O café está bastante vazio. Ainda não são oito e meia e só
estamos três pessoas: eu, sentado na mesa de sempre junto à janela, uma outra
professora sentada na mesa de sempre ao canto, e uma senhora ao balcão. E
entretanto entraram mais três pessoas: dois trolhas e a senhora que vem sempre
buscar o pão a esta hora. E agora entrou um pai com a filha pequena pela mão. A
senhora do pão reclama com alguém ao telemóvel — eu disse à senhora doutora
juíza que não podia ficar com a guarda da garota… pois… ela não tem juízo… só
que eu não tenho saúde para andar para a frente e para trás… fodas… eram quatro da
manhã e tocaram à campainha de casa… fodas... não sei para quê… nã… eu disse-lhe
que não ia cá a festa nenhuma… fodas… não tenho saúde é o que é… ai pá que te
ouço tão mal… está bem… eu falo com ele… mas só se estiver bem disposto que eu
não tenho saúde para o aturar… fodas — e sai do café depois de ter bebido o seu
café pingado, como todos os dias. Hoje, afinal, não levou pão.
A honra perdida do trabalho - Robert Kurz
Espécie de resposta
Estou tentado a escrever uma resposta a Diogo Vaz Pinto, mas a verdade é
que tenho aulas para preparar, para além de ser órfão de talento.
Sim, pelos vistos é necessário talento, nos dias de hoje, para uma pessoa
indignar-se, pois foi isso aquilo que eu fiz: indignei-me com o facto de Vaz
Pinto ter considerado as plaquettes dejectos de pombos lerdos. Pelos vistos não o
fiz com o necessário talento: enumerei apenas algumas das plaquettes publicadas
na Língua Morta por Diogo Vaz Pinto. Sim, tenho de dar razão a Diogo Vaz Pinto:
faltou-me talento e a dose certa de Góngora.
Todavia, e ao contrário de muitos, eu levo a sério aquilo que Diogo Vaz
Pinto diz e escreve. Levo a sério porque não podia ser de outra maneira. E
levo-o a sério porque considero Diogo Vaz Pinto alguém que se leva muito
a sério. E para além de se levar muito a sério, Diogo Vaz Pinto é um homem com
uma missão (basta para isso ler este texto). Vaz Pinto está convencido que é um
cruzado: professa uma fé e essa é a única fé possível de ser professada.
O maior erro que poderei cometer em relação a Diogo Vaz Pinto é deixar de
o levar a sério (alguns dirão que é dar-lhe tempo de antena e a atenção que não
merece e a importância que não tem). Esse será o dia em que irei considerar os
seus textos inócuos, quando na realidade o não são. Os seus textos são apenas a
materialização do programa que Diogo Vaz Pinto procura impor. Esse programa
inclui, sem qualquer sombra de dúvida, afastar todos aqueles que lhe possam
fazer frente ou sombra. Diogo Vaz Pinto não quer o contraditório porque Diogo
Vaz Pinto não sabe lidar com o contraditório porque não está habituado a ele.
Não quero com isto dizer que serei eu a contrariá-lo. Mas também não me
será indiferente, pois acredito que a indiferença é meio caminho para o
despotismo e caciquismo. E já temos a nossa dose de déspotas e caciques. Não
precisamos doutro.
Por falar em plaquettes (3)
O texto-resposta de Diogo Vaz Pinto pode ser lido aqui.
Por falar em plaquettes (2)
Este texto do Henrique Manuel Bento Fialho.
Por falar em plaquettes
A dita plaquette, como hoje lhe chamamos, a fazer biquinho à francês, ganhou enorme preponderância, tanto pelo modo como hoje os editores se mostram avessos ao risco de edições mais dispendiosas como pela pululante urgência dos poetas que, feitos pombos, gostam de cobrir bem a praça e cagam sem particular denodo, com uma periodicidade que cansa.
Diogo Vaz Pinto, página 36 do Jornal i de 19 de Fevereiro de 2018
Alguns
dos títulos publicados pela Língua Morta, editora gerida por Diogo
Vaz Pinto, entre Janeiro de 2012 e Janeiro de 2015 (segundo indicação do blogue da editora)
EQUINÓCIO,
de Francisco Tario, com selecção, tradução e posfácio de Rui
Manuel Amaral, 48 páginas agrafadas, sem indicação do número de
exemplares.
