Vale a Pena, Encontro de Autores Regionais


Em pleno século XXI, o que define um autor regional? Será aquele que só escreve sobre a sua região? Será aquele que só escreve sobre o ribeiro da vila? Será Aquilino Ribeiro um autor regional? Será Ana Teresa Pereira uma autora regional da Madeira? Será António Lobo Antunes um autor regional da região de Lisboa? E Gonçalo M. Tavares? O que é, afinal, um autor regional?

Isto tudo para chegar a este ponto: recebi hoje um convite da Câmara Municipal de Tarouca para um encontro de Autores Regionais: “Vale a Pena, Encontro de Autores Regionais”. O convite foi feito pela Secretária do evento, que está encarreguada, pelo Presidente da Câmara, de o fazer. O grande objectivo do encontro é, e cito, «dar lugar, vez e voz aos Autores Regionais». Respondi ao convite dizendo que existe, de certeza, um engano, pois não sou natural da região de Tarouca (e mesmo que fosse: isso faria de mim um autor regional?). A resposta foi pronta, e cito, «Informo que o Encontro se destina aos Autores Regionais de todo o País.». E agora é que fiquei realmente confundido. Então é um encontro de Autores Regionais de todo o País? Assim sendo, não serão eles autores nacionais oriundos de diferentes regiões? Ou continuam apenas a ser Autores Regionais?

Este género de iniciativas irritam-me solenemente. Uma coisa, quanto a mim, é organizar um encontro de escritores naturais de uma determinada região. Isso é algo completamente diferente. Agora aquilo que a Câmara Municipal de Tarouca quer promover é algo sem pés nem cabeça, uma espécie de jogos florais, uma espécie de milho aos pombos (“autores regionais”) que coitadinhos não conseguem ter lugar, vez e voz. No entanto, no convite é dito: «Este evento inédito tem o objetivo de reunir os Autores que vão editando as suas obras, guiados por sentimentos profundos de ligação à literatura e à terra.». Desculpe? Poderia repetir?

Como chegou a Câmara Municipal de Tarouca até mim? A resposta: «V. Exª. foi-nos identificado e indicado pelos serviços da Cultura da Câmara Municipal do S/ concelho, com intervenção direta do Presidente».


E é isto.

Discos (271)




Xmas Steps
(instrumental)

Mogwai

Sais de casa. Há frio e chuva. Vais até ao barracão buscar lenha para aquecer o dia. No quintal algumas árvores de fruto. Silêncio menos os teus passos. O cheiro a madeira quando abres a porta, teias de aranha, uma leve luz que entra pelas duas pequenas janelas. Do monte à tua frente escolhes os pequenos troncos que queres levar. Enches um saco. Voltas para casa. Fazes o mesmo mais duas vezes. No fim: fechas o barracão à chave, regressas a casa. Escreves estas linhas antes de lavar as mãos. 

(...)


Malick, o gato, tem a sua rotina matinal. Gosta de se levantar cedo e comer de imediato, caso contrário é uma miadeira que ninguém o aguenta. Depois gosta de ir até à varanda, só que nem sempre o tempo ajuda. De seguida são os mimos. Anda por toda a casa a miar. Mia, mia e mia até que vá sentar-me no sofá. É então que salta para o colo, amassa a barriga, ronrona e ronrona. Aninha-se por breves instantes. No final, quando está satisfeito e verifica que o mundo não acabou e continua no seu eixo, salta, procura outro lugar. Aninha-se. E espera que o dia continue.

Um poema de Paulo Navarro Costa


L'échorché de Cécile

dos insectos retidos no resto do rosto:
um troféu,
sentia ondas correntes pulsáteis de calor a varrerem
cutícula
por dentro como um sismo

a pele estalava

no teu lábio

um sol de herpes começa a arvorar
e o teu corpo é luciferina
em princípio de escamação,
saturações cromáticas
o crepitar dessa voz torrada num ardor que não se
apaga

todas as estações ardes um pulmão
terreno infértil mesmo para a centopeia dos músculos,
nesse solo e cérvix por explorar
acenderia a lua de nacre
na capela ensanguentada

mas não posso tocar
virgem
dos queimados
por isso teço esta gaze em forma de poema

ao cobrires a sementeira vazia recorda-te
que na verdade
somos todos assim,
homens,
não te iludas por tostão e meio de verbo

               ESTE É O TEMPO DOS CANALHAS.


em A Insurreição dos Corpos, Lisboa: &etc, 2008, pp. 10-11.

