(...)


Hoje, na sala de professores, um colega veio ter comigo:
— Eh pá... (aperto de mão) tu que és revolucionário... sabes arrombar portas?

*

Os poemas que me atrevo a escrever (sim: é uma questão de atrevimento) não poderiam estar mais longe de Luiza Neto Jorge e de António Franco Alexandre. Contudo, é a eles que mais vezes regresso, numa espécie de peregrina procura de um silêncio que há muito quero, e desejo, para mim.

*

Enquanto leio Thomas Bernhard (Derrubar Árvores – uma irritação), penso que fazem falta autores como ele. Ter mau-fígado é uma grande vantagem.

Luiza Neto Jorge


Epitáfio


Querida vida.
Pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.


em Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001, p. 288.

Uma imagem para o dia



(...)


Um dos privilégios da tua profissão é a interrupção lectiva por altura da Páscoa. Sabes daqueles que a não têm. Agora, que a interrupção terminou, retomas a normalidade, a rotina diária do levantar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer a caminho do trabalho.

Versões: Tadeusz Różewicz


Os meus lábios


O dia está a terminar
Termina com o jantar
lavar os dentes
um beijo
e deixar tudo arrumado

foi um dia
entre muitos outros preciosos dias
que nunca se repetem

O que me aconteceu

Passou e andou
entre a manhã e a noite
como o dia anterior

Oh meu dia
meu mais que tudo
o que fiz
o que fiz

Talvez deva
sair pela manhã
regressar à tarde
repetir alguns gestos
pôr as coisas em dia

Oh meu dia
o mais belo diamante do mundo
torre de marfim
baleia azul
lágrima nos meus olhos

Oh os meus obscuros pensamentos
quando estou em pé com as mãos nos bolsos
e vejo através de colunas cinzentas de chuva
o plátano ficar dourado

Os meus lábios
que falaram
a verdade mentiram
mecanicamente afirmaram
negaram mendigaram
gritaram sussurraram
choraram e riram

Os meus lábios
formando entre
eles inúmeras
palavras ditas


Tadeusz Różewicz, «My Lips», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, pp. 39 e 41.

Versões: Tadeusz Różewicz


O Sobrevivente


Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.

Estes são sinónimos vazios:
homem e animal
amor e ódio
amigos e inimigos
escuridão e luz.

A maneira de matar homens e animais é a mesma
vi-a:
camiões cheios de homens despedaçados
que não poderão ser salvos.

Ideias são apenas palavras:
virtude e crime
verdade e mentira
beleza e fealdade
coragem e cobardia.

Virtude e crime têm o mesmo peso
vi-o:
num homem que era ao mesmo tempo
virtuoso e criminoso.

Procuro um professor e um mestre
que possa devolver-me a visão audição e fala
que possa nomear novamente objectos e ideias
que possa separar a escuridão da luz.

Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.



Tadeusz Różewicz, «The Survivor», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, p. 7.

Versões: Vladimír Holan


Ela perguntou-te


Uma rapariga perguntou-te: O que é poesia?
Apeteceu-te dizer: Tu és, ah sim, também és,
e por isso com medo e espanto,
que são prova do prodígio,
tenho ciúmes da tua beleza pronta a colher,
e como não consigo beijar-te ou contigo dormir,
e como aquele que nada tem para dar
deve cantar…

Só que não perguntaste, ficaste em silêncio
e não ouviste a canção.



Vladimir Holan, «She Asked You», Selected Poems, traduzido do Checo por Jarmila e Ian Milner, London: Penguin Books, 1971, p. 34.

Versões: Abbas Kiarostami


A balança diz
que estou leve
como uma pena.
Que algazarra
à minha volta!


*


A minha sombra acompanha-me
agora à minha frente
agora ao meu lado
agora atrás de mim.
Que alívio
estes dias cobertos de nuvens!



Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 30.

Versões: Abbas Kiarostami


Ao primeiro vento de Outono
um bando de folhas
procura refúgio no meu quarto.


