Um poema de Sandra Costa
Herbert List, Lemonade stand (Capri), 1932
Apodera-se de ti o ofício do Verão.
Enquanto houver limões sobre a bancada
de madeira, água e açúcar para manter
o equilíbrio entre o que vês e o que escreves,
e uma colher para que um leve tinido
tudo trespasse de mar e melancolia,
deixarás por aqui um rasto a margens
e a tardias esperas.
Crês que a ilha também pode ser um lugar
onde as histórias de amor
se apresentam em segundo plano.
em Untitled, s/l: volta d' mar, 2017, p. 21.
(...)
A natureza do amanhecer. Andar pelas ruas ainda vazias de gente. A cidade a abrir em estores e alumínios. O primeiro café do dia no café de sempre. Os mesmos rostos de sempre. E também, aqui, a mesma repetição de sempre, porque a vida, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a Arte, como forma de tentar dar à vida alguma originalidade. E quando digo Arte incluo todas as suas formas: literatura, pintura, escultura, música, cinema e por aí em diante. Mas, depois, também na Arte a mesma repetição de sempre, porque a Arte, para sermos exactos, nada tem de original. Daí talvez a vida, como forma de tentar dar à Arte alguma originalidade. E por aí em diante.
(...)
O arroto seguido de vómito começa a ser o estilo mais recorrente naquele que alguns ainda julgam ser o melhor amigo. Cuspir pró ar, também. E todos sabem o que acontece àqueles que cospem pró ar. Mas a mim aquilo que mais me indigna é o facto de praticamente ninguém se indignar. Indignam-se com tudo e mais alguma coisa, menos com o insulto gratuito. A verdade é que a maior parte está à espera das migalhas que o "crítico" irá atirar para o chão, para depois se refastelarem com elas e arrotarem com migalhas entaladas entre os dentes.
Há quem continue a dizer que o "crítico" nada diz, nada escreve, não interessa. Não se admirem, um dia, que o "crítico" arrote, vomitando, na Vossa direcção. E depois ninguém se indigne com a Vossa preciosa indignação.
(...)
Ontem decidi por um ponto final
na leitura de O Tango de Satanás.
Custa-me deixar um livro a meio, mas concluí, há muito, que não sou obrigado a
ler um livro até ao fim só porque sim. E comecei a leitura de Auto-de-Fé. E, caramba!, que diferença.
Canetti sabe prender um leitor desde a primeira linha. Aquela entrada é
fulgurante, com um diálogo bem escrito e sem ser massudo. A apresentação do
personagem principal. Tudo logo no primeiro capítulo, sem esforço. Penso que
tomei a decisão certa. Alguns pós-modernos parecem fazer gala de dificultar a
leitura. Talvez ainda não esteja pronto para eles.
Marquesa de Alorna - Grande Reserva
(...)
Ando há semanas a tentar acabar de ler O Tango de Satanás. A verdade é que a escrita do autor húngaro não me entusiasma, apesar de ter uma características que muito me agrada: parágrafos únicos. Mas não me agrada todo aquele palavreado, todas aquelas imagens, todas aquelas metáforas e todos aqueles adjectivos para identificar e falar da queda de um regime e de um ideal. Parece que há muita parra e pouca uva. E depois tenho ali ao lado Auto-de-Fé, de Canetti, a olhar-me e a dizer-me "larga esse gajo e pega em mim".
(...)
Às vezes tenho de trocar o toque do despertador no telemóvel, pois começo a ficar intolerante ao som que habitualmente uso. Em vez de acordar, simplesmente, acordo enervado, rabugento, pois aquele ruído começa a implicar com os nervos. É claro que a parte do acordar, levantar e ter de enfrentar um dia de trabalho também não ajuda nada. O trabalho é mesmo uma opressão. E mesmo que o modelo neoliberal existente e em vigor um dia seja derrotado, a figura do "trabalho" irá manter-se, pois ela ultrapassa qualquer tipo de regime ou de modelo económico. Uma merda, portanto.
(...)
Ao contrário do que muitos pensam, e alguns dizem por aí, é só pedir o catálogo da Companhia das Ilhas e ele chega até nós livre de encargos. Assim, já conseguiremos ter uma "orientação firme e clara". Só que alguns ditos críticos pensam que as coisas têm de ir até eles sem esforço, pois o "crítico" é esse ser superior, que deve ser servido. Estamos bem arranjados, sim senhor.
Estados Filosóficos (105)
Aquilo que dói não é a descoberta da mentira. É antes a descoberta da verdade.
Um poema de m. parissy
De um dos quartos retiraram-se os
objectos desnecessários: uma
cómoda de madeira escura, uma
cadeira com assento verde, as
imagens penduradas. Ficou apenas a
cama, a mesa-de-cabeceira e as
cortinas. Brancas para deixar entrar
a luz. Uma janela que destapava o
silêncio. Já não havia choro. A
construção do refúgio ocupou esse
lugar.
em Ferido, s/l: volta d'mar, 2016, p. 18.
(...)
A verdade é simples: ouvi sempre mais música do que li poesia, romance, ensaio. Foi devido a isso que decidi criar o blogue Som e Fúria. Será, à minha maneira (e não é uma referência a Xutos & Pontapés), um blogue sobre música. Até agora escrevi três textos: este, este e este. Nos próximos tempos irão encontrar-me mais por lá do que por aqui.
(...)
Ontem fiz uma coisa que não fazia há muito: escrevi uma carta a um amigo. Hoje foi dia de a enviar. Estados Unidos da América. Com quatro livros dentro do envelope, em correio normal, ficou tudo em quatro euros e meio. Soube bem escrever uma carta. Tenho de repetir. Não me faltam por aí amigos espalhados.
6 anos
1) A Medula faz hoje seis anos. Durante esse tempo foram publicados onze livros, todos eles edições únicas com tiragens de cem exemplares.
2) A Medula continua e continuará a afirmar-se como um projecto editorial independente, porque, em primeiro lugar, não depende do dinheiro dos seus autores; em segundo lugar, não depende ou de subsídios ou de apoios ou de angariações de fundos ou de subscrições.
3) A Medula continuará a depender da carolice dos amigos para traduções, revisão de texto, divulgação e apresentações.
4) A Medula continuará a correr o risco de não ser encontrada nas grandes superfícies livreiras.
5) A Medula continuará a correr o risco de apenas ser encontrada nas pequenas livrarias (que são cada vez menos).
6) A Medula agradece a todos aqueles que a acompanham desde o dia três de Janeiro de dois mil e treze.
2) A Medula continua e continuará a afirmar-se como um projecto editorial independente, porque, em primeiro lugar, não depende do dinheiro dos seus autores; em segundo lugar, não depende ou de subsídios ou de apoios ou de angariações de fundos ou de subscrições.
3) A Medula continuará a depender da carolice dos amigos para traduções, revisão de texto, divulgação e apresentações.
4) A Medula continuará a correr o risco de não ser encontrada nas grandes superfícies livreiras.
5) A Medula continuará a correr o risco de apenas ser encontrada nas pequenas livrarias (que são cada vez menos).
6) A Medula agradece a todos aqueles que a acompanham desde o dia três de Janeiro de dois mil e treze.
Estados Filosóficos (104)
A maior luta, aquela que me consumirá sempre, não é contra a injustiça, a pobreza, a tirania. É contra a hipocrisia. A minha.
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