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Os dois textos que Diogo Vaz Pinto publicou, até agora, a atacar o Henrique Manuel Bento Fialho, têm apenas um propósito: branquear aquilo que Golgona Anghel fez. O cúmulo dos cúmulos é a ideia que começa a ser passada: ela até nos deu a conhecer um poeta argentino, que ninguém conhecia, com a sua "glosa". Fala-se em ir beber à fonte. Tudo bem. Não vejo qualquer problema nisso. Mas uma coisa é ir beber à fonte e outra é trazer a fonte para casa. Em Manteigas, quando peço um copo de água em casa de alguém e vejo que a água é fresca e não é da rede, digo "que água boa!". A resposta não se faz esperar: "é da Fonte das Forneas", ou "é da Fonte Paulo Luís Martins". Penso que, em literatura, também deveria ser assim.

Livros (159)




Não sendo eu um admirador da poesia de Herberto, devo admitir que a leitura de Húmus impressionou-me, quer pelo diálogo que estabelece com a obra de Raúl Brandão, mas também pelo exercício que convoca: poema-montagem ou poema-colagem (deixo o esclarecimento do termo para a Academia). Pensar que o exercício/técnica é fácil: é cair no erro. Não o é. E, como bem sabemos, não é para todos. Herberto teve a capacidade de criar, em certa medida, um texto completamente novo, diferente. Mas a presença de Brandão existe, está lá e nunca foi negada (porque também seria impossível a Herberto fazê-lo). Intertextualidade? Penso que estamos na presença de algo que está para lá disso. Uma obra maior da literatura portuguesa da segunda metade do século XX português? De todo. Mas, ainda assim, grande o suficiente. 

Ensino Recorrente



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Nevoeiro "serrado" (= como na Serra). Se estivesse em Manteigas iria ouvir a minha Mãe dizer — não se vê São Domingos — à mesa e servir-se de café. Aqui, não a ouço. Mas sirvo-me também de café e imagino-a a dizer "não se vê São Domingos".

Não há coincidências




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O do lado esquerdo foi escrito por um poeta argentino do início do século XX, o do lado direito foi escrito por uma poeta portuguesa do início do século XXI. Ele chama-se Jorge Calvetti, ela chama-se Golgona Anghel. Em poesia, esta técnica pode ter o nome de paráfrase, intertextualidade, diálogo, pastiche, plágio. Sem menção ao original, pode também ser entendida como copianço. Por muito menos, Tony Carreira foi recentemente achincalhado. Não merecia, afinal estava apenas a recorrer a práticas académicas que são um inequívoco sinal de inteligência, respeito pela tradição e conhecimento profundo da sua arte.


Descubra as diferenças


Fala um soldado da conquista - de Jorge Calvetti


Vim porque me pagavam
e eu queria comprar espadas e mulheres.
Vim porque me falaram de montanhas resplandecentes
como um entardecer no mar
e como o ouro com que haveria de me vestir quando regressasse.
Mas só encontrei flechas envenenadas,
humidade e mosquitos.
Conheci o terror, noites sigilosas,
índios vestidos com sua beleza sinistra,
a força de uma terra que nos dobrou
como a sede aos animais,
e a movediça mortalha da selva.»

«Alguém falou de honra a bordo.
A bordo
falavam e rezavam com lentas mãos sobre livros dourados.
nessas mãos se apoiaram o grito e o desespero;
com essas mãos escavaram a terra que nos iria cobrir.
Alguém falou de «história» e de «futuro»;
eu apenas penso no que perdi.
Creio que tudo é igual,
as mentiras que nos disseram e as verdades que encontrámos.
Haverá sempre loucos que viverão de palavras,
e sempre o mundo misturará com a mesma indiferença
a vida, que cresce no esquecimento,
a glória, que se arrasta,
e a laboriosa cobiça da morte.



Vim porque me pagavam - de Golgona Anghel


VIM PORQUE ME PAGAVAM,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo,  falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade ?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.

