Ensino Recorrente



(...)


Ontem à meia-noite e meia soltaram fogo-de-artifício. Malick: o gato espantou-se do meu colo e nunca mais o vi. Tive de deixar todas as portas abertas. Reapareceu durante a noite e dormiu aos meus pés na minha cama. Hoje, durante o primeiro café do dia ― então ontem adiantaram o fim-de-ano? ― nã! foi o Tó-Zé Correia que fez vinte e cinco anos de casado! bodas de prata! ― eh pá! estou a ficar velho ― estamos todos. E lá pedi o segundo do dia.

A Poesia como Arte Insurgente - Lawrence Ferlinghetti



Lawrence Ferlinghetti
A Poesia como Arte Insurgente
tradução de Inês Dias
Relógio D'Água
2016

Um poema de Manoel de Barros


I. Matéria de Poesia


1.

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato ― os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
com, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
          ―sapatos, adjetivos ―
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais

O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
   o alicate cremoso
   e o lodo das estrelas
servem demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
   a lagartixa da esteira
   e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
   tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
   sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
― como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.



em Poesia Completa, Lisboa: Relógio D’Água, 2016, pp. 137-139.

Discos (239)



(Fun) I'm gonna get stoned and run around

Iggy Pop


As noites eram quase todas iguais. Pelo meio, às vezes, havia a pausa necessária, ou obrigatória. O frio das ruas convidava à corrida, ao assombro. E nós corríamos assombrados. Assombrados e jovens: perfeita união.

(...)


Hope is what I'm asking for canta Peter Murphy aqui neste quarto-escritório. O dia não esteve tão frio como ontem, mas na rua continuam a conhecer-me e a perguntar "o que é feito de ti?". Apetece-me responder com a voz de Peter Murphy. Só que a maior parte não sabe inglês.

Um poema de João Vasco Coelho


Caminho


Na lousã, os miúdos vão a pé para a escola.

Voam, de ramo em ramo, até acabar a árvore.

Vão depois ao continente, pôr creme e perfume
armani, ver as prateleiras de sumo e vinho de mesa.

Pelo caminho, aprendem a tradição particular da
carência, do sentimento, da decepção.


em Zero-a-Zero, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 39.

Feliz Natal



Rage Against the Machine
The Battle of Britain
Live at Finsbury Park
2010

Um dia, na minha adolescência, lembrei-me de escrever aos Rage Against the Machine. Enviaram-me, durante três anos, singles em vinil por altura do meu aniversário. Nunca irei esquecer isso. E com os singles vinha propaganda zapatista, do movimento de Chiapas, no México. Propaganda que eu fotocopiava e distribuía por mãos amigas.

Em 2010 deram este concerto gratuito, como agradecimento: Killing in the name tinha sido número um no Reino Unido no Natal anterior (o desafio tinha sido lançado por um casal inglês). Sempre que vejo e ouço este concerto fico em pele de galinha.


Frio...


Frio
nas mãos

mãos
nos bolsos

e neles
também

restos
de nada

(...)




Não sei o que me é mais deprimente: se uma Vila deserta em silêncio, ou se uma Vila deserta, mas com música de Natal muito má e uma iluminação de Natal muito pobre. Valha-me um dos ribeiros da Vila.

Nota de leitura (8)


É só para dizer

Que comi
as ameixas
que estavam
no frigorífico

e que tu
provavelmente
guardavas
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frescas


William Carlos Williams
Selected Poems
New Directions, 1985.
(versão minha)


Talvez seja um dos mais conhecidos poemas de William Carlos Williams. "Nele não há nada de poético", dirão as almas mais ofuscadas pela luz do sublime. No entanto, tudo nele é poesia: desde a situação à musicalidade (que poderá estar perdida, admito, nesta versão apresentada). E há, ainda, a concisão das palavras.
     Carlos Williams percorreu um caminho longe dos labirintos metafóricos. Procura antes a economia das palavras, mas também o seu rigor, utilizando as palavras exactas e não as mais próximas daquilo que se quer dizer (a utilização da palavra-bibelot está fora de questão), a leveza e a proximidade ao dia-a-dia. Uma poesia imagista, acima de tudo. E na sua verdadeira essência.

