manuel a. domingos disse...


Mandá-la à merda é pouco, cara anónima.

Podia mandá-la catar macacos, pentear ursos, mas prefiro mandá-la à merda, cara anónima. Vá à merda e vá para longe, que é para não me chatear com as moscas.

Como a própria anónima disse: a terça-feira não é o meu dia.

Passe bem, também.

E volte sempre.

Com os melhores cumprimentos.

30 de maio de 2017 às 15:36

Anónimo disse... (9)


Então se o Domingos paternalistamente me dá esse direito eu penso que em si é tudo gabarolice e ares porque depois tudo o que faz e que supostamente sustenta essa gabarolice e esses ares é tão, mas tão mauzinho. Maternalmente falando.


30 de maio de 2017 às 13:57

(...)


Escrevo poemas porque não posso correr maratonas e porque a coluna não me deixa praticar btt. Escrevo poemas porque estão à mão. Escrevo poemas porque o posso fazer sentado e em silêncio. E também em pé e com muito ruído à minha volta.
Escrevo poemas porque não sou bom a desenhar nem a pintar. Dou uns toques na fotografia, mas qualquer pessoa o faz com uma máquina digital. Escrevo poemas porque um dia quis impressionar uma rapariga e ela não ficou impressionada. Por isso: continuei. Escrevo poemas porque me é mais fácil do que resolver equações do terceiro grau. Escrevo poemas porque às vezes não tenho mais nada para fazer.
Escrevo poemas pela fama e proveito. Faço-o pelo dinheiro.
Escrevo poemas porque um dia me disseram que a poesia está em todo o lado e eu acreditei.
Escrevo poemas porque sim. Porque não e porque me apetece e porque não me apetece. Porque tenho de fazer alguma coisa na vida para além de respirar e trabalhar e viver.
Escrevo poemas porque fica bem no currículo.
Escrevo poemas porque os meus amigos não me levam a sério e porque os meus amigos não os levam a sério. E ainda bem. Gosto muito disso nos meus amigos.
Escrevo poemas porque é uma forma de ocupar o tempo e o espaço e tudo aquilo que fica pelo meio e no meio e no entretanto das horas vagas – lentas – obsoletas.
Escrevo poemas porque e por que não?
Escrevo poemas porque os dias de sol são por vezes demasiado solares e sabe bem um quarto fechado e o miar do gato. Escrevo poemas porque dá trabalho estar sempre no duche.
Escrevo poemas porque tu, leitor, precisas de alguma coisa para ler. De alguma coisa para criticar, dizer mal, menosprezar, vilipendiar, enlamear, manchar, tingir, colorir, cromatizar. 

(...)


Ontem à tarde, enquanto ouvia Mal Waldron, o vento soprava forte. O terceiro andar esquerdo, que este ano ocupo, é batido ao vento. Depois estive a ler um pouco de Kerouac e lembrei-me que ainda não vi Big Sur (Michael Polish, 2013). Mas também me lembrei que vi Pela Estrada Fora (Walter Salles, 2012), e que o considerei uma xaropada de todo o tamanho. 

Talvez a dúvida - Rui Almeida



Rui Almeida
Talvez a dúvida
Douda Correria
2017

Ensino Recorrente



Livros (148)




Recentemente voltei a Kerouac. Quando começa o tempo tempo volto sempre a Kerouac. Big Sur foi  lido há alguns anos. É um dos meus livros preferidos do autor norte-americano. Prefiro a sua prosa à sua poesia. Big Sur é a tentativa falhada de Kerouac ficar sóbrio. Há descrições fantásticas da paisagem californiana, mas também a crueza da cura a frio. Dos vários livros que lhe li, este é aquele que mais recomendo (apesar de Os Subterrâneos ser o meu livro preferido dele).  

(...)


Durante parte da viagem: a chuva. O gato dentro da transportadora dormia. Miles e Bitches Brew

Ensino Recorrente



Jack Kerouac


O que eu fazia não tinha, pura e simplesmente, a mais pequena importância, nem quando, nem onde, nem com quem; a vida é engraçada, tal como eu disse.
De súbito, apercebi-me de que éramos todos loucos e que não valia a pena fazermos esforço para alcançar o que quer que fosse, à parte a próxima refeição e a próxima bela soneca.
Oh, Deus do céu, que mundo trapalhão, desarmante e ridículo este, em que as pessoas se convencem de que têm alguma coisa a ganhar se fizerem isto ou aquilo ou então isto e mais aquilo, e ao agir assim corrompem os seus sepulcros sagrados em nome da corrupção dos sepulcros sagrados.


em Duluoz, o Vaidoso, tradução de Paulo Faria, Lisboa: Relógio D’Água, 2008, p. 100.