Foral de Évora



Trincadeira | Alicante Bouschet | Aragonez

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Fim-de-semana. Duas viagens. Total: 650km. Pouco mais de vinte e quatro horas em casa dos meus Pais. Mas, ainda assim, tempo para um almoço em Valhelhas, no Soadro do Zêzere, restaurante que sempre recomendo. Ser surpreendido por uma Sopa Seca (costumam fazer ao Sábado, durante o Inverno) e um Foral de Évora. Depois: requeijão e doce de abóbora, mais café. E, como diria um colega meu, "fiquei como um burro num batatal".

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Da cozinha vi o trânsito intenso, a fila interminável. Uma leve chuva no vidro da janela e o gato a miar aos meus pés: faltava a água e um pouco mais de biscoitos. A minha mão pelo dorso dele como que a pedir desculpa pela minha falha. Fui aparar levemente a barba. Há um mês que o não fazia, e dessa última vez a minha Mãe disse — não gosto de te ver assim com a barba tão grande — e como pensei nas palavras dela hoje de manhã, decidi aparar levemente a barba antes do duche. Cheguei à janela do quarto e o trânsito intenso, a fila interminável mais uma leve chuva no vidro da janela e o gato, desta vez sobre a cama, no seu ritual matinal a tratar de si.

Thomas Bernhard


Temos, dizemos nós, direito à justiça, mas é só à injustiça que temos direito...
O problema é ser capaz de vencer as dificuldades do trabalho, o que quer dizer, a relutância interior e a estupidez exterior... isto é, passar por cima de mim próprio e por cima dos cadáveres de filosofias, por cima de toda a literatura, por cima de toda a ciência, por cima de toda a história, por cima de tudo... é uma questão de constituição mental e de concentração mental e de isolamento, distância... de monotonia... de utopia... de idiotia...
O problema é sempre ser capaz de levar a cabo o trabalho, com a ideia de nunca e nada ser capaz de levar a cabo... é a questão: prosseguir, prosseguir sem contemplações, ou acabar, pôr fim... é a questão da dúvida, da desconfiança e da impaciência.


em Os Meus Prémios, tradução de José A. Palma Caetano, Lisboa: Quetzal Editores, 2009,  p. 137

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Há pouco um pombo embateu contra a janela. Deixou o vidro marcado. Vi-o chegar e depois o estouro. Caiu ao chão, sacudiu a cabeça e voou. Na minha cabeça a ligação a Os Pássaros foi imediata. 

Discos (295)



Re: Person I Knew

Bill Evans


E, apesar de tudo, ainda o teu piano, Bill. Pudesse eu escrever neste teclado com a leveza dos teus dedos sobre as teclas brancas e negras. Pudesse eu fumar cigarro após cigarro sem pensar na asma que me aperta os pulmões e sem sentir, depois, os pulmões apertados pela asma e por cada um dos cigarros fumados um após o outro, enquanto os seguro no canto da boca com o mesmo estilo que tu. Fosse eu outro, Bill. Fosse eu outro.

Os cães ladram facas - Charles Bukowski



Charles Bukowski
Os cães ladram facas
(Antologia Poética)
Tradução de Rosalina Marshall
Selecção, organização e prefácio de Valério Romão
Alfaguara
2018

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Estou a escrever este texto numa sala com três grandes janelas que deixam ver a ruína de uma antiga fábrica têxtil. Descendendo eu duma família de operários fabris numa fábrica têxtil, não consigo deixar de associar a ruína desta antiga fábrica têxtil à construção de uma outra ruína que ficou lá para trás num passado que, às vezes, não consigo lembrar. A ideia de construir a ruína é uma ideia que me agrada bastante, tendo em conta o significado da palavra "ruína", pois penso que a nossa memória, um pouco de cada vez, começa a fazer isso: um pouco de cada vez começa a construir a ruína do nosso passado. Porque a memória do nosso passado não passa disso mesmo: ruína em construção.

