Touriga Nacional | Touriga Franca | Tinta Roriz
(...)
Muito frio. Se aqui está assim: fará em Manteigas. Logo hoje que saí mais cedo de casa. Não era necessário; despachei-me mais cedo. E saí. No café de sempre o café de sempre. Estava lá aquele senhor que só anda de camisola, sem outro agasalho. Hoje tinha um casaco vestido. Por isso: deve estar mesmo frio.
(...)
Agora, Rui, penso no momento em que, chegado ao céu, Deus se virar para si: "Tinhas razão, Rui. Eu, afinal, não existo". E com a perspectiva de tal coisa, esboço um sorriso e lembro as tardes em que tanto aprendi consigo. Ainda hoje não sei se era eu que lhe fazia companhia a si, ou se era o Rui que me fazia companhia a mim, perdido como eu andava numa cidade que me tinha recebido a "300 euros por mês (tudo incluído) num quarto com marquise". Nunca consegui tratá-lo por "tu", apesar de me ter sido pedido. Não fui capaz. Deixo-lhe aqui um abraço que ficará para sempre, pois dizem que há uma "nuvem" algures que tudo guarda. Aqui vai ele, do Varoufakis de Manteigas. Abraço, Rui.
Um poema de Sandra Costa
Herbert List, Lemonade stand (Capri), 1932
Apodera-se de ti o ofício do Verão.
Enquanto houver limões sobre a bancada
de madeira, água e açúcar para manter
o equilíbrio entre o que vês e o que escreves,
e uma colher para que um leve tinido
tudo trespasse de mar e melancolia,
deixarás por aqui um rasto a margens
e a tardias esperas.
Crês que a ilha também pode ser um lugar
onde as histórias de amor
se apresentam em segundo plano.
em Untitled, s/l: volta d' mar, 2017, p. 21.
(...)
A natureza do amanhecer. Andar pelas ruas ainda vazias de gente. A cidade a abrir em estores e alumínios. O primeiro café do dia no café de sempre. Os mesmos rostos de sempre. E também, aqui, a mesma repetição de sempre, porque a vida, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a Arte, como forma de tentar dar à vida alguma originalidade. E quando digo Arte incluo todas as suas formas: literatura, pintura, escultura, música, cinema e por aí em diante. Mas, depois, também na Arte a mesma repetição de sempre, porque a Arte, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a vida, como forma de tentar dar à Arte alguma originalidade. E por aí em diante.
(...)
O arroto seguido de vómito começa a ser o estilo mais recorrente naquele que alguns ainda julgam ser o melhor amigo. Cuspir pró ar, também. E todos sabem o que acontece àqueles que cospem pró ar. Mas a mim aquilo que mais me indigna é o facto de praticamente ninguém se indignar. Indignam-se com tudo e mais alguma coisa, menos com o insulto gratuito. A verdade é que a maior parte está à espera das migalhas que o "crítico" irá atirar para o chão, para depois se refastelarem com elas e arrotarem com migalhas entaladas entre os dentes.
Há quem continue a dizer que o "crítico" nada diz, nada escreve, não interessa. Não se admirem, um dia, que o "crítico" arrote, vomitando, na Vossa direcção. E depois ninguém se indigne com a Vossa preciosa indignação.
(...)
Ontem decidi por um ponto final
na leitura de O Tango de Satanás.
Custa-me deixar um livro a meio, mas concluí, há muito, que não sou obrigado a
ler um livro até ao fim só porque sim. E comecei a leitura de Auto-de-Fé. E, caramba!, que diferença.
Canetti sabe prender um leitor desde a primeira linha. Aquela entrada é
fulgurante, com um diálogo bem escrito e sem ser massudo. A apresentação do
personagem principal. Tudo logo no primeiro capítulo, sem esforço. Penso que
tomei a decisão certa. Alguns pós-modernos parecem fazer gala de dificultar a
leitura. Talvez ainda não esteja pronto para eles.
Marquesa de Alorna - Grande Reserva
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Ando há semanas a tentar acabar de ler O Tango de Satanás. A verdade é que a escrita do autor húngaro não me entusiasma, apesar de ter uma características que muito me agrada: parágrafos únicos. Mas não me agrada todo aquele palavreado, todas aquelas imagens, todas aquelas metáforas e todos aqueles adjectivos para identificar e falar da queda de um regime e de um ideal. Parece que há muita parra e pouca uva. E depois tenho ali ao lado Auto-de-Fé, de Canetti, a olhar-me e a dizer-me "larga esse gajo e pega em mim".
