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Venho dum desses lugares designado, por muitos, de Portugal profundo ou país real. E, durante muito tempo, também era assim que eu pensava: vivia, sem dúvida, no Portugal profundo (porque estava longe de tudo o que via na televisão); e no país real (pois tudo o resto me parecia uma espécie de ficção, tendo em conta aquilo que chegava, novamente, através da televisão). Mais tarde estes dois termos começaram a complicar-me com os nervos. Agora: não os suporto e considero-os de um paternalismo insuportável. Mas, o que mais me enerva, é o discurso sobre o “repovoamento do interior” e balelas dessas. E enerva-me porque, a maior parte das vezes, esse discurso é proferido por gente que deixou esse mesmo interior vetado ao abandono durante anos (e que agora considera uma prioridade); e por outros que o abandonaram mesmo (e falo do ponto de vista físico), mas que agora estão muito preocupados com as suas raízes e as tretas do costume. E nem venham com a conversa da qualidade de vida. O que é isso da qualidade de vida? Como se mede? Quais são os critérios? Tudo tretas.

Lí por aí



Aborrece-me esta exaltação tão magnânima sobre a morte de Agustina Bessa-Luís. Geralmente isto significa que vai haver muito falatório e pouca leitura. Transformar um escritor em herói da pátria é sempre má ideia.

Por outro lado, é muito cómico descobrir os tiques mais enfáticos da circunstância: os especialistas que se põem nas pontas dos pés tipo “eu é que sou o presidente da junta”; os que estão prestes, prestes, a dizer “Agustina Bessa-Luís sou eu”; e ainda os mais sofisticados que aplicam cientificamente o princípio da troca de Locard com o mindinho: através do contacto entre dois items, irá haver uma permuta.

C.

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Às vezes, no meio de uma conversa, digo que gosto de cozinhar e que cozinho relativamente bem. Cozinhar is my moment of zen: não penso em mais nada, excepto nos ingredientes que tenho à minha frente e como os confeccionar. Não tenho muito jogo de cintura, isto é, não sou muito bom a inventar pratos, conjugar sabores; sigo uma receita à risca e se não tenho todos os ingredientes necessários, nem me atrevo a inventar. Quando estou a cozinhar não gosto que falem muito comigo, pois gosto daquele momento e quero usufruir dele.

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Um dia um colega de trabalho aconselhou-me a leitura de Agustina. Requisitei Vale Abraão na Biblioteca Municipal e tentei ler. Não consegui passar da página 50 ou 70 (já não sei ao certo). Nunca mais li nada dela. Já estive várias vezes com livros seus na mão e quase-quase a comprá-los. Verdade seja dita: nunca foi uma autora que procurei. Defeito meu. Mas agora, com a sua morte, parece que toda a gente a leu e que sempre esteve no top da leitura dos portugueses. Agustina iria rir-se, de certeza, com tamanha patranha.

Zombo - Alberto Pimenta


© Poesia Incompleta

Alberto Pimenta
Zombo
Edições do Saguão
2019