(...)


Ando a ler Vidas Caídas - Diário de um repórter na Amazónia, de José Amaro Dionísio. Um relato forte. E aquilo que mais assusta é que foi publicado em 1993. Nem quero imaginar aquilo que o autor escreveria caso regressasse, hoje, aos locais por onde passou. 

Agnés Varda (1928-2019)



Ainda o caso Cristina Bartleby


Ficamos a saber aqui que Cristina Fernandes informou os editores da Douda Correria da fraude que é o livro O primeiro poeta que despi. Informou-os em Outubro de 2018, mês do lançamento do referido livro. Sabendo-se que houve uma apresentação no Funchal no dia 25 de Outubro, só me resta pensar (e tentar acreditar) que Cristina Fernandes apenas avisou os editores da Douda Correria depois do dia 25 de Outubro.

Discos (298)





When Shade Was Born
(instrumental)

Harmonia 76


Pouco a pouco as sombras vão desenhando o fim do dia no chão da sala. Pouco a pouco. Centímetro a centímetro. E lá fora a cidade. Pouco a pouco. Cada vez mais tua. Também. 

Um poema de Elisabete Marques


Náufrago


Perdido estás em terra firme.
Poderás inventar casa, hortos,
rostos, imaginar biografias,
os quilómetros bem estudados
— de onde vens, para onde vais —,
poderás riscar o tempo
nas paredes, a soma completa, traço a traço,
mas nada atenua a estranheza: aqui estás,
com susto, suor, coxas, saliva; não sabes,
porém, tomar das tuas fibras o tremor.

Caídos nós, como a água na folha fresca
e, no tanque, os peixes variáveis,
— faltar-nos-á talvez a lâmina, o golpe da ternura.
Esperemos calmos, sobre o areal; nunca se pressagia
o que a vaga trará consigo de manhã.


em Apartamentos (AAVV.), Lisboa: Língua Morta, 2016, p. 25

(...)


A verdade é que acredito que o caso de Cristina Bartleby não será caso único. Acredito que, com o passar do tempo, mais casos serão descobertos e revelados. Mas que fique claro: uma coisa é/são influência(s) e outra, completamente diferente, é o plágio. O caso de Cristina Bartleby é puro plágio. Não há qualquer dúvida sobre isso. As influências existem: ora a favor ora contra. Tentar colar plágio a uma influência é desonestidade. E dizer que o plágio é uma influência, ou intertextualidade, também.

AVISO à navegação


O caso Cristina Bartleby ou Cristina Freitas Branco, reportado aqui e aqui, pela Cristina.

Scott Walker (1943-2019)



(...)


Vonnegut disse-o: «A vida não é maneira de tratar um animal.». E como todos sabemos, porque já alguém o disse, a vida é a principal causa de morte. Morre-se muito e morre-se demasiado cedo. Aos quarenta e um, por exemplo. E ninguém deveria morrer aos quarenta e um. Nem mais cedo.

José Amaro Dionísio


Dança

     Os opositores da tourada sangrenta teriam muito que horrorizar-se com o modo tradicional como são mortos os búfalos na Amazónia, não propriamente sob as balas da caçada mas em prosaica criação doméstica. É também um ritual de dança, em que a relação entre animal e homem não admite erros de cálculo nas aproximações, mas muito mais cruel. Desde logo porque o búfalo está preso, de olhos vendados, a um poste. Depois leva um tiro na cabeça, ou se for preciso dois, para amortecer-lhe a fúria. E só aí entra o matador, de faca na mão, a consumar a morte. Envilecido pela prisão e pelas balas, ciclone de pé, o búfalo parece a cada instante que vai arrancar o poste e transformar a agonia numa última cavalgada. Cai e levanta-se, flecte as pernas e arremete. De cada vez que vai ao chão o matador aproxima-se, numa fracção de segundo, e corta-lhe mais um bocado das carótidas. Primeiro de um lado, depois do outro. Isto dura 15, 20, 30 minutos. Até que por fim o animal tomba solitário sobre um lençol de sangue.


em Vidas Caídas - Diário de um repórter na Amazónia, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1993, pp. 17-18.

