Discos (248)



I think sometimes 
Sometimes I think 
If only could we 

His Name Is Alive


Nos bolsos trazíamos o peso dos dias: restos de nada. E isso chegava para enfrentar o nevoeiro de sobretudo fechado até ao cimo. Muitos perguntavam-se sobre a razão de usarmos óculos-de-sol em dias sem sol. Desconheciam que o inferno, afinal, eram eles. Tardes inteiras, por vezes, sem trocarmos palavras entre nós.

Um poema de Diego Doncel


Ainda tenho realidade


Este silêncio sabe que vivo
noutro mundo, que sou feito de esquecimento
tal como uma sombra que abandonou
o tempo. Que ainda tenho realidade,
embora seja esta de me sonhar enquanto fruto
de um mundo povoado de fantasmas
onde a vida se inventa.

Olho para mim e ainda não me reconheço,
e mal vejo o nevoeiro
que lavra a dúvida de quem sou.
Não sei se principio a ser ou se já morri.

Ouço lá longe, por cima das antenas parabólicas
e da maquilhagem barata das nuvens,
a voz da tarde vir do céu
como de um bar sórdido onde tivesse bebido,
lançar outra vez escarros de tempo para dentro do meu sonho
enquanto blasfema.

Eu, porém, encontro a sua luz,
essa luz neurasténica que alumia os regatos
da vida com as suas ficções velhas e os seus calafrios,
e ouço assoprar os sapos da morte,
à beira desses tanques com lixos
no fundo, como náufragos de uma qualquer metafísica.
Um náufrago da minha própria alma sou eu,
com um tempo possível e alguma possibilidade
de vida sem saber para quê.
Ah, talvez seja para arrepender-me
de ter nascido enquanto for este o espectáculo.

Não sei como nem onde tomei consciência
de mim, deste animal que escuta o vento,
como se fosse uma aparição,
com os seus ruge-ruge engomados no nevoeiro
e que descobre, neste parque suburbano,
a música obscena do mundo desdobrar a sua harmonia
de bichos e de insectos aqui no coração.
Ah, que vês seres que fazem zumbidos
de um mais além absurdo quando olham para o céu,
que sente como a alta tecnologia das dores
berra nas pradarias da consciência
os misereres da sua própria infelicidade,
que escuta apenas o ruído e o mistério dos seus sentimentos
neste repetir-se dos dias.
Ah, e então, onde posso encontrar
uma razão humilde para permanecer aqui
qual a imagem de uma espelho que a vida
vai desfigurando? E em que lugar
da vida posso tomar consciência de quem sou?

Eu não sou eu, sou aquele.
Aquele que não sabe onde é possível procurar
uma prece para se redimir de si próprio,
enquanto ganha as formas indecisas do nevoeiro
por entre estas matérias puras vegetais em estado de equilíbrio,
por entre estes planos de urbanistas que criam
espaços paradisíacos para fazer amor
e para se drogar ao mesmo tempo que a dúvida
vais desfigurando tudo.
Eu não sou eu, sou aquele: o estrangeiro
que existe apenas para o faro dos cães.
Esse que sabe que nenhum deus pôde nunca
sussurrar-lhe uma palavra de consolação,
deuses que de longe olhavam alucinados
pelas suas próprias farmacologias celestes
e que mudavam de canal
quando se fartavam.


em Em Nenhum Paraíso, tradução e introdução de Joaquim Manuel Magalhães, Lisboa: Averno, 2007, pp. 25-29.

Resgate - Fátima Maldonado



Fátima Maldonado
Resgate
Selecção e prefácio de Manuel de Freitas
Averno
2016

(...)


Parece que um dia Morton Feldman disse que tinha andado sempre a escrever a mesma peça musical, só que nunca ninguém tinha reparado nisso. E a tarde lá passa, enquanto ouves Triadic Memories. E também a ti te parece que a tarde que agora passa é a mesma tarde de sempre. 

Um poema de Edmundo de Bettencourt


A máquina prisioneira


A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.

Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!

A sorrir desdentada
a máquina adormecia...


em Poema Surdos, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981, pp. 26-27.