Um poema de Luís Pedro Almeida


O meu ser e o tempo

Nunca recomeço.
Continuo sempre.

E quando oiço o rádio dizer
«menos uma hora nos Açores»
apetece-me estar lá.


em Introdução à Anatomia das Sereias e Outros Poemas, Guarda: Aquilo Teatro, 2002, p. 44.

(...)


Cada vez mais esta vila é menos a minha vila. Começo a sentir que apenas aqui fui criado, mas que depois me criei por aí, a saltar de terra em terra, pela estrada fora. Fui tomar o café e aproveitei o balanço e bebi uma aguardente velha num copo de shot. Aqui damos o nome de martelinho. E enquanto bebia o café e sentia o calor da aguardente a percorrer o meu corpo, li uma notícia que, sinceramente, não me deixou admirado. Parece que foi Mozart quem mais CD vendeu em 2016, ao contrário daquilo que muitos poderiam prever. Passados 225 anos sobre a sua morte, Mozart continua a ser uma estrela pop.

Lí por aí




Uma das primeiras generalizações proposta pelo autor é a de três orientações para a literatura portuguesa produzida depois da Revolução: a que olha para trás (focada na História), a que olha para a distância (focada em espaços geográficos exteriores ao território nacional), a que olha para dentro (focada no Eu próprio). A pergunta que se impõe é: não foi sempre assim? O que há de novo nestas três, que poderiam ser quatro ou cinco ou seis, orientações? Nada.






Nota: vou na página setenta. É a primeira vez que leio um ensaio de João Barrento. Não estou, sinceramente, convencido. Mais do mesmo. Os mesmo nomes de sempre. As mesmas ideias de sempre. Nada de novo. Mas, só vou na página setenta.

Arik Chernovski



Untitled
© Arik Chernovski

Livros (144)




Comprei-o em segunda mão. Li-o há dois anos. Por isso: não influenciou o meu gosto poético. Todavia, foi um livro que me marcou, quer pelo desassombro da escrita*, como pelo resultado final: saí dele com a consciência de que aprendi um pouco mais sobre poesia, e isso, na maior parte das vezes, não acontece com livros semelhantes.


O cerco financeiro, as pressões bancárias, as sacanices das distribuidoras são outras tantas tentativas de neutralizar esses espaços que não obedecem aos empórios editoriais, às regras de dominação de mercados, à banalização de leituras. (p. 362: referindo-se à "morte" das editoras de poesia)

Ensino Recorrente



(...)


O sol decidiu dar um ar da sua graça, mas continua frio. Às 15h30m irá desaparecer atrás da montanha, ali para os lados da Fraga da Cruz. Depois: começará a penumbra e o silêncio pela vila inteira. Alguns resistentes irão andar pela rua. Mas serão poucos.
     No outro dia passei por uma famosa estrada cá da vila. Foi nela que tive o meu primeiro, e único, acidente de automóvel: espatifei-o todo directamente para a sucata. Mas não é devido a isto que a estrada é famosa. É-o porque durante os meses de Outono e Inverno nunca lá dá o sol. Muitos não acreditam, mas é verdade. Durante meses a geada é permanente: uma espécie de permafrost

Um poema de Ana Bessa de Carvalho


Dorme cá hoje

Dorme cá hoje. Tenho uma almofada a mais
feita de memory foam das televendas
onde a curvatura do meu crânio
já foi adivinhada.

Praticamos o modo bed and breakfast,
aceito dinheiro ou cartões
mas não te dou crédito,
em troca levo-te o café à cama.

Não estranhes este meu hábito
de deixar a luz acesa
para fingir que está alguém em casa
ou o outro de deixar
pernas e portas entreabertas
esperando que o último a sair
se lembre de as fechar.

Não espreites o quartinho dos arrumos,
onde guardo a esfregona,
os homens que corroem
e o óleo de cedro para móveis.

O meu chão irá ranger
quando o privares do teu peso;
por hoje, torna-te o homem-a-dias
que vem arejar este quarto alugado.

Descansa se ouvires o som de ossos
a estalar durante a noite;
são só os meus esqueletos
a dançar vitoriosos no armário.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 6.

