Cada vez mais fina a linha que em poesia é traçada entre o plágio descarado e o plágio encapotado. Depois há a intertextualidade, o pastiche, a colagem, a citação, e por aí em diante. E há ainda o kalkito. O kalkito é aquele poema que lido na voz do poeta que o escreveu, assemelha-se a outro poema que outro poeta escreveu. Não é plágio, não é pastiche, não é intertextualidade, citação ou colagem. É kalkito. E quem um dia brincou com kalkitos, entende o que quero dizer: olhávamos para aquilo, aplicávamos as regras dos kalkitos, colocávamos o kalkito no cenário pré-definido. E aquilo não ficava muito parecido. Mas também não ficava muito diferente.
Um poema de Kobayashi Issa
limpo as mãos ao crisântemo
depois de apanhar as fezes do cavalo —
anoitecer
em Os animais [haikus], selecção, organização e versões portuguesas de Joaquim M. Palma, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 99.
Mário Cesariny
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro — nunca sairá um escravo.
em As mãos na água a cabeça no mar, Lisboa: Assírio & Alvim, 1985, p. 75.
João Miguel Henriques
Incêndio
tens o corpo a arder sobre a colina
esquecida da casa
da penumbra do quarto
alastras fogo
pelo bosque
como musgo
chamam-te chama
assinas labareda
e a um toque de tronco
incendeia-te o planeta
como lava perpétua
hás-de um dia enlevar-me nesse fogo
eu que pela orla do teu mato
há tanto me arrasto
morto de frio
em Incêndios, s/l: (não) edições, 2016, p. 10
Ricardo Marques
O consolo
O consolo
não é habitar
o mesmo solo
é conspirar
no mesmo sangue:
em Lucidez, Lisboa: (não) edições, 2019, p. 43.
Raul de Carvalho
Mudança de residência
Trato de observar-me em contraluz,
de ler as páginas em branco que deixei
nas margens da preguiça
Sou dos que têm a obrigação
de se conservar alerta,
não vá o bicho apodrecer no estrume
que os diligentes sócios da colmeia
carregam para casa.
Tenho de derrubar pedra por pedra
esta espécie de casa aonde moro,
tenho de consertar com as minhas mãos
os buracos e os golpes
que surgem nas paredes-
Tenho de renovar constantemente
a abstracta decoração.
Tenho de ser
hábil, modesto, firme.
Só assim é que posso
pôr o retrato e os bichos ao contrário,
de forma a que a luz lhes incida de frente
e deixe ver aquilo a que o Santo chamou
as partes vergonhosas do poema.
Entretanto não posso fiar-me nas cantigas
nem confiar demais nas virtudes do mapa
nem desejar viagens que existem para os outros.
O meu lugar, o meus dever, o meu repouso
é situar na cama os minutos que faltam
para o salto no mito.
Para o dono da casa resolver despedir-me,
para o colchão de arame das gratuitas conversas,
dos lençóis de cambraia, dos licores transparentes,
serem deitados, juntos,
no caixote do lixo.
Aqui coloco, em posição de estátua,
o busto que encontrei nalgum jardim.
Naquele canto, ali, ao pé da minha estante,
irei coleccionando
as cartas que me falam
de ti.
No outro, mais abaixo das curvas do teu peito,
encho-o de rosas, das aromáticas rosas,
e quando os meus amigos perguntarem aonde
fui eu buscar tão esquivas e fantásticas rosas,
direi que as encontrei num domingo, de noite,
quando adormeci no arquipélago.
Direi que elas não são
feitas da carne viva e vegetal das rosas,
mas simples simulacros de barcos de papel
com que me habituei, em menino, a brincar.
Com que, nos sequiosos oásis
da minha planície absolutamente seca,
os homens se entretêm a espalhar a água,
a recordar a idade
vermelha dos navios.
Para que tudo fique no devido lugar,
para que as manchas sejam
completamente expostas,
os insectos lhes possam
picar livremente
e as formigas lhes comam
a humilde e ingénua
superfície marítima.
Para que o tempo fique
à mercê das carícias.
Entretanto, a despesa que me custa viver...
Entretanto, o consumo que faço de emblemas...
Entretanto, os projectos que nunca realizo...
Entretanto, o meu quarto... como vai ficar bonito!
Para que os altos choupos do chão da minha infância
possam ressuscitar no chão do meu quarto.
Para que tu não digas que a memória é um bem
e que o amor só pode trocar-se pelo ódio.
E para que o poema atinja
a extensão que cobre os laranjais do sonho.
Para que todas, todas as coisas infantis
de novo se aproximem da razão, e da grave
atitude dos homens cantando enquanto comem.
Vou dizer que estas rosas, este quarto, este poema
não são mais do que as tuas transfiguradas mãos,
com que aperto no mesmo e violento abraço
a cintura dos nossos transfigurados corpos.
O que eu queria era a fértil
vegetação dos bosques!
em Poesia 1949-1958, Lisboa: Ulisseia Editora, Colecção Poesia e Ensaio, 1965, pp. 21-24.
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