(...)


Enquanto caminhava pela Vila, cruzo-me com alguém. Reconhece-me e fala-me. Mas eu não o reconheço a ele. Depois ― eh pá! desculpe lá… já não o via há tanto tempo… está mais magro… muito mais magro ― o seu rosto sorri e diz ― fui operado à máquina há três anos… a aorta estava toda entupida… tiveram que a substituir… o que vale é que ainda havia peças ― e rimos os dois às gargalhadas.

Ensino Recorrente



(...)



Antes da idade das piscinas municipais, ou do Rio, havia a Ribeira das Forneas. Era o meu slide and splash, aquela pedra ali mais branca. Levava mais água, nesse tempo. Havia, até, uma espécie de "cachoeira": nome que tínhamos aprendido numa telenovela brasileira da altura. Rasguei ali muita cueca. Sim: íamos de cuecas.

(...)


São já 350 os poetas que podem ser lidos ali ao lado.

Um poema de António Leitão


Chuva Ácida

II

Candeia de Diógenes
que vais distraída
na mão de que morte
buscando que vida,

a luz de teu bico
é minha ou é tua?
É toda de quantos
povoam a rua.


em Esta Voz Que Anda Comigo - Poemas: 1959-2001, Lisboa: Editora Rei dos Livros, 2001, p. 187.

Livros (136)




Cheguei a este livro por pura ignorância da minha parte. Na altura procurava uma antologia de Joseph Brodsky, também publicada na Cotovia, e deparei-me com a antologia de Johannes Bobrowski, comprando-a pensando que era a daquele outro. Hoje penso que foi um feliz acaso confundir o apelido Brodsky por Bobrowski. A poesia de Bobrowski (enraizada em crenças profundas da mitologia germânica e da história medieval do espaço geográfico entre Vístula, Memel e Volga, passando pela Sarmácia romana) transporta-nos para um outro tempo. A defesa da dignidade humana é uma constante, fruto das vivências do próprio autor (membro da Igreja Confessional Alemã [Igreja que se opunha ao regime nacional-socialista], cabo do exército nazi durante a Segunda Grande Guerra Mundial e prisioneiro da União Soviética [onde trabalhou numa mina de carvão]). Bobrowski é um autor que vale a pena explorar.

Manuel de Freitas


Hermenêutica

                                para o Rui Caeiro


Um crítico literário disse
que Rimbaud fazia festas à pila
(e por isso escreveu "Dévotion").

Houve outro que disse que não.


em Game Over, Lisboa: & etc, 2002, p. 47.

Víveres - Miguel Cardoso



Miguel Cardoso
Víveres
Tinta da China
2016

(...)


O calor interrompeu a tua caminhada. Tomaste o pequeno-almoço e saíste. Passaste no café de sempre para a obrigatória dose de coragem líquida e foste dar a volta do costume. Passaste pelas ruas da infância e não há hoje crianças a correr. Só velhos sentados à sombra das casas. Olham-te com desconfiança, apesar do bom-dia que dás. Há muito que deixaram de te conhecer. Alguns, às vezes, perguntam se és de cá. Tu respondes que sim, que és filho do teu Pai e da tua Mãe. E lá te reconhecem. E tu continuas a caminhada.

Um poema de Rodrigo Coelho dos Santos


55 - uma pequena esperança


                #1 muitas vezes é
preciso apenas aquele pequeno
estímulo para tudo de repente
brotar: uma réstia de sol, uma
gota de água, o gorjeio do vento.
e não se torna adorável o dia a
partir de então; e o coração não
floresce como quando amanhece
uma paixão?


               #2 e no entanto pode
ser que não vá além disso, dum
perfeito instante, dum relampaguenante
clarão, apenas para o mundo se
obscurecer após o encantamento
no seio da noite. mas o nosso olhar
sabe nadar nas trevas agarrando-se
a um pequeno ponto, uma pequena
esperança de partir daí para a
expansão do universo


em A Rolha do Espírito, Guarda: Edição do Autor, 2016, s/p.

