Discos (297)



And so the sea

Mark Hollis


Começo a ter, cada vez mais, pouca coisa para dizer. E, verdade seja dita, são já poucas as coisas que digo. Poderia dizer que a cidade me consome, mas não é verdade. Consome-me mais o alto da Serra, a Vila deserta de gente a morrer todos os dias, a ausência daqueles que me foram. Há quem procure o ar leve do campo. Eu prefiro o da cidade, pois é-me mais puro. E não me venham falar da indiferença daqueles que connosco se cruzam. A verdade é apenas esta: são eles que me são indiferentes. E eu gosto disso assim. Gosto apenas do ocasional cumprimento de circunstância no elevador do prédio. Nada mais. Aprecio a privacidade que consigo ter dentro e fora de casa. Gosto que não me façam perguntas como "então que tal essa saúde?", "como andas?", "o que tens feito?", "onde estás agora?". A cidade dá-me isso tudo. E muito mais. Gosto da sua desumanização. É esse o meu conforto. 

Mark Hollis (1955-2019)




Os Talk Talk nunca foram muito cá de casa. Mas o álbum a solo (Mark Hollis, Polydor, 1998), sim. E é um álbum, deuses!, do catano.

Paulo Jorge Fidalgo


Oh Musa


Soubesses oh Musa
como ligeira corre a trégua
e cruel a luz no olhar de Maio
teus ombros pousassem
aves mansas nos meus braços
à vidraça que nos guarda
dissesses quanto dói o nome
que nos esconde de tudo
quanto somos.


em Do coração a jeito, Lisboa: Hiena, 1994, p. 10 

(...)


Era meia-noite e meia hora quando ontem apaguei a luz. Se tivesse menos vinte anos, vá: menos dez, seria uma hora normal para apagar a luz. Mas agora, com quarenta e um, e com um horário de alvorada diário às seis e meia hora da manhã, é-me fora-de-horas. E depois o corpo ressente-se. São estes momentos que me levam a reflectir, vá: a pensar, ok: a esboçar uma coisa em forma de pensamento ou reflexão, sobre... olhem: sobre nada.

Vinha da Valentina Reserva



Syrah | Castelão | Aragonês | Alicante Bouschet

(...)


Canetti observa-me durante a noite. Está ali junto ao candeeiro, na mesinha-de-cabeceira.  Tenho tentado lê-lo, mas os olhos não correspondem. Todos os dias às seis e meia da manhã o despertador toca. Sei que há gente que se levanta mais cedo. Só não sei se conseguem ler um livro a partir das dez da noite. Eu só a muito custo é que consigo. E, sinceramente, não sei se é conseguir, pois não sei se posso considerar "ler" aquilo que faço. Sei, apenas, que é cansaço.

(...)


E eis que o sol brilha. Mas todos se queixam: ai! as barragens. E quando chove: ai! a chuva. E quando não é o calor: é o frio. E quando é o frio: é porque não é o calor. Ao menos o gato não se queixa: se estiver frio aninha-se na manta; se estiver calor estica-se no chão. Se chove: fica melancólico e aninha-se na manta. Se faz sol: vai até à janela e fecha os olhos de consolo. 

Um poema de Inês Lourenço


Galgos


Um dia correremos como galgos
de narinas frementes e patas loucas
só pela volúpia de correr, galgos
sem ofício de perseguir
sem presa à vista, só gozando
a velocidade vertiginosa da corrida.


em O Jogo das Comparações, Lages do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p. 32.

Ermelinda de Freitas Branco



Sauvignon Blanc | Verdelho

Discos (296)




I'll lie down here

Swans


O céu chumbo pesa. O frio é de mãos nos bolsos. Sentes, às vezes, que a vida é um logro consentido. Às vezes olhas para os ramos das árvores sem folhas. Ficas parado a observá-los enquanto a cidade passa por ti em encontrões e sirenes. Pensas no dia em que talvez tu, numa dessas ambulâncias, todo arfar e suores frios – o coração em sobressalto, cansado daquilo que sente. E os ramos das árvores, sem folhas, no céu chumbo. A pesar. A pesar.

(...)


Cada vez mais me convenço que o caminho que percorro, ora sozinho ora acompanhado, é o caminho que para mim desejo, se quero manter intacta a espinha. O "carreirismo" dá-me asco, excepto quando o leio em Mário-Henrique Leiria. E acredito até que Judas se vendeu por muito, em comparação com alguns que povoam certas praças, que cada vez mais evito. Mas eles por aí andam, à cata de uma lugar ao sol, pois a sombra, apesar de fresca, não lhes interessa. O seu objectivo é claro: escalar à conta da sabujice, pois essa é a sua única maneira de ser. E ei-los, esplendorosos arrivistas, porta-estandartes de coisa nenhuma.

(...)


Sempre que aqui venho, pergunto-me sempre "que raio faço ainda aqui?". Nada de novo para reportar, apenas uma morte ali e outra além. As ruas continuam desertas à hora que por elas caminho. As cara são as mesmas, com as mesmas expressões de sempre. E sei que é tudo sempre a mesma coisa. Aqui, ali e além.  

João Almeida


Heimat

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram
Governam com ferro e pandemias.


em As Condições Locais, Guimarães: Opera Omnia, 2014, p. 21.

(...)


Às vezes há alguém que se arma em engraçado e toca à campainha de casa às seis da manhã. Acordo em sobressalto e o gato também. Fico com a cabeça a latejar e já não consigo voltar a adormecer pois o despertador é às seis e meia. Ainda gostava de saber qual o gozo, a piada de tal atitude mais o raio-qu'o-parta.

