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Discos (297)



And so the sea

Mark Hollis


Começo a ter, cada vez mais, pouca coisa para dizer. E, verdade seja dita, são já poucas as coisas que digo. Poderia dizer que a cidade me consome, mas não é verdade. Consome-me mais o alto da Serra, a Vila deserta de gente a morrer todos os dias, a ausência daqueles que me foram. Há quem procure o ar leve do campo. Eu prefiro o da cidade, pois é-me mais puro. E não me venham falar da indiferença daqueles que connosco se cruzam. A verdade é apenas esta: são eles que me são indiferentes. E eu gosto disso assim. Gosto apenas do ocasional cumprimento de circunstância no elevador do prédio. Nada mais. Aprecio a privacidade que consigo ter dentro e fora de casa. Gosto que não me façam perguntas como "então que tal essa saúde?", "como andas?", "o que tens feito?", "onde estás agora?". A cidade dá-me isso tudo. E muito mais. Gosto da sua desumanização. É esse o meu conforto. 

Discos (296)




I'll lie down here

Swans


O céu chumbo pesa. O frio é de mãos nos bolsos. Sentes, às vezes, que a vida é um logro consentido. Às vezes olhas para os ramos das árvores sem folhas. Ficas parado a observá-los enquanto a cidade passa por ti em encontrões e sirenes. Pensas no dia em que talvez tu, numa dessas ambulâncias, todo arfar e suores frios – o coração em sobressalto, cansado daquilo que sente. E os ramos das árvores, sem folhas, no céu chumbo. A pesar. A pesar.

Discos (295)



Re: Person I Knew

Bill Evans


E, apesar de tudo, ainda o teu piano, Bill. Pudesse eu escrever neste teclado com a leveza dos teus dedos sobre as teclas brancas e negras. Pudesse eu fumar cigarro após cigarro sem pensar na asma que me aperta os pulmões e sem sentir, depois, os pulmões apertados pela asma e por cada um dos cigarros fumados um após o outro, enquanto os seguro no canto da boca com o mesmo estilo que tu. Fosse eu outro, Bill. Fosse eu outro.

Discos (294)



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And I have a feeling that's growing
Somewhere behind my sleeping mind

Swans


Rossio. Sete da tarde. Nas escadas rolantes descendentes: caras cheias de Sintra. Nas ascendentes: rostos cansados, corpos curvados. No comboio o mesmo cenário. Ao meu lado uma senhora adormece ao mesmo tempo que se senta. Passados dois minutos tem a boca aberta, respira fundo. Com o primeiro balançar do comboio abre os olhos, para logo os fechar. Um saco em cada braço.

Discos (293)


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Journal Violone partie 1
(instrumental)

Barre Phillips


Noite. As ruas quase desertas. Olhas para as janelas que olham para ti. Famílias inteiras do outro lado. O som dos talhares nos pratos. Risos. Ou, então, uma enorme solidão. Tens essa tendência para imaginar o que está do lado de lá. Gostas de imaginar vidas que não são a tua. Silêncios que não são os teus. E, depois, fazes também o inverso: pensas se alguém na rua olha para a tua janela e imagina aquilo que se passa do lado de lá. Talheres nos pratos? Risos? Enorme solidão? E continuas o teu caminho.

Discos (292)


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Dawn
(instrumental)

Kayhan Kalhor


para Gil de Carvalho


O mundo e as suas camelices. Necessidade de ser pequeno. Recolhimento. Pensar no tempo que passa. Irremediavelmente. Envelhecer ser um exagero para quem tem quarenta e um anos. O trabalho. Os horários. Viagens que não são viagens (cf. Basho, Chatwin, Onfray). Pensar em coisas inúteis. Concluir que, afinal, tudo é inútil. Esboçar um sorriso com tamanha e sábia conclusão. Ouvir música. Ler poesia. Ser. Ou pelo menos tentar.

