Um poema de Alda Merini


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Para ti escrevi árduas sentenças,
para ti escrevi todo o meu declínio;
aniquilo-me agora, e nada pode salvar
a minha voz devota; apenas um canto
pode transparecer sob a minha pele
e é um canto de amor que amadurece
esta minha eternidade sem limites.


em A Terra Santa, tradução e prefácio de Clara Rowland, Lisboa: Livros Cotovia, 2004, p. 43.

Kierkegaard


(...) Em sentido geral, querer provar algo que existe é uma tarefa difícil (...). Assim, nunca concluo sobre a existência, antes concluo a partir da existência, quer me mova no mundo daquilo que é sensivelmente palpável, quer no mundo do pensamento. Não provo, pois, que existe uma pedra, mas sim que algo que existe é uma pedra; (...) Quer se queira chamar à existência um accessorium ou o eterno prius, ela não pode nunca ser provada.


em Migalhas Filosóficas, tradução, introdução e notas de José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 89-90.

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A leitura do terrível dinamarquês não está a ser fácil. Às vezes perco-me no meio da sua ironia. O ponto de partida é Sócrates. Duas coisas já entendi: o pathos socrático é a recordação; o pathos kierkegaardiano é o instante. E, depois, fico a pensar: "porque estou a ler isto? para que serve? para que me serve?". E as respostas ficam por dar. Encontrar.

Guarda Rios Signature




Antão Vaz | Arinto | Viognier | Semillon

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Hoje à porta da escola dois carros da Polícia. Confusão. Grupos rivais e essas coisas triviais. Digo: banais. Saí por entre os pingos da chuva. 

Um poema de João Alexandre Lopes



Palácio de Cristal

Adio a ida para casa:
a cozinha desleixada, o almoço
sem piada, os livros sem
gente dentro, o chilrear
dos periquitos a moer-me os nervos.

Daqui, a partir daqui,
é sempre a descer.



em Hora Zero, s/l: Medula, 2017, p. 17.

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A Medula começou em 2013, numa altura em que estava desempregado e à rasca. Mas começou. Até agora foram publicados dez (10) livros, o que, a bem da verdade, não é muito. Mas é o número possível. Quanto à qualidade dos mesmos: penso que todos a têm. Caso contrário: não os publicava. A Medula só é possível devido ao exemplo do Américo Rodrigues, e devido à influência da Averno, & etc, Frenesi, Fenda, Hiena, Edições Mortas e Black Son Editores. A todos: o meu muito obrigado.

Hora Zero - João Alexandre Lopes




João Alexandre Lopes
Hora Zero
Medula
2017


Pedidos: medulalivros@gmail.com

Vinha das Lebres - Paulo Laureano




Trincadeira | Aragonez | Alfrocheiro

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Comecei ontem a leitura do livro A Terra Santa de Alda Merini. A intensidade de certos poemas é enorme. Merini tem a capacidade de nos transportar para o centro do seu assombro (doença mental, dirão alguns; loucura, dirão outros). Será um livro que irei ler e reler. Tenho a certeza.

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Costumo chegar quarenta minutos antes das aulas começarem. Entro na sala e aproveito para ler, até o primeiro aluno chegar. Tenho organizado as leituras diárias da seguinte maneira: ensaio filosófico (manhã), ensaio filosófico (tarde) e poesia ou conto (noite). Não sei por que razão insisto no ensaio filosófico, pois é-me difícil entender a maior parte daquilo que leio. Mas não vou desistir tão cedo. Por agora: faço uma pausa no romance. Não há nada que me apeteça ler. 

John Reed

     
     Nas relações entre um Governo fraco e um povo em revolta chega o momento em que qualquer acto das autoridades exaspera as massas, e qualquer recusa de acção provoca o desprezo...


em Dez dias que abalaram o mundo, Lisboa: Edições Avante, 1997, p.77.

Livros (152)




Ando há anos para ler os outros livros de Reed disponíveis no nosso país. Este foi o único que li até hoje. Não podemos dizer que é um relato desapaixonado dos "dez dias que abalaram o mundo", mas é um relato fantástico e que se lê muito bem. Reed tem noção que está na presença da História em carne viva. E conta-a à sua maneira. Recomendo.

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Aprendi com Schopenhauer: o orgulho nacional é uma das formas mais mesquinhas de orgulho. Assim, nunca tive, não tenho e não terei orgulho do meu país. O meu país, na realidade, aborrece-me profundamente. E talvez eu aborreça o meu país, isto porque não me sinto português. Sinto, isso sim, que os anos me fizeram português (obrigado João César Monteiro). Devido a isso padeço de vários males associados à minha nacionalidade. Um deles é a autocomiseração. Mas, pior do que a minha autocomiseração, ou pior do que a autocomiseração individual de cada um de nós, e pior do que o orgulho nacional, é, quanto a mim, a autocomiseração nacional. É essa autocomiseração nacional que nos leva à passividade nacional. Sim: somos um país passivo, tal como o são alguns fumadores que, no fundo, gostariam de fumar mas abstêm-se de o fazer com medo das doenças que poderão vir a ter.