Uma imagem para o dia



Ernesto Sampaio

     
     O homem tem duas maneiras de se compreender: a partir do mundo das coisas, com base no que pode fazer; ou a partir do que pode ser, com base em si próprio. Digamos que a primeira maneira é o vector da existência inautêntica e que a segunda é a bússola da autêntica existência.

em O Sal Vertido, Lisboa: Hiena Editora, 1988, p. 27. 

(...)


Frio. O aquecimento central ligado. O gato, sempre o gato, enrolado na sua manta. Focinho tapado. Frio. Leio Ernesto Sampaio. Autor que me é querido. Feriados Nacionais e Ideias Lebres são dois livros que me acompanham. Agora: O Sal Vertido. Gosto de Ernesto Sampaio. Gosto do frio. Mas gosto, ainda mais, do aquecimento central ligado, a chuva lá fora.

Konstandinos Kavafis | Konstantinos Kaváfis


À entrada do café

A minha atenção por algo que me disseram ao meu lado
dirigiu-se para a entrada do café.
E vi o corpo belo que parecia
ter sido feito pela extrema experiência de Eros —
modelou os seus membros simétricos com alegria;
elevou a sua estatura esculpida;
modelou com emoção o rosto
e deixou pelo toque das suas mãos
uma sensação na testa, nos olhos e nos lábios.

Konstandinos Kavafis
tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis


À entrada no café

A minha atenção, algo que a meu lado alguém disse
voltou-a para a entrada no café.
Vi então aquele formoso corpo que parecia
tê-lo criado Eros do fundo da sua experiência,
modelando com deleite a simetria dos seus membros;
erguendo, escultural, seu alto talhe;
modelando com ternura o rosto
e deixando-lhe, só com o toque das mãos,
uma emoção na fronte, nos olhos e nos lábios.

Konstantinos Kaváfis
tradução de Manuel Resende


Uma imagem para o dia



(...)


Na ponta do prédio ali em frente: o sol. Estou nesta sala penumbra com grades nas janelas. Ouvem-se crianças. Não falam. Gritam. Praguejam. Uivos nada devedores de Ginsberg. A tempestade já passou, mas parece que ainda estou no seu olho. Dizem que nele há uma calma. Só aparente. É o que sinto a esta hora: uma calma-aparente. 

(...)


Não foi preciso ler Herberto para saber que se consegue enlouquecer facilmente, ou que não é preciso muito para enlouquecer. Bukowski também nos ensinou que não são as grandes tragédias que nos levam ao manicómio. São as pequenas. É ler o poema The Shoelace. Está lá tudo. A mim, o que me vale, é estar bem na pirâmide social. Não me posso queixar muito, apesar de me queixar. A verdade é que não tenho que me preocupar muito com a comida na mesa, pois nunca me faltou. Assim, posso perder tempo a escrever estas coisas: comentar recusas de prémios literários, antologias de poemas, livros de poemas, entre outras superficialidades, como a existência ou não de Deus. Mas também é verdade isto: se não fossem todas estas superficialidades, há muito tinha enlouquecido.

(...)


Tento que os alunos não estejam com luvas ou gorros nas aulas. Mas hoje, sem aquecimento (como é habitual na maior parte das escolas públicas) e com temperaturas a rondar os sete graus dentro da sala de aula, não tive coragem de os mandar tirar as luvas ou os gorros.

Livros (154)


Bertrand.pt - S. Mateus, Outros Lugares e Nomes

Cheguei a este livro, e a este poeta, através da antologia Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia – 12 poetas dos Açores, com organização e notas de Emanuel Jorge Botelho, e posfácio de Luís de Miranda Rocha. A poesia de J. H. Santos Barros era-me completamente desconhecida. Há pouco tempo, numa visita a um alfarrabista, encontrei o livro cuja imagem se reproduz. Confirmei as minhas suspeitas: Santos Barros é um poeta comprometido com o seu tempo, com as suas raízes e com ideais políticos. O poema Humidade (que na verdade são quarenta poemas) expressa toda a questão da insularidade (Santos Barros é açoriano): «Lugar de vida ou de morte/lugar de estar e resistir/lugar entre parênteses/lugar de gargarejar/pequenas bolhas sólidas/do fundo dum novo mundo» (p. 81). Um poeta que vale muito a pena (re)descobrir.

(...)


