Foi através deste livro,
publicado pela OVNI em 2009, que eu entrei na poesia de Joan Margarit. Depois,
comprei Calculo de Estructuras e Llegas tarde a tu tiempo: poesía, 1999-2002.
Mas foi este livro publicado pela OVNI que me abriu as portas para o mundo de
Margarit: «É, já, a paisagem da nossa morte./Sob a vigilância do vento.» (p.
75). Este livro talvez seja difícil já de encontrar, mas penso que ainda por aí
anda Misteriosamente Feliz (Língua
Morta, 2015). Leiam a poesia de Margarit. Depois: digam-me algo.
Bernardo Soares
Se penso isto e olho, para ver se a
realidade me mata a sede, vejo casas inexpressivas, caras inexpressivas, gestos
inexpressivos. Pedras, corpos, ideias ― está tudo morto. Todos os movimentos
são paragens, a mesma paragem todos eles. Nada me diz nada. Nada me é
conhecido, não porque o estranhe mas porque sei o que é. Perdeu-se o mundo. E
no fundo da minha alma ― como única realidade deste momento ― há uma mágoa
intensa e invisível, uma tristeza como o som de quem chora num quarto escuro.
em Livro do Desassossego, introdução e nova organização de textos de
António Quadros, 2ª edição, Lisboa: Publicações Europa-América, Livros de
Bolso, 1995, p. 113.
Manfred Eicher
Cheguei tarde à ECM, editora cujo nome é indissociável do seu fundador: Manfred Eicher. Há quem o acuse de tornar todos os "seus" músicos iguais. Isto é: segundo muitos Eicher não tem muito jogo de cintura e higieniza a música que produz; tornou a ECM demasiado asséptica (por exemplo: quem ouve Eberhard Weber entenderá aquilo que quero dizer). Mas Manfred Eicher também nos deu Meredith Monk, Arvo Pärt, Keith Jarrett, Art Ensemble of Chicago, Bill Frisell, Anouar Brahem, John Adams, Steve Reich, entre outros. É um produtor incontornável da música feita no século XX.
Livros (139)
O meu primeiro contacto com Leopoldo María Panero foi através dum programa da TVE2. Na altura eu via muito este canal espanhol e um dia lá dou com Panero mais a sua poesia. Anos mais tarde, numa ida a Salamanca, comprei esta antologia. Tenho também Poemas del manicomio de Mondragón, mas esta antologia li e reli várias vezes. A poesia de Panero não pode ser catalogada. Ela é, quanto a mim, única no panorama da poesia espanhola do século XX. Mas isso sou eu a pensar em voz alta.
(...)
Apesar de tudo ainda tentas ouvir música, ler um ou outro poema. Começaste no outro dia um livro que há muito querias ter começado. Voltas ao inglês, pois sentes que o andas a perder aos poucos e não o podes perder. Apesar de tudo ainda aqui vens. Escreves estas linhas e tentas espantar as sombras com o martelar das teclas do computador. Às vezes o gato vem ter contigo e reclama para si as tuas mãos. E tu acedes ao seu pedido pois gostas do seu ronronar. Apesar de tudo ainda pensas em versos que povoam as paredes da casa e as moscas que por aqui voam. Apesar de tudo ainda reles o que escreveste e procuras corrigir uma ou outra gralha, eliminar um ou outro adjectivo que está a mais. Nunca gostaste muito de adjectivos, mas às vezes não há como fugir a eles: paciência.
Das fotos (37)
![]() |
Bruno Pernadas Margarida Campelo | João Capinha
dia 22 de Outubro no Hot Club Portugal
© manuel a. domingos, 2016(clicar para aumentar) |
(...)
A verdade é que a vida não pára. Poderá existir uma ou outra vírgula, ponto e vírgula, e até um ou outro ponto final. Mas a vida, no essencial e já Joyce o sabia, é algo parecido com o monólogo de Marion Tweedy, aliás, Molly Bloom.
Um poema de Teixeira de Pascoaes
O Crime
Quem não é filho de Caim?
Abel não deixou filhos.
Mas em Caim, havia Abel.
E somos todos
A vítima e o carrasco
No mesmo ser...