*


Sonho
que estou sepultado
debaixo das folhas.
O meu corpo começa a germinar.



Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 25.

Versões: Vladimír Holan


Ao Inimigo


Estou farto da tua maldade e se ainda não me matei
é porque a minha vida não é só minha
e ainda amo alguém porque me amo também.
Podes rir, mas só uma águia ataca outra águia
e apenas Aquiles pode chorar Heitor ferido.
Ser não é fácil… Ser poeta e ser homem
é como ser madeira sem árvores
e ver… O cientista observa.
A ciência apenas vasculha a verdade:
ao milímetro, sem imaginação! E para quê?
Simplesmente porque, e já o disse antes:
a ciência está na probabilidade, a poesia na parábola,
o grande hemisfério mental
rejeita um grande poema ao pedir açúcar…
Um galo encolhe à chuva, mas isso é outra estória,
é noite, dizes: amadurecida sexualmente,
a mulher tem uns seios tão firmes
que facilmente se partiriam
um par de copos de brandy entre eles, mas isso é outra estória.
E imagina um farol num barco,
um farol flutuante: mas isso é mesmo uma estória diferente.
E o teu desenvolvimento de célula humana
a ovas e líquenes é mesmo uma estória diferente.
Aquela nuvem vai vomitar mas tu nem consegues arrotar,
és incapaz de ser, e nem
as escamas da cobra te conseguem sufocar,
aquilo que Deus concebeu, Ele quer sentir por inteiro,
as crianças e os bêbados sabem o que é,
mas não são mal-educados o suficiente para perguntar
por que razão um espelho se enevoa quando uma mulher
menstruada nele se olha,
e por amor à vida os poetas não perguntam
por que razão o vinho turva nos barris
quando ela por eles passa…

E estou farto do teu descaramento
que invade tudo aquilo que quer possuir,
e no entanto não sabe como abraçar.
Mas um desastre está para breve
algo com que nunca sonhaste
porque tu não sonhas,
aquilo que Deus concebeu, Ele quer sentir por inteiro,
um desastre está para breve, as crianças e os bêbados sabem o que é,
só do amor pode brotar a alegria,
do amor sem paixão
só do amor pode brotar a alegria,
da alegria sem paixão,
as crianças e os bêbados sabem o que é…
Para seres, terias de viver,
mas não o farás porque não estás vivo,
e não estás vivo porque não amas,
porque não te amas, quanto mais amar o teu vizinho.
E estou farto da tua vulgaridade,
e se ainda não me matei é porque
a minha vida não é só minha
e ainda amo alguém porque me amo também…
Podes rir, mas só a águia-fêmea ataca outra águia
e só a filha de Briseida ataca Aquiles ferido.
Ser não é fácil… Cagar é fácil…



Vladimir Holan, «To the Enemy», Selected Poems, traduzido do Checo por Jarmila e Ian Milner, London: Penguin Books, 1971, pp. 54-55.

Versões: Abbas Kiarostami


Enquanto escurecia
o perfume dos cravos encheu o ar.


*


Um pássaro
canta no meio da noite;
até os outros pássaros
estranham.


Abbas KiarostamiA Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 22.

Versões: Abbas Kiarostami


Acompanhei
a lua
até ao coração duma nuvem negra.
Bebi um pouco de vinho e adormeci.


*


A lua fica pálida
pela manhã.
A estrela desaparece
quando o galo canta.


Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 21.

Versões: Derek Walcott


Elegia


A nossa rede balançou entre Américas,
sentimos a tua falta, Liberdade. Che
cai crivado de balas,
e aqueles que gritaram, a República deve morrer
para renascer, estão mortos,
cidadãos livres com uma urna enfiada na cabeça.
Mesmo assim, todos querem ir prá cama
com a Miss América. E, se não há pão,
que comam bolos.