ACHO
QUE VOU MORRER DE POESIA, de Nicanor Parra, com selecção e tradução
de Miguel Filipe Mochila, 60 páginas agrafadas, sem indicação do
número de exemplares.
FÔLEGO
SEM FOLGA, de Miguel Martins, 24 páginas agrafadas, 150 exemplares.
18
DE ABRIL, de Manuel de Freitas, 16 páginas agrafadas, 100
exemplares.
A
DOENÇA – PANACEIA, de António Barahona, 28 páginas agrafadas,
100 exemplares.
NÃO
ERAM ROSAS, de Amy Lowell, tradução de Ricardo Marques, 40 páginas
agrafadas, 80 exemplares.
UM
HOMEM SOZINHO, de Miguel Martins, 32 páginas agrafadas, 100
exemplares.
BREVE
ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA, de Rui Costa, 40 páginas agrafadas, 100
exemplares.
A
SUPER-REALIDADE, de Rui Pires Cabral, 40 páginas agrafadas, 100
exemplares.
MÁGICA,
de Vicente Huidobro, tradução de Ricardo Marques, 44 páginas
agrafadas, 80 exemplares.
RESPIRO,
de António Cabrita, 40 páginas agrafadas, 80 exemplares.
UM
FIO QUE TE PRENDE À VIDA, de Rui Caeiro, 24 páginas agrafadas, 100
exemplares.
ANIMA, de José Manuel Teixeira da Silva, 36 páginas agrafadas, sem indicação do número de exemplares.
MAIS
NINGUÉM, de José Carlos Soares, 24 páginas agrafadas, 70
exemplares.
30
POEMAS, de Alexandra Pizarnik, tradução de Inês Dias e Manuel de
Freitas, 40 páginas agrafadas, 80 exemplares.
ESPANTALHOS,
de Oliverio Girondo, tradução de Rui Manuel Amaral, 40 páginas
agrafadas, 80 exemplares.
ALGUNS
POEMAS, Tennessee Williams, tradução de Ricardo Marques, 44 páginas
agrafadas, 70 exemplares.
MOTET
POUR LES TRÉPASSÉS, de Manuel de Freitas, 12 páginas agrafadas,
150 exemplares.
ANTOLOGIA
BREVE, de John Mateer, tradução de Miguel Martins e prefácio de
Inês Dias, 24 páginas agrafadas, 100 exemplares.
EXERCÍCIOS
PARA ENDURECIMENTO DE LÁGRIMAS, de Maria Sousa, 36 páginas
agrafadas, 150 exemplares.
AVULSOS,
POR CAUSA, de Renata Correia Botelho, 24 páginas agrafadas, 100
exemplares.
BABA
DE CARACOL, de Rui Caeiro, 40 páginas agrafadas, 100 exemplares.
RÉ
MENOR, de Patrícia Baltazar, 32 páginas agrafadas, 100 exemplares.
PROIBIDA
A ENTRADA A ANIMAIS (EXCEPTO CÃES-GUIA, de Miguel Martins, 40
páginas agrafadas, 100 exemplares.
NITRATOS
DO CHILE, de Rui Pedro Gonçalves, 28 páginas agrafadas, 150
exemplares.
BIOGRAFIA,
de David Teles Pereira, 24 páginas agrafadas, 50 exemplares.
Fábio Neves Marcelino
Um homem espera
por um rio que o venha buscar
Lá fora a chuva
encharca a roupa estendida
Tempos houve em que esperei a luz que precede o trovão
como quem pára para escutar a idade
em Canto Irregular, Lisboa: Averno, 2018, p. 15.
Canto Irregular - Fábio Neves Marcelino
(...)
Pergunto-me, várias vezes ao dia, por que razão continuo a ser professor. Ainda ontem, enquanto preparava uma ficha de trabalho (apostando naquilo que vulgarmente é designado por "diferenciação pedagógica"), mesmo sabendo que os alunos não lhe iam ligar nenhuma (como hoje tive a oportunidade de confirmar), me perguntei "será que vale a pena?". E não venham com a conversa de que vale sempre a pena se a alma e tal. Merda para esse ditado, ou adágio ou lá o que é. A verdade é que começo a ficar farto da palmada nas costas. Começo a ficar farto da simpatia bacoca. Começo a ficar farto que digam que ser professor é uma nobre profissão. A esses digo: "olha, se é assim tão nobre: vem para cá tu". Já para não dizer: "se é assim tão nobre, o meu saldo bancário ainda não deu conta que foi elevado ao estatuto de sir". E também não me venham com aquela conversa que a recompensa está à minha frente, no sorriso das crianças. As crianças, como todos sabemos, podem não ser a melhor coisa do mundo.
