Muyassar Kurdi | Guarda | 8 Outubro | 21h30m
Discos (289)
Os livros amontoados na estante.
Uma certa desordem que me agrada. Abro a janela. Começa a entrar o dia. Um galo.
Um gato. Um resto de sol. Lembro um livro que fala de um Outono algures numa
Alemanha perdida: «nada do que é exprimido pode parecer mais carregado de ameaças
do que aquilo que o não é.» (Stig Dagerman). Há muito que procuro uma definição
para tudo isto. Talvez a tenha encontrado.
Discos (288)
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You fear the lesson
And fear to walk
And fear to pass on
Your fear to talk
Bauhaus
Sobravam os dias. Tudo à nossa
volta era a ruína de um tempo que sabíamos não ser o nosso. Mas que tempo,
afinal, nos pertencia? Era essa a principal questão. E sei que nos
juntávamos num sótão. A desculpa eram as explicações de Filosofia e a prova
específica que nos poderia condicionar a entrada na faculdade. Entre Kant e
Hegel preferíamos Nietzsche: «A ventura da minha existência, porventura a sua
singularidade, consiste na sua fatalidade». O que sabíamos nós de tudo isso? O
que era, afinal, a existência? Tínhamos 17 anos. Seria essa a nossa fatalidade?
Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (22)
1. Toda a situação em redor da exposição Mapplethorpe cheira de certeza pior do que o cabo de chicote que o próprio Mapplethorpe enfiou no cu. Há apenas uma única coisa boa a retirar de tudo isto: este género de situação faz sair da toca as mentes mais reaccionárias e ultramontanas deste país. E isso, a bem da verdade, é bom. A malta pode passear de crachá democrata na lapela, defender a liberdade de expressão e a liberdade de escolha, reivindicar mais cultura e etc e tal. Mas, depois, a democracia só se aplica a eles, bem como a liberdade de expressão, de escolha e a cultura. Ainda bem que Mapplethorpe regressou.
2. Anda por aí gente a reivindicar uma mudança no PSD. E qual é o nome mais apontado, por essa gente, para substituir Rui Rio? André Ventura. Se há arrivista mais alpinista do que André Ventura, eu não conheço. Mas cada um tem o que merece. Talvez o PSD mereça André Ventura.
(...)
Os alunos improvisam leques. Ontem foi o primeiro dia de Outono, Equinócio e essas coisas de calendário. Começa a estar obsoleto: o calendário. Talvez seja altura de reformular o tempo.
Um poema de Edmond Jabès
Para ti, falo
Para
ti, falo. O eco. Os aviões dos jogos de pé-coxinho transmitidos. A
boa nova brilha, hoje. Para ti, anuncio o dom do desejo, o mar sem
trajecto, a boca.
Para
ti, a indisciplina dos cumes de cabeça de égua, o relinchar da
neve, além, inaudito.
Para
ti, amor exasperado, as verdades primeiras, o prazo dado às pedras
empoleiradas.
Para
ti, só para ti, o luto dos círios, o hino ao rochedo, a carta
inviolada do sinal.
*
Ferida
na tua candura. A escama, Os liames selvagens do ar e da água. Uma
vez salva, mais bela, seios descobertos, as coxas, companheiras da
onda.
E
o entrave do amor à fuga fácil.
*
O
número. O escrínio. O jogo das insígnias cobiçadas. O alfabeto,
aftas grosseiras. Rebentam os lábios com a frase.
Aqui,
desdobro. Páginas, país impaciente. Aqui, povôo, aqui replanto,
aqui construo. Sacia a tinta o solo, rio e chuva.
Aqui,
tu reinas.
*
A ti, dedico. A areia. O
fruto do diálogo, alga crestada.
E
o sal nos escombros, praia reduzida.
*
Imóvel. Réplica da
lâmpada.
Nítido
amanhã para espanto das mãos.
em A obscura palavra do deserto — uma antologia, selecção e tradução de Pedro Tamen, Lisboa: Cotovia, 1991, pp. 17-19.