Pensamento do dia



Mohammad Reza Lotfi | Mohammad Ghavi-Helm
Mystery of Love
(álbum completo)
1996

Aritra Saha



Minimalism 
© Aritra Saha 

Livros (143)



«A história das liberdades concedidas ao homem nunca deixou de se confundir, até agora, com a história das liberdades concedidas pelo homem à economia» (p. 7). Começa assim este livro e é a principal crítica que lhe faço: quase tudo é reduzido à visão económica que o autor tem da sociedade, onde tudo é uma troca mercantil, despindo o ser humano de qualquer tipo de emoções ou caprichos. No entanto, Vaneigem não deixa de ter razão quando explora a expressão time is money, principalmente quando a associa ao conceito do "tempo livre". Para o autor este conceito não deveria existir. Ele serve apenas para mercantilizar o próprio conceito: o "tempo livre" mais não é do que um subterfúgio para retirar ao trabalhador o tempo que, na realidade, não deveria ser livre; isto é, o trabalhador se tivesse efectivamente tempo livre não necessitaria de "tempo livre". Vaneigem afirma mesmo que "férias pagas", por mais justas que possam ser, mais não são do que uma maneira de manter o trabalhador "fiel" ao próprio trabalho. Para o autor: «O homem que não dispõe de 90% do seu tempo é um escravo» (p. 53).  

Um poema de Leonor Castro Nunes


tínhamos os olhos muito abertos.
queimávamos madrugadas de fio a pavio
e as aves desmanteladas que te dava para consertares
conheciam sempre finais felizes.

foram noites gigantes
a olhar pelo buraco da agulha
e a imaginar que do outro lado chegavam as mãos
e as bocas e os peitos.

ocupámos a casa inteira
e suturámos lentamente o coração.

agora estou dentro do sono.
um barco encalhado assinala esta tragédia
e já não sei como convocar os ventos e as marés.
as noites passam lentas e perseguem-me
como animais ainda por nomear.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 45.

(...)


O dia começou para ti ainda cedo. Acendeste o fogão, preparaste o café para o pequeno-almoço. Depois perdeste tempo com pequenas coisas, é certo. Mas são essas pequenas coisas que ainda te vão dando algum alento. O carro do teu pai espera-te. Sempre que o conduzes tens a sensação de conduzir um clássico, pois nada tem de moderno e essas coisas. Vais à vila fazer as compras necessárias para parte do almoço: pimentos para assar: que irão acompanhar sardinhas (para os teus pais) e um hambúrguer (para ti, pois nunca foste de sardinha assada), e tudo isso faz-te pensar na generation gap, que era um dos temas do Inglês quando andavas no Secundário. Agora que regressas a casa, ouves um pouco de Harold Budd e Clive Wrigth (A Song for Lost Blossoms, 2008). O gato dorme no lugar de sempre e tu pensas na simplicidade da sua vida. Talvez um dia consigas, também, uma vida simples. 

Marco Grassi



The Hive
© Marco Grassi

(...)


À medida que anoitecia, começaste a ouvir música Persa e Arménia (valha-te São Youtube). E há qualquer coisa nela, na música, que te leva a um outro lugar, como se fosse teu desde sempre.

Um poema de Ana Caeiro


Primeira morada

talvez seja sempre difícil o azul
quando atrás das casas não se fala de árvores
nem de peixes
quando o corpo não consegue a liquidez dos aquários
a luz a trespassar pequenos seixos e guelras
talvez seja difícil respirar pelo beijo
quando não há mar onde afogar os cabelos
eu queria esse segredo de barcos de papel abandonados à corrente
fechar os olhos e trazer-te à língua dos lençóis
uma cama virada a sul onde as aves assobiassem de madrugada
e a pele soubesse a mel e figos
onde toda a geometria fosse a lentidão das mãos
sobre a porcelana ou vidro
e nada quebrasse a moldura dos dias


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 9.

Anónimo disse... (8)


A tua sede de protagonismo não conhece mesmo limites, pois não? Ele é cada melro, cada tiro! Depois de mostrares o uso que dás à correspondência privada que recebes como é que ainda consegues ter o desplante de acusar quem quer que seja de "cobardia" pelo uso do anonimato? Enxerga-te, cromo!!! Mediante a tua desonestidade o anonimato será sempre muito mais do que aquilo que mereces de qualquer interlocutor.