(...)


Quis a genética que tivesse olhos azuis. Mas de pouco me valeram junto das raparigas. A pior coisa que me podiam dizer era "só te queria os olhos". Apetecia-me logo mandá-las à merda. Mas nunca o fiz. Sempre fui um rapaz educado. Com algum esforço, é certo. Mas tentei sempre ser um rapaz educado. Também é verdade que, até certa idade, as raparigas não me interessavam. Passavam-me ao lado. Estava mais preocupado em ouvir música e beber submarinos nas esplanada do Vinagre, que era a única esplanada minimamente escondida dos olhos curiosos dos adultos e não só, isto porque uma das grandes vantagens de viver numa terra pequena é a seguinte: podes não saber o que fizeste na rua, mas quando chegas a casa os teus pais dizem-te. Assim, a esplanada do Vinagre cumpria a sua função: servia submarinos e estávamos escondidos. É claro que nada disto está relacionado com a minha genética. Ou talvez sim.

Vidigueira Premium



Touriga Nacional | Alicante Bouschet | Syrah

(...)


Enquanto caminhava pela avenida, reparei numa janela que se abria. Uma rapaz, de taça na mão, perscrutava o dia. E comia aquilo que na taça se escondia. Comia e olhava em redor, procurando talvez uma cara conhecida, ou apenas talvez o odor, desta manhã que àquela hora amanhecia. Olhei para ele, e sem o conhecer, acenei com a cabeça em forma de saudação. E, por mais estranho que pareça, o rapaz acenou de volta com a mão.

(...)


Há pouco, depois do almoço, pedi factura com número de contribuinte. Admirado, o funcionário que me atendia, perguntou — o senhor já tem idade para ter um número começado por 1? — ao que eu respondi que sim, pois sou contribuinte desde os meus seis anos (caminho para os quarenta e dois), pois sendo o meu Pai contabilista, e logo que eu soube assinar, foi comigo fazer o registo.
     Mas não é tudo. O meu Pai também me ensinou que, a nível de fiscalidade, o Estado não é "pessoa de bem", e nós temos de actuar com ele sabendo, a priori, este facto. O Estado não é pessoa de bem. Cresci com essa ideia. Mantenho essa ideia e, cada dia que passa, essa ideia torna-se mais funda e mais sustentada. O Estado não é pessoa de bem.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (25)


1. O argumento de Cristas, sobre Liberdade e Segurança, apoia-se num sofisma. Diz a líder do CDS-PP: as pessoas para se sentirem livres têm de sentir-se em segurança, daí ser necessário um reforço da segurança. Nada poderia estar mais errado. Os estados autoritários, que apoiam todo o seu existir no reforço da segurança e no reforço da autoridade dos agentes de segurança (e tantas vezes no abuso da autoridade desses mesmos agentes de segurança), prezam a Liberdade? Mas o mais grave destas declarações é o facto de as mesmas estarem inseridas num contexto de suposto abuso de autoridade por parte de forças de segurança; abuso esse que está a ser investigado, decorrendo o respectivo inquérito. Cristas aproveitou a "acha na fogueira", lançada pelo representante da associação sindical da polícia, para mandar esta bojarda. Cristas é nisso especialista: surfar a onda, sem propostas concretas, fomentando um populismo primário (digno de André Ventura e Mário Machado) para daí retirar dividendos políticos, para o seu partido, e pessoais.

2. Mas, até agora, não ouvimos Cristas reagir aos números assustadores:  nove mulheres mortas desde o início do ano, em contexto de violência doméstica. Estas nove mulheres viram-se efectivamente privadas da sua Liberdade, pois são nove mulheres que hoje, dia seis de Fevereiro, não respiram, não trabalham, não abraçam os seus filhos. Elas sim foram privadas, na totalidade, da sua Liberdade. Elas sim viram a sua Liberdade ameaçada vezes e vezes sem conta. Elas sim, dia seis de Fevereiro, não têm Liberdade.

Lí por aí


Nove mulheres mortas em contexto de violência doméstica desde o início do ano. Presumo que os assassinos não sejam pretos a viver em bairros degradados, nem as vítimas polícias de profissão. Caso contrário, não se falaria de outra coisa.


Henrique Manuel Bento Fialho

Estados Filosóficos (106)


Aquele que procura a sensatez ficará um dia louco.

Castelo D'Alba



Touriga Nacional | Touriga Franca | Tinta Roriz

(...)


Muito frio. Se aqui está assim: fará em Manteigas. Logo hoje que saí mais cedo de casa. Não era necessário; despachei-me mais cedo. E saí. No café de sempre o café de sempre. Estava lá aquele senhor que só anda de camisola, sem outro agasalho. Hoje tinha um casaco vestido. Por isso: deve estar mesmo frio. 

(...)


Agora, Rui, penso no momento em que, chegado ao céu, Deus se virar para si: "Tinhas razão, Rui. Eu, afinal, não existo". E com a perspectiva de tal coisa, esboço um sorriso e lembro as tardes em que tanto aprendi consigo. Ainda hoje não sei se era eu que lhe fazia companhia a si, ou se era o Rui que me fazia companhia a mim, perdido como eu andava numa cidade que me tinha recebido a "300 euros por mês (tudo incluído) num quarto com marquise". Nunca consegui tratá-lo por "tu", apesar de me ter sido pedido. Não fui capaz. Deixo-lhe aqui um abraço que ficará para sempre, pois dizem que há uma "nuvem" algures que tudo guarda. Aqui vai ele, do Varoufakis de Manteigas. Abraço, Rui.