Mas a velha escolha de correr, uivar, velho
lobo ferido floresta adentro,
enquanto os jornais proclamam
o genocídio, desapareceu;
nenhum rosto consegue esconder
a dor tornada pública,
o esgar petrificado.

Uma lasca de seta alojada no cérebro
faz uivar o cantor negro na sua armadilha para ursos,
os seus jovens olhos a arder com o brilho dos loucos,
a cansar os velhos com a sua tristeza residual;
e os primeiros lilases florescem no alpendre,
e a claridade da flor das cerejeiras
cega Washington e murmura
ao assassino na sua sala mobilada
uma América ideal, cujas oscilantes telas
mostram, em lentos bandos, os fantasmas dos Cheyennes
de pés esfarrapados e sussurrantes
em luta pelas planícies rodeadas de cercas eléctricas,

enquanto o casal emoldurado de agricultores góticos
como santos de Calvino, mordazes, pragmáticos, pobres,
seguram a forquilha do diabo
observando hirtos o trigo imortal.



Derek Walcott, «Elegy», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, pp. 109-110.

Versões: Derek Walcott


O porto


Ao fim do dia os pescadores a remar no regresso a casa
Não se apercebem do sossego que atravessam,
Também eu, desde o fim de tudo, não deveria pedir
Pelo seguro crepúsculo das tuas mãos calmas.
E a noite, carregada de velhas mentiras,
Iluminada pelas estrelas guardiãs dos arqueados montes,
Não ouvirá mais segredos daqui em diante; o tempo sabe
Que o mar é amargo e dissimulado, que o amor ergue muros.
Todavia, aqueles que observam o meu avanço sobre
Um mar mais cruel do que qualquer palavra
De amor, vêem a calma à minha passagem,
Desbravando novas águas com um antigo engano;
E é seguro pensar que os grandes transatlânticos
Ouvem o suave chapinhar de pés junto às estrelas.



Derek Walcott, «The Harbour», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, p. 7.

Versões: Nazim Hikmet


Hino à vida


O franja do teu cabelo
mexeu-se de repente.
De repente algo mexeu-se no chão.
As árvores
sussurraram no escuro.
Os teus braços nus irão ter frio.


Ao longe
onde a nossa vista não alcança,
a lua está a nascer.
Ainda não chegou até nós,
deslizando por entre as folhas
para te iluminar os ombros.
Mas sei
que com ela vem um vento.
As árvores sussurram.
Os teus braços nus irão ter frio.


Lá do cimo,
dos ramos perdidos no escuro,
algo caiu a teus pés.
Aproximas-te de mim.
A tua carne nua na minha mão é suave como a pele do pêssego.
Não é uma canção ou “senso comum”,
perante as árvores, pássaros, e insectos
a minha mão na carne da minha mulher
está a pensar.
Esta noite a minha mão
não consegue ler ou escrever.
Não é amar ou desamar…
É a língua dum leopardo numa fonte,
uma folha de videira,
a pata dum lobo.


Mexer, respirar, comer, beber.
A minha mão é como uma semente
deitada à terra.
Não é uma canção ou “senso comum”,
nem amar ou desamar,
a minha mão na carne da minha mulher
é a mão do primeiro homem.
Como uma raiz que encontra água,
diz-me:
“Comer, beber, frio, quente, combate, aroma, cor ―
não é viver para morrer
mas morrer para viver…”


E agora
enquanto o seu cabelo ruivo acaricia o meu rosto,
enquanto algo de repente se mexe no chão,
enquanto as árvores sussurram no escuro,
e enquanto a lua nasce ao longe
onde a nossa vista não alcança,
a minha mão na carne da minha mulher
perante as árvores, pássaros, e insectos,
quero o direito à vida,
do leopardo na fonte, da semente deitada à terra ―
do primeiro homem.



Nazim Hikmet, «Hymn to life», Poems of Nazim Hikmet, traduzido do Turco por Randy Blasing e Mutlu Konuk, New York: Persea Books, 2002, pp. 72-73.