(...)


Há dias voltei às minhas caminhadas diárias. Nunca menos de uma hora. São caminhadas em passo-corrida, pois os joelhos não aguentam mais do que isso. O coração, um pouco descompassado nos primeiros dias, lá vai acertando o passo. Agora estou aqui sentado com a montanha em frente e as pernas a moerem um pouco. Não ouço música. Apenas penso em todos os poemas que escrevi até hoje. É só isso.

Jack Kerouac


      Se uma pessoa não diz o que lhe vai na alma, para quê escrever?


em Duluoz, o Vaidoso, tradução de Paulo Faria, Lisboa: Relógio D'Água, 2008, p. 88.

(...)




Aqui não há Barbershops. Existem, sim, barbeiros. E eu hoje fui ao barbeiro. Só cabelo. Nada de barba. Já não ia ao Senhor Vítor há muito. Durante algum tempo aturou-me os mais variados cortes de cabelo, mais os modelos que levava de revistas. Lá fazia o possível e o impossível. Hoje, quando me viu ― o que vai ser, Manel? ― e admirado ― máquina-zero?! ― ao que respondi que já não havia cabelo para mais e rimos os dois. Conversámos: a bola, a política, o ter estofo para engolir sapos suficientes e camelices na vida. Escovou-me no final e apertámos mãos. Coisas há que ainda são simples.

Discos (264)



Composition 40 M
(instrumental)

Anthony Braxton


Com Kerouac pela vila-ilha deserta habitada por fantasmas. Trago comigo alguns no bolso, que acrescento às ruas. Kerouac grita haikus às montanhas e os gatos espantam-se com tamanho bardo. A tarde arde de nuvens carregadas, ar abafado. Kerouac sobre o ribeiro: água na concha das mãos ― refresca a cabeça estourada. “Se uma pessoa não diz o que lhe vai na alma, para quê escrever?”. Não respondo. Limito o meu silêncio ao seu silêncio. A tarde arde de nuvens carregadas, ar abafado.

(...)


Há muito tempo que não apanhava um susto como o de hoje ao ouvir o despertador tocar. Nunca me irei habituar, por mais anos que trabalhe, a um horário de trabalho. Ou melhor: conseguiria habituar-me se o mesmo fosse flexível.
     Sei de pessoas que trabalham oito horas por dia mas que entram à hora que lhes apetecer. Sabem apenas que têm de trabalhar as oito horas. Gostaria de ter um horário assim: flexibilizado por mim. Acordar todos os dias com um despertador é uma coisa que me aborrece. Sempre aborreceu.

Discos (263)




Ms. P.
(instrumental)

Barre Phillips


O gato ao fundo da cama e eu ler. Kerouac está cansado e escreve sobre estar cansado. Entendo-o bem. Parece que teve uma juventude feliz. Pena a felicidade não acompanhar os anos. Ao envelhecer há muita coisa que fica pelo caminho. A felicidade talvez seja uma dessas coisas. Ou então a inocência. Talvez seja a inocência que nos faz perder a felicidade. Ou talvez não. Mas enquanto escrevo estas linhas penso nos que ontem morreram e penso naqueles que ontem perderam parte da sua inocência. E estou a ser optimista ao dizer "parte".

(...)


Enquanto ontem à noite lia, uma explosão matava em Manchester. Só hoje de manhã soube do sucedido, depois de sair do duche. O gato olhava para mim com os olhos bem abertos, como se também ele estivesse estarrecido com a notícia.
    Contra a barbárie podemos fazer muita coisa. A primeira é, sem dúvida, não ceder a ela. Sei que estas são palavras de ocasião, lugar-comum depois do que aconteceu. Só os lugares-comuns servem para exprimir o que aqui vai dentro de mim.

Um poema de Sandra Andrade


terre creuse

descerei a pique até ao fogo
e aí depositarei o coração limpo e franco
que me sirva de candeia nesta próxima subida
os túneis, a vegetação, os bichos
o homem certo e genuíno
terá descido também a pique até ao centro
e no caminho estaremos os dois a fazer muito sentido

que me pegue ao colo (exausta) e me leve dali para fora
paisagem láctea e última. e última.


em doppelgänger, Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2016, p. 52.

Fera Oculta - Vasco Gato



Vaco Gato
Fera Oculta
Língua Morta
2017



(...)




Henrique Manuel Bento Fialho | eu | Luís Quintais | Rosa Oliveira | Fernando Alves

Sexta-feira passada, dia 19,
lá no Adro de Baixo (Coimbra),
no âmbito do Saca Orelhas.