Discos (287)
Yet silent tears streamed down in morning light
Most beautiful, my lonely sinner
Most beautiful, my lonely sinner
Swans
A esta hora da manhã ainda poucos são aqueles que percorrem as ruas. Tomo a primeira bica no café de sempre e parece que todos os dias as mesmas caras ao balcão se juntam a mim nessa primeira dose de coragem líquida, que de pouco nos serve: continuamos todos de olhos fixos no fundo da chávena, como se lá estivessem as respostas que procuramos. Há quem peça uma segunda dose, que irá ser reforçada com um cigarro logo aceso à saída. O sol bate de frente. Não trouxe óculos-de-sol. O inferno, hoje, sou eu.
(...)
Há muito que não me levantava tão cedo. O gato continuou deitado, depois de acesa a luz. Poucos carros na rua. Os vizinhos de cima ainda não se ouvem. Malick: o gato permanece deitado ao fundo da cama. Olha para mim com um ar aturdido, como se algo estivesse fora do sítio. Preparo o pequeno-almoço. Café forte e uma torrada com manteiga. O gato vem ter comigo. Pede-me biscoitos. Come e volta para a cama. Saio.
Ruben A.
É assim a vida... Escarafuncha-se e faz-se um pouco de conversa fiada. O resto é poesia.
em A Torre da Barbela, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2005, p. 118.
Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (21)
1. Parece que a livraria da Cotovia reabriu lá para os lados do Teatro da Trindade. E parece que reabriu com pompa e circunstância, tendo direito a destaque no Observador. E reabriu, também, com uma grande novidade: dar lugar aos "editores livres". Pelos vistos esses "editores livres" são aqueles, para quem não sabe, "que publicam o que querem, quando querem, em tiragens minúsculas". E depois desta explicação, ficamos a saber, também, que afinal os "editores livres" são "editores marginais". Parece que, ao todo, são 19 os editores-livres-marginais representados. E que mal tem a dita notícia? O tom paternalista/matriarca da mesma; o fazer supor que a Cotovia é pioneira em tal coisa, quando não é. Mas a malta bate palmas e faz vénias. Acena que sim com a cabeça, quando devia estar a dizer não com o dedo do meio em riste.
2. Ainda Lobo Antunes e a sua entrada La Pléiade. Lembram-se quando a Dom Quixote lançou a Biblioteca António Lobo Antunes? Foi em Maio de 2009, esse longínquo e esquecido ano. Foram lançados: O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, A Letra Encarnada, de Nathaniel Hawthorne, Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, e A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. A selecção e os prefácios eram de Lobo Antunes. E quantos livros tem, hoje, a Biblioteca António Lobo Antunes? Cinco. Tem cinco livros.
(...)
A propósito da histeria em torno da inclusão de António Lobo Antunes na Biblioteca La Pléiade, eis aquilo que penso, socorrendo-me das palavras de Ruben A.:
O Centenário de Dom Raymundo ia comemorar-se na Torre da Barbela com todos os ingredientes de magno acontecimento. Festejava-se o valor de uma poesia e astuciosamente o de uma raça que tinha parido tão naturalmente um poeta de cantares da nossa terra. Dos concelhos limítrofes haviam-se nomeado comissões e dos distritos circum-vizinhos sub-comissões que se reuniam nos dias pares do mês para deliberarem das comemorações; a estas foi decidido dar um cunho e um significado que bem testemunhassem do alto valor intelectual de um povo. Dom Raymundo andava encantado. Era a primeira vez que festejavam em vida o seu centenário. Na Barbela não se falava de outra coisa.
em A Torre de Barbela, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2005, p. 85.
Discos (286)

Não há outra maneira de dizer esta hora. Não há.
(...)