Versões: Nazim Hikmet


Sobre a minha poesia


Não tenho cavalo prateado para montar,
nenhuma herança que me sustente,
nem riquezas nem terrenos ―
um pote de mel é tudo o que possuo.
Um pote de mel
vermelho como fogo!

O meu mel é tudo para mim.
Protejo
as minhas riquezas e os meus terrenos
― o pote de mel, quero dizer ―
de todo o tipo de pestilência.
Irmão, espera um momento…
Enquanto tiver
mel no meu pote,
até ele virão abelhas
de tão longe como Bagdad…



Nazim Hikmet, «About my poetry», Poems of Nazim Hikmet, traduzido do Turco por Randy Blasing e Mutlu Konuk, New York: Persea Books, 2002, p. 3.

Discos (258)



South Street Exit
(instrumental)

Eric Dolphy


Ontem estiveste reunido com a malta. E a malta há muito que não se reunia. Houve quem só fosse para casa às nove da noite, depois de cerveja servida como num casamento desde as três da tarde. Já não foste capaz de sair depois do jantar. Temeste pela tua saúde. Tiveste a ouvir um pouco de jazz. A malta não entende este teu fascínio pelo jazz. Tu ris quando eles te dizem isso. Como também não entendem a poesia que lês e que te atreves a escrever. Mas, como és da malta, perdoam-te essas tuas idiossincrasias. 


Versões: Wallace Stevens


Da Superfície das Coisas

I

Do meu quarto, o mundo está longe de ser compreensível;
Mas enquanto caminho verifico que é feito de quatro montes e uma nuvem.


II

Da minha varanda, observo o ar amarelado,
Leio o que escrevi,
“A Primavera é como uma rapariga a despir-se”.


III

A árvore dourada é azul.
O cantor cobriu-se com a sua capa.
A lua está nos vincos da capa.



Wallace Stevens, «Of the Surface of Things», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, pp. 50-51.

Versões: Wallace Stevens


Seis Paisagens Significativas

VI

Racionalistas, a usar chapéus quadrados,
Pensam, em quartos quadrados,
A olhar para o chão,
A olhar para o tecto.
Limitam-se
Aos triângulos rectângulos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, curvas e elipses ―
Como, por exemplo, a elipse da meia-lua ―
Os racionalistas usariam chapéus de abas largas.



Wallace Stevens, «Six Significant Landscapes» - VI, Collected Poems, Londres: Faber and Faber, 2006, p. 66.

Versões: Wallace Stevens


Seis Paisagens Significativas

III

Meço-me
Junto a uma grande árvore.
Descubro que sou mais alto,
Pois consigo chegar ao sol,
Com os meus olhos;
E consigo chegar ao mar
Com os meus ouvidos.
Ainda assim, não gosto
Da maneira como as formigas trepam
Pela minha sombra acima.



Wallace Stevens, «Six Significant Landscapes - III», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, p. 65.

Versões: Wallace Stevens


Tatuagem


A luz como aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha sobre arestas de neve.
Caminha sob as tuas pestanas
E prepara a sua teia ―
As suas duas teias.

As teias dos teus olhos
Estão presas
Aos teus ossos e carne
Como vigas ou erva.

São filamentos dos teus olhos
Na superfície da água
E nas arestas da neve.


Wallace Stevens, «Tattoo», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, pp. 70-71.

Versões: Philip Larkin


XXVI


A primeira coisa
Que entendi:
O tempo é o eco dum machado
Dentro da madeira.


Philip Larkin, «XXVI», Collected Poems, Faber and Faber, 2003, p. 31.

Versões: Philip Larkin


XIX


Irmã Feia


Trinta degraus até ao meu quarto,
Deito-me na cama;
Deixo a música, o violino, o trompete a bateria
Adormecerem na minha cabeça.

Como não fui seduzido na adolescência
E revelado ao amor,
Irei atender às árvores e ao seu gracioso silêncio,
Mais ao vento que as move.