Um poema de Bernardo Pinto de Almeida


Canone


A arrogância dos poetas nesses dias
passava pelo modo como nos cafés
se dispunham nas mesas: líricos
à esquerda próximos do balcão

épicos à direita alguns com chapéu
dramáticos em pé
na barra
modernos sentados mais ao fundo

despejando sobre brancos papéis de guardanapo
versos livres brancos de poemas em prosa
ou olhando avidamente para Rosa
a empregada mulata de vinte e tantos anos.

Tudo tão admiravelmente posto em ordem
segundo preceitos decerto muito antigos
dava àquela geração de vates surpreendidos
a aparência vaga de um conjunto de amigos.

Mas eis que Baudelaire
Mallarmé Pound Eliot
Wallace Stevens
chegavam a ser termos pronunciados

todos se disputavam
a recitar um verso de O'Hara
um terceto de cummings
uma melopeia à Charles Olson

um simples dito de Tzara.
Eu sentava-me nesse café
numa mesa próxima da porta
e pedia uma bica

folheava o jornal
entre dois goles de meia notícia
evitando sempre olhar para eles
mais que um instante breve

o suficiente para que quase alarmado
me inteirasse do estado
da poesia.
Mas se acaso pela rua distraído

um gato
corria atrás de um outro
ou um cão passava
tão-só um par de pernas na calçada

já de jornal na mão
passada apressada
saltava para fora do cân-
one two three four


em Hotel Spleen, Lisboa: Quetzal Editores, 2003, pp. 19-20.

Estados Filosóficos (93)


A Morte continua a ser um absurdo. Por mais voltas que se dê: é um absurdo. E é um absurdo devido à sua própria natureza: é a coisa mais certa que há na vida. O absurdo da Morte reside nesta sua tão óbvia característica, nesta sua tão directa forma de ser. Nesta sua forma tão natural de se afirmar.

Chris Cornell (1964-2017)




Como comecei no grunge, os Soundgarden sempre foram muito cá de casa. Sempre gostei muito das guitarras. E depois há a voz de Chris Cornell, que entre os meus amigos era motivo de discórdia e um dos principais motivos para não gostarem de Soundgarden.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (19)


1. No dia 1 de Junho de 2016 (Dia da Criança, portanto), a Senhora Deputada Inês Domingos (não, não é minha familiar), escreveu no Observador um artigo com o seguinte título: “Isto já está a correr mal”. No referido artigo, a Senhora Deputada (ah! esqueci dizer: foi eleita pelo PSD, mas é “independente”) escreveu o seguinte: «Infelizmente, e lamento estragar a festa, se essas reformas forem todas revertidas, não vão surtir efeito. Por isso está na hora de mudar de rumo ou de pensar num plano B, porque as vacas, realmente, não voam.». Como se poderá muito bem entender, a Senhora Deputada estava a referir-se às políticas económicas e fiscais promovidas pelo actual Governo, que, a seu ver, eram erradas e de nada serviam ou serviriam.

2. Ora no passado dia 15 de Maio (sim, anteontem), a mesma Senhora Deputada veio congratular-se com os actuais dados económicos. Sim, leram bem. A Senhora Deputada Inês Domingos está contente com o rumo do país, mas (há sempre um “mas” nestas coisas) isso deve-se às políticas implementadas pelo anterior Governo. Passo a citar: «Estamos contentes com a recuperação do PIB neste trimestre que se deve às reformas realizadas pelo anterior Governo, à conjuntura internacional e na União Europeia mais favoráveis.». Resumindo e concluindo: o actual Governo podia deixar de Governar e podia deixar de fazer o que anda a fazer, pois foi o anterior Governo que tudo fez. Talvez a Senhora Deputada Inês Domingos prefira ligar o “piloto-automático”, tendo em conta que o rumo já foi traçado há muito. Deviam lembrar a Senhora Deputada Inês Domingos que, tal como em tudo, também na política ser “independente” acarreta grande responsabilidade e, no mínimo, alguma coerência. Principalmente na hora de dar o braço a torcer.

Um poema de Nunes da Rocha


De um taifa no Alfeite


Olho pró lado da barra — está de chuva.
Calhava agora um ponto negro no Infinito;
Uma angústia, gabardine e par de luvas
O "barreirense", proa à popa manuscrito.

(Não há que duvidar, ele há poeta!
De boquilha, sem anão inglês.
Apesar da metafísica erecta
Do Comércio, Palladium e Marquês)

Eis o ponto negro, agora alto e quente
De entre as calças à boca-de-sino.
A manhã está mais clara, emoliente,
Já requer heterónimo e desatino.