Discos (228)




In every winter there's a different cold

Burzum


Houve um tempo em que as ruas da Guarda, com o seu nevoeiro, eram a nossa floresta norueguesa. Vagueávamos por elas como sombras, ou espectros. O preto dominava as roupas. Alguns cabelos compridos. Começávamos a experimentar o assombro dos dias. 

(...)


Português - 6º C
2015-2016

No outro dia falei aqui desta fotografia. Estavam a faltar quatro alunos (era o último dia de aulas) e, como podem ver, sei usar um selfie-stick. Foi uma turma com a qual gostei muito de trabalhar: interessada, trabalhadora, humilde, divertida e, principalmente, curiosa com as coisas do mundo. Até sempre, malta.

Pensamento do dia



Barbaros Erköse
Atlantik Taksin
Cazname
1997


(...)


É novamente Verão. Às 22h34m será o Solstício. Mais um ano sem fazer uma festa à-Gatsby. 

F. Scott Fitzgerald


There was music from my neighbor’s house through the summer nights. In his blue gardens men and girls came and went like moths among the whisperings and the champagne and the stars. At high tide in the afternoon I watched his guests diving from the tower of his raft or taking the sun on the hot sand of his beach while his two motor-boats slit the waters of the Sound, drawing aquaplanes over cataracts of foam. On week-ends his Rolls-Royce became an omnibus, bearing parties to and from the city, between nine in the morning and long past midnight, while his station wagon scampered like a brisk yellow bug to meet all trains. And on Mondays eight servants including an extra gardener toiled all day with mops and scrubbing-brushes and hammers and garden-shears, repairing the ravages of the night before.
Every Friday five crates of oranges and lemons arrived from a fruiterer in New York—every Monday these same oranges and lemons left his back door in a pyramid of pulpless halves. There was a machine in the kitchen which could extract the juice of two hundred oranges in half an hour, if a little button was pressed two hundred times by a butler’s thumb.
At least once a fortnight a corps of caterers came down with several hundred feet of canvas and enough colored lights to make a Christmas tree of Gatsby’s enormous garden. On buffet tables, garnished with glistening horsd’oeuvre, spiced baked hams crowded against salads of harlequin designs and pastry pigs and turkeys bewitched to a dark gold. In the main hall a bar with a real brass rail was set up, and stocked with gins and liquors and with cordials so long forgotten that most of his female guests were too young to know one from another.
By seven o’clock the orchestra has arrived—no thin fivepiece affair but a whole pitful of oboes and trombones and saxophones and viols and cornets and piccolos and low and high drums. The last swimmers have come in from the beach now and are dressing upstairs; the cars from New York are parked five deep in the drive, and already the halls and salons and verandas are gaudy with primary colors and hair shorn in strange new ways and shawls beyond the dreams of Castile. The bar is in full swing and floating rounds of cocktails permeate the garden outside until the air is alive with chatter and laughter and casual innuendo and introductions forgotten on the spot and enthusiastic meetings between women who never knew each other’s names.
The lights grow brighter as the earth lurches away from the sun and now the orchestra is playing yellow cocktail music and the opera of voices pitches a key higher. Laughter is easier, minute by minute, spilled with prodigality, tipped out at a cheerful word. The groups change more swiftly, swell with new arrivals, dissolve and form in the same breath—already there are wanderers, confident girls who weave here and there among the stouter and more stable, become for a sharp, joyous moment the center of a group and then excited with triumph glide on through the seachange of faces and voices and color under the constantly changing light.
Suddenly one of these gypsies in trembling opal, seizes a cocktail out of the air, dumps it down for courage and moving her hands like Frisco dances out alone on the canvas platform. A momentary hush; the orchestra leader varies his rhythm obligingly for her and there is a burst of chatter as the erroneous news goes around that she is Gilda Gray’s understudy from the ‘Follies.’ The party has begun.


em The Great Gatsby, Free Ebooks at Planet Eboom.com, pp. 43-45

Martin Hannett



Cheguei a ele através da música da Joy Division. Só mais tarde fiquei a conhecer outras bandas que produziu: The Durutti Column, A Certain Ratio, Magazine, New Order, The Stone Roses, Happy Mondays. E um dia fiquei a saber que nunca quis produzir um álbum dos The Fall. Martin Hannett será sempre, para mim, uma referência musical.