Discos (291)



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The lights look bright,
When you reach outside,

Joy Division



Regresso àquele quarto fechado no tempo. Ao ruído de fundo de cassetes carregadas de assombro, mais os discos que trazia da casa de um primo. Foram a minha iniciação na traficância dos sentidos e dos dias. Não vivia no centro da cidade. Não vivia numa cidade. Não precisava: ela vinha até mim, num jogo de sombras. Estava longe, eu sei. Em vez das suas ruas, catedrais, jardins, fábricas: a montanha. Aquela que estava sempre a dizer: sai, sai daqui antes que seja demasiado tarde.

Discos (290)


Image result for Dinosaur Jr. Where You Been


Maybe I've changed
Just tell me was this all in vain?

Dinosaur Jr


Com o Verão: as tardes passadas no rio. Os corpos em sobressalto. Cigarros fumados com tiques de gente crescida. Fazer o que apetecia. Sem medo. Rir. Ríamos muito, naquelas tardes.

Discos (289)



Image result for spain the blue moods of spain



I never see
Through the passing clouds
Or through the trees

Spain


Os livros amontoados na estante. Uma certa desordem que me agrada. Abro a janela. Começa a entrar o dia. Um galo. Um gato. Um resto de sol. Lembro um livro que fala de um Outono algures numa Alemanha perdida: «nada do que é exprimido pode parecer mais carregado de ameaças do que aquilo que o não é.» (Stig Dagerman). Há muito que procuro uma definição para tudo isto. Talvez a tenha encontrado.

Discos (288)


Image result for bauhaus press the eject

You fear the lesson
And fear to walk
And fear to pass on
Your fear to talk

Bauhaus


Sobravam os dias. Tudo à nossa volta era a ruína de um tempo que sabíamos não ser o nosso. Mas que tempo, afinal, nos pertencia? Era essa a principal questão. E sei que nos juntávamos num sótão. A desculpa eram as explicações de Filosofia e a prova específica que nos poderia condicionar a entrada na faculdade. Entre Kant e Hegel preferíamos Nietzsche: «A ventura da minha existência, porventura a sua singularidade, consiste na sua fatalidade». O que sabíamos nós de tudo isso? O que era, afinal, a existência? Tínhamos 17 anos. Seria essa a nossa fatalidade?

Discos (287)


Image result for swans soundtracks for the blind


Yet silent tears streamed down in morning light
Most beautiful, my lonely sinner

Swans


A esta hora da manhã ainda poucos são aqueles que percorrem as ruas. Tomo a primeira bica no café de sempre e parece que todos os dias as mesmas caras ao balcão se juntam a mim nessa primeira dose de coragem líquida, que de pouco nos serve: continuamos todos de olhos fixos no fundo da chávena, como se lá estivessem as respostas que procuramos. Há quem peça uma segunda dose, que irá ser reforçada com um cigarro logo aceso à saída. O sol bate de frente. Não trouxe óculos-de-sol. O inferno, hoje, sou eu.

Discos (286)


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Tumid Cenobite
(instrumental)



Não há outra maneira de dizer esta hora. Não há.

Discos (285)





Some things I just don't want to know
(instrumental)

Dirty Three


Está um cão a ladrar. Atrás de um muro que daqui não vejo. Ladra contra outro cão. Mas também poderá estar a ladrar contra mim. Não o censuro, caso assim seja. Também eu pelas ruas ladraria contra o mundo, não fosse o medo de ser fechado num manicómio. Talvez nos faltem uns quantos latidos contra a filha-da-putice. Talvez. Houve tempo em que uivei. Só que ia para o escuro da Serra, onde ninguém me via e só o mundo me ouvia. Pelo menos era essa a minha esperança.

Discos (284)



Under the Volcano
(instrumental)

Tomasz Stanko


Há um berbequim na casa ao lado e o gato esconde-se debaixo da cama: olhos assustados. Abro um livro. Leio uns versos que me batem fundo. O dia vai a meio, é certo. Mas sinto que o mundo parou sobre o seu eixo e que assim irá para sempre ficar. Nada digo, escrevo, penso. Fico apenas suspenso naquela última estrofe: «Das palavras,/ com que esqueço e perdoo e maldigo/o destino de nunca/saber aonde vou, o que levo, aonde chego.».