Philip Larkin, «XIX – Ugly Sister», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2003, p. 23.

Versões: William Carlos Williams


Retrato proletário


Uma alta e jovem mulher
de avental

O cabelo atado parada
na rua

Um pé descalço a tocar
o passeio

Sapato numa mão. Observa-o
com cuidado

Retira a palmilha
para encontrar

O prego que a magoa


William Carlos Williams«Proletarian Portrait», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 101.

Versões: William Carlos Williams


Outono

Um punhado de gente
junto a uma sepultura

aberta debaixo
de pesadas folhas

celebra
o aterro

para a nova estrada
onde

um homem velho
de joelhos

apanha num cesto
um molho

de ervas para
as suas cabras


William Carlos Williams, «Autumn», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 408.

Versões: William Carlos Williams


A Vinda do Inverno


9/30


Não há ondas perfeitas ―
Aquilo que escreves é um mar
de frases incompreensíveis
e incapazes. Apruma. Procura

Um centro longe da terra
tocada pelas asas
de pássaros quase silenciosos
que nunca parecem repousar ―

Este é o lugar mais triste do mar ―
ondas todas desfeitas como palavras ―
o mesmo alegre e triste sentimento.

Debruço-me para ver em detalhe
a frágil falésia, a delicada
e imperfeita espuma, ervas amarelas
iguais umas às outras ―

Não há esperança ― a não ser a ilha
de coral que se forma lentamente
à espera que os pássaros deixem cair
as sementes que a tornarão habitável



William Carlos Williams, «The Descent of Winter – 9/30», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 298.

Versões: William Carlos Williams


Canção Primaveril

Ter morrido
traz grandes vantagens
sobre os teus contemporâneos ―
podes fingir.

E assim,
o cheiro da terra
também sobre ti ―
finjo

que há algo
docemente estranho
uma subtil diferença,
um último encanto

em estarmos separados
no nosso leito de morte, quando
apenas prefiro ficar deitado
de mão dada ao teu lado.



William Carlos Williams, «Spring Song», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 119.

Versões: William Carlos Williams


As últimas palavras da minha avó inglesa

Estavam alguns pratos sujos
e um copo de leite
numa pequena mesa ao seu lado
junto à cabeceira da cama por fazer ―

Enrugada e quase cega
repousava e ressonava
entoando com raiva
o seu grito por comida,

Dêem-me de comer ―
Querem matar-me à fome ―
Estou bem não vou
para o hospital. Não, não, não

Dêem-me de comer
Deixe-me levá-la
ao hospital, disse-lhe
e depois quando estiver melhor

pode fazer o que lhe apetecer.
Sorriu, Sim
primeiro fazes o que te apetece
depois faço o que me apetece ―

Oh, oh, oh! gritou
enquanto os maqueiros
a colocavam na maca ―
É isto que vocês consideram

ficar mais confortável?
Por agora a sua mente estava desperta ―
Oh vocês pensam que são inteligentes
só porque são novos,

disse, mas digo-vos
vocês não sabem nada.
Então arrancámos.
Pelo caminho

passámos por uma longa fila
de ulmeiros. Olhou um pouco
para eles pela janela
da ambulância e disse,

O que são aquelas coisas
lá fora, além ao fundo?
Árvores? Bem, estou farta
delas e deixou cair a cabeça para o lado.



William Carlos Williams, «The Last Words of My English Grandmother», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, pp. 443-444.

Versões: William Carlos Williams


O limite

Uma folha amarrotada
de papel pardo
com o tamanho

e aparente constituição
de um homem
ia a rodar lentamente

com o vento
uma e outra vez pela
rua quando

um carro passou-lhe
por cima
e esmagou-a contra

o chão. Ao contrário
do homem ela levantou-se
e continuou a rodar

com o vento uma
e outra vez como tinha
feito até aí.


William Carlos Williams, «The Term», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 409.

