Animais Incluídos - António Amaral Tavares




António Amaral Tavares
Animais Incluídos
desenhos originais de Carla Ribeiro
Medula
36 pp.
8€

Tiragem única de 100 exemplares

pedidos: medulalivros@gmail.com

(...)


A decadência de José Mourinho não está plasmada nos maus resultados da equipa que actualmente treina. A decadência está no facto de vinte alunos, de uma turma de quinto ano, não saberem quem ele é, quando mostro uma fotografia sua numa aula de Inglês. A decadência de José Mourinho está, também, no facto de a maior parte dizer "Jorge Jesus". 

Desvão - Miguel Martins



Miguel Martins
Desvão
(não) edições
2016


(...)


Ontem, à noite, o vento soprou forte. Assobiou. Enquanto lia Graham Greene (companhia destes dias), o trio de Marc Copland soava. O gato, esse, repousava ao fundo da cama, no lugar que tomou como seu. Lia Greene e pensava "a tua individualidade, o teu sentido do mundo, ainda vai dar cabo de ti; ou daqueles que à tua volta estão". Às vezes dá-me para ser um pessimista exagerado, sem luz ao fundo do túnel. E quando há luz (como é costume dizer): é um comboio. O pessimismo como forma de vida nunca me atraiu. No entanto, tampouco o optimismo. Pelo menos o optimismo que nos querem vender supostos mind trainers "especializados" em mind coaching, ou em algo que os valha. Concluo, por vezes, que não devem viver no mesmo mundo que eu. Vivendo: vêem-no, sem dúvida, de uma diferente perspectiva. Porque na verdade tudo se resume à perspectiva. A minha tento que seja de frente; e não de lado, de costas, de cócoras, de cabeça pró ar, etc. e tal. De frente dá-me mais jeito. 

Uma imagem para o dia



Graham Greene


O sentido da infelicidade é muito mais fácil de comunicar que o da felicidade. Parece que, na miséria, tomamos consciência da nossa própria existência, que mais não seja sob a forma de um monstruoso egotismo: esta minha dor é individual, este nervo que se crispa pertence-me e não a outro.


em O Fim da Aventura, tradução de Jorge de Sena, 3ª edição, Edições ASA, 2000, p. 75.

Discos (236)



One Finger Snap
(instrumental)

Herbie Hancock


Essa coisa do tempo. Dizer "houve um tempo" como se fosses já demasiado velho. Afinal tens apenas trinta e nove anos. Ou: trinta e nove primaveras. Muitas vezes pensaste por que razão não se dirá "trinta e nove outonos", ou "verões", ou "invernos". Por que razão "primaveras"? Logo essa estação, a que te traz mais alergias (não confundir com alegrias). A verdade é que sempre preferiste o Outono. É nele que te sentes bem. Também é a estação do ano mais bonita na tua vila, quando o verde dá lugar a uma série de cores. Mas isso agora pouco importa. "Houve um tempo" em que isso te dizia mais do que hoje.

(...)


Sabes que começa a ficar frio quando o gato, durante a noite, procura o calor do teu corpo. Enrola e encosta-se a ti. Depois: ali fica e a sua respiração torna-se cada vez mais pesada e lenta. O contra-baixo de Gary Peacock e o piano de Marc Copland enchem o quarto, enquanto Graham Greene, sobre a cama, espera pacientemente a tua mão, leitura. Lá fora há um cão que ladra. Talvez procure afastar de si a noite, os seus exércitos. Os teus olhos pesam. E acabas por adormecer. 

Escreves sempre...


Escreves sempre
deus com minúsculas —
nunca em ti sentiste
a sua maiúscula
presença

Nem nas árvores
ou animais — muito
menos nos olhos
de outros como tu
homens

Fisioterapia - F. S. Hill



F. S. Hill
Fisioterapia
(não) edições
2016

(...)


Quinze dias depois e o gato está mais gordo e as árvores começam a mudar de cor. Aqui, já dormi com um cobertor na cama. Na aparelhagem o blues de John Fahey. Na rua há menos gente. Devem andar a preparar as vindimas. Começam a ver-se carros carregados de fetos e pinhas e lenha. A vila começa a preparar-se para o Outono e Inverno. Mas ainda há um resto de sol.

(...)


Todos os anos, por esta altura, é sempre a mesma coisa. Arrumar as tralhas, procurar a casa. Todos os anos há algo de novo. No outro dia alguém me pediu duzentos euros/tudo incluído por um quarto (com casa-de-banho e serventia de cozinha). Até aqui tudo bem, apesar de considerar ser um abuso por um quarto. Mas depois chegou a novidade: "são duzentos euros/tudo incluído, mas se passar vinte euros do valor que costumo pagar, paga o valor a mais.". Outra novidade: "o quarto são duzentos e cinquenta euros/tudo incluído, mais cinquenta euros se quiser tratar da roupa.". Isto é: iria pagar mais cinquenta euros para lavar a roupa. Inacreditável?  Não: é mesmo verdade. Justificação: "tenho a máquina-de-lavar na casa-de-banho do meu quarto.". E depois há aquelas pessoas que têm "casas" e "quartos" para alugar, mas esquecem coisas essenciais, como por exemplo o fogão: "ah! como é professor pensava que comia fora!". Ou a máquina-de-lavar: "ah! como é professor pensava que ia todos os fim-de-semana a casa e tratava da roupa lá!". Podem não acreditar, mas já fui ver um "quarto" sem roupeiro: "ah! como é professor pensava que a roupa ficava na mala!". Tudo isto é verdade. Triste. Mas é verdade.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (16)