7 de dezembro de 2016 às 16:11

(...)


"Falarás com a tua voz e não com a voz que alguns te querem dar". Foi uma lição que cedo aprendi. Como aprendi que a Liberdade é uma coisa muito bonita, e que deve ser mantida, cumprida. "Falarás com a tua voz e não com a voz que alguns te querem dar". E depois também aprendi que deverei sempre dar voz aos outros, mesmo quando esses outros falarem com cuspo que me irão atirar à cara.

Jennifer McClure



Laws of Silence (16)
© Jennifer McClure

Um poema de Bruno Béu


Bricolage e outra coisa

como as mãos colocam lâmpadas
assim ela nele.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 24

Anónimo disse... (7)


Chamar-te uma "alminha simples" ou "pobre de espírito" seria sempre um elogio. Tu és, como bem consta por aí, apenas profundamente estúpido, com aquela arrogância tão própria dos néscios e que resulta da mais cega e empenhada ignorância. A burrice, essa advém, de questões endógenas, receio bem, e reflecte-se, dolorosamente, na falta de noção com que alardeias todas essas qualidades. Mas por quem sois? Sobretudo bom natal para o gato e paz na terra aos mansos de espírito.

6 de dezembro de 2016 às 21:14

Caro Anónimo:
muito obrigado pelo seu mui precioso comentário. Agradeço-lhe as palavras amigas.
Ainda bem que não me elogiou com o epíteto de “alminha simples” ou “pobre de espírito”. Sinceramente, penso que se adequa melhor “profundamente estúpido”, como “bem consta por aí”. Sempre me interroguei onde seria o “por aí”, tantas vezes o mencionam. Agora sei que é o local onde consta que sou “profundamente estúpido”. Muito obrigado, pois tirou-me um peso de cima, esclarecendo esta minha dúvida.
Em relação à “burrice”: ela deverá, sem dúvida alguma, derivar de “questões endógenas”, que estarão certamente relacionadas com o facto de eu ser “profundamente estúpido".
Respondendo à única pergunta que me fez: sou pela A.D.M.. E não, caro Anónimo, não são Armas de Destruição Maciça, mas sim: Associação Desportiva de Manteigas.
O gato agradece os votos de Bom Natal e retribui.
Volte sempre com a característica comum a todos os Anónimos: a cobardia.
Com os melhores cumprimentos.

(...)


Hoje, numa ida à Papelaria Papelito (aqui em Manteigas), deparo-me com dois livros de Charles Bukowski: A Sul de Nenhum Norte e Histórias de Loucura Normal: ambos com tradução de Vasco Gato. Fiquei surpreendido e satisfeito. Portugal a caminho duma sociedade justa e civilizada.

Nota de leitura (7)


Retratos de Família

3.

Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas horas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.


Fernando Namora
As Frias Madrugadas
Publicações Europa-América, 1971, p. 114.


Novamente, o poeta encontra no quotidiano motivos poéticos suficientes para dizer aquilo que muitas vezes fica por dizer. Fernando Namora (que foi mais romancista do que poeta) consegue, em poucos versos, recriar todo um imaginário: que poderia ser o de qualquer um. Quem é que nunca recolheu gotas de chuva? Só os pobres de espírito, de certeza.
Penso que este poema cumpre a questão da universalidade que já aqui mencionei. É tudo menos umbiguista. Não existe nele qualquer tipo de palavreado oco. É honesto e não procura, quanto a mim, fazer bonito. Não recorre à intertextualidade ou à sabedoria académica bacoca. Nele não é necessário citar Deleuze para dizer o que tem de ser dito. Tudo está. Nada falta.


Um poema de Miguel de Carvalho


Casa-Tempo

porque nem sempre tive uma idade
morreu nela um tempo muito perto
mesmo assim ainda longe
duma idade sem relógio nem instante
e aquela eternidade que me espera por fim
na varanda interior deste ciclo
violenta cada pulsão sem prazo
e cada época sem validade

porque nunca encontrei uma casa
nem uma idade ou uma inocência
nem uma data ou um ponteiro em cada passo?

desde ontem comecei a procurar
outra coisa fora deste tempo
onde não cabe uma idade
muito menos uma concepção de casa.