Versões: e. e. cummings


pode não ser sempre assim; e por isso digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
outros, e os teus dedos apertarem o seu
coração como o meu até há pouco tempo;
se noutro rosto o teu doce cabelo repousar
num silêncio que conheço, ou algumas
palavras se contorcerem ou, em absoluto,
permanecerem desarmadas frente ao mar;

se tal acontecer, repito: se tal acontecer ―
tu do meu coração, envia-me uma palavra simples;
para que vá ter com ele, lhe segure as mãos,
e diga, Aceita esta felicidade que te dou.
Depois desviarei o olhar, e ouvirei dum pássaro
uma terrível melodia, vinda das terras perdidas.


e. e. cummings«it may not always be so; and i say», 100 Selected Poems, New York: Grove Press, 1994, p. 9.

Versões: e. e. cummings


a minha querida e velha etcetera e tal
tia lucy durante a mais recente

guerra conseguia e acima
de tudo dizia-te sem qualquer problema
a razão de andarem todos

à pancada,
a minha irmã

isabel fez centenas
(e
centenas) de meias para
não falar de camisas antipulgas protectores-de-orelhas

etcetera e tal luvas etcetera e tal, a minha
mãe tinha esperança

que eu morresse etcetera e tal
com bravura obviamente dizia o meu pai
que costumava tagarelar sobre como seria
um privilégio e se ao menos ele
pudesse enquanto

eu etcetera e tal deitado sossegado
na lama profunda et

cetera e tal
(a sonhar,
et
cetera e tal, com
o teu sorriso
olhos joelhos e com o teu etcetera e tal)



e. e. cummings, « my sweet old etcetera», 100 Selected Poems, New York: Grove Press, Inc., 1994, p. 32.

Versões: e. e. cummings


já que sentir vem primeiro
quem prestar atenção
à sintaxe das coisas
nunca te beijará por inteiro;

mas por inteiro enlouquecer
enquanto Primavera houver no mundo

o meu sangue aprova,
e beijos são melhor destino
do que sabedoria
juro por todas as flores, senhora. Não chores
― pois o meu melhor pensamento é menos
do que as tuas pestanas a dizer

fomos feitos um para o outro: por isso
ri, deita-te nos meus braços
sabendo que a vida não é um parágrafo

E a morte nenhum parêntesis


e. e. cummings, «since feeling is first», 100 Selected Poems, New York: Grove Press, Inc., 1994, p. 35.

Versões: Philip Larkin


Seja este o verso


Fodem-te o juízo todo, o papá e a mamã.
Não o querem fazer, mas lá o fazem.
Enchem-te com as suas falhas e pecados
E juntam mais alguns, só porque podem.

No seu tempo também foram fodidos
Por imbecis mal vestidos e fora de moda
Que passaram metade da vida ressentidos
E a outra metade a abafar tudo à sua volta.

Passa de mão em mão a infelicidade.
Vai mais fundo do que o fundo do mar.
Renuncia a tudo assim que tenhas idade
E quanto a ter filhos na vida: nem pensar.


Philip Larkin, «This be the verse», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2003, p. 142.

Versões: Charles Bukowski


Para a Jane


225 dias debaixo de terra
e sabes mais do que eu.

há muito que te sugaram o sangue,
és apenas algo seco no lixo.

é assim que deve ser?

neste quarto
as horas de amor
ainda projectam sombras.

quando partiste
levaste quase
tudo.

ajoelho-me à noite
frente a tigres
que não me deixam em paz.

aquilo que eras
não voltará a ser.

os tigres encontraram-me
e não me importo.


Charles Bukowski, «for Jane», The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills, New York: Ecco, 2002, p. 42.