A criatura e o criador
Na mesma fera,
O pecado e o remorso
No mesmo Deus.
em Últimos Versos, retirado de Antologia Poética, selecção de Ilídio Sardoeira, Lisboa: Cadernos F.A.O.J., série C, nº 2, Secretaria de Estado da Juventude e Desportos - Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, s/data, p. 58.
Medula
(abrir num novo separador para ler melhor)
Diogo
Vaz Pinto escreve sobre Animais Incluídos, de António Amaral Tavares
(...)
Procuras que os dias passem da melhor maneira possível, pois as noites não têm sido grande coisa. O gato insiste em dormir em cima de ti. Depois acordas com um peso terrível no peito e pensas que chegou a tua hora, que o coração está a dar as últimas. E o gato repara e mia e tu ficas a saber. Mais tarde decide que é em cima das pernas que deve estar. E tu acordas com a sensação que estiveste a correr a maratona: pernas pesadas, doridas. E a noite lá vai passando neste pára-arranca.
(...)
Chove e as crianças não trazem guarda-chuva e algumas delas ainda vêm de calções e t-shirt. Deve ser uma questão de swagg.
Michel Serres
Se apenas amamos a luta e a
competição, como criar? Aí é que está a questão. Tão longamente procurado, o
segredo da criação é o mesmo que o do universal, tão longamente buscado. Os
dois descobrem-se ao mesmo tempo, exactamente aqui.
O do universal lê-se sobre o
baloiço. Ele marca a justiça, branca, e a paz renovada da partilha. Quem se
digladia não pode criar, mas repete uma conduta arcaica que mergulha as suas
raízes em comportamentos selvagens ou animais. E como indefinidamente recomeça
a imitação destes comportamentos multimilenários, não inova nem encontra.
Já alguma vez ouvistes dizer que um
animal tivesse inventado? Fruto da luta pela sobrevivência limita-se a lutar
pela vida.
A
partilha só conhece línguas universais: uma, tão fácil como cair e sempre
repetitiva, produz o barulho caótico da guerra; a outra, rara, difícil e sempre
nova, dedica-se à criação cultural.
Ao estado de paz, única boa nova da
humanidade, sucede o nascimento da novidade; a promoção da singularidade
segue-se ao estado de paz, estranha raridade da nossa história
em Para
celebrar a partilha, tradução de José M. S. Rosa, Covilhã: Universidade da
Beira Interior, Colecção Artigos LusoSofia, 2008, p. 19.
Ivo Watts-Russel
Co-fundador da 4AD, Ivo Watts-Russel (a par com Martin Hannett) foi quem mais influenciou a maneira como passei a ouvir música. Foram muitas tardes a ouvir Cocteau Twins, This Mortal Coil, The The, His Name Is Alive, The Hope Blister, Peter Murphy, Clan of Xymox, Cranes, Red House Painters, entre outros. Ivo moldou os meus ouvidos a uma nova sonoridade. Estou-lhe grato por isso.
Discos (238)
Drev
(instrumental)
Nils Økland
O corpo sobre a cama. A tarde a encerrar o dia. A casa cheia de luz. Lá fora: vento. É uma característica deste lugar. Vento. Sempre. Às vezes assobia forte. Há muito que não ouvia o vento assobiar tão forte. O gato procura as minhas mãos. Mia. A esquerda está sobre o peito. A direita: não sei onde está a mão direita. Repousa algures sobre um livro. Talvez. E algures também um mar. Ou a saudade de ver o mar. E ele aqui tão perto.
(...)
Hoje nenhum sol brilha e talvez ainda chova. O gato fez-te companhia ao pequeno almoço: torradas e uma bebida com vinte por cento de café. Olhou para ti atento. Bem abertos. Depois foste até ao chuveiro onde a água quente te ajudou a sacudir o torpor. Vestiste a roupa ideal para o "bom dia" da praxe. Óculos de sol, pois como sabes: o inferno são os outros.
Caroline Crawley ( ? - 2016)
(...)
Talvez procures algo que nunca irás encontrar. Uma paz qualquer que
vem naqueles livros de auto-ajuda (irónica etiqueta), ou até na própria Bíblia,
guardando as devidas distâncias. A verdade é que tens doze anos de catequese.
Doze anos em que foste, sem que ninguém te obrigasse, um católico praticante:
em todo o sentido da palavra. Doze anos em que procuraste acreditar em Deus.