Elisangela da Rocha Steinmetz


Judith Teixeira transgride. Revela em seus versos o corpo: uma imagem feminina pactuada com a plenitude da beleza da vida, com os brancos e os vermelhos, frios e quentes dos tecidos da natureza que essa filha de Viseu soube tão bem iluminar. E, com esse corpo, revela uma alma presente, que faz dele e, descobre nele, seus mais profundos desejos. Através dele, junto ao outro/outra, torna-se transgressora, plena e contínua, descontínua, e finalmente contínua, num bordado de versos que alcança nossos dias e faz do sexo algo para além das visões tradicionais de prolongamento da espécie: torna-o um atributo a favor do equilíbrio humano e da excelência do prazer. Na escrita que produziu, a poetisa decadentista inovou: provocou e exaltou paixões que tanto permitiram aos seus textos a experiência da fogueira, como a da ultrapassagem de décadas, para além de sua vida.
Filha desse mundo onde a descoberta de si, onde encontrar a sua voz, seu espaço e a sua condição de ser humano, de ser humano mulher (deve ser dito), exige todo o impulso da força transgressora, a poetisa ousa e cria. Sua obra é condenada, queimada. E, ainda assim, hoje, rompe silêncios. É transgressora.


de «Desejo e Transgressão no Corpo Poético de Judith Teixeira» em Feminino plural: literatura, língua e linguagem nos contextos italiano e lusófono, Debora Ricci, Annabela Rita, Ana Luísa Vilela, Isa Severino, Fabio Mario da Silva (org.), Lisboa: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Novembro de 2016, p.71.

Tão bela como qualquer rapaz - Andreia C. Faria



Andreia C. Faria
Tão bela como qualquer rapaz
Língua Morta
2017

(...)


O nariz entupido. Ora está quente ora está frio e a tua sinusite dá sinal. Soro fisiológico ou água-do-mar? Soro: "sempre é mais barato", pensas, "e o efeito é o mesmo". Lenços de papel? "Sim: bolso do casaco". O céu ameaça qualquer coisa. Logo se vê.  

S. A. - Miguel Martins



Miguel Martins
S. A. 
do lado esquerdo
2017

Discos (247)




Melancholia
(instrumental)

Bobo Stenson

Agora
a esta hora
sinto

a orfandade
duma guerra
perdida

Nada resta no dia
que resgate
desta anacrónica

melancolia —
tal a canga
sentida

E nem
o ronronar
do gato salva

esta "porra triste":
em tudo ver
absurdos

sem nunca
ter dado
para existencialista

Trocar os Mapas - Textos de António Amaral Tavares



(clicar na imagem)

Discos (246)




Fedora
(instrumental)

Kenny Wheeler | John Taylor


A manhã é melancolia. A luz quebra-se na estrada para o trabalho. Sempre disseste que trabalhas para viver. Mas tens cada vez mais dúvidas. Cada vez mais te parece que vives para o trabalho, tal a maneira como ele te absorve. O salário começa apenas a garantir o pagamento das despesas fixas e pouco mais do que isso: renda da casa, luz, gás, água, alimentação. Os "pequenos luxos" começam cada vez mais a ser cada vez menos. Mas ainda te resta a melodia de uma trompete. A leveza de um piano. Ao menos isso.

Uma imagem para o dia



Discos (245)




Für Alina No. 1
(piano)

Arvo Pärt

Da janela vês a montanha à tua frente: branca. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. O gato repousa no lugar de sempre. O aquecimento central garante o conforto necessário ao desencanto. Arrastas um livro para junto de ti, só que os olhos resistem às palavras. Olhas pela janela, mais uma vez, a montanha à tua frente: branca. A vila fecha-se sobre si mesma. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. 

(...)



Quando José Saramago ganhou o Nobel da Literatura, o Tal & Qual sondou várias pessoas e fez a pergunta: "Saramago ou Lobo Antunes?". Lembro-me muito bem da resposta de João Lagarto: "José Cardoso Pires". Também sempre fui mais Cardoso Pires. Em parte devido aos livros que, em casa dos meus pais, existiam do autor de O Delfim. Mas, em especial, devido a esta dedicatória:

Para Rosendo,
mexilhão do Reino,
cordialmente

José Cardoso Pires
out. 73

Uma imagem para o dia



(...)


