Pensamento do dia



Michael Gordon
Rushes for Seven Bassons
Rushes
2014

Livros (133)




Para um admirador incondicional da música de Leonard Cohen (como eu sou), este livro pode ter um sabor amargo. Explico: nele vemos diferença entre Cohen-poeta e Cohen-letrista. E a diferença é substancial: isto é: Cohen-letrista é muito melhor do que Cohen-poeta. Alguns dos seus poemas são, direi, fracos. Outros têm bastante fôlego. No entanto, é nas letras das música que (arrisco a afirmar) toda a sua arte poética se encontra. Basta, para isso, ler as letras (sem ouvir a música) e confirmar. Não deixa de ser um muito bom livro. Pena um suposto volume 2 nunca ter saído. 

Diálogos (26)


John Keating: We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play "goes on" and you may contribute a verse. What will your verse be?


em Clube dos Poetas Mortos (Dead Poets Society) de Peter Weir (19889).

Discos (226)





Rushes, part 1
(instrumental)


Há uma catedral algures por visitar. Algures. Por visitar há uma catedral. Há. Algures por visitar uma catedral. Por visitar algures. Há uma catedral. Uma catedral por visitar há algures. Por visitar uma catedral há algures. Uma catedral algures por visitar. Algures há. Há algures por visitar uma catedral. Por visitar algures há uma catedral. Há uma catedral. Algures por visitar. Algures. Por visitar há uma catedral. Há algures por visitar uma. Catedral. Por visitar algures há uma catedral. Uma catedral por visitar há algures. Por visitar uma catedral há algures. Uma catedral algures por visitar algures há. Há algures por visitar uma catedral. Por visitar algures há uma catedral. No meio da catedral a luz. A luz no meio da catedral. Há uma catedral algures por visitar. A luz no meio da catedral. No meio. Da catedral a luz. A luz. A luz. Algures. Por visitar há uma catedral. Há algures por visitar uma catedral. Por visitar algures. Há uma catedral. Uma catedral por visitar há algures. No meio da catedral. A luz. A luz no meio. Da catedral. Há uma catedral algures por. Visitar. A luz no meio da catedral. No meio da catedral. A luz. A luz. A luz. Há uma catedral algures por visitar. Algures por visitar há uma catedral. Há algures por visitar uma catedral. Por visitar algures há uma catedral. Uma catedral por visitar há algures. Por visitar uma catedral há algures. 

Ensino Recorrente



(...)


Durante a viagem, Malick: o gato observa a paisagem com ar de assombro, espanto. Fica particularmente admirado com os autocarros e camiões. Olha para mim e mia quando os vê passar por nós. Depois aninha-se, fecha os olhos e sossega ao som da música.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (13)


1. Neste momento decorre em Lisboa uma manifestação. Não tenho qualquer tipo de problema com manifestações. São um direito. E também não tenho qualquer tipo de problema com a falta de coerência das pessoas, ou de grupos, ou de instituições. A falta de coerência também é um direito que nos assiste (e eu que o diga). Mas, a falta de coerência pode causar-me comichão. E causa, na maior parte das vezes. Causa-me alguma comichão ver a Conferência Episcopal Portuguesa apoiar a dita manifestação. Não sou contra o seu apoio. Têm o direito de apoiar quem lhes apetece. Apenas me causa comichão apoiarem uma manifestação que tem como lema principal o "direito à escolha", dizendo (e cito) que apoia a dita manifestação pois a mesma procura a «defesa do direito constitucional da liberdade de ensino.» (contemplando no ponto 4 do artigo 43º da Constituição da República Portuguesa: «É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas.»).

2. Ficamos a saber, afinal, que a Conferência Episcopal Portuguesa defende o direito à escolha. O que me deixa um tanto ou quanto perplexo, isto porque no 4º ponto da sua Nota Pastoral de 19 de Outubro de 2006, em relação ao aborto e à possibilidade de a mulher poder escolher não abortar ou abortar (mas em condições dignas), a referida Conferência Episcopal Portuguesa diz: «O aborto não é um direito da mulher».  Assim, depreendo que a mulher não tem direito à escolha, contrariando, desta maneira, o direito constitucional que diz: «A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.» (ponto 1 do Artigo 26º). Sei que não podemos comparar alhos com bugalhos. Não é aquilo que tento fazer. Apenas estou a interrogar-me sobre a questão do direito à escolha, que agora a Conferência Episcopal Portuguesa defende, citando, para isso, a Constituição da República Portuguesa.