(...)
Às vezes tenho de trocar o toque do despertador no telemóvel, pois começo a ficar intolerante ao som que habitualmente uso. Em vez de acordar, simplesmente, acordo enervado, rabugento, pois aquele ruído começa a implicar com os nervos. É claro que a parte do acordar, levantar e ter de enfrentar um dia de trabalho também não ajuda nada. O trabalho é mesmo uma opressão. E mesmo que o modelo neoliberal existente e em vigor um dia seja derrotado, a figura do "trabalho" irá manter-se, pois ela ultrapassa qualquer tipo de regime ou de modelo económico. Uma merda, portanto.
(...)
Ao contrário do que muitos pensam, e alguns dizem por aí, é só pedir o catálogo da Companhia das Ilhas e ele chega até nós livre de encargos. Assim, já conseguiremos ter uma "orientação firme e clara". Só que alguns ditos críticos pensam que as coisas têm de ir até eles sem esforço, pois o "crítico" é esse ser superior, que deve ser servido. Estamos bem arranjados, sim senhor.
Estados Filosóficos (105)
Aquilo que dói não é a descoberta da mentira. É antes a descoberta da verdade.
Um poema de m. parissy
De um dos quartos retiraram-se os
objectos desnecessários: uma
cómoda de madeira escura, uma
cadeira com assento verde, as
imagens penduradas. Ficou apenas a
cama, a mesa-de-cabeceira e as
cortinas. Brancas para deixar entrar
a luz. Uma janela que destapava o
silêncio. Já não havia choro. A
construção do refúgio ocupou esse
lugar.
em Ferido, s/l: volta d'mar, 2016, p. 18.
(...)
A verdade é simples: ouvi sempre mais música do que li poesia, romance, ensaio. Foi devido a isso que decidi criar o blogue Som e Fúria. Será, à minha maneira (e não é uma referência a Xutos & Pontapés), um blogue sobre música. Até agora escrevi três textos: este, este e este. Nos próximos tempos irão encontrar-me mais por lá do que por aqui.
(...)
Ontem fiz uma coisa que não fazia há muito: escrevi uma carta a um amigo. Hoje foi dia de a enviar. Estados Unidos da América. Com quatro livros dentro do envelope, em correio normal, ficou tudo em quatro euros e meio. Soube bem escrever uma carta. Tenho de repetir. Não me faltam por aí amigos espalhados.
6 anos
1) A Medula faz hoje seis anos. Durante esse tempo foram publicados onze livros, todos eles edições únicas com tiragens de cem exemplares.
2) A Medula continua e continuará a afirmar-se como um projecto editorial independente, porque, em primeiro lugar, não depende do dinheiro dos seus autores; em segundo lugar, não depende ou de subsídios ou de apoios ou de angariações de fundos ou de subscrições.
3) A Medula continuará a depender da carolice dos amigos para traduções, revisão de texto, divulgação e apresentações.
4) A Medula continuará a correr o risco de não ser encontrada nas grandes superfícies livreiras.
5) A Medula continuará a correr o risco de apenas ser encontrada nas pequenas livrarias (que são cada vez menos).
6) A Medula agradece a todos aqueles que a acompanham desde o dia três de Janeiro de dois mil e treze.
2) A Medula continua e continuará a afirmar-se como um projecto editorial independente, porque, em primeiro lugar, não depende do dinheiro dos seus autores; em segundo lugar, não depende ou de subsídios ou de apoios ou de angariações de fundos ou de subscrições.
3) A Medula continuará a depender da carolice dos amigos para traduções, revisão de texto, divulgação e apresentações.
4) A Medula continuará a correr o risco de não ser encontrada nas grandes superfícies livreiras.
5) A Medula continuará a correr o risco de apenas ser encontrada nas pequenas livrarias (que são cada vez menos).
6) A Medula agradece a todos aqueles que a acompanham desde o dia três de Janeiro de dois mil e treze.
Estados Filosóficos (104)
A maior luta, aquela que me consumirá sempre, não é contra a injustiça, a pobreza, a tirania. É contra a hipocrisia. A minha.