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 61.

Uma imagem para o dia



3º Esq - Malveira (2015-2016)


Talvez
este silêncio

seja a janela
aberta

os cães
lá fora

Nunca
entenderei

a luz do dia
as suas cambiantes

Questões há
na realidade

que nunca devem
ser respondidas


em Casa, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 51

Das fotos (38)


Sem título
© manuel a. domingos, 2016
(clicar para aumentar)

Livros (142)




Ruben A. é um escritor muito cá de casa. Durante muito tempo estes Páginas foram a única coisa que consegui ler sem me cansar. Dizer que os seis volumes constituem um diário é ser redutor. A intenção até podia ser essa, mas Ruben A. extravasou todo e qualquer género, tornando este conjunto em algo híbrido e um quebra-cabeças para os académicos, embora duvide que os académicos lhe peguem. Mas caso encontrem os volumes à venda: não hesitem: aposto que não se arrependerão. E caso aconteça o arrependimento: olha, paciência.

Nota de leitura (6)


Não sei se vai chover ou não.
Nem se a greve entupirá as ruas.
Haverá comboios? Autocarros?
Barulho no andar de cima?

Certo, só o chá das sete.
Que pode ser às oito ou nove.
Mas é sempre chá e quente.
Feito num bule de porcelana fina.

Dias há que o seu aroma fresco
me transmite algum sossego.
Mais tranquilo e desperto
começo então a escrever.

Umas vezes com rigor.
Outras vezes nem por isso.
Depende muito do chá
e da forma como o tomo.


António Silva Graça
Invenção na Sombra
Relógio D'Água, 1989, p. 14.


O argumento mais utilizado por alguns daqueles que defendem uma forma poética mais ligada à palavra, enquanto valor intrínseco e quase inalienável, é o do risco. Isto é: o risco que o poeta corre ao procurar na palavra aquele dom de salvar pelo mais alto. São uma espécie de devedores de Eugénio de Castro e dos seus Oaristos. Para isso, alguns, recorrem à metáfora como uma espécie de tábua de salvação, ou então ao uso de vocábulos mirabolantes, quando na realidade esse uso apenas mascara a sua incapacidade de verdadeiramente arriscar, demonstrando, apenas, uma excelente proficiência no uso do dicionário.
E depois há os outros, aqueles que, na minha opinião (repito: minha opinião), realmente arriscam. Este poema de António Silva Graça é, quanto a mim, um bom exemplo. Nele o poeta arrisca de verdade, pois nada há de mais arriscado do que procurar no quotidiano (e não no dicionário) o material necessário para transfigurar esse próprio quotidiano, procurando o poético nas coisas mais simples do dia-a-dia e da vida. Uma situação banal pode estar carregada de poesia. E neste caso é inegável que está.

(...)




Uma ida à Burel Factory e deparo-me com a seguinte placa (da antiga SOTAVE* em 1985). Nela três nomes se destacam: Manuel Martins Domingos, Manuel Quaresma Domingos, José Quaresma Domingos. Por outras palavras: pai e filhos. Por outras palavras: avô, pai, tio. E também o nome de José Martins Domingos: tio-avô.



*Sociedade Têxtil Amieiros Verdes.

A Porta de Emergência - Américo Rodrigues



Américo Rodrigues
A Porta de Emergência
CalaFrio
2016

(...)



Malick: o gato passou toda a tarde embrulhado nas mantas. E ainda continua. Apesar da casa estar quente, parece gostar da cama que lhe improvisei. A chuva lá fora convida ao resguardo dos ossos e da alma, não vão os dois ficar ensopados de tanta água. Aqui dentro, para além da chuva na caleira, ouve-se o último álbum dos Mogwai. Malick: o gato não se assusta. Segredou-me há pouco que já ouviu pior.

Nota de leitura (5)


10

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto


António Reis
Poemas Quotidianos (1957)
em Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa
do Séc. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora, 2009, p. 1522.