Discos (225)



"Hey, Prince, you need a shave." 

Leonard Cohen


Domingo de manhã. Houve um tempo em que fazias a barba duas vezes ao dia. Agora: uma vez por semana. É suficiente. E, mesmo assim, há seis anos que não usas lâmina. Aparas a barba, apenas. Gostas do look barba de dois dias. Mas alguns dos teus tios, às vezes, dizem-te que precisas de fazer a barba. A tua resposta é sempre a mesma: "ela já está feita". E todos sorriem.

Poema da manhã de hoje*


Chuva
lá fora

Café
sem açúcar

ao balcão



*confrontar com Poema da noite de ontem, em Mapa (2008).

Ensino Recorrente



Um poema de Fernão Rodrigues Soropita


Labarinto*

No cego labarinto de um cuidado,
Onde tudo é pesado e descontente,
Perseguido de amor injustamente,
De mil monstros crueis ando cercado.

D’alma, de vos e de mi mesmo ausente
Até das esperanças ja deixado,
Sigo um desejo mal afortunado,
Porque tudo me canse e atromente.

Vejo amar-se de novo o mal presente,
Vejo-me a mi de todo desarmado,
Tão longe do remedio desejado
E do que algum hora fui diferente.

Só c’os depojos do meu bem passado
Vejo amor tão soberbo e tão contente
Como quiz o destino que o consente,
Como o tempo cruel tinha ordenado.


em História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI, fascículo nº 19, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 79.



*Nota: este poema pode ser lido de forma salteado, em todas as combinações possíveis que mantenham a sequência de rima ABBA. 

(...)


E insistes ir até à Vila. Hoje foste de carro, pois não te quiseste molhar. Chovia água bastante para algum Noé fazer uma arca. E enquanto chove e ouves a chuva, pensas nas cerejas que começam a surgir na cerejeira do quintal. Pensas: "espero que a chuva não dê cabo delas". E bebes mais um café.


Adenda (16h05m): afinal não te deves preocupar com a chuva, mas sim com os melros.

Discos (224)




Section III - A
(instrumental e voz)

Enquanto te ouço, Reich, a minha mãe diz que a tua música a enerva. E eu entendo que a possa enervar, habituada que está a outros silêncios. O gato já está a ti habituado, apesar de às vezes estranhar algum dos teus sons. Depois deita-se, aninha-se e fecha os olhos. 

Pensamento do dia



Steve Reich
Music for Six Pianos
Live in Amsterdam
1976

Um poema de D. Dinis


Pesar mi fez meu amigo
amiga, mais sei eu que non
cuidou el no seu coraçon
de mi pesar, ca vos digo
que ant' el querria morrer
ca mi sol un pesar fazer

Non cuidou que mi pesasse
do que fez, ca sei eu mui ben
que do que foi non fora ren;
por en sei, se én cuidasse,
que ant' el querria morrer
ca mi sol un pesar fazer

Faze o por encoberta,
ca sei que se fora matar
ante que min fazer pesar,
e por esto sõo certa
que ant' el querria morrer
ca mi sol un pesar fazer

Ca de morrer ou de viver
sab' el ca x' é no meu poder


em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Séculos XIII-XIV, fascículo nº 2, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 29.

(...)


Enquanto corriges uma turma de testes de Português: «Não conseguimos fazer uma caracterização física do lobo, pois diz no texto que estava escuro e não se conseguia ver.». Foi esta a resposta de um aluno ao pedido: «Faz a caracterização física do lobo.». Mais à frente, um outro aluno responde: «O frade agradeceu a chegada ao convento a Santa Borba.»; e ainda: «São três as pesis ao feciais de lobos.» Outro aluno reescreve a frase «O frade tremia» no Pretérito Mais-que-Perfeito do Indicativo: «O frade tremera-se.»; e no Futuro do Indicativo: «O frade tremessiara-se.». E não: este não é um post sobre contratos de associação.

Das fotos (36)



Era uma vez uma Vila
© 
manuel a. domingos, 2016
(clicar para aumentar)

Discos (223)




Violin and Orchestra
(instrumental: faixa única)

Percorres a Vila. Tiras algumas fotografias. Há muito que deixaste estas ruas. Voltas agora a elas, procurando rostos familiares. Só encontras rostos envelhecidos. E, mesmo esses, cada vez menos. Vais ao Centro de Saúde "aviar receitas", como aqui se diz. Mais rostos envelhecidos que se interrogam sobre quem tu és. Desta vez não explicas. Não te apetece. Tens um violino na cabeça que te faz pensar no tempo que não dá tréguas. E o tempo, como sabes, não perdoa. Cobra sempre as suas dívidas. E não há um único rosto que não tenha dívidas. E não há um único rosto que não esteja a pagá-las.  