Somos um país de autores impensáveis. Isto porque não os pensamos. De Camões ficou-nos, apenas, o olho que perdeu pela grandeza do império. De Bocage as anedotas. De Eça as frases feitas. De Vergílio Ferreira o frete de o ter lido na escola. De Saramago a censura à-sousa lara, o exílio, o Nobel que fica tão bem na estante e dizer que não sabe pontuar. De Lobo Antunes as croniquetas, que toda a gente diz ser o melhor dele porque, na realidade, quase ninguém tem paciência para ler um romance seu até ao fim. De Torga ficou Os Bichos, porque também houve muitos que apanharam com eles na escola. Depois há os outros, aqueles que todos os anos escrevem três livros e publicam cinco. Aqueles que estão sempre no topeténe ou no topemais ou, apenas, no top. Aqueles que sufocam as grandes superfícies onde se vendem livros. Esses são os mais impensáveis de todos. Porquê? Porque se o leitor os pensasse, os pensasse realmente, nunca mais lhes compraria um livro.
Um poema de Cristina Campo
Sindbad
O ar de dia para dia se adensa em redor de ti
de dia para dia consuma minhas pálpebras.
O universo cobriu o rosto
sombras dizem-me: é inverno.
Tu no inocente espaço onde se embalam
ilhas negligentes, eu no terror
dos lilases, numa labareda de rolas,
sobre a suave, doméstica estrada da loucura.
Carrega-me cânhamos, azeitonas
mercados e anos... Eu não baixo pestanas.
Meia-noite virá, o primeiro grito
do silêncio, o tão longo recair
do faisão entre as asas.
em O Passo do Adeus, tradução e prefácio de José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 61.
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Como sabem, este ano o Governo adoptou uma modalidade nova para a gratuitidade na aquisição de manuais escolares até ao 6.º ano. Os clientes obtêm vouchers que trocam por manuais nas livrarias aderentes. A Bertrand é uma delas. Sucede que, dada a dificuldade que alguns utilizadores estão a ter na obtenção dos vouchers, a Bertrand está a propor aos clientes que encomendem os manuais contra o pagamento de 30% de caução do valor total da encomenda. Os manuais serão posteriormente entregues, tendo os clientes que apresentar os vouchers. Os 30% de caução serão devolvidos em vale, para compras nas livrarias Bertrand. Ou seja, o que devia ser gratuito passa a custar às pessoas 30% do valor total de uma encomenda. Isto é um completo desrespeito pelos clientes, mais um abuso sobre as famílias e uma total deturpação do programa de gratuitidade.
Esclarecimento: o pagamento de caução é exigido a quem não tenha direito a vouchers, para encomendas de manuais pós- 6º ano, não abrangidos pela gratuitidade (tudo OK!). O problema é estarem a exigir esse pagamento a quem tem direito à gratuitidade mas não consegue descarregar os vouchers, prometendo posterior devolução em vale. Ou seja, as pessoas têm direito à gratuitidade. Mas como não conseguem descarregar os vouchers, sentem-se pressionadas a pagar à Bertrand 30% da encomenda para obterem os manuais atempadamente.
Esclarecimento: o pagamento de caução é exigido a quem não tenha direito a vouchers, para encomendas de manuais pós- 6º ano, não abrangidos pela gratuitidade (tudo OK!). O problema é estarem a exigir esse pagamento a quem tem direito à gratuitidade mas não consegue descarregar os vouchers, prometendo posterior devolução em vale. Ou seja, as pessoas têm direito à gratuitidade. Mas como não conseguem descarregar os vouchers, sentem-se pressionadas a pagar à Bertrand 30% da encomenda para obterem os manuais atempadamente.
Conway Savage (1960-2018)

Nunes da Rocha
Não esqueci nenhum artifício
Paráfrase ou sussurro
Que dariam títulos de jornais
(fui poeta de corpo inteiro entre datas sofríveis).
Hoje espremo pequenas gorduras duma pele infeliz
E aparo grisalha barba à criança distraída;
Mesmo assim
Não esqueço o perfil de romântico alemão,
À medida dum assombro teu,
Com o qual esperei uma felicidade universal
Daquelas que julgamos sem moldura.
em Poemas Obsoletos de um Bicho Imóvel, Lisboa: Averno, 2017, p. 25.
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