Discos (243)




All or Nothing at All
(instrumental)

Arthur Altman



Nunca foste muito de baladas mas há a chuva lá fora, o gato sobre o sofá e a vontade de dias menos húmidos, frios. "Deve estar a nevar na Serra", pensas, pois é um pensamento que te invade muitas vezes. Não lembras já a última vez que viste nevar e tu no teu quarto debaixo dos cobertores. Também esses são dias bons para baladas. Agora, a esta hora, é a chuva no vidro da janela.

(...)


Nunca te habituaste à humidade e esta chuva dá-te cabo dos ossos, para não falar da paciência. Verdade seja dita: a paciência é algo que começas a perder, ou pelo menos a ter menos. Sim: menos paciência. Ontem começaste a ler a Ilíada e a primeira coisa que veio ao pensamento foi "não sei se vou ter paciência para isto". É raro pensares isso de um livro. Mas, ontem, pensaste. E depois há ainda o "we are taking names" que ouves do lado de lá do Atlântico. "We are taking names": como se o resto da malta fosse uma cambada de miúdos mal-comportados e os nomes estivessem a ser apontados no quadro, como era feito na escola primária. 

Um poema de Emanuel Jorge Botelho


vou dormir meu amor, o primeiro gesto vai
para o apagar do candeeiro, andamos presos
a coisas simples como vês; a mão a ir-se

gastando longe

da pele de leopardo, a boca a dar-se à luxúria da saliva
e o último olhar para o abismo
entre o colchão e a carpete, depois o medo,
o cuidado com que assinalamos a última página

do livro

esta função bizarra dada aos dedos como se amanhã o sangue fosse
uma clave branca convertida ao silêncio — meu amor — há até quem ore,
quem ponha na mão um dardo
para o exorcismo da luz. e depois este corpo sobre a mesa
de cabeceira — a água sempre
uma promessa de despertar agarrada aos lábios; o gesto
que o fogo guarda. coisas simples como vês, nada sobre

o anoitecer da pedra


em Cesuras, Lisboa: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, p. 21.

Uma imagem para o dia



(...)


Acordas e a casa em silêncio. O gato ao fundo da cama. Lá fora está sol e arriscas uma ida ao terraço. Um vento gelado diz bom dia mais os dois graus no termómetro. São dez da manhã. Vais tirar a cinza ao fogão e acendê-lo. O crepitar da madeira é um lugar-comum que te sabe bem. O gato mia e a comida é-lhe servida. O cheiro a café-de-saco. 

Discos (242)




And I can see so far away yes so far away
Well I can see the shadows fall across your face

Morphine



Das várias estórias que tenho com o meu pai, esta é uma delas. Estávamos os dois um dia no escritório cá de casa (que também era o meu quarto), e o meu pai sofria com a música que ouvia, que era a música que eu ouvia. Mas um dia não. Um dia perguntei-lhe ― desligo isto? ― ao que ele respondeu ― não, pá. deixa estar.

Fernando Guerreiro


Escrevemos sempre de costas voltadas
para a morte, à espera que as palavras
se desprendam das ogivas do silêncio,
iludidas com o cenário que o mundo
compõe com os restos da aventura.
Vindas de dentro não é de estranhar
que sejam de dor os sentimentos,
recortados na espessura da ideia
a que o convívio com os deuses
comunicou num sentido devoluto.
Talvez por isso desaparecem
na paisagem, desenhando
com flores promessas que
cabe ao vivos cumprir
pelos caminhos que os trazem
de novo aos redis sublimes
do destino. Não é assim
também que se escreve?,
de dentro de um cemitério
de sonhos a que só o pavor
dos homens dá o rótulo
entediado da literatura?


em Caminhos de Guia, Lisboa: Black Son Editores, 2002, p. 11.