António Reis é o exemplo quase prefeito da abolição quase completa daquilo que poderão ser as mais variadas interpretações do leitor. Os seus poemas, despidos de qualquer artificialismo bacoco, revelam uma simplicidade desarmante. O poema acima transcrito é disso um bom exemplo: versos curtos, limpos; um limitado uso de adjectivos; recusa da metáfora mirabolante que nada acrescente e obriga o leitor a procurar num dicionário o significado de algumas palavras. Tal como nos seus filmes (veja-se, a título de exemplo Jaime), a poesia de António Reis vai ao encontro do essencial, deixando para outros a arte dos rodriguinhos.

Nota de leitura (4)


Falo para ti à escuta.
As palavras escondem-se, não ouças
mais do que este rosto sonoro.

Como se a represa mostrasse
musgo, ramos podres, rãs,
folhas surgem dentro da casa.
Não a vejas.

À sombra do meu olhar
o que tiver de ser.

Joaquim Manuel Magalhães
Consequência do Lugar
Relógio D’Água, 2001, p. 17.



Joaquim Manuel Magalhães é, sem dúvida, a verdadeira "angústia da influência" para muitos dos poetas nascidos na década de 70 e alguns da década de 60: ou escrever a "favor" ou "contra". O outro também é Herberto Helder. Ao reler os poemas inseridos em Consequência do Lugar, sinto que existe uma grande afinidade entre uma grande parte dos poemas e os de Paul Celan. Poderei estar enganado, mas é o que sinto, quer no tom, mas também na economia das palavras, onde certos poemas adquirem um estilo quase epigramático, embora carregados de significado. No exemplo apresentado, a questão da universalidade já não se coloca, tento em conta a enorme subjectividade que o poema encerra. Contudo, a “falta” de universalidade não rouba mérito ao poema ou ao poeta, apenas torna a sua “influência” um pouco mais limitada. E quando digo “influência” refiro-me apenas ao alcance que o poema poderá ter. Sei que talvez esta seja uma maneira bastante maniqueísta de “ler” um poema. Mas também não estou a dizer que é a única.

Livros (141)



Tenho uma teoria: quando não se conhece um autor, e o queremos ler, devemos começar por um livro de contos, caso o autor o tenha escrito. Assim sendo: este foi o meu primeiro Bukowski. É um livro que resume, na perfeição, todo o universo bukowskiano: álcool, mulheres, corridas de cavalos, a mediocridade do ser humano, a misantropia do autor, tudo. Foi reeditado há pouco com nova tradução, desta vez de Vasco Gato, que tem sido o tradutor "oficial" de Bukowski no nosso país (e que tem feito um muito bom trabalho). Para os fãs de Bukowski, onde me incluo, este poderá não ser o seu melhor livro de contos 8e não é). Mas é uma boa maneira de começar a ler Bukowski.

Uma imagem para o dia



(...)


Fui à vila aviar uma receita na farmácia e chove chuva que "deu lá deu". E não se pode dizer que está propriamente quentinho. Não, nada disso. Sentem-se bem os 8ºC, por contraste com os 22ºC que estão dentro de casa graças ao aquecimento central. Nada de novo. Portanto. 

Reverso (23)





Este é um daqueles exemplos em que a versão é melhor do que o original. Acrescenta-se ainda o facto de a versão ter, como vocalista, a cantora do original. O desafio foi lançado aos Klaxons, e eles conseguiram fazer uma versão muito mais rock e muito mais pop. O espantoso é Rihanna estar como peixe na água a acompanhar os Klaxons. Sim: é ela que acompanha os Klaxons e não o contrário.

Nota de leitura (3)


Diário

Se Deus quiser hei-de morrer
Com tudo feito e por fazer.


Raul de Carvalho
Duplo Olhar (1978)
em Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa
do Séc. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora, 2009, p. 1383.


