Brevemente





Ana Bessa Carvalho | F. S. Hill | Henrique Manuel Bento Fialho
João Alexandre Lopes | Jorge Aguiar Oliveira | José Ricardo Nunes
m. parissy | manuel a. domingos | Maria João Lopes Fernandes
Rui Almeida | Rute Mota | Tatiana Faia

Discos (277)




Metal Machine Music Part 1
(instrumental)

Lou Reed


Não apareceram, até agora, alunos. Na sala ao lado uma colega grita “acabou! acabou!” e bate com algo na mesa. Suspeito que seja o livro-de-ponto. Os alunos, esses, continuam numa algazarra enorme, indiferentes aos gritos e ao bater. Tudo isto é demasiado. Aqui não somos professores. Aqui somos algo de intermédio entre nada e coisa nenhuma.

(...)


O silêncio não pertence a este lugar. Ninguém aqui sabe falar baixo. A voz humana deixa de o ser, tal é a sobreposição de sons. Passado algum tempo: só grunhidos aquilo que consigo ouvir.

Um poema de Joseph Brodsky


Blues

Vivi dezoito anos em Manhattan.
O senhorio era bacano, mas tornou-se bera.
Um safado, a bem dizer. Odeio-o, meu.
O dinheiro é verde, mas é como sangue a correr.

Creio que tenho de mudar-me pr'à outra margem.
New Jersey acena com o seu brilho de enxofre.
Olha, a conta dos anos pouca importância tem.
O dinheiro é verde, mas não cresce.

Levarei comigo a mobília, o meu velho sofá, enfim.
Mas que fazer com a vista da janela? Sinto-me
como se tivéssemos sido casados, ou algo assim.
O dinheiro é verde, mas dá tristeza à gente.

Um corpo, regra geral, sabe para onde vai.
Creio que é a alma que nos leva a rezar,
mesmo que lá em cima haja apenas um Boeing.
O dinheiro é verde, e eu já deixei de esperar.


em Paisagem com inundação, tradução de Carlos Leite, Lisboa: Cotovia, 2001, p. 221.

Li por aí


Onde almoço hoje, almoçam também os dois irmãos que cá estão em todas as vezes que aqui venho. Há meses, vi-os a almoçar com a mãe, septuagenária, ou octogenária, frágil como um caule de porcelana. Hoje, almoçam com ela, ao que entendo, apenas nas palavras que pingam na minha mesa, em ritmo de goteira: «a mãe», «a médica», «bactéria», «antibióticos», «febre», «quarenta graus», «cuidados intensivos». O que entendemos da vida dos outros é sempre uma interpolação entre palavras soltas.

Robert Kurz


     É fácil de compreender que esta lógica da superação do trabalho abstracto seja incompatível com o conceito de socialismo do velho movimento operário. Em termos práticos, este apenas conseguia conceber a expansão do «tempo livre» sempre com base no «trabalho»; o «trabalho» parecia ser o essencial, o «tempo livre», o secundário, não essencial. Na luta pela redução do «dia de trabalho normal», consegui-se e alargou-se, de facto, o tempo livre disponível para as massas, mas pondo o acento no «trabalho normal» (abstracto) como centro nunca questionado da práxis vital e como assunto verdadeiramente instituidor de sentido.


em A honra perdida do trabalho, tradução de Lumir Nahodil e prefácio de Bruno Lamas, Lisboa: Antígona, 2018, p. 56.

Discos (276)



Masqualero
(instrumental)

Wayne Shorter


Dizem que depois da chuva vem a bonança. Para mim vem Wayne Shorter no saxofone e eu dentro do carro a caminho do trabalho com o sol a bater de frente 

(...)


Para quem pensa que tudo, talvez, seja um exagero, eis a  minha escola.

(...)


Call It Anything: Miles Davis (trompete), Gary Bartz (saxofone soprano), Keith Jarrett (piano eléctrico), Chick Corea (clavinet), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Airto Moreira (percussão). Trinta e cinco minutos de puro génio. Ilha de Wight, 1970.