(...)


O concerto começou um pouco depois das 21h. Foram sessenta minutos de improvisação ao piano. Depois houve ainda tempo para mais uma música. Cheguei a casa às 22h45min. Deitei-me passada meia-hora. Hoje estou aqui e parece que fui atropelado. Ando a faltar aos treinos.

Uma imagem para a noite de ontem


Vijay Iyer | Craig Taborn
The Transitory Poems
Culturgest

(...)


À minha frente um homem. Andar gingão. Devem ser sete e meia da manhã. Olho para o relógio. Sim, são sete e meia da manhã. De repente pára e encosta um dos braços à parede, inclinando a cabeça para a frente. Começa a vomitar. O cheiro a álcool invade toda a avenida. Mudo de passeio. Continua a vomitar. Passados uns minutos passa por mim, como se nada tivesse acontecido. Andar gingão. Eram sete e meia da manhã. 

Aprendiz


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Estados Filosóficos (112)


Na classe política existem duas ideias que foram subvertidas ao longo dos anos: verdade e mentira. A verdade, actualmente, é sempre "dura" e "deve ser apurada"; a mentira é sempre "consciência limpa", ou "tranquila".

Um poema de Adolfo Casais Monteiro


Um lugar ao sol


Não te ofereço poemas de vitória:
os meus versos só falam do que existe.
Não contarei a esperança:
só a força que contra tudo subsiste.

Não teço os meus poemas de futuro:
corto-os nesta carne que somos.
Se vives de sonhar
eu vivo de viver ─ e é mais duro!



em Adolfo Casais Monteiro, selecção de poemas de João Rui de Sousa e textos críticos de António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro e João Rui de Sousa, Lisboa: Assírio & Alvim, Documenta Poética, 1973, p. 119.

Vinha Maria Bruto



Bical | Maria Gomes | Arinto

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Tenho por hábito (e depois do pequeno-almoço tomado) tirar um livro da estante, abrir uma qualquer das suas páginas e ler. Os caríssimos Anónimos que por aí andam, e a quem continuo a dar tempo de antena (não sei porquê), talvez digam que de nada me serve este gesto. E talvez tenham razão. E porquê? Porque os caríssimos Anónimos julgam ser eles os únicos que sabem ler, escrever, pensar, reflectir, sobre aquilo que lêem e sobre aquilo que não lêem. E talvez tenham razão, pois os caríssimos Anónimos, sentados no seu anonimato, têm sempre razão. E isso é-lhes gratificante. Ainda bem.

Monte da Ravasqueira Superior Tinto



Touriga Nacional | Aragonês | Syrah | Alicante Bouschet

Estados Filosóficos (111)


Dizem que para tudo existe o chamado "reverso da medalha". Mas qual será o reverso da medalha da Morte, sabendo que a Vida está fora de questão?

Estados Filosóficos (110)


O contexto é, na verdade, tudo. Contextualizar é fundamental. Explico: aquilo que é "muito", para alguns, poderá ser ou "suficiente" ou "pouco", para outros. Há quem pense que eu bebo "muito", quando na realidade bebo apenas o "suficiente" para tornar o mundo um "pouco" mais suportável.

Estados Filosóficos (109)


Num dia luminoso não tem necessariamente de brilhar o sol.

Carmes - Paulo da Costa Domingos




Paulo da Costa Domingos
Carmes
Companhia da Ilhas
2019

Um poema de Patrícia Baltazar


Contra-Casa


É justamente a casa que me derruba. Não saber dela nem onde procurar.
Nem ter pés, nem mãos, nem coração, nem dentes já para encontrar.

Desistir dela.
Não me poder acamar.
O quarto.
A cama.
Os meus livros separados de mim e todas as tragédias que trago comigo.
Descansar em bolor. Tossir à noite.

