeia junto às coxas
Aquece a juventude e a sua semente, queimando a semente da idade;
Onde nenhuma semente cresce,
O fruto do homem mostra o seu vigor nas estrelas,
Brilhante como um figo;
Onde nenhuma cera existe, a vela apenas mostra os seus cabelos.

A manhã surge atrás dos olhos;
E o sangue agita-se como um mar
Da cabeça aos pés;
Sem defesa nem protecção, as nascentes do céu
Irrompem dos seus limites
Ao darem-se conta de um sorriso no óleo das lágrimas.

Como uma lua a noite cerca
Com sua órbita os limites do mundo;
O dia nasce nos ossos;
Onde nenhum frio existe, a tempestade destrói
As roupas do inverno;
E a primavera surge nas pálpebras.

A luz surge em lugares secretos,
Nos limites do pensamento, onde à chuva se sente melhor o seu aroma;
Quando a lógica morre,
O segredo da terra cresce através dos olhos,
E o sangue jorra do sol;
Sobre os campos destruídos, a madrugada detém-se.


Dylan Thomas, «Light Breaks Where No Sun Shines», inserido em A Mão Ao Assinar Este Papel, tradução e prefácio de Fernando Guimarães, 2ª edição Lisboa: Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês, nº 24, 1998, pp. 28 e 30 (o original em inglês encontra-se nestas páginas e nele baseio a minha versão, não querendo, de qualquer modo, menosprezar a tradução de Fernando Guimarães)

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