Ensino Recorrente



(...)


Passei parte do dia a revisitar o silêncio: Meredith Monk, Morton Feldman, John Cage, Michael Gordon, Steve Reich, Joep Franssens, Louis Andriessen. Lá fora as nuvens davam lugar ao sol que por sua vez dava lugar às nuvens que davam lugar ao sol que dava lugar às nuvens e aqui dentro passei parte do dia a revisitar o silêncio: Meridith Monk, Morton Feldman, John Cage, Michael Gordon, Steve Reich, Joep Franssens, Louis Andriessen.

Discos (222)



Dawn
(vocal)

Quando vieste à Guarda, ao seu Teatro Municipal, eu estava desterrado algures numa terra deste país desterrado e à beira-mar plantado. Os dias passariam (tenho quase a certeza) sem que nada de relevante acontecesse, sem que nada de digno merecesse ficar anotado num qualquer livro. Agora, que te partilho com o gato aos meus pés deitado, lembro-me desses dias, da sua luz. Porque há sempre luz. Nem que seja na sua ausência.

Ensino Recorrente



Um poema de Eduardo Quina


labirintos

13.

a morte dos homens
é a forma única
de conservar os segredos de deus.


em Corpo: Labirintos, s/l: Editora Licorne, 2015, p. 70.

(...)


Parece um dia ameno de Outubro e Malick: o gato aproveita para descansar sobre a cama, ao som de Book of Days de Meredith Monk. A sua relação com a música começa a revelar-se: aprecia Bach, Leonard Cohen e não gosta de Swans. Monk não o aborrece. Galás: depende do álbum: Saint of the Pit assusta-o um pouco. Quanto ao resto: depende dos dias e da sua disposição.

A Poesia de Rui Costa


(clicar na imagem para aumentar)

Discos (221)




Assassins
(instrumental)


O tempo foi sempre deles. Nós é que andamos distraídos. Às vezes acordamos desse torpor. Ficamos espantados com a barbárie, quando os bárbaros há muito estão entre nós. A verdade é que fazemos parte deles: dos bárbaros. Talvez procuremos afastar essa ideia, mas ela está ao nosso corpo colada. E nada podemos fazer.

Ensino Recorrente



Diálogos (25)


Prison Chaplain: Goodness is something to be chosen. When a man cannot choose he ceases to be a man.


em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) de Stanley Kubrick (1971).

Um poema de Luísa Ducla Soares


Na máquina do tempo

Ah, se eu pudesse andar
na máquina do tempo!
Quebrava esse horror
que é o despertador.
Só saía ao meio-dia
para a escola que abria
às oito da manhã,
sem ralhos da mamã...

Ah, se eu pudesse andar
na máquina do tempo!
Correndo em marcha-atrás
caçava lá atrás
um dinaossauro anão,
que seria o meu cão.
Pois grande, francamente,
metia medo à gente...

Ah, se eu pudesse andar
na máquina do tempo!
Punha-me a acelerar
para só aterrar
em distantes planetas,
brincava com cometas
que estão por descobrir.
Aonde eu havia de ir...

Quando eu puder andar
na máquina do tempo,
hei de te convidar
para também passear.
E se tiveres coragem,
será longa a viagem...
Aonde queres vir comigo?
Vai já pensando, amigo...


em A cavalo no tempo, Porto: Porto Editora, 2015, pp. 18-21.

Ensino Recorrente



Um poema de Leonard Cohen


Haiku de Verão

para Frank e Marian Scott


Silêncio
e um silêncio mais profundo
quando os grilos
hesitam


em Poemas e Canções, tradução de Margarida Vale de Gato e Manuel Valente, Lisboa: Relógio D’Água, 1999, p. 63.

Discos (220)



and who shall I say is calling?

Leonard Cohen


Ontem estive às voltas com a poesia de Cohen. E também com a sua música. Sem dúvida é na música que ele é grande: quer nas letras quer nas composições. Na poesia existem alguns bons poemas, mas é nas letras das músicas que ele se revela um grande trovador. E ouvi novamente alguns dos seus álbuns, que sempre me acompanham no computador portátil, convertidos nessa maravilha que é o mp3. Como poderia, de outra maneira, andar com ele por todo o lado? Como poderia ouvi-lo? Como o poderia anunciar? Como poderia ele por mim chamar?