Ah, todo o cais é uma tusa!
Ergo o colarinho de alcache
E vejo a Ideia, matinal, difusa,
Como se tivesse fumado um haxe.

(Lá vai um, outro, todos de chupeta!
É este um país de marinheiros,
Poetas que viajam de cacilheiro
Para a ilha de Creta).

São todos os cais iguais a este?
Devem ser: fedores-caneiro deste,
Mulheres-putas, dealers-homens,
Coisas-Reais que nos consomem.

..........

Cá está o ponto negro, agora nítido
Debaixo da mini-saia.
Tive sorte, com o pré antecipado
Dou uma, clássica, na praia.


em Cancioneiro da Trafaria, Lisboa: & etc, 2009, pp. 26-27.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (18)


1. Hoje no carro, a caminho escola, ouvi que os níveis de obesidade infantil estão a aumentar em Portugal, principalmente na faixa etária dos onze anos. Não estou admirado. Vejo isso nos meus alunos todos os dias. E está a piorar de ano para ano. Para além de não praticarem exercício físico (um colega meu de Educação Física disse-me, no outro dia, que os alunos estão cada vez mais “analfabetos” do ponto de vista físico), estão cada vez mais a comer pior. Já passei por dezassete escolas diferentes. Só quatro tinham cantinas “à antiga”, isto é, cantinas com cozinheiras “à antiga” e sem serviço de catering (como é agora habitual). Eram cantinas que ofereciam comida de qualidade: bem confeccionada e saborosa. Nessas quatro escolas nunca ouvi os alunos falar mal da comida, ao contrário das escolas dependentes do serviço de catering, que poderá oferecer uma refeição equilibrada do ponto de vista dos nutrientes e das calorias, mas também é verdade que, a maioria, oferece uma refeição com um aspecto deslavado e muito pouco saboroso.

2. Não sei se existe uma coincidência, mas nas escolas com cantina própria os alunos não saem para comprar baguetes, hambúrgueres ou qualquer outro tipo de comida-rápida. Não o fazem porque não existem estabelecimentos que a vendam perto da escola. E porquê? Porque, segundo a minha experiência, cantinas escolares boas não são boas para o negócio da comida-rápida. É claro que a extinção da maior parte das cantinas escolares (das verdadeiras, que prestavam um verdadeiro serviço público) veio beneficiar o sector privado, que apenas pensa no lucro e vive para o lucro.

Uma imagem para o dia



Discos (262)




Blue Train
(instrumental)

John Coltrane


Foi o meu primeiro álbum de jazz. É claro que o gravei para uma cassete. Um amigo meu andava a fazer a colecção da Blue Note, e este foi, salvo-erro, o primeiro cd a sair (o segundo foi Blues and Ballads de Miles Davis). Lembro-me vagamente de ir a casa do meu amigo e ele estar todo orgulhoso com a sua compra. Depois fui até à minha casa, escolhi a melhor cassete que tinha (penso que foi uma TDK SA-X) e gravei-o. Ainda continuo a ter a cassete. Ainda continuo a não ter o cd. É uma falha que pretendo resolver brevemente.

(...)


Ao almoço fui comer Tiras de Choco à Setubalense. Mas não fui a Setúbal. Bebi uma Sagres preta. O snack-bar abriu hoje aqui perto e decidi ir experimentar. Da próxima vez vou mesmo a Setúbal comer as ditas. Estas estavam competentes no âmbito do matar-as-saudades. Mas só isso. 

Nunes da Rocha




Devedor, em certa medida, do barroquismo de Gregório de Matos, da língua afiada de António Lobo de Carvalho e do quotidiano de Nicolau Tolentino, o autor de Óculos Sujos, Fígado Gordo tem sido avesso a grandes aglomerações. A poesia de Nunes da Rocha não é para meninos, nem para as mentes mais obtusas e ortodoxas. 

Um poema de Gregório de Matos


Ao célebre Fr. Joanico compreendido em Lisboa em crimes de sodomita


Furão das tripas, sanguessuga humana,
Cuja condição grave, meiga, e pia,
Sendo cristel dos Santos algum dia,
Hoje urinol dos presos vive ufana.

Fero algoz já descortês profana
Sua imagem do nicho da enxovia,
Que esse amargoso traje em profecia
Com a lombriga racional se dana.

Ah, Janico fatal, em que horóscopos,
Ou porque à costa, ou porque à vante deste,
Da camândula Irmão quebraste copos.

