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Escrevo antes de uma partida. Partida que preferia não fazer. Mas como chegar se não se partir? 

Meg Hewitt



Rollercoaster
© Meg Hewitt

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Há alguns dias que andas a aperfeiçoar a corrida. Hoje conseguiste correr três quilómetros sem parares uma única vez. É claro que o ritmo não foi muito rápido. Foram trinta minutos de corrida permanente. Trinta minutos para fazeres três quilómetros. Nada mau. Depois alongaste e tomaste banho. Agora ouves Coltrane (Olé, 1961: John Coltrane [saxofone soprano e tenor], Freddie Hubbard [trompete], Eric Dolphy [saxofone alto e flauta], McCoy Tyner [piano] Reggie Workman e Art Davis [contrabaixo] e Elvin Jones [bateria]) enquanto Malick: o gato observa a rua do seu lugar preferido ao fim da tarde: o peitoril da janela. Isso antes de ver que usas o teclado do computador e vir ter contigo, interrompendo, dessa maneira, aquilo que poderia vir a ser um grande texto sobre a inevitabilidade do inevitável. 

Plansel Selecta



Verdelho

Discos (230)



O Berimbau
(instrumental)

Noite. Acabaste de tomar banho depois de jantar. Mas antes preparaste as brasas para um grelhada e antes de tudo isso foste correr um pouco, pois precisas de transpirar o mundo e as suas camelices. Agora, enquanto escreves estas linhas e ouves o berimbau de Nana Vasconcelos, estás atento às vozes que vêm da rua e que são de uma família a jantar do seu pequeno jardim. Os teus pais já estão frente à televisão. O gato dorme numa das camas da casa. Lá fora a noite espera por ti. Mas antes, antes, tens de escrever tudo isto. 

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Pelo caminho vou cumprimentando as pessoas. Antes não o fazia. Era uma espécie de arrongant prick. Mas agora ando a tentar mudar. A meio do caminho não encontrei uma pedra, mas encontrei uma Senhora com um grande e pesado saco de compras, a quem perguntei ― quer que lhe leve o saco? ― não é preciso… ― mas olhe que eu vou prá baixo e não custa nada ― fez uma pausa e ― és o filho da Lélé, não és? ― e como a resposta foi afirmativa, deixou-me levar-lhe o saco. Pelo caminho e na conversa fiquei a saber que a irmã dela é afilhada dos meus avós maternos. Quando chegámos à porta de casa, lá estava a irmã à sombra fresca ― bom dia! fiquei a saber que e afilhada dos meus avós! ― és filho de quem? ― da Lélé ― sim, é isso… os teus avós eram meus padrinhos. Rimos, deixei o saco e vim de lá contente com tudo isto.

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Sinto-me frenético como se a noite tivesse passado em branco claro de insónias. Mas assim não foi e por isso não entendo esta minha pele-de-galinha em estado bruto de nervos.

Bredun Edwards



© Bredun Edwards

Ruben A.


O homem teve família como tantos homens. E tinha uma vidraça como tantas casas. Descrever a família de um homem é tão absurdo como descrever as janelas e as portas de uma casa. Estão ali ― umas mais direitas do que outras, outras menos abertas do que outras, uns distantes, outros apenas altos e largos, uns que ficam casados, outras embaciadas.


em Páginas (IV), prefácio de Isabel da Nóbrega, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 36.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (14)


1. O camarada Arnaldo Matos escreveu um editorial (no Luta Popular) cujo título é Resistência não é Terrorismo. Até aqui tudo bem. É a sua visão da coisa. Se pensarmos na Resistência Francesa, podemos concluir: não é terrorismo. Mas também podemos pensar: “depende do lado em que estamos”: o que nos levaria a uma conversa muito longa. No entanto, tudo muda quando o camarada Arnaldo Matos diz: «os actos de resistência dos povos explorados, oprimidos e agredidos não são actos terroristas; são actos legítimos de guerra, sejam praticados na frente de combate, se houver frente de combate, sejam praticados no interior do país imperialista agressor, como sucedeu nos ataques levados a cabo em Nova Iorque e em Washington, em Paris, em Londres, em Madrid ou em qualquer outro lugar onde o imperialismo possa ser atacado pelos povos agredidos, como ocorreu anteontem em Nice.» (o sublinhado é da minha responsabilidade). Considerar como um acto de resistência o atentado de Nice, ou todos os outros referidos, é pura e simplesmente uma grande irresponsabilidade. Ou, então, uma grande imbecilidade. Mesmo para alguém que pediu morte aos traidores.

2. A Turquia de Erdoğan suspendeu a Convenção dos Direitos Humanos. As convenções são como os dias mundiais disto e daquilo: parecem coisas demasiado óbvias para serem convencionadas ou para serem relembradas no calendário. Mas, verdade seja dita, ainda bem que existem, pois anda por aí gente muito esquecida. A Turquia de Erdoğan suspendeu algo que há muito estava em causa naquele país. Se dúvidas havia em relação a Erdoğan, todas elas ficam agora desfeitas.

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Faço uma pausa na leitura de Páginas IV de Rúben A. (a introdução de Isabel da Nóbrega é muito boa) e bebo uma Bohemia Puro Malte. Tiro a respectiva fotografia e coloco no Facebook. Ainda me lembro do tempo em que nada disto acontecia. Durante quanto mais tempo irei lembrar?