(...)


Voltou a chuva. Dá algum jeito para aliviar a carga de pólen que por aí circula. Ontem não tive de recorrer ao ventilan e o nariz já está passível de ser traduzido. Os olhos continuam raiados de sangue, mas as gotas parecem estar a resultar. Tomei hoje o último comprimido. Não me posso esquecer de ir comprar mais.

Livros (132)



Quanto mais o leio, mais Fialho d'Almeida se converte num autor muito cá das minhas bandas. Desta vez é a República e os Republicanos que estão debaixo de fogo. Fialho não lhes perdoa, nomeadamente, o tempo perdido em quase trinta anos de oposição à Monarquia, principalmente no que diz respeito à instrução do povo português. Acusa mesmo os Republicanos de nada fazerem para educar o povo, pois seria importante ter um povo educado, consciente, alerta. Mas: talvez não fosse esse o "melhor" caminho. Pelos vistos pouco ou nada mudou. 

(...)


Não se leia alegria, mas antes alergia. Culminando, ontem ao serão, com uma pequena crise de asma: coisa que há muito não me acontecia. Os olhos assanhados, os pulmões assanhados, o nariz intraduzível. Gotas nos olhos e comprimido no bucho. Ventilan nos pulmões. E lá se adormeceu. 

Ensino Recorrente



Diálogos (24)


Johnson: Would you look at how fast they put the names of all our guys who got killed?

The Sergeant: That's a World War One memorial.

Johnson: But the name's are the same.

The Sergeant: They always are.


em O Sargento da Força Um (The Big Red One) de Samuel Fuller (1980).


Discos (219)



A Small Realm
(instrumental)


Sobre a cama. O gato a teus pés. Lá fora: cavalos que relincham ao vento. O gato acorda e vai à janela. Observa. "Que animais são aqueles?": pergunta com o olhar. E tu respondes "são cavalos". Uma réstia de luz ilumina o quarto. O prédio repousa no silêncio habitual das horas vazias de gente. Nada há de novo em tudo isto. E tudo há de novo. Em tudo isto. 

Ensino Recorrente



(...)


Toda a santa manhã ouves a mesma queixa: "nem parece que estamos em Maio": enquanto lá fora o vento sopra forte e as nuvens escondem o sol. Contudo, tu sabes que estás em Maio, pois andas atento aos dias, ao calendário. "Nem parece que estamos em Maio", mas a verdade é que estamos. Maio passa dolente e sem novidades surpreendentes. Tudo na mesma. Portanto.

Sítio - Manuel de Freitas e Inês Dias



Manuel de Freitas | Inês Dias
Sítio
vinhetas de Luís Manuel Gaspar
Volta D' Mar
2016

Herdade das Mouras



Syrah

(...)


Enquanto pensas naquilo que irá ser o almoço, pensas também naquilo que poderá vir a ser o jantar. E lembras aquela famosa tirada de Bourdain: "os portugueses são o único povo que pensa no jantar, quando ainda estão à mesa do almoço". E apesar de teres considerado que a observação era um exagero, começas a saber que não.

Uma imagem para o dia



Diálogos (23)


Rose Darko: Kitty, do you even know who Graham Greene is?

Kitty Farmer: [scoffs] I think we've all seen "Bonanza."


em Donnie Darko (Donnie Darko) de Richard Kelly (2001).

Discos (218)




Lembras a chuva. A manta sobre as pernas. Estava frio e o Inverno ia a meio. Tentavas não pensar no facto de estares há seis meses desempregado. De todas as promessas não estarem a ser cumpridas. Se dissesses que não criaste expectativas: estarias a mentir. Criaste expectativas. Não foram poucas. Quando começaste a trabalhar disseram-te que ao fim de cinco anos estarias vinculado. No final desses cinco anos disseram que ficarias vinculado ao fim de sete. No final desses sete anos disseram que não prometiam nada que não pudessem cumprir. E tu lá foste criando expectativas. E mais expectativas. Estava frio. O Inverno ia a meio. Estavas há seis meses desempregado. Tentavas não pensar nisso. A manta sobre as pernas. A chuva.