Até que percebeste que não tinhas de procurar. Tinhas de O sentir em ti. E isso
nunca aconteceu. E lá se foi uma das hipóteses de paz. Agora, passados todos
estes anos, habituaste-te a esta inquietação, a esta espécie de serenidade
tumultuosa.
(...)
Ontem fiz parte da viagem durante a noite. Foi demorada devido ao trânsito e aos faróis dos carros. Vim parte do caminho a ouvir a rádio e a ouvir Nils Økland. Agrada-me este seu último álbum. É perfeito para a condução nocturna.
(...)
Este canto foi criado no dia 30 de Dezembro de 2005. Até à data tem cinco mil e quatro entradas (incluindo esta). Sinceramente, considero um exagero tanta entrada. Devia, sem dúvida alguma, ter-me remetido ao silêncio mais vezes.
David Lean
Dos vários filmes que David Lean realizou, apenas vi cinco deles: A Ponte Sobre o Rio Kwai (1957), Lawrence da Arábia (1962), Doutor Jivago (1965), A Filha de Ryan (1970) e Passagem para a Índia (1984). Todos eles revi-os várias vezes (excepto: Passagem para a Índia: visto hoje pela primeira vez). No entanto, posso afirmar que Lean é um dos meus realizadores favoritos, quer pela fotografia, montagem, direcção, mas sobretudo pela maneira como transportou, para o grande ecrã, os conflitos internos inerentes ao choque entre culturas (e refiro-me apenas aos filmes que dele vi). Lean é, sem dúvida, um dos grandes realizadores do nosso tempo.
Versões: Charles Bukowski
animais unidos através dos tempos ―
Van Gogh a escrever ao irmão
sobre os quadros
Hemingway a experimentar a
caçadeira
Céline na bancarrota sendo médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser
um ladrão
Faulkner bêbado nas sargetas da
sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs a matar a sua mulher
Mailer a apunhalar a sua
a impossibilidade de ser humano
Maupassant a enlouquecer num
barco a remos
Dostoievski encostado a um muro à
espera do fuzilamento
Crane a saltar do barco para as
rodas-de-pás
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como
uma batata assada
Harry Crosby a criar a Black Sun
Lorca assassinado por militares à
beira da estrada
a impossibilidade
Artaud sentado no alpendre do
manicómio
Chatterton a beber veneno para
ratos
Shakespeare o plagiador
Beethoven com um corno espetado
no ouvido contra a surdez
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche a enlouquecer por
completo
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
a sua respiração
expira-inspira
inspira-expira
estes sacanas
estes cobardes
estes campeões
estes gloriosos alucinados
a carregar este pequeno pedaço de
luz até
nós
impossivelmente
Charles Bukowski, «beasts bounding through time ―»,
em You get so alone at times that it just
makes sense, Nova Iorque: Ecco, 2002, p.21
Discos (237)
Cornbread
(instrumental)
Lee Morgan
O início da tarde e a luz mortiça
do sol. Não sabes, ao certo, o que esperas. Ou o que te apetece. Talvez que os
olhos te comecem a pesar e possas ir adormecer sobre o sofá. A única questão é
que acordas sempre maldisposto da sesta, dure ela dez minutos ou meia-hora ou
duas horas. Admiras quem adormece ao fim do almoço e acorda revitalizado, bem-disposto,
pronto para enfrentar o resto do dia. Tu, sinceramente, preferes a modorra que
te afecta quando em frente à televisão pesas figos e vês um filme. Mas agora,
Sr. Morgan, é a sua trompete que me acode. Obrigado.
(...)
Lee Morgan dá-te o mote e a janela aberta desperta os sentidos: sair. Mas preferes o refúgio da casa. O seu conforto. De manhã foste tomar o café ao lugar de sempre. Desta vez a manga-comprida em vez da manga-curta, apesar do sol. Só que uma brisa fresca arrepiou-te os braços. E desta vez não foste a pé. Levaste o carro dos teus pais, pois é preciso que a bateria não descarregue e o carro sinta que ainda não está esquecido. Sentes, no entanto, falta da tua pequena caminhada. Andar pelas ruas cada vez mais envelhecidas e vazias. Esperavas sentir já o cheiro a mosto. Ainda não foi desta.
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