Vamos por partes:
1° O regulamento do Prémio Oceanos prevê prémios para os quatro primeiros;
2° Para estar a concurso é preciso estar inscrito. É necessário ter havido uma inscrição, seja pela editora, ou pelo(a) autor(a). Partimos do pressuposto que a editora, caso tenho inscrito um livro, avise o(a) autor(a).
3° Quem se inscreve é livre de o fazer. Partimos do pressuposto que conhece o regulamento, em todos os seus pontos.
Assim, não se percebe a recusa de Maria Teresa Horta. Ou, então, sim, pois num país como o nosso, onde os prémios "oficiais" se encontram reservados, é difícil para alguns autores ficar noutro lugar que não seja o primeiro. Principalmente quando se acaba de ganhar o prémio da SPA, para o livro em questão, e se fala no nome da autora para o Camões.
Poderemos, ou não, ter simpatia pela atitude da autora. Pois penso que se resume a isso: a uma questão de simpatia. Mas, se assim for, temos que explicar a nossa simpatia, ou falta dela.
A atitude da autora não me é simpática, pois considero que a mesma é uma falta de respeito para com os outros autores a concurso, e para com os vencedores. É um gesto de puro e simples pedantismo. Se Maria Teresa Horta recusasse o primeiro prémio: a minha simpatia seria outra. Bem como as questões que me surgem. Assim: não.
Há, ainda, a declaração que a autora fez, onde não se descortina qualquer outra razão que não seja pedantismo e falta de humildade. Poderiam existir razões de ordem política ou coisa parecida. Só que na declaração de Maria Teresa Horta nada disso se lê. Apenas se lê que a recusa é feita «por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra.». E, quanto a mim, está tudo dito.

Uma imagem para o dia



(...)


Depois de Elgar: concerto para piano para a mão esquerda, de Ravel. E agora, que esse concerto terminou, espero por La Mer, de Debussy. Cheguei mais cedo à música clássica do que ao jazz, embora seja agora este aquele que ocupa mais o meu tempo. A pop actual, quanto a mim, esgotou-se, embora ouça com agrado os The National, ou The XX (apesar do último álbum estar muitos furos abaixo dos dois primeiros), ou Radiohead (quanto a mim sempre novos). E há ainda o chamado pós-rock dos Mogwai e dos Godspeed You! Black Emperor.
     Mas o que eu não suporto mesmo é a chamada nova música portuguesa. Sim. Tenho aquilo que, às vezes, chamamos “ódios de estimação” (embora os meus sejam sem aspas). Alguns exemplos: Capitão Fausto, B-Fachada, Samuel Úria, Manuel Fúria, João Só, Benjamim, Capicua, entre outros. Considero-os francamente maus, apesar das “críticas” positivas (que mais parecem encomendas para pagar favores a amigos). Já para não falar do catálogo da famigerada FlorCaveira (ou do seu editor-pastor-pregador, defensor de George W. Bush). Irrita-me, solenemente, o pseudo-revivalismo bacoco, ou o “ai que somos todos tão cristãos, mas ainda conseguimos ser punque-roqueres”. O delicodoce enjoativo pra caraças.

Livros (153)




Cheguei à poesia de António José Fernandes através da antologia organizada por E. M. Melo e Castro e Maria Alberta Menéres. Despertou-me nela a resistência e o humanismo. No outro dia cruzei-me com a primeira edição deste livro a um preço que considerei acessível e comprei. Li-o e confirmei: António José Fernandes é um muito bom poeta. Vale a pena a sua leitura. Não é tempo perdido, ao contrário de tantos outros. 

(...)


Na televisão, em directo, o concerto para violoncelo e orquestra de Elgar. O gato dorme e eu escrevo estas linhas. Há o tique-taque dum relógio, o crepitar da madeira no fogão. Tenho uma manta a cobrir-me as pernas e quarenta anos de frio nelas. Quarenta anos. Até parece que sou velho, para assim falar. Mas a verdade é que são mais as vezes em que me sinto velho aos quarenta, do que novo aos quarenta.

(...)


À falta de melhor poesia, tenho o gato enrolado na manta num sono só dele, o calor do aquecimento central e a música dos The Necks, que o bem-aventurado Youtube me dá. Lá fora o IPMA diz que está frio através da aplicação que tenho no meu not so smartphone. Saí depois do almoço. Fui tentar a sorte no euromilhões. Talvez segunda-feira o trabalho fique por trabalhar. Mas duvido. 

Discos (270)




Evocation
(instrumental)

David Rothenberg | Marilyn Crispell


Sempre que venho a Manteigas penso em Raúl Brandão. Penso no seu Húmus, essa obra maior do século XX português. Esta vila parece a Vila que Brandão tão bem escreveu. Pelo menos é o que sinto quando percorro as suas ruas e vejo as suas caras. O caruncho que a devora é, de certeza, o mesmo. Ou muito parecido.