Walter Benjamin


O destino é o contexto de culpa em que se inserem os vivos, e que corresponde à sua condição natural, aquela aparência ainda não completamente apagada de que o ser humano está tão afastado que nunca conseguiria mergulhar nela, limitando-se a permanecer invisível sob o seu domínio e apenas na sua melhor parte. Não é, por tanto, afinal o ser humano que tem um destino: o sujeito do destino é indeterminável. O juiz pode descortinar destino onde quiser, e ditará às cegas um destino com cada condenação. O ser humano nunca será atingido por esse destino, mas apenas a vida nua nele, que participa da culpa natural e da desgraça devido àquela aparência. Este vivo pode, assim, ser relacionado com cartas e astros, e a vidente serve-se da técnica simples de inserir isso no contexto da culpa recorrendo às coisas mais previsíveis e mais certas – coisas que, de forma não inocente, estão prenhes de certeza. Com isso, ela fica a conhecer pelos sinais algo sobre uma vida natural no ser humano, que procura colocar no lugar da figura nomeada; e por outro lado quem a vai consultar abdica em favor da vida carregada de culpa que traz em si. O contexto da culpa insere-se de forma muito imprópria no fluxo do tempo, na sua natureza e na sua medida totalmente diferente do tempo da redenção ou da música ou da verdade. A plena iluminação destas coisas depende da fixação da forma particular de tempo que é a do destino. A cartomante e a quiromante ensinam-nos, de qualquer modo, que este tempo pode a qualquer momento tornar-se contemporâneo de um outro (não presente). É um tempo não autónomo, parasita de outro tempo, o de uma vida superior e menos natural. Não tem presente, porque esses momentos em que o destino se abate sobre as vidas humanas só existem nos maus romances, e esse tempo também só em variantes muito particulares conhece o passado e o futuro.



em Destino e Carácter, tradução de João Barrento, Covilhã: LusoSofia Press, colecção Textos Clássicos de Filosofia, Universidade da Beira Interior, 2011, p. 9.

Ensino Recorrente



(...)


Ontem fiz uma sopa à lavrador para o jantar. Hoje a coisa não está fácil. E, feito chico-esperto, repeti a dose agora ao almoço.  

Livros (131)



Recentemente, mão amiga fez chegar até mim o livro que a imagem acima reproduz. O nome do seu autor chegou-me através da polémica gerada por um outro livro: Poetas Sem Qualidades: polémica que se perdeu no tempo mas que ainda hoje mexe com alguma gente. A verdade é que, desde o dia em que o livro me foi oferecido, o li três vezes. Vindeirinho tem a capacidade de criar um mundo poético livre de subterfúgios e livre de uma intelectualidade bacoca. Os académicos terão alguns problemas com a poética de Vindeirinho. Os amantes de poesia: talvez não. 

Pensamento do dia



John Carter
Dance of the Love Ghosts
Dance of the Love Ghosts
1987

Ensino Recorrente



Diálogos (22)


Nice Guy Eddie: C'mon, throw in a buck!

Mr. Pink: Uh-uh, I don't tip.

Nice Guy Eddie: You don't tip?

Mr. Pink: Nah, I don't believe in it.

Nice Guy Eddie: You don't believe in tipping?

Mr. Blue: You know what these chicks make? They make shit.

Mr. Pink: Don't give me that. She don't make enough money that she can quit.

Nice Guy Eddie: I don't even know a fucking Jew who'd have the balls to say that. Let me get this straight: you don't ever tip?

Mr. Pink: I don't tip because society says I have to. All right, if someone deserves a tip, if they really put forth an effort, I'll give them something a little something extra. But this tipping automatically, it's for the birds. As far as I'm concerned, they're just doing their job.

Mr. Blue: Hey, our girl was nice.

Mr. Pink: She was okay. She wasn't anything special.

Mr. Blue: What's special? Take you in the back and suck your dick?

Nice Guy Eddie: I'd go over twelve percent for that.

em Cães Danados (Reservoir Dogs) de Quentin Tarantino (1992).

Livros (130)



Este é um dos melhores livros que li nos últimos meses. Não tenho qualquer problema em afirmá-lo e em reiterar: este é um dos melhores livros que li nos últimos meses. A sua leitura decorreu durante as aulas de Português (faz parte do conteúdo Leitura Acompanhada). Li o livro em voz alta para os meus alunos. Alice Vieira tem um sentido de humor apurado e, principalmente, não trata os seus leitores como imbecis (o que é uma mais valia nos tempos que correm). Recomendo vivamente.

Discos (217)



gonna be smiling as I go to the grave

Meira Asher



Armazém de Adubos Para Todas as Culturas, Barracão (Guarda). Festival de Novas Músicas “Ó da Guarda”, ano 2000. O fim do mundo, afinal, não tinha acontecido. Mas eu não me livrava de levar um murro no estômago. 