Vladimir Karl Abner (1914-1997)
Em 1915, quando Jevdet Bei mandou cercar a cidade de Van, Vladimir Karl Abner tinha um ano e o pai, Kusan Abner, fazia parte dos resistentes arménios que combateram as forças otomanas. Findado o cerco, depois da intervenção das forças imperiais russas lideradas pelo general Nicolai Yudenich, a família Abner refugiou-se na região do Cáucaso, tendo depois rumado até à cidade de Moscovo, onde Kusan Abner entrou em contacto com um grupo bolchevique, tendo, mais tarde, participado na Revolução de Outubro, liderando um ataque a um posto da Guarda Imperial, situado na actual Rua Tverskaya. Durante o ataque, Kusan Abner foi ferido com gravidade, perdendo o olho direito. Foi elevado a herói do povo e da Revolução. Trotsky, num dos seus vários discursos, referiu-se a Kusan Abner como um «verdadeiro revolucionário e amigo pessoal». Tal referência não caiu bem a Estaline que, em Setembro de 1942, ordenou a deportação da Kussan Abner para um dos gulags perto de Norilsk. Em Agosto desse mesmo ano, o seu filho, Vladimir Karl Abner, foi um dos primeiros voluntários para a defesa de Estalinegrado. Durante os quatro anos anteriores, tinha sido professor na Universidade de Moscovo, onde leccionara Teoria Política, História dos Povos Soviéticos e Análise Retórica. Entre os seus pares era conhecido como um fervoroso membro do partido e admirador das políticas de Estaline. Foi na frente de combate que recebeu a notícia da deportação do seu pai para Norilsk, onde, nesse mesmo Inverno, viria a morrer. Tanto a deportação como a morte do pai tiveram um grande impacto em Vladimir Abner, embora tenha continuado a lutar pela pátria-mãe, tendo participado na conquista de Berlim. Com o fim da Segunda Guerra Mundial regressou a Moscovo, onde voltou a ocupar o cargo de professor na Universidade. Todavia, a experiência da guerra (onde assistiu às atrocidades do Exército Vermelho na Polónia) e a deportação do pai, levou-o a uma crescente descrença no regime de Estaline e no comunismo em geral. Foi proibido de leccionar e exilado na cidade de Birlik, onde conheceu Alexander Soljenitsine, com quem manteve uma relação de amizade muito próxima até à morte do escritor. Em 1963 a sentença de exílio foi revogada. Vladimir Karl Abner decidiu mudar-se para Praga, onde começou a leccionar russo na Universidade. Nesta cidade entrou em contacto com o movimento reformista liderado por Alexander Dubček, mas também com os intelectuais que mais se opunham à ingerência de Moscovo nos destinos do país. É dessa altura a amizade com Václav Havel, que o convida para algumas emissões da Rádio Livre da Checoslováquia. Com a Primavera de Praga e a invasão da Checoslováquia por forças militares do Pacto de Varsóvia, Vladimir Karl Abner perde o lugar de professor de russo na Universidade. Havel arranja-lhe trabalho na mesma cervejeira onde tinha começado a trabalhar. A amizade entre os dois torna-se mais firme. Um dia, depois de mais um turno, Havel convida Abner para sua casa, onde o instiga a escrever uma Nova História da Checoslováquia. Abner recusa essa espécie de revisionismo tão à maneira soviética. Os dois amigos nunca mais se falaram e Abner abandona a Checoslováquia, rumando a Paris. Aí tenta, sem sucesso, ser professor de russo. Frequentou os cafés mais boémios e entrou em contacto com alguma da esquerda trotskista, que o desilude profundamente, levando-o a regressar à Checoslováquia. Devido a uma amnistia, Vladimir Karl Abner volta a leccionar na Universidade: Russo, Teoria Política, Análise Retórica e História dos Povos Eslavos, disciplina por ele criada, onde explora a questão eslava e desenvolve as suas teorias sobre a Legião Checoslovaca. Durante a Revolução de Veludo, Abner desempenhou um papel importante, principalmente entre os estudantes (que sempre o viram como um fervoroso anti-comunista), tendo apoiado a manifestação estudantil de 17 de Novembro de 1989. Com o fim da influência comunista no país, e com os primeiros sintomas de uma possível dissolução da Checoslováquia, Abner defendeu sempre o diálogo e a união, promovendo debates na Universidade e em algumas rádios. Desiludido e doente, Vladimir Karl Abner refugia-se na região dos Beskides, em sua casa, onde morre em Abril de 1997.
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