Em Memória


A vida prega-nos muitas e nefastas surpresas. A morte que quase diria prematura, porque aos 70 anos não se é velho, de mais um amigo, castigado por uma cruel doença, não é coisa boa. Não andei com ele na escola, não fui às sortes com ele, nem dele fui companheiro na empresa onde trabalhou largos anos. Mas fui e sou seu amigo. Habituei-me a gostar dele por várias razões. É público que navegávamos nas mesmas águas políticas e estivemos do mesmo lado em muitas causas. De facto o Manuel foi um Homem de causas. Daquelas que só os grandes Homens são capazes de defender. Primeiro no Sindicato dos Têxteis, quando seria mais cómodo ficar sentado na cadeira de escritório que ocupava, veio para rua com os seus colegas de trabalho reivindicando melhor salário e melhores condições de trabalho. No desporto, na qualidade de treinador, ficará para memória futura a célebre vitória da Equipa dos Amieiros Verdes do campeonato FNAT, ante a congénere de Figueira Castelo Rodrigo. Já antes como hoquista eternizou-se a par de outros nas melhores equipas de hóquei que o saudoso Campo das Festas viu. Impulsionador e dinamizador do CAT (Centro de Alegria no Trabalho). Co-Fundador da Cooperativa de Consumo Oito de Janeiro (Coopoito). Pioneiro da fundação do Partido Socialista em Manteigas. Presidente da Associação Desportiva de Manteigas. Director do Notícias de Manteigas, entre muitos outros cargos e tarefas que ocupou durante a sua vida. Comentávamos amiúde as crónicas de Henrique Monteiro, de Miguel Sousa Tavares e outros que ainda hoje escrevem no jornal Expresso. Com ele aprendi muitas coisas. Homem de grande verticalidade esteve sempre onde quis estar, nunca ninguém o empurrou. Fica-me uma frase que de quando em vez me avivava: "Aos favores dos ricos prefiro o respeito dos pobres". Até Sempre Manuel.


Rui Carvalho

Um poema de Madalena de Castro Campos


Nua e crua

Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.


retirado do blogue a gun in the garland

Livros (145)



Gosto de antologias. E gosto particularmente desta, pois deu-me a conhecer poetas muito bons. Destaco três nomes: Ivone Chinita, J. H. Borges Martins e J. H. Santos Barros. Estes três nomes valem, por si só, esta antologia. A mesma foi organizada por outro poeta que muito aprecio: Emanuel Jorge Botelho.  

(...)


Levanto-me quase todos os dias às sete da manhã. Hoje não foi excepção. Quando olhei para o gato, para lhe dizer "bom dia", reparei nos seus olhos a pergunta "porra! já são horas?", o que me deixou perplexo, pois pensava que ele só sabia as horas das refeições. Depois lá fui até ao duche e a água quente ajudou o suficiente. Ele, o gato, continuava embrulhado no seu cobertor e nem mesmo o rasgar da embalagem da sua refeição o fez levantar-se. Continuaram os seus olhos a questionar-me: "porra! já são horas?".

Discos (241)




Like the elegies relate to days beyond recall
I lingered in many memories

Clan of Xymox


Só soube mais tarde que era demasiado novo para ter memórias. Diziam que só poderia falar de memórias depois dos cinquenta. Mas nunca me disseram que nome dar às imagens que me povoavam. Pensei, na altura, que também não podiam ser recordações. Ou poderiam? Nunca me esclareci com alguém mais esclarecido do que eu. Por isso comecei a utilizar “imagens” para designar todos aqueles dias. E que dias eram esses? Os mesmos de sempre. Dias envoltos em frio, nevoeiro. A cidade nada mais tinha para oferecer. Excepto a tua imagem pelas ruas.

(...)


Regressas à casa fechada. O frio é de mês. Ligas o aquecedor no quarto para quebrar o ar, mais uma manta sobre a cama. O gato também se queixa e procura o calor do teu corpo, sentando-se sobre as tuas pernas. Lá fora a chuva cai com a mesma força de sempre. Não se ouve nada nem ninguém no prédio. Tudo na mesma. Portanto.

Versões: Charles Bukowski


Partida rápida


nós
às vezes
deveríamos
lembrar
o ponto
mais alto
e
emblemático
das
nossas
vidas.

para mim
foi
muito novo
dormir
sem cheta
e sem
amigos
num banco
de jardim
numa
cidade
desconhecida

o que
não diz
muito
de todas
as outras
décadas
seguintes.



Charles Bukowski, «Starting fast», You get so alone at times that it just makes sense, New York: Ecco, 2002, p. 118.

Discos (240)




Symphony Nº 4 - "Los Angeles"
Arvo Pärt


À meia-noite o gato assustou-se com os foguetes que foram rebentando o silêncio da Vila. Fugiu para algum canto da casa e só reapareceu uma hora depois. O fogão aceso dá um certo conforto. Decidiste colocar mais um tronco para aguentar o resto da noite, embora os teus olhos peçam cama. Lá fora sabes a noite fria. O gato, agora,  ao teu colo.