Sá de Miranda


107.


Alma, que fica por fazer desd’hoje
na vida mais, se a vã minha esperança,
que sempre sigo, que me sempre foge,
já quanto a vista alcança e não alcança?

Fortuna que fará? Roube, despoje,
prometa doutra parte em abastança,
que tem com que m’alegre, ou com que anoje?
tanto tempo há que dei mão à balança.

Chorei dias e noites, chorei anos,
e fui ouvido ao longe, pelo escuro
gritando, acrecentar muito em meus danos.

Agora, que farei? Por amor juro
de tornar a cantar fora d’enganos
e, por muito do mal, posto em seguro.


em Obras Completas - Volume I, texto fixado, notas e prefácio pelo Professor M. Rodrigues Lapa, Lisboa: Sá da Costa Editora, 1960, p. 306.

Livros (135)



Gosto muito da poesia de Sá de Miranda. Aliás: já o disse: sou mais Sá de Miranda do que Camões. Este primeiro volume está dividido em três partes: Trovas à Maneira Antiga, Poesia Bucólicas e Sonetos. Comprei-o há mais de oito anos na livraria Sá da Costa. Acompanhou-me durante algum tempo, o suficiente para o ler. Mas, por vezes, ainda a ele volto. Hoje: por exemplo.

(...)



Havia a água que corria livre e o chão onde pela primeira vez andaste de bicicleta sem o apoio das rodas pequenas. Havia o Posto da GNR ali em cima. Havia.


Foi, talvez, o primeiro nome de rua que aprendeste. Não por ser a tua, mas porque era dos teus Avós. Tua, afinal, também.


Já não se ouvem os carrinhos que faziam corridas no rego da água. E quando a água corria: era a vez dos pequenos barcos de cortiça com palitos a servirem de mastro e pedaços de papel a servirem de vela. Os gritos nossos pela rua abaixo.


Às vezes o pão com marmelada comido nas escadas e o olhar vigilante vindo de uma janela.


Sinal dos tempos: o ribeiro cheio de água quase em finais de Junho. Como outrora.


O portão fechado e algumas memórias do lado de lá. O tanque grande cheio de água. O Janota de pêlo imaculadamente branco e tu sobre o seu dorso. Mais tarde foste visitá-lo. Estava quase cego, mas reconheceu, ainda, a tua voz.


Quantas foram as vezes que procuraste o caminho mais curto por entre as pedras?

Um poema de Hart Crane


IV Cabo Hatteras
(excerto)


«Cronistas dos tempos futuros» ― ah, sílabas de fé!
Walt, diz-me Walt Whitman, se o infinito
É ainda o mesmo como o tempo em que caminhavas na praia
Perto de Paumanok ― a tua patrulha solitária ― e ouvias a aparição
Através da ressaca, a sua nota de pássaro caindo lentamente…
Para ti, as paisagens e esta geração de torres,
Tua ― a melodia que se ergue na falésia.
Oh Caminhante sempre em frente pelos caminhos livres!
Não ainda este nosso império, mas o labirinto
Onde os teus olhos, como os do Grande Navegador sem navio,
Irradiam dos grandes rochedos em cada cripta celular
Do tráfego pelos desfiladeiros… Confrontando a Bolsa,
Sobrevivendo num mundo de acções, ― também elas se estendem
Pelas colinas onde outras árvores se dispersam
De novo nas quintas de Connecticut, pastagens abandonadas, ―
Olhos de marés e mares, sem recusas e plenos de mitos!