(...)
A aula tem noventa minutos. Espero na sala os primeiros quarenta e cinco minutos. Ninguém aparece. Saio e dirijo-me para a sala dos professores. Passados cinco minutos uma Senhora Auxiliar de Acção Educativa vem ter comigo — senhor professor... chegaram três alunos... a minha colega do pavilhão c... telefonou agora a avisar — e não consegue esconder um ligeiro sorriso. Sorrio também. Vou até à sala de aula. Um dos alunos não vinha desde Outubro, outro desde o início de Janeiro (envolveu-se numa cena de pancadaria e esteve à espera que as coisas "arrefecessem", como ele próprio diz). Já o terceiro aluno é assíduo, dentro dos limites da palavra "assiduidade", que aqui é bastante larga e abrangente. E sentados ficam a olhar para mim, à espera que a aula comece. E a aula lá começa.
Grupo Krisis
O cântico celestial sobre as virtudes do «voluntariado» e do «trabalho
cívico» não diz se se pode ir depenicar alguma coisa ao tacho das finanças do
Estado, que anda bastante vazio, antes funciona como álibi do recuo do Estado
em matéria social, dos programas do trabalho forçado em curso e da tentativa
mesquinha de transferir o peso da crise principalmente para as mulheres. As instituições
públicas abandonam os seus compromissos de ordem social e substituem-nos por um
apelo à mobilização de «nós todos», um apelo simpático e sem custos: de
preferência, que seja a iniciativa particular de cada um a combater a miséria
própria e alheia, e basta de exigências materiais.
em Manifesto Contra o
Trabalho, tradução de João Paulo Vaz, Lisboa: Antígona, 2ª edição, 2017,
pp. 81-82.
Discos (275)
Rising Tensions and Awesome Light
(instrumental)
Michael Formanek
O dia começa. O gato deitado sobre o sofá lamenta a tua escolha musical. "Já tiveste melhores dias", pensa. Talvez tenha razão. Sirvo-me de café e duma torrada. Ligo a televisão. Ouço as notícias, mas na realidade não, pois reparo que está sem som e apenas leio as notas de rodapé. O dia começa. Nuvens carregadas. Neblina. Olho-me ao espelho. Parece que estou um pouco inchado. "Ando a beber pouca água", penso. "Tenho de começar a beber mais água", penso. "Tenho de começar a fazer mais exercício", penso. O gato deitado sobre o sofá. A televisão ligada. As notas de rodapé. Eu, frente ao espelho. Lavo os dentes. Tomo banho. Sirvo-me doutro café e volto, depois, a lavar os dentes. O gato sobre o sofá. Nuvens carregadas, neblina. Eu, frente ao espelho. "Aparo a barba só amanhã", penso. O dia. O gato. Nuvens carregadas. Neblina. Notas de rodapé.
(...)
Nada disto é significativo, mas, até agora, escrevi aqui 217 vezes a palavra Morte; 743 a palavra Vida. A palavra Amor tem 257 entradas. Tédio tem 20. Cansaço: 28. Deus tem 177. Camelices vai nas 16. Existir nas 58. Escola tem 139 entradas. Já Trabalho vai com 163. Poesia conta com 523. Merda: 65.
(...)
Três? Quatro anos? Não sei. Mas lembro-me perfeitamente da camisa que ali uso. Não me lembro da idade, do dia, da sala. Mas lembro-me da camisa que ali uso.
Discos (274)
And it's hard, and it's hard
Mirel Wagner
Give
me the simple life é algo que, de quando em quando, gosto de
me sussurrar. Basta para isso um copo de vinho, um naco de pão e um
pouco de queijo. Companhia também cai bem: a partilha. Penso que não
é pedir muito. Ou talvez seja, tendo em conta o mês que sobra, o
salário que claudica. Para mim chega o mundo lá fora, as suas
camelices, o silêncio do prédio, o gato enroscado na sua alcofa e
ouvir o seu ronronar. Poesia? Chega-me aquela que os meus olhos vêem
para lá da janela, e não foi necessário aprender a lição com
Caeiro (Alberto). A dos livros, essa, é coisa que sobra do prato dos
outros. Quando comem.