Versões: Charles Bukowski


Estas coisas

estas coisas que muitas vezes aguentamos
nada têm a ver connosco,
e lidamos com elas devido ao tédio
ao medo ou devido ao dinheiro
ou falta de inteligência;
o nosso espaço e a nossa luz
demasiado pequenos,
tão pequenos que não os suportamos,
por isso erguemos a Ideia
e perdemos o Centro:
muita parra e pouca uva,
e vemos nomes que outrora eram sinónimo de sabedoria
como placas a indicar cidades fantasma,
onde só as sepulturas são reais.


Charles Bukowski, «these things», The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills, New York: Ecco, 2002, p. 24.

Versões: Charles Bukowski


O olhar

Uma vez comprei um coelho de peluche
num grande armazém
e agora está ali sentado com os seus
pequenos olhos cor-de-rosa fixos em mim:

Quer bolas de golfe e paredes
de vidro.
Eu quero o silêncio dum trovão.

O nosso desencanto está sentado entre nós.


Charles Bukowski«The Look», The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems – 1946-1966, New York: Ecco, 2002, p. 114.

(...)


Pelos carros estacionados às portas dos prédios (e pelos outros que vejo sair das garagens), posso dizer que habito numa urbanização onde as pessoas ou vivem muito acima das suas possibilidade ou são de classe média-alta. O meu carro está todo cagado dos pombos e das gaivotas que por aqui circulam. Desconheço a razão, mas é só o meu. Deve existir, de certeza, uma explicação. Todavia, não é agora que vou pensar nela.

Versões: Charles Bukowski


Companhia

a fotografia de Céline olha
para mim.
precisa de fazer a barba.
parece um tarado saído
dum filme.
os olhos vêem através das paredes,
as paredes da humanidade.

sabe bem olhar para a fotografia
de Céline quando
as coisas aqui correm muito
mal.

esta noite olho para ele:

vejo os seus ossos
a dançar:

o médico que vem
do Hades.


Charles Bukowski, «company», Septuagenarian Stew: Stories & Poems, Santa Rosa: Black Sparrow Press, 1990, p. 243.

Discos (257)



Kula Kulluk Yakışır Mı
(instrumental)

Kayhan Kalhor | Erdal Erzincan


O gato nem deu pela tua saída de casa, tal é o sol sobre o seu corpo, o sono profundo. Quando chegaste: nem um movimento. Arrumaste o que tinhas a arrumar, abriste uma das janelas da sala e nem um movimento. Nada. E ali está, como se nada de novo tivesse acontecido, quando na verdade muito de novo há para relatar: a luz da tarde sobre os móveis, o riso dos primeiros pássaros no beiral do telhado, os montes ali em frente. Mas ele permanece indiferente à novidade das coisas. Indiferente a esta tarde e ao silêncio do prédio a encher-se de gente. 

Versões: Charles Bukowski


Devemos

devemos trazer
a nossa luz
até
à escuridão.

ninguém
o fará
por nós.

quando os rapazes
esquiam
montanha
abaixo

quando o cozinheiro
recebe o seu último
ordenado

quando o cão corre
atrás doutro cão

quando o jogador de xadrez
perde mais do que
um jogo

devemos trazer
a nossa luz
até
à escuridão.

ninguém
o fará
por nós,

quando sozinho alguém
telefona
a alguém
algures

quando a grande besta
treme
de assombro

quando a última morada
se torna
mais nítida

ninguém
o fará
por nós.


Charles Bukowski, «we must», Septuagenarian Stew: Stories & Poems, Santa Rosa: Black Sparrow Press, 1990, pp. 100-101.

Discos (256)



to far across the sky

Bowery Electric


Quem entrava no teu quarto tinha de habituar os olhos à penumbra. Passavas lá parte do teu tempo a ler e a ouvir música. Arriscavas os primeiros versos: espécie de sonetos em forma de plágio mal-amanhado. Às vezes, havia alguém que te batia na janela e pedia para entrar, pois a portaria estava já fechada e o segurança era intransigente na questão dos horários. Nunca deixaste ninguém ficar na rua. Vantagens de dormir rés-ao-chão.  