O gemido nasalado do poder fustiga um novo universo…
Onde pilares em jorros seguem o rasto do céu nocturno,
Sob indefinidas pilhas da gigantesca central eléctrica
As estrelas ferem os olhos com aguçados provérbios de amoníaco,
Novas realidades, novas ideias vagas no murmúrio aveludado
Dos dínamos, que perturbam a audição…
O símbolo do poder, ― rolamentos e bobinas aperfeiçoadas ―
Assente no batimento de correias sobre bobinas ensurdecedoras, funcionando
Na impressionante agitação, a energia controlada das estrelas.
Com que fim? O choque bifurcado do trovão vem de minuto a minuto
Distraindo-nos; mas, de repente, no turbilhão das armaduras dos condensadores,
Brilhantes como olhos de rãs, rindo no contorno
De gargantas de aço ― ligados por um eixo, aprisionados
Numa disposição em espiral, agrupados em mútua alegria
Os rolamentos cintilam, ― Oh sem ruídos reluzentes
Nas espirais lubrificadas de um êxtase cego!


em A Ponte, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa: Relógio D’Água, 1995, p. 71 e p. 73.

(...)



Não sei se alguma vez tropecei nestas escadas de granito. Sei apenas que nelas me sentei várias vezes, pois davam para a casa que me viu crescer até aos cinco anos. Hoje passei por lá, na esperança de fotografar a infância. Mas nem a memória dela aparece na fotografia: demasiadas ervas-daninhas, casas abandonadas à sua volta. E, nada disto, pertence à minha infância. 

Ensino Recorrente



Um poema de Miguel Alexandre Marquez


as velhas temem a deus
peito de fora o glabro
ventre à provecta luz
do dia amam de leite
odeiam de vinho os
filhos das outras à
noite recolhem em
flor mirrados botões
as tetas pra dentro
nos baús inchados
com idosos globos
de naftalina.

em Coda, com desenhos de Bruno Dias Vieira, Lisboa: Língua Morta, 2016, p. 35.

Livros (134)



Li-o há muito e reli-o há pouco. Não sou fã, confesso, das traduções de Maria de Lourdes Guimarães, mas isso agora não vem ao caso. Hart Crane é um poeta que leio sempre com gosto, apesar de não ser muito das minhas afinidades afectivas. Isto é: não pertence ao meu inner circle; apesar de fazer parte do meu circle. A Ponte é um livro com poemas de grande fôlego. Está ali a modernidade toda.

(...)


Escreves esta coisas. Sabes que nada mudará no teu dia. Mas escreves. Insistes. E essa não é uma das tuas principais características. Costumas desistir. Com facilidade.

Os Frutos da Terra - Knut Hamsun



Knut Hamsun
Os Frutos da Terra
tradução de João Reis
Cavalo de Ferro
2016

Um poema de Wilfred Owen


A Carta

C. E. B. Dez de Junho. Meu Amor
(Lápis de um raio! Olha, Bill, passa aí a navalha.)
Tudo corre, querida, à maravilha.
Este ano acaba a guerra, estou em crer.
Hunos de capacete a gente poucos vê.
O perigo anda lá longe. O rancho é menos mau.
Quem me dera provar dos teus biscoitos.
(Dá-me um bocado, Jimmie, do teu pão)
Por hoje creio não há que dizer mais.
(Não dás? Estupor! Não dês então
E passa para cá o meu cigarro!)
Para eu regressar já pouco falta. Não te aflijas.
Estou melhor dos pés, como já disse.
Estamos agora a descansar. Não te apoquentes.
(VRACH! Ena, pai da vida! Esta passou rente!)
Pede à mãe que te empreste meia libra.
Beijos à Nell e ao Bert. Quando eu e tu ―
(Eh! Com os diabos! Firmes? Firme!
Jim, ouve rapaz, dá-me uma ajuda aqui
Meu Deus! Levei um tiro. Aguentar. Vai mesmo mal.
Deixa! Manda ao diabo a tintura de iodo! Pega lá, Jim.
A minha patroa, Jim, é uma santa. Escreve-lhe tu.)


em Elegias, selecção, prefácio e tradução de João Almeida Flor, Lisboa: Relógio D’Água, p. 63.