Um poema dos Dincas - Sudão
No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.
em As Magias, poemas mudados para português por Herberto Helder, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 29.
(...)
«Numa série de romances chamada Contra-Corrente a que muitos insistem em chamar diários, (…)». Podia repetir? Não entendi muito bem. Afinal Conta-Corrente não é um diário?
(...)
As críticas ao
movimento operário, inscritas em Manifesto
Contra o Trabalho, deixaram-me bastante pensativo, pois sempre fui um
defensor do movimento operário, não fosse eu filho de um operário fabril com
ligações muito fortes ao Sindicato dos Lanifícios.
Essas mesmas críticas passam por acusar o movimento operário de assumir a
herança do absolutismo, protestantismo e iluminismo, ao reivindicar também o
orgulho do trabalhador, bem como o direito ao trabalho e a
obrigação de trabalho para todos. Os subscritores do referido manifesto
acusam, ainda, o movimento operário de assumir a tradição burocrática da
administração dos indivíduos na sociedade do trabalho, tendo como principal
objectivo o trabalho a qualquer preço.
Não é indiferente a esta tese a ideia de que a esquerda política sempre
defendeu o trabalho com particular fervor: elevou-o ao estatuto de essência do
Homem, opondo-o ao capital, na perspetiva de que o escândalo não é o trabalho
em si, mas sim a exploração do trabalho pelo capital. Tal facto culmina nos
chamados “partidos dos trabalhadores”, que procuram libertar o trabalho,
e não libertar do trabalho.
A ideia de libertar do trabalho está intimamente relacionada com a
origem do conceito. Na maior parte das línguas europeias, trabalho significa, originalmente, uma actividade do homem sem
autodeterminação, isto é, do indivíduo enquanto ser dependente, servo ou
escravo. “Laborare”, o termo latino para trabalho, designa, no geral, “cambalear
sob uma carga pesada”, estando ainda associado a sofrimento e vexame do escravo.
“Trabalho”, “travail” e “trabajo”, derivam do termo latino “tripalium”, que era
uma espécie de jugo utilizado na tortura, bem como para castigar escravos e
servos, ou qualquer indivíduo destituído de liberdade. Assim, podemos concluir
que “trabalho” nunca pode ser considerado como uma actividade que liberte e
proclame a autodeterminação do Homem. Antes pelo contrário: ele designa, isso
sim, um destino infeliz e uma actividade de todos aqueles que perdem, ou
perderam, a liberdade.
(...)
É difícil manter os alunos atentos e concentrados sem frio. Com ele a entrar por todos os lados: é praticamente impossível. Tudo aqui ganha um peso que noutras escolas não ganha. E ainda falam de rankings. Badamerda para os rankings. Badamerda para quem os criou e ainda divulga. Badamerda.
Manifesto Contra o Trabalho - Grupo Krisis
(...)
Ninguém com juízo gosta de trabalhar. Sempre o disse: quem inventou o trabalho foi, de certeza, o primeiro patrão. E, quando falo em trabalho, falo naquilo que nos obrigam fazer para nos mantermos à tona, na sob(re)vida. E cada vez mais sinto que o trabalho ocupa a maior parte do meu tempo, deixando-me muito, muito pouco para tudo o resto. Depois de um dia de trabalho são raras as vezes que consigo pegar num livro e lê-lo com atenção. São raras as vezes que consigo estar concentrado. Os olhos pesam. Os ossos doem. E só me apetece ficar frente à televisão até adormecer, o que raramente acontece.
O trabalho é, sem dúvida alguma, a maior forma de opressão. E a mais legal também. Somos oprimidos por um salário que nunca é justo. E tudo para comprar o "necessário" carro, a "necessária" casa; para pagar os "necessários" impostos. Para pagar o necessário tempo-livre.
Versões: W. B. Yeats
Canção de beber
O vinho é para beber
E o amor para olhar;
É o que há para saber
Antes da morte e envelhecer.
Deste vinho vou provar
A olhar para ti e suspirar.
W. B. Yeats, «A drinking song», The Colleted Poems, Wordsworth Editions, 2008, p. 75.
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