1. Christopher Hitchens publicou, em Outubro de 2003, o texto Mommie Dearest, sobre a beatificação daquela que hoje é conhecida como Santa Madre Teresa de Calcutá. É um texto forte, pungente e sem papas na língua. Em determinado ponto o autor remete-nos para um texto, de Orwell, onde Gandhi é desancado: «Saints should always be judged guilty until they are proved innocent, but the tests that have to be applied to them are not, of course, the same in all cases. In Gandhi’s case the questions one feels inclined to ask are: to what extend was Gandhi moved by vanity – by the consciouness of himself as a humble, naked old man, sitting on a praying-mat and shaking empires by sheer spirutual power – and to what extend did he compromise his own principles by entering into politics, which of their nature are inseparable from coercion and fraud?». («Reflections on Gandhi», Shooting an Elephant and Other Essays, 2009, p. 347). Gosto de Gandhi. No entanto, não posso deixar de me questionar, ao ler as palavras de Orwell. Em relação a Santa Madre Teresa de Calcutá, a situação, quanto a mim, é completamente diferente, porque se encontra no campo oposto ao de Gandhi, pois este nunca foi canonizado, tendo em conta que nunca pertenceu à Igreja Católica (se tivesses pertencido não tenho dúvidas de que já seria Santo há muito). No entanto, se tudo aquilo que Hitchens escreveu é verdade, nomeadamente: «she was a friend to the worst of the rich, taking misappropriated money from the atrocious Duvalier family in Haiti (whose rule she praised in return) and from Charles Keating of the Lincoln Savings and Loan. Where did that money, and all the other donations, go?»: temos, sem dúvida alguma, que nos questionar.


2. Todavia, temos que pensar que a Igreja Católica e seus seguidores sempre foram um alvo fácil, principalmente para um intelectual como Hitchens. Não nos podemos esquecer que a Igreja Católica é composta por homens e mulheres, com todas as virtudes e defeitos. As fragilidades são mais do que muitas. O problema é que a maior parte das vezes queremos uma Igreja Católica à nossa imagem e semelhança, principalmente quando a ela não pertencemos, ou dela nos afastámos. A verdade é que queremos uma Igreja Católica que defenda o aborto, a contracepção, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo género, todas essas coisas que defendemos (eu, pelo menos, defendo). Mas também foi Orwell que um dia escreveu: «Uma das analogias entre comunismo e catolicismo é que só os indivíduos com estudos são completamente ortodoxos» (O caminho para Wigan Pier, 2003, p. 217). Sirvo-me desta frase de Orwell apenas para ilustrar a questão da ortodoxia. Pois é disso que se trata: tanto do lado da Igreja Católica, ao canonizar Santa Madre Teresa de Calcutá, como do lado de Hitchens, ao demonizar a mesma Santa. Neste género de questões, discussões, a heterodoxia não é bem-vinda, pois não é no seu campo que a bola é jogada. Ser heterodoxo, nestas questões, é estar sempre fora de jogo.

Georg Simmel


Os problemas mais profundos da vida moderna provêm da pretensão do indivíduo de resguardar a autonomia e a peculiaridade da sua existência em face das prepotências da sociedade, da herança histórica, da cultura exterior e da técnica da vida — a última reestruturação a ser alcançada da luta com a natureza, que o homem primitivo teve de levar a cabo em prol da sua existência corpórea.


em As Grandes Cidades e a Vida do Espírito, tradução de Artur Morão, Covilhã: Universidade da Beira Interior, Colecção Artigos LusoSofia, 2009, p. 3.

Discos (235)




Soweto Sorrow
(instrumental)

Romano | Sclavis | Texier


Calor. Sente-se e respira-se. A ventoinha tenta a custo. O gato à janela procura a frescura da noite. Na sala os teus pais procuram um canal de televisão. Têm mais de cento e cinquenta canais mas é-lhes difícil escolher um. Tu entendes bem isso: o lixo, afinal, é muito; e no meio dele dificilmente uma flor crescerá. Nos teus ouvidos Romano | Sclavis | Texier. A noite, por momentos, parece menos quente. Embora o suor, nas tuas costas, te diga o contrário.

(...)


Preparo o corpo para a tarefa de empacotar, embalar. Sacos e malas esperam sair da penumbra dos seus cantos, esquecidos que estiveram durante um mês. Penso muitas vezes na possibilidade de a minha vida caber toda dentro duma mala. E de ser essa a única coisa coisa que tenho para oferecer. E de ser essa a única coisa que tenho e que posso em verdade dizer que é minha. Sei que estou sempre a dizer o mesmo. Mas o certo é ir para o meu décimo quinto ano de estrada, porque, na realidade, é a única carreira profissional que tenho: a estrada. É a única onde tenho progredido.

O Tempo dos Assassinos - Henry Miller



Henry Miller
O Tempo dos Assassinos
tradução de José Miranda Justo
Antígona
2016