Irving Penn




Quando for grande gostaria de  fotografar rostos como ele fazia. São célebres as suas fotografias de famosos: Miles, Capote, Al Pacino, entre outros. No entanto, são as suas "naturezas mortas" aquilo que dele mais gosto. Há algo de belo e terrível, como se a morte nos observasse. É, sem dúvida, uma referência. Um dos grandes.

Paulo da Costa Domingos


Gestão de Frota

Talvez haja uma saída:
um sentimento avulso
por troca de um sorriso,
uma ligação directa
que queime os dedos
e reanime o corpo.

Talvez mais depressa:
o coração estanque,
sare a indiferença
e torne coesas,
senão aceitáveis,
esperanças e promessas.

Talvez melhor, a manobra:
estacionamento interdito
às portas da Beleza,
cuja supremacia reina
fora d'abcissas ou ordenadas,
fora da lei da geometria.

Talvez a chuva leve lave:
a lama nas ranhuras
invisíveis a olho nu,
os poros negros
sob a barba de dias
nulos, opacos.

Talvez se dê um roubo:
alguém subtraia o beijo
metálico de aranha
na sucção dos fluídos
acelerando o coágulo,
o fim da História.

Talvez acordem:
com o pacto social
invadido pelos monstros
da razão de ser,
paredes ocupadas
pelos seus grunhidos.

Talvez não nos batam:
não pisem, não esmaguem,
não desdigam, não calem,
não omitam, não firam,
não apodreçam, não vençam,
não encostem à parede.

Talvez.


em A Céu Aberto, Lisboa: Averno, 2017, pp. 39-40.


Discos (255)



Pesce Naufrago
(instrumental)

Enrico Rava

O gato vem pedir um pouco de atenção e tu aqui enfiado. Coloca uma das patas sobre a tua mão e tenta interromper a escrita, a desordem. Pouco sabe do dia e pouco lhe diz a música que agora ouves. Lá fora nada, nada se vê. Mas ele olha pela janela. Parece entender a noite. 

Um poema de Pedro Magalhães


Não serei eu próprio uma farsa? E toda a poesia um engano?
Pudesse a minha vida ser vivida a meias com o fogo. E arder para sempre nas crinas de um cavalo erguido no dedo mais alto da noite.


em Cárcere, Coimbra: Debut Sur L'Oeuf, 2017, p. 28.

(...)


Acordas às duas da manhã com dor de garganta. Pensas se terás algures comprimidos para a coisa. Acendes um luz fraca que tens perto da cama e caminhas até à gaveta onde tens caixas e caixas de comprimidos. Lá encontras aquilo que precisas mais uns rebuçados que podem ajudar. E são quatro da manhã e a dor que não desaparece. O despertador toca às sete. A garganta já não dói mas tens a cabeça feita em água e uma tosse que se assemelha a um maço de cigarros por dia. Demoras no duche. Não te apetece ir trabalhar e concluis que, na verdade, nunca te apeteceu. 

Fiodor Dostoievski


Mas esta maneira simplificada de falar já não representa nada. Aqui, no fundo, todos estamos desconfiados de que o vizinho é tonto, sem nos darmos ao trabalho de pensar ou de nos perguntarmos a nós próprios: "Não serei eu antes quem é tonto?". Trata-se, pois, de um estado de satisfação geral e, no entanto, para que se veja o que são as coisas, não há ninguém contente, antes pelo contrário: toda a gente anda de mau humor. Mas isso de reflectir uma pessoa nos tempos que vão correndo é coisa pouco menos que impossível; custa muito. Podem comparar-se também ideias feitas. Vendem-se em toda a parte e até as dão de graça: acontece, porém, que as de graça ainda saem mais caras, e as pessoas já começam a desconfiar. No fim de contas, nenhuma vantagem e a mesma desordem de sempre.


em Diário de um escritor, tradução de João Gaspar Simões, Lisboa: Arcádia, 1967, p. 175.