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Uma rapariga sentada aqui na mesa ao lado lê Murakami. Foi autor que nunca explorei devido, em grande parte, ao hype que à sua volta se criou. Do Japão apenas conheço relativamente bem a obra de Basho e Mishima. E para quê ler Murakami se ainda não li, por exemplo, Proust ou Shaw ou Musil ou toda a obra de Hamsun ou Bernhard ou Céline? No entanto, não deixa de ser assinalável o facto de estar uma rapariga a ler numa esplanada em Manteigas. Não é comum. Aposto que não é de cá.

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Há uma leve brisa que refresca o ar. A sombra das árvores é fresca e o vento entre os ramos: relaxante. Pena Bon Jovi nas colunas da aparelhagem.

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É nestas alturas que coloco de lado toda a minha bazófia poética e filosófica. Deixo de me preocupar com questões de imagética e de metafísica. A cabeça esvazia-se da minha intelectualidade bacoca. Concentro-me, apenas, na intensidade das brasas.

Mitsuharu Maeda



© Mitsuharu Maeda

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Continuo a leitura de Páginas de Ruben A.. Entrei hoje no volume IV. O leitor português é muito avesso à leitura de diários, ou autobiografias. A bem da verdade: os autores portugueses também são avessos à escrita de diários e autobiografias, exceptuando Vergílio Ferreira e Miguel Torga (que têm no diário grande parte da sua obra), ou Maria Gabriela Llansol (alguns dos seus livros são paradiarísticos), ou Marcello Duarte Mathias. Outros exemplos poderão surgir (é ler Máscaras de Narciso, de Clara Rocha). O diário enquanto género literário não desperta tanto interesse como a poesia ou o romance. Talvez esteja relacionado com a falta de mediatismo. Os seis volumes de Páginas de Ruben A. são, talvez, os mais ignorados. E é pena. Neles encontramos um escritor com E. Neles encontramos um escritor esquecido. Com E, também.

Reverso (22)




Os ABBA fizeram parte da minha meninice. Mas foi com os Portishead que eu forjei a minha adolescência. A verdade é que esta versão de SOS dos ABBA levanta uma importante questão: como é possível os ABBA terem composto uma música tão boa? A pop dos ABBA é popular. A pop dos Portishead é demasiado cinzenta. Porque é nos diferentes tons do cinzento, nesse espaço intermédio entre o branco e o negro, que os Portishead se movimentam. Esta versão é uma boa prova disso.

Ensino Recorrente



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O calor lá fora. Mesmo assim: arriscaste uma ida ao café, no centro da vila. Contigo ninguém se cruzou. Pensaste "será devido ao calor?", mas concluis que a razão é a mesma de sempre: a vila envelhece e está cada vez mais vazia. Reparaste, também, na quantidade de placas com as palavras "vendo" ou "vende-se". Alguém passa por ti e pergunta ― és o Manuel, não és? não te estava a conhecer ― e dois dedos de conversa à sombra ― que isto hoje está muito quente já a esta hora ― e trocam-se palavras de circunstância até ao inevitável ― dá cumprimentos meus aos teus pais ― seguindo cada um o seu caminho.

Um poema de A. C. Swinburne


Rosamunda

O medo é uma almofada sob os pés do amor,
Com cores que são para eles tranquilas;
Vermelho suave e branco tingido de sangue, azul
De flores, verde que se une ao estio,
Doce púrpura prometido ao mar e um negro calcinado.
Todas as formas coloridas do medo, presságio e mudança,
Uma triste profecia seguida de incertos rumores,
Premonições, astrologias e perigosas
Inscrições, o que a memória nos recorda,
Tudo fica encoberto pelo manto do amor,
E, quando ele o sacode, tudo será derrubado,
Agitado e levado no rosto poeirento do ar.


em Poemas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães e introdução de Fernando Guimarães, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, s/p.

Alan Vega (1938-2016)



Discos (229)



Night train to you
(instrumental)

Enquanto lá fora a noite, o gato aqui dentro perscruta-a do peitoril da janela aberta. Tu procuras o ritmo certo para contares tudo isso, mas a brisa que entra leve: distrai. Talvez não seja a hora nem o tempo. Talvez devas apenas aproveitar o momento, enquanto lá fora a noite.

Ensino Recorrente



Quinta da Alorna



Verdelho

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Às vezes leio aquilo que aqui tenho escrito. São apontamentos dos dias que passam, afinidades com músicos, escritores, pintores, fotógrafos. Nada mais do que isso. Tudo aquilo que aqui faço são uma espécie de exercício. Resta ao leitor escolher de que tipo.

Elie Wiesel (1928-2016)



Michael Cimino (1939-2016)




Dois filmes por ele realizados constam desta lista. Bastar-me-ia O Caçador.

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Agora que recuperas o fôlego de mais uma caminhada pelas ruas da Vila, reparas, mais uma vez, que encontras sempre as mesmas pessoas à mesma hora. Hoje, que é Domingo, há uma pequena variante: a Missa: que faz sair de casa rostos diferentes, mas também teus conhecidos. Cumprimentas a todos com um "bom dia". Alguns com um aperto de mão. "Dois beijinhos não, que estou todo transpirado", dizes às senhoras que encontras e que concordam contigo.