Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (20)


1. Dei por mim a pensar naqueles concursos das sete maravilhas disto e das sete maravilhas daquilo. O cheiro a mofo é evidente. Entre estes concursos "modernos" e aqueles outros da "melhor dona de casa", "aldeia mais típica", do tempo da outra senhora (a.k.a. Ditadura [apesar de muitos preferirem o eufemismo: Estado Novo: que sempre me deu vontade de rir]), a diferença é mínima, ou nula. E isto tudo na televisão pública. Mas também não é para admirar: a mesma televisão pública continua a promover touradas.

2. A única certeza que tenho, relativamente à minha situação profissional, é ser Professor. No entanto, e no dia de hoje (segunda-feira começa o ano lectivo), ainda não sei qual a escola onde irei trabalhar. Pergunto: quantas são as profissões que, a quatro dias do início de funções, não sabem onde irão iniciar essas mesmas funções?

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A imagem pode conter: comida e texto



Esta imagem anda por aí a circular. Não entendo como possa fazer sentido para alguém a comparação e, muito menos, fazer sentido a frase. A verdade é esta (ou parte): quem é pobre, verdadeiramente pobre, nem seis euros e meio tem para pagar pelo segundo prato; quem é pobre, verdadeiramente pobre, vive com menos de dois euros por dia. Por isso: pensem duas vezes antes de publicar uma barbaridade destas, fingindo que acreditam numa barbaridade destas.

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3671 visualizações. Esta entrada teve 3671 visualizações. Todas vieram de um único país: República Checa. 

Um poema de Jim Morrison



A morte torna-nos a todos em anjos
     e coloca-nos asas
onde tínhamos ombros
suaves como as asas dos
     corvos


em Uma Oração Americana e Outros Escritos, tradução de Manuel João Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 143.

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O trompete de Molvaer embala a tarde. Sento-me à secretária e nada acontece. Passo os olhos pelos blogues de todos os dias. Leio-os na diagonal. Há muito que não leio nada até ao fim. Nem mesmo poesia. Tenho andado a saltar de livro em livro e nenhum me prende até ao fim. Antes ainda procurava ler tudo. Fazia o sacrifício de os acabar. Não agora. Se o livro não me agrada: arrumo-o, não perco mais tempo com ele. E começo também a ser assim com as pessoas. Se nada me podem dar de bom: arrumo-as, não perco mais tempo com elas. Chamo, a isso, envelhecer.

Ensino Recorrente


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Discos (285)





Some things I just don't want to know
(instrumental)

Dirty Three


Está um cão a ladrar. Atrás de um muro que daqui não vejo. Ladra contra outro cão. Mas também poderá estar a ladrar contra mim. Não o censuro, caso assim seja. Também eu pelas ruas ladraria contra o mundo, não fosse o medo de ser fechado num manicómio. Talvez nos faltem uns quantos latidos contra a filha-da-putice. Talvez. Houve tempo em que uivei. Só que ia para o escuro da Serra, onde ninguém me via e só o mundo me ouvia. Pelo menos era essa a minha esperança.

Raul de Carvalho


     Um preceito que me prende cada vez mais a atenção: escrever em linha recta.
     Equivale a não distorcer o pensamento; a não deixar seduzir o pensamento.
     Que a ligeireza da corça não desvie a gravidade do abutre.


em Uma Estética da Banalidade, Lisboa: Edição do Autor, 1972, p. 21.

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Às vezes recebes e-mails com propostas de edição. Lês cada um deles (originais incluídos) e a todos respondes. Mas, às vezes, há excepções. Já conheceste uns quantos carapaus-de-corrida. Geralmente apresentam-se com grande pompa e circunstância, apresentam trabalho feito, trabalho que fazem e trabalho que pretendem fazer. Depois, quando respondes, e a resposta não vai ao encontro das suas expectativas, dizem que és um idiota. Como se fosse isso uma novidade para ti.

Ensino Recorrente


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Ontem decidiste comprar mais um livro de filosofia. Ainda não encontraste, em ti, explicação para isso. Há, em ti, uma tentativa absurda de ler coisas que não compreendes e que te são difíceis. No fim consideras que foi tudo uma perda de tempo. Nada fica em ti. Nada.

Um poema de Ruy Duarte de Carvalho


Uma árvore no Zaire


III


De casas preservadas na infância
eis o que eu sei das coisas, para além do tempo:

organizam o porte e a trajectória
na consentida face do silêncio.
Petrificam-se mansas, no interior da pedra
e o abandono é nelas, já vencido
a hesitação que habita as coisas móveis.

Assim se lhes constrói a face
e amadurece
uma presença alheia que as revela.


em A Decisão da Idade, Lisboa: Sá da Costa, 3ª edição, 1977, p. 41.

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Acordas para um novo dia. O gato tenta ajeitar o corpo ao seu lugar no sofá. Roda para um lado e roda para o outro. Não encontra posição, mas não desiste e deita-se na mesma. Talvez o seu exemplo.

Discos (284)



Under the Volcano
(instrumental)

Tomasz Stanko


Há um berbequim na casa ao lado e o gato esconde-se debaixo da cama: olhos assustados. Abro um livro. Leio uns versos que me batem fundo. O dia vai a meio, é certo. Mas sinto que o mundo parou sobre o seu eixo e que assim irá para sempre ficar. Nada digo, escrevo, penso. Fico apenas suspenso naquela última estrofe: «Das palavras,/ com que esqueço e perdoo e maldigo/o destino de nunca/saber aonde vou, o que levo, aonde chego.».

Raul de Carvalho


Pequeno poema à pressa


Nas folhas que tenho
sobre a mesa, ponho
a alma que ganho,
porque o mais é sonho.

Porque o livre espanto
da morte, visita
de novo este corpo
que não acredita.


em Poesia, Lisboa, Portugália, s/d, p.60.

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Quando fores ao rio: vai avisado. A água talvez mais fria. Protege os ossos da melhor maneira possível.