Achille Mbembe


(...) Originariamente, o vocábulo «homem negro» serve, primeiro, para descrever e para imaginar a diferença africana. É indiferente que «preto» designe o escravo, enquanto «negro» se refira ao escravo ainda não escravizado. (...) Ao longo dos séculos XVIII e XIX (...) o termo «homem negro» é atribuído a uma espécie de homem que, embora seja homem, não merece o nome de homem.
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     A expressão «homem negro» é também o nome que se dá ao polígamo, cujo temperamento e miséria tendem para o vício, para a indolência, para a luxúria e para a mentira.
     (...)
     Resumindo, dizer de alguém que ele é um «homem negro» é dizer que ele é predeterminado biológica, intelectual e culturalmente pela sua irredutível diferença. (...) No discurso proto-racista europeu, dizer «homem negro» significava, assim, evocar as disparidades da espécie humana e remeter para o estatuto de ser inferior, ao qual o Negro está consignado, para um período da história no qual todos africanos têm um potencial estatuto de mercadoria ou, como se dizia na época, de peça da Índia.


em Crítica da Razão Negra, tradução de Marta Lança, Lisboa: Antígona, 2ª edição, 2017, pp. 129-131.

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Rui Knopfli
Uso Particular
do lado esquerdo
Julho 2017


Em Julho deste ano (2017), uma pequena editora de Coimbra publicou uma antologia dum poeta. A editora é a do lado esquerdo, a antologia é Uso Particular e o poeta Rui Knopfli. Basta uma pequena pesquisa no Google (utilizando o nome do poeta) e encontramos um texto assinado por Diogo Vaz Pinto sobre Uso Particular, com data do dia 28-07-2017 e publicado no Jornal I. Repito: basta colocar o nome do poeta. Mas alguma crítica encartada deste país continua a considerar que tal facto não é digno de nota, e, mais do que uma vez, reiterou que a antologia que a Tinta da China acaba de publicar é aquela que vem resgatar o poeta do esquecimento, vinte anos após a sua morte.
Tal facto leva-me a supor duas coisas: ou alguma crítica encartada não sabe utilizar o Google ou alguma crítica encartada descarta as pequenas editoras, pois, a maior parte das vezes, estas não lhes oferecem exemplares. Falta de publicidade e de divulgação não é de certeza.
Este género de atitude não é novidade. As pequenas editoras, que essencialmente só publicam poesia e têm vindo a divulgar vários e novos autores, resistindo ao espectáculo deplorável das grandes superfícies onde se vendem livros, vêem-se relegadas para segundo plano, ou para plano nenhum. É claro que pode ser alegado que as pequenas editoras, elas próprias, se remetem à penumbra, à margem. E haverá outra maneira de não chafurdar na merda?
O bom disto tudo é que, no espaço de um ano, Portugal viu publicar duas antologias de Knopfli. Valha-nos, ao menos, isso.

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Ontem, à chuva, passeei pela cidade com um amigo que veio da Austrália. Deu para treinar o meu inglês com alguém que fala e escreve e pensa em inglês. Falámos de tudo e de nada. Rimos. Disse-lhe que ando a ler Crítica da Razão Negra e que tem sido uma boa leitura. Falámos sobre a questão africana e sobre a questão aborígene. Depois fomos jantar a um restaurante africano ali para os lados de Benfica. Foi uma tarde bem passada.

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A realidade deixa-me sem palavras. Qualquer esboço de revolta seria apenas isso mesmo: um esboço. Limito-me a observar em silêncio as imagens.

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O ambiente pesado. Na escola houve muita fight para resolver. Os brancos não se dão com os negros e os ciganos. Os ciganos não se dão com os brancos e os negros. Os negros não se dão com os brancos e os ciganos. E depois há aqueles que ficam no limbo: os "de leste", os "chinocas", os "brasucas", os "monhés". Na minha sala de aula e na minha direcção de turma sentei ciganos com negros, negros com brancos, brancos com ciganos. É um barril de pólvora com rastilho muito curto. E tento que o fogo fique lá fora.

Ensino Recorrente



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Acordaste com a cidade lá fora. Durante a noite uma melga picou-te a pálpebra do olho esquerdo e tens alguma dificuldade, agora, em o abrir. Melgas em Outubro, perguntas frente ao espelho. O duche deixa-te preparado para mais um dia. Quando chegas à escola há uma série de alunos a gritar e a gritar. Nada de novo aí. Pelo caminho a rádio deu-te o mundo, ou pelo menos parte dele. Toda a gente quer um país só para si. E depois vêm os incêndios: e levam tudo. 

Pão com fiambre - Charles Bukowski



Charles Bukowski
Pão com fiambre
tradução de Manuel A. Domingos
Alfaguara
2017

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Tens comprado mais música do que poesia. Tens ouvido mais música do que lido poesia, apesar dos muitos livros que estão ali à espera. Tens bebido algum vinho e um pouco mais de cerveja. Tens ido ao ginásio. E a vida lá continua.