Enfim Papagaio humano te perdeste,
Ou porque enfim darias nos cachopos,
Ou porque em culis mundi te meteste.


em Antologia de poesia do período barroco, introdução e organização de Natália Correia, Lisboa: Moraes Editores, 1ª edição, 1982, p. 212.

Discos (261)



Silver
(instrumental)

Steve Kuhn


Os olhos pesam. Lá fora a noite sabe pouco disso. Não se ouvem carros ao longe. O prédio repousa no silêncio abandonado dos subúrbios. Nada se ouve. Nada. E não é confortável este silêncio. Não é confortável esta inquietação que toma conta dos sentidos. É necessário ocupar o seu espaço e desenvolver uma teoria para ela. Só que os livros na estante pouco ou nada ajudam. Pouco ou nada sabem sobre este silêncio abandonado. Sobre a inquietação.

Livros (147)




Aí está um livro que terei de reler um destes dias. Nos idos de noventa foi lido com algum fascínio, mas sobretudo devido ao dever escolar, bem como ao facto de dar muito estilo andar com ele no bolso dumas calças rafadas (as raparigas mais sensíveis e susceptíveis achavam piada à coisa). No entanto, penso que muito ficou por entender. A ver vamos se agora entendo melhor. 

(...)


Acordaste antes do despertador com os bigodes do gato no teu nariz. A rotina é sempre a mesma: abres a água do duche, dás de comer ao gato. No final de tudo o pequeno-almoço e sais para o primeiro café do dia. As notícias que ouves a caminho do café não te dão esperança: o mundo não irá terminar e tudo está na mesma. Na estrada há uma fila de caras contentes a caminho do trabalho. A esta hora pensas sempre o mesmo: "quem inventou o trabalho foi, sem dúvida, o primeiro patrão": e não te atreves a sair da fila, fazer inversão-de-marcha. Coisas há mais fortes do que o teu querer.

Ensino Recorrente



(...)


A esta hora ouço Steve Kuhn (Motility, 1977). São onze e vinte da noite. Amanhã é mais um dia de trabalho. Portugal ganhou o Festival da Eurovisão. A música, quanto a mim, é fraca e o hype irá durar muito pouco, mas talvez só eu e mais duas pessoas consideram que assim seja. O gato, esse, pesa figos sobre a cama.

(...)


Ontem enquanto a chuva caía com a força de um céu, tu da janela vias os garotos que à chuva cantavam, dançavam de braços no ar. E a ti próprio a pergunta "que piada tem aquilo?", esquecendo que também tu um dia cantaste, dançaste de braços abertos no ar. Mas só hoje deste conta da pergunta. Só hoje a questão em ti surge. Envelhecer é um lugar estranho.

Uma imagem para o dia



Discos (260)




C Jam Blues
(instrumental)

Duke Ellington


Ontem deixaste a luz do fim da tarde entrar em casa. Colocaste o som no máximo. O prédio deve ter vibrado com tamanha euforia. Os vizinhos devem ter pensado que o fim do mundo estava para breve. O gato estranhou. A luz entrava aos magotes e tu, sentado no sofá, batias o pé. O dia lá tinha passado sem grandes sobressaltos. Gostas que assim seja. Sentiste-te bem durante quarenta e cinco minutos (mais coisa menos coisas). Mas depois ligaste a televisão. Ouviste as notícias. E, por momentos, pensaste: “play it again, Charles”.

Ensino Recorrente



(...)


Comecei com o grunge. Passei pelo punk. Fui gótico. Agora só consigo ouvir jazz. Talvez tenha encontrado um lugar onde ficar. Talvez. É claro que todo o passado está em mim. Algumas influências estão muito presentes: Nirvana, Sex Pistols, Joy Division, The Cure, Bauhaus, Wire, Fields of the Nephilim, Sisters of Mercy, entre tantos outros. Mas agora é o saxofone de Ornette Coleman, Coltrane, George Adams, Eric Dolphy, o trompete de Miles, Clifford Brown, Brooker Little, Enrico Rava, o baixo de Mingus, Ron Carter, Dave Holland, Le Faro, o piano de Bill Evans, Bobo Stenson, Art Lande, Monk, Steve Kuhn, a bateria de Art Blakey, Paul Motion, entre tantos, tantos outros. Um lugar onde ficar. Sim. Talvez. 

Discos (259)




Music Always
(instrumental)

Ornette Coleman


A vila deserta não te é novidade. Essa seria gente pelas ruas. E também arrefeceu. Mas parece que foi geral. Pouco mais há a dizer. Sim: é tudo.