Um poema de Vindeirinho


O_

com o outono vestes meticulosamente e dobras cada
peça de
roupa que despes quando chegas a casa e
fechas a janela por onde uma árvore se começa a despir
para o
inverno, está frio e pensas na tua cama quentinha.

à mesma hora

no metropolitano à espera da última carruagem ela mastiga uma
pastilha elástica a pensar na roupa suja que tem em
casa. e quando é que a apanhará, uma vez que se esqueceu
da roupa há dois dias.

uma camélia murcha no vaso perto das peças de vestuário
depositadas na cadeira no
quarto. agora de roupa interior lembra
se das peças de roupa e dirige
se ao estendal para as apanhar,

com medo da chuva


em Domésticos, Lisboa: Black Son Editores, 2001, p. 23.

(...)


Várias vezes ponderei desistir. Deixar tudo e partir. Aquilo que me fez ficar foi sempre a cobardia, o medo de nada encontrar quando, inevitavelmente, o regresso fosse o mais certo. Nunca se parte em definitivo. Nunca. Apenas a morte é definitiva. Essa é a única partida da qual não se regressa. A única partida que nunca poderemos ganhar.

Manuel Fernando Gonçalves


Por mais que o ânimo rasgue a parede,
sinta energias poderosas, não há sorte
que remova a realidade: a poesia.

em Romance Ardente, Lisboa: Editora Viúva Frenesi, 2017, p. 11.

Uma imagem para o dia



(...)



Passou mais um dia. Vim a um café diferente, do lado mais fino da Alta de Lisboa (nome pomposo dado à Musgueira). Aqui os clientes vestem bem e chegam nos seus bms e mercedes. Pedem o que têm a pedir e não fazem conversa. A verdade é que os condomínios de luxo começam a cercar o bairro. Mais cedo, ou mais tarde, o bairro irá ficar cercado de grandes prédios. Soube ontem que já há quem esteja a ser indemnizado para ir embora, para abandonar as casas que, certamente, irão ser demolidas. É um processo que está a decorrer lentamente, mas que irá ter, de certeza, o desfecho há muito esperado: a expulsão daqueles que aqui moram. Expulsar todos aqueles que são uma “ameaça” e vivem “à conta” do rendimento de reinserção social. Expulsar todos aqueles que podem tornar a vida aqui “desconfortável”. O passo final, acredito, será o encerramento da escola. Daí o não haver investimento, requalificação. A escola está condenada a desaparecer em nome da “higiene social”. Na mesa ao lado todos se cumprimentam apenas com um beijo. Falam dos filhos, do pouco agasalho ao sair de casa. Criticam a nova moda de “andar à chuva e sem o anoraque”, ouço alguém dizer num tom muito afectado e com aquele sotaque ridículo de quem julga ser upper class. Lamentam a chuva que dura há tanto. Riem. Comem torradas e bebem sumo de laranja natural. Estão despreocupados com o trânsito ou com o chegar a horas ao escritório. Os filhos, de certeza, foram a pé até ao colégio que fica ali ao fundo da rua, nada agasalhados e pouco preparados para a chuva que “vem depois da uma”.

(...)


Têm onze ou doze anos. Trazem unhas de gel que fizeram durante o fim-de-semana. Quando vão ao quadro mal conseguem pegar no giz, escrever. Olham para os dedos, depois para o giz. Procuram uma solução. "É difícil...", dizem. Têm onze ou doze anos. 

Uma imagem para o dia



Um poema de Sam Shepard


num dia de muito calor
a maionese pode matar
era o que dizia a minha tia

dizia-me ela também
quando saíres leva sempre a carteira
porque se morreres
eles vão ter que identificar o teu corpo


em Crónicas Americanas, tradução de José Vieira de Lima, Miraflores: Difel, 4ª edição, 2002, p. 57.

(...)


A Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho, em Coimbra, vai fechar. Trinta e um de Março é o dia. É uma das poucas livrarias deste país que considero um pouco minha, como é costume dizer. Passei lá bons momentos. Desenvolvi lá ideias e projectos. Conspirei. Sim, nos tempos que correm é necessária uma boa dose de conspiração. E eu conspirei o suficiente lá. O suficiente para saber que vale a pena e que continua a valer a pena e que continuará a valer a pena.