Discos (283)


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They told us our gods would outlive us
They told us our dreams would outlive us
They told us our gods would outlive us
But they lied

Nick Cave and The Bad Seeds


Podes fechar as janelas. Podes fechar os estores. Podes, inclusive, fechar os olhos. O mundo, esse, irá permanecer em ti, ou, pelo menos, naquilo que de ti resta, quando fechas a porta de casa e deixas o ruído do dia atrás de ti.

Discos (282)




Rat Now
(instrumental)

Mal Waldron



O que resta, afinal? Chegas a casa e trazes o estouro do dia. Cada osso do teu corpo acusa a canga do trabalho. A liberdade, a esta hora, soa-te a eufemismo. O gato olha para ti. Há um leve miar. Passas a mão pelo seu dorso. Permanece no mesmo lugar onde o deixaste de manhã, como se o tempo não tivesse passado. E talvez o tempo não tenha passado, pois é todos os dias a mesma coisa.

Discos (281)




Suyafhu Skin... Snapping the Hollow Reed
(instrumental)

David Torn


para o Ricardo Álvaro

A esta hora do dia pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Os livros, esses, estão desarrumados nas estantes e um breve vento faz agitar as árvores. Começo a aprender as vantagens do isolamento voluntário, quando aqui me fecho e deixo o mundo no seu lugar: lá fora. Será que posso falar em misantropia? Longe disso, tendo em conta que gosto da companhia de certos amigos e de amigos certos, que procuro menos vezes do que aquilo que eles merecem. Pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Talvez um pouco de poesia. Mas vamos deixá-la, por hoje, em paz.

Discos (280)



Homecoming
(instrumental)

Dave Holland


Não sei onde estava no dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e cinco. Sei apenas que foi Sábado. Assim, o mais certo era estar em casa, provavelmente a ver um filme na TVE1. Estaria frio, a lareira estaria acesa e o Mickey, o meu cão da altura, estaria deitado junto àquela, pois era muito friorento. A minha Mãe estaria de certeza a fazer malha-para-fora, que era a sua maneira de ganhar mais algum. Ou, então, estaria a fazer malha-para-dentro, que era a sua maneira de poupar dinheiro e manter-me agasalhado e quente. Agora, no dia vinte e três de Abril de dois mil e dezoito, o Mickey há muito que deixou o frio para trás. A minha Mãe há muito que deixou de fazer malha-para-fora e malha-para-dentro. O tempo está ameno. Não chove. Há muito que não vejo a TVE1. E, como é óbvio, estou mais velho.

Discos (279)


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Romain
(instrumental)

Jim Hall


A chuva. O vento e o gato. Sempre o gato. Pela casa. Pelos lugares de penumbra. A noite. Uma luz sobre a mesa. Um copo de vinho. Tinto, agora que o frio ainda teima. Observo as paredes. Os desenhos de sombra. Penso no dia. Tento resolvê-lo. Como se alguma resolução fosse possível. Nada se resolve. Nem nada se transforma. Tudo se perde: horas, dias, semanas, meses, anos. Vida. Esse absurdo presente. Sempre.

Discos (278)



Crossing
(instrumental)

Cecil Taylor


Resta o regresso a casa. Tentar o silêncio. Afastar o mundo. Talvez ler um pouco de poesia. Mas os olhos pesam. Os ossos doem. O cansaço alastra. Como afastar o mundo se ele vem a mim colado? Ajeito os olhos à penumbra. Tiro o casaco. Descalço as botas. O gato não vem cumprimentar-me. Deixa-se ficar deitado onde está. Passo-lhe a mão pelo dorso. Há um breve e baixo miar. Uma espécie de murmúrio. Ligo a televisão mas tiro-lhe o som. Leio as notas de rodapé. É só mais um dia.