Discos (294)



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And I have a feeling that's growing
Somewhere behind my sleeping mind

Swans


Rossio. Sete da tarde. Nas escadas rolantes descendentes: caras cheias de Sintra. Nas ascendentes: rostos cansados, corpos curvados. No comboio o mesmo cenário. Ao meu lado uma senhora adormece ao mesmo tempo que se senta. Passados dois minutos tem a boca aberta, respira fundo. Com o primeiro balançar do comboio abre os olhos, para logo os fechar. Um saco em cada braço.

Livros (158)




No início do Verão passado, consegui comprar este livro num alfarrabista. Primeira edição em relativo bom estado. O preço era convidativo e não resisti. Raul de Carvalho é um poeta que eu muito aprecio. Considero-o um dos grandes da segunda metade do século XX português. Como grande poeta que é: raramente é citado ou considerado uma influência. Mas isso é uma questão completamente diferente. A sombra de Fernando Pessoa (mais heterónimos) percorre as páginas deste livro. A verdade é que, neste livro, podemos ler grandes poemas. Destaco Serenidade, és minha, conhecido por muitos na voz de Mário Viegas.

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Na noite de Sexta para Sábado acordei com a chuva forte. Eram duas e meia da manhã. O gato permaneceu aos meus pés, sem sobressalto algum. Antes de apagar a luz comecei a reler Derrubar árvores — uma irritação, de Thomas Bernhard. Crítica forte à intelectualidade austríaca.
     E de repente penso que em Portugal acontece o mesmo. É vê-los de apresentação em apresentação, de cartão de visita na mão — muito prazer em o conhecer! gostei muito da sua antologia — enquanto o aperto de mão e a palmada nas costas confirmam a bazófia e o lugar comum — obrigado por me ter traduzido. vou traduzi-lo a si também — e lá vão todos para o beberete, para o porto de honra com guitarras portuguesas mais um fado esganiçado. 

Raul de Carvalho


Haikai

O tempo a encurtar
Divinamente estúpido


em Elsinore, com capa de Mário Botas, Porto: Brasília Editora, 1ª edição, 1980, p. 28

Ensino Recorrente


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Comecei ontem a reler Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard. Aprecio muito o autor austríaco e este livro em particular. Nele, e de uma maneira menos metafórica e mais directa, Bernhard desmascara a "elite literária" austríaca e alemã, bem como todos aqueles que a sustentam. A acidez é enorme.
     Acredito que, num país como o nosso, seja impossível um livro igual. Ou parecido. A nossa "elite literária" está, toda ela, bem instalada e o compadrio é evidente. Denunciar seria necessário. E, quando digo denunciar, não me refiro a ajuste de contas em páginas de jornais diários ou semanários. Bernhard denuncia a hipocrisia. Não faz ajuste de contas.
     

E. Ethelbert Miller


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Cheguei à poesia de E. Ethelbert Miller através de versões de Jorge Luís Barreto Guimarães. Gostei da contenção vocabular e da maneira como trata o quotidiano, sem cair em lugares comuns. Os seus poemas políticos são muito bons, onde a denúncia da opressão aos mais fracos, às minorias, está sempre presente. Comprometido com os direitos cívicos durante os anos sessenta e setenta, nos Estados Unidos da América, Ethelbert Miller foi um dos impulsionadores dos Estudos Afro-Americanos na Universidade de Howard, em Washington DC.

Versões: E. Ethelbert Miller



Billie Holiday


às vezes os surdos
ouvem melhor do que os cegos

alguns homens
quando pela primeira vez
a ouviram cantar

apenas repararam
na flor que trazia no cabelo



E. Ethelbert Miller, First Light: New and Selected Poems, Baltimore: Black Classic Press, 1994.

Ensino Recorrente


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Poema de Outono


À falta de lareira
serve o hotspot

Castanhas cozidas
com erva-doce

vinho abafado
mais a chuva lá fora

O gato aninhado
na manta

o orçamento
de estado aprovado

na generalidade
entenda-se

Cecília Meireles
deputada

esganiçada
a destilar fel

mais aquela
laranja mirrada

que é Negrão
a dizer que é aldrabão

o orçamento —
entenda-se