Discos (227)



You never had a thing
that you could call your own

The Durutti Column


As traseiras do prédio davam para as traseiras de prédios. Chovia. Tínhamos almoçado e ouvíamos música. A noite ia ser passada no Bairro. Foram alguns fins-de-semana assim. Vinha da Guarda e recebias-me em tua casa. Nesse dia decidiste apresentar-me a Vini Reilly, à sua fragilidade. A voz de Amália soava lá no meio. E soava bem. 

(...)


Hoje tirei uma selfie com os alunos da minha turma do sexto ano. A certa altura digo vou dar-te o meu mail para me enviares a foto e a resposta não se fez esperar mail? 'tão o telemóvel do stôr não tem bluetoothtem, mas eu não sei trabalhar com isso  olhou para mim com ar de espanto dê cá que eu trato de tudo. E tratou. E fiquei a sentir-me como se o meu lugar fosse na Idade da Pedra.

Ensino Recorrente



Diálogos (27)


John Proctor: Because it is my name! Because I cannot have another in my life! Because I lie and sign myself to lies! Because I am not worth the dust on the feet of them you have hanged! How may I live without my name? I have given you my soul; leave me my name!


em As Bruxas de Salem (The Crucible) de Nicholas Hytner (1996).

Alberto Caeiro



De todos os heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é, sem dúvida, aquele que mais me diz. A sua metafísica e a sua cosmogonia interessam-me particularmente. A simplicidade do dizer: também. Conta a "lenda" que Fernando Pessoa escreveu O Guardador de Rebanhos em pé, numa só noite (ou terá sido Ode Triunfal de Campos?). Tudo isto para dizer apenas que li O Guardador de Rebanhos de uma só vez, numa noite de Verão quente, deitado sobre a minha cama em Manteigas: Leve, leve, muito leve,/Um vento muito leve passa,/E vai-se, sempre muito leve./E eu não sei o que penso/Nem procuro sabê-lo.

Ensino Recorrente



(...)


Não te falarei, leitor, desta tarde burra. Nem só de manhãs são feitos os dias. E dias há que parecem apenas tardes pardas, abafadas. Esta é uma tarde assim, leitor. Entra uma brisa pela janela mal fechada, e não procuro com isto fazer qualquer alusão àquela música dos Rádio Macau. Procuro apenas dizer que a janela está mesmo mal fechada. Nada mais. Nada menos. 

Um poema de César Vallejo


XXXIV

Acabou-se o estranho, com quem, tarde
na noite, regressavas, palra e palra.
Ninguém haverá já que me aguarde,
preparado o meu lugar, bom o que é mau.

Acabou-se a afectuosa tarde;
tua grande baía e teu clamor; o palratório
com tua mãe já tão cansada
que nos oferecia um chá pleno de tarde.

Acabou-se por fim tudo: as férias,
tua obediência de peitos, tua maneira
de pedir-me que não me vá embora.

E acabou-se o diminutivo, para
minha maioridade na infinita dor,
e o nosso ter nascido assim sem causa.


em Antologia Poética, selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 50.

António Amaral Tavares




Foi Jorge Fragoso quem me deu a conhecer a poesia de António Amaral Tavares. Li o primeiro livro: Trabalhos em Vidro: e tive necessidade de entrar em contacto com o António, convidando-o para publicar na Medula. Foi assim que apareceu Talvez Seja Essa Certeza, que recebeu o Prémio Nacional de Poesia Diógenes. Recentemente, publicou pela Língua Morta o livro Movimento de Terras, que reúne a sua poética. A melhor crítica que ouvi à sua poesia foi a seguinte: «alguém que não procura fazer literatura». E esta afirmação é verdadeira e é verdade: o António não tem a preocupação de fazer literatura, o que lhe dá uma grande vantagem sobre alguns dos poetas da sua geração. Tenho o prazer de ser amigo do António.

(...)


Os dias lá vão acumulando o seu pó e tu fazes o possível para não espirrar. Tentas não te deixar ir. Sobretudo: resistes. A Constituição da República Portuguesa parece que te dá esse direito no seu artigo vigésimo primeiro. Resistes. Sobretudo. Contra tudo. Por tudo. E com a vantagem de não teres de partir para a clandestinidade, apesar de te sentires suficientemente clandestino.