Raul de Carvalho é talvez um dos poetas mais esquecidos. E é também um dos nossos melhores poetas, apesar de considerar a sua obra um tanto ou quanto desigual (e talvez seja isso mesmo que o faça ser um dos melhores). É um poeta que muito aprecio e este é o único poema que sei de cor. Este poema poderá questionar o leitor: existe poeticidade nele? O seu tom aforístico poderá, de certa maneira, levar ao equívoco e alguém afirmar “isto não é um poema” ou “isto não é poesia”. A primeira afirmação, do meu ponto de vista, é mais tolerável do que a segunda, pois acredito que nada, repito: nada, está excluído da esfera da poesia. Acredito que uma das funções da poesia é revelar aquilo que poderá estar “escondido”. No caso deste poema de Raul de Carvalho, a revelação é evidente: qualquer um de nós irá um dia morrer, e morrerá com tudo feito e por fazer. Novamente, e porque não?, a questão da universalidade do poema. Em qualquer parte do mundo este poema encerra em si uma verdade inequívoca. O poeta apenas se atreveu a dizê-la em voz alta.

Nota de leitura (2)


Os Bichos

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
Edição de Autor, 2000, p. 29.



De todos os poemas que já li de Henrique Manuel Bento Fialho, ficou-me este gravado na memória. Não sei se devido ao facto de muito andar na estrada. Se devido ao facto de o considerar um muito bom poema. Mas também é um facto que acredito que toda a poesia tem, em sim, a intenção de comunicar, mesmo que seja na sua incomunicabilidade (recordo, por exemplo, alguns poemas dadaísta). A questão da universalidade é, de novo (e segundo o meu ponto de vista), também aqui importante. Penso que a maior parte dos leitores que conduz, e mesmo aqueles que o não fazem, se conseguem identificar, ou até mesmo rever, no sujeito poético deste poema. O quotidiano é plasmado em cada um destes versos com uma simplicidade desarmante. E essa simplicidade não deixa de ser poética. E é tudo menos fácil, pois falar da morte, sem cair nos lugares-comuns habituais, não está ao alcance de todos.

Nota de leitura (1)


Catorze

A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.

José Miguel Silva
Vista para um Pátio seguido de Desordem
Relógio D’Água, 2003, p. 26.


A minha relação com a poesia de José Miguel Silva não é d'agora. Alguns amigos sabem que Vista para um pátio seguido de Desordem foi para mim um livro decisivo na mudança da minha própria poética. Os mais próximos sabem que o considero o melhor poeta da sua geração (apesar de "geração" ser um termo perigoso). Não é segredo nenhum que admiro este género de manifestação poética, em detrimento de outra demasiado umbiguista mas com pretensão de universal, e que vai sobrevivendo à custa de melícias organizadas que atacam tudo o que lhes cheira a heterodoxia, ou "regresso ao real", como se a Poesia alguma vez tivesse sido ortodoxa, ou sido expulsa do "real", para assim ter de existir um regresso. Penso que este poema é universal. Todos nós tivemos catorze anos. Mas também é certo: há quem já nasce muito velho.

Tentativa e Erro: contributos para a questão da facilidade poética




Brian Eno



Cheguei à música de Brian Eno através dos U2, quando estes eram produzidos por ele. Na altura eu já ouvia Roxy Music, mas não sabia que Eno tinha feito parte da formação original. Depois foram os seus álbuns de música ambiente: Thursday Afternoon, Neroli, Another Green World, Dsicreet Music e The Pearl (em colaboração com Harold Budd). Qualquer altura do dia é boa para ouvir a sua música. Eu prefiro ao fim da tarde, quando a luz encontra a sua ausência.

(...)


Cheguei ontem aqui à casa de Manteigas, que pertence aos meus pais. Esteve um mês fechada. Um mês sem ver a luz do dia. Para além de parada no tempo, estava fria. Muito fria. Acartei lenha do barracão, acendi o aquecimento central. Demorou algum tempo até começar a sentir-se algum calor pelas divisões. O gato reclamou um pouco, pois foi logo "embrulhar-se" numa manta que ali estava esquecida. Abasteci o fogão até à meia-noite, para o seu calor se prolongar durante mais algum tempo. Hoje, de manhã  ao acordar, a casa continuava fria e o gato estava debaixo do seu cobertor. Deve ter sentido frio durante a noite. Liguei a máquina do café e o seu aroma começou a invadir a casa, dando-lhe ar de habitada. Fui novamente ao barracão buscar lenha e acendi novamente o fogão. Custou menos sentir o calor chegar.