O gato, ontem durante a noite, decidiu dormir na sua cama. Tal era o sono que tinhas (duas noites mal-dormidas fazem-te isso) que mal apagaste a luz apagaste também. O gato deve ter andado, durante algum tempo, em explorações nocturnas. Talvez procurasse a sua Ítaca. Não sei se encontrou sereias pelo caminho, ou se encontrou "Ninguém". Apenas sei que hoje pela manhã estava aninhado na sua cama e não vi sinais de Circe.

Livros (146)



Agora que comecei a ler a Ilíada, relembro a leitura que fiz da Odisseia. Todos os anos leio, aos meus alunos, a versão de Maria Alberta Menéres: Ulisses. E todos os anos me interrogo: e se Ulisses tivesse dito não? e se ele preferisse ficar com Circe em vez de regressar a casa? e se ele? e se? E sei que já existe bastante recusa em Ulisses, nomeadamente no que diz respeito ao "jogo" que com ele os deuses jogam. Mas, e se?

(...)


Procuras estar atento ao mundo. Todavia, cada vez mais te interessa menos aquilo que nele se passa, como se a ele já não pertencesses. É claro que sabes ser um exagero tal pensamento. Mas também é certo que sempre foste um exagerado, muito dado à hipérbole.



Adenda: é um exagero este pequeno desabafo ter duas recomendações no Google +.

Discos (244)




Siete Ocho
(instrumental)

Andrew Hill


O gato à solta pela casa. Corre de um lado-pró-outro com uma velocidade digna de chita. Corre, salta, simula um ataque sobre presa imaginária. Lá fora o dia tende para o fim. Siete Ocho abre a noite e decides que estás melhor à meia-luz. Só que não há candeeiro que te valha e a meia-luz é-te apenas em pensamento. O gato continua a caça às sombras. Siete Ocho. O dia e o seu fim.

(...)


Várias vezes a ideia de uma volta ao mundo. Cada vez mais a ideia fica para trás. O mundo, como sabes, há muito se tornou num lugar pouco recomendável. E agora: desaconselhável. Dizem que é sinal dos tempos. Para ti é apenas a confirmação duma certeza: não prestamos. Nunca fomos "boa gente". 

Uma imagem para o dia



(...)


Do mau tempo previsto só tiveste aquilo que não estava previsto: uma noite mal-dormida.

Cão Celeste - nº. 10




Capa
Daniela Gomes

Colaborações


Abel Neves | Ana Menezes | Ana Paula Inácio | António Barahona | Bruno Borges | Bruno Dias | Cláudia Dias | Daniela Fortuna | Débora Figueiredo | Emanuel Jorge Botelho | E. M. de Melo e Castro | Fábio Neves Marcelino | Fabio Weintraub | Fernando Guerreiro | Gil de Carvalho | Guilherme Faria | Hélia Correia | Henrique Manuel Bento Fialho | Hugo Pinto Santos | Inês Dias | Isabel Baraona | Isabel Nogueira | Jaime Rocha | João Alves | João Barrento | João Chambel | João Concha | Jorge Roque | José Ángel Cilleruelo | José Feitor | José Miguel Silva | Leonor Figueiredo | Luca Argel | Luís França | Luís Henriques | Manuel A. Domingos | Manuel de Freitas | Manuel Diogo | Maria da Conceição Caleiro | Mário Alberto | Miguel Martins | Miguel Pereira | Pádua Fernandes | Paulo da Costa Domingos | Pedro Burgos | Raymund Krumme | Ricardo Castro | Rik Lina | Rui Nunes | Rui Pires Cabral | Sebastian Brant | Tania de Léon | Thomas Bewick | Urbano | Vanda Brotas Gonçalves | Vítor Silva Tavares | Zepe

Pensamento do dia



«Ramming Speed!»
Ben-Hur
William Wyler
1959