A cama não tem tecto. Canto-me para embalar enquanto o vento.
Enquanto o mistério.

Tudo ocupado.
Tudo fora.

Não sair pela janelíssima é regra imposta pela constituição da casa.
De mim para o horror disto. Para os outros. Eu e a tentativa.

A casa derruba em qualquer que seja a instância.

                                            Estilhaços.

Casa é o que resta.
O que acaba por acontecer.



em Casa (antologia), Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 66.

(...)


Acordar às seis e meia da manhã. Não há água a partir do quarto andar. Uma ruptura no sétimo. Descer à garagem para encher baldes de água. Lavar-me como os gatos mais desodorizante.

Estados Filosóficos (108)


Por vezes a falácia, o engano, são uma necessidade. Principalmente quando estamos em sociedade, isto é, quando tentamos ser seres sociais.

Estados Filosóficos (107)


Ter "certezas" poderá ser uma forma de desonestidade.

(...)


Aqui as aulas começam às oito horas da manhã. Até para mim é cedo. Para uma criança também, principalmente quando se deitou às quatro da manhã, porque esteve a ver televisão no quarto. E é assim: telemóveis de quatrocentos euros nas mãos, ténis de duzentos euros nos pés e televisões nos quartos. E a Escola que os eduque.

Aprendiz





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Sei quem se levanta mais cedo do que eu. E passa horas no trânsito para lá e para cá. E trabalha mais horas seguidas do que eu. Só não sei como é que aguentam, conseguem. De facto o trabalho é uma tortura. A dignidade nele é muito pouca. São poucas as pessoas que conheço que gostam realmente daquilo que fazem. Poucas. Mas ainda há quem goste daquilo que faz. Admiro-os. E dizem que o trabalho as preenche, que não sabem fazer outra coisa e que o trabalho as satisfaz. Às vezes penso que devem ter vidas muito aborrecidas para no trabalho procurarem refúgio. Ou então têm vidas muito tristes. E com isto não quero dizer que a minha vida é melhor do que a deles. Só que o trabalho não me serve de refúgio, não me salva o dia.

Trinca Bolotas



Alicante Bouschet | Touriga Nacional | Aragonês

(...)


E lá ando eu pela rua, depois de Sábado, a sentir que sou mais um poeta. Há quem disso discorde. Ainda bem, pois os consensos sempre foram muito perigosos e nunca me foram muito queridos. Mas aí ando eu pelas ruas. Não estou mais alto. Não estou mais magro. Não estou mais sábio. Apenas um pouco mais velho, pois, a bem da verdade, passaram já dois dias. 

(...)


Considero que todas as pessoas têm direito à defesa da honra. O Meritíssimo Juiz Neto Moura considera-se ofendido e vai avançar, na justiça, contra aqueles que, segundo ele, o difamaram. O Meritíssimo Juiz Neto Moura tem esse direito, pois ainda estamos num Estado Democrático e de Direito. Contudo, isso não significa que o Meritíssimo Juiz Neto Moura não tenha, nos dois acórdãos, atentando contra a dignidade das vítimas e contra a dignidade de todos nós. E isso já ninguém lhe tira. E nunca poderá impedir que lho digam na cara, através das redes sociais, ou como muito bem entendermos.

Um poema de Lêdo Ivo


Canto Grande


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão levam-me as palavras
a geografias absolutas.


em O Sinal Semafórico, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974, pp. 191-192.

(...)


Tenho andado a reconfigurar certos silêncios no meu dia-a-dia. A morte de Mark Hollis trouxe-me o espanto de descobrir os últimos álbuns dos Talk Talk, longe das charopadas iniciais (It's my life é-me insuportável). Mas ouço Spirit of Eden e penso "como é que isto me escapou?".

Aprendiz



manuel a. domingos
Aprendiz
volta d'mar
2019

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Aprendiz reúne poemas escritos entre Setembro de 2016 e Setembro de 2018.