(...)


Esta chuva que nunca mais nos deixa em paz. Penso que nunca desejei tanto o pólen de Maio e as suas alergias. Andar encharcado em anti-alérgicos mais os seus efeitos secundários. Esta chuva é "desmasiada". E nem vou falar no frio.

Discos (216)



para Rik Lina

Numa cave qualquer em Amesterdão há um piano. E esse piano é tocado por dedos hirtos como se a qualquer momento fossem partir. É claro que eu nunca estive numa cave em Amesterdão. Na realidade: nunca estive sequer em Amesterdão. Mas é assim que me imagino a ouvir Monk. Agora, depois de um dia te ver a pintar os teus leporellos, compreendo melhor o ritmo que impões aos teus dedos sobre o papel. As marcas de tinta. O seu movimento.

Ensino Recorrente




(...)


Isto porque nada há de mais subjectivo do que a poesia, mais a sua leitura, mais a leitura crítica de um livro de poesia. Sinceramente, não sei como é que alguém ainda arrisca fazer leituras críticas de livros de poesia e publica essas mesmas leituras críticas de livros de poesia. Isto porque há sempre alguém que não concorda com a leitura crítica feita a este ou àquele livro de poesia. Isto porque o insulto ainda é o atalho mais fácil para rebater uma leitura crítica a um livro de poesia. Nunca vi (posso estar com azar) uma leitura crítica a um livro de poesia ser rebatida com uma leitura crítica à leitura crítica de um livro de poesia. Isto porque, talvez, dê muito trabalho. 

Pensamento do dia



Wayne Shorter
Wild Flower
Speak No Evil
1964

Diálogos (21)


Cheyenne: You don't understand, Jill. People like that have something inside. Something to do with death.


em Era uma vez no Oeste (C'era una volta il West) de Sergio Leone (1968).

Discos (215)



E pensando bem: ou pouco ou muito pouco te resta. Em primeiro lugar, começas a repetir-te. A repetição começa a ser a tua principal característica. Em segundo lugar, a tua misantropia. Começa, a bem da verdade, a ser cada vez mais aguda, apesar de tu a combateres com todas as forças que ainda te restam. Mas: eis que ainda tens o vinho, a poesia e a música. O jazz tem ocupado o teu espaço da inquietação. Cada vez mais.

Ensino Recorrente



(...)


Ontem, depois de uma viagem de quatro horas com Malick: o gato a miar durante uma, eis que chego ao destino com bastante fome e uma enorme vontade de esticar os ossos. Jantei e deitei-me no sofá. Corrijo: agora não digo deitei-me: digo antes abornalei-me. Então, estivemos os dois (eu e Malick: o gato) abornalados no sofá. Ainda passei pelas brasas antes de ir para a cama. Malick: o gato andou pela casa naquele momento do dia em que eu designo de hora-ninja: agora vês-me, agora não me vês; agora estou aqui, agora estou ali. E assim sucessivamente. 

Um poema de Frei António das Chagas


À vaidade do Mundo

É a vaidade, Fábio, desta vida
Rosa que na manhã lisonjeada
Púrpuras mil com ambição coroada
Airosa rompe, arrasta presumida;

É planta que de Abril favorecida
Por mares de soberba desatada,
Florida galera empavezada,
Surca ufana, navega destemida;

É nau, enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de fénix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza.

Mas ser planta, rosa e nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?


em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Século XVII, fascículo nº 29, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 49.

(...)


Choveu a noite toda. Parece-te que só a chuva merece aqui uma referência. Na sala o meu Pai faz zapping. Uma autêntica Babel. 

Ensino Recorrente



Um poema de Frei Jerónimo Baía


A uma trança de cabelos negros

Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre Sofala,
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores noite, na beleza dia.

Negra, porém de amor na monarquia
reinas senhora, não servis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala;
Tristeza, mas venceis toda a alegria.
Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora
Negra, noite, tristeza, sombra, luto.

Porém na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?


em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Século XVII, fascículo nº 29, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 27.

Discos (214)




dEUS



Saio e digo: “já tivemos dias mais amenos em Dezembro”. Digo-o para mim enquanto caminho pelas ruas. Aqui gosto sempre de caminhar pelas ruas. Nunca faço o mesmo caminho de casa-café, nem de café-casa. Tento não me repetir. As ruas, como quase sempre, estão vazias de vida. O guarda-chuva protege da molha-parvos, mas na realidade não protege. A bica no lugar de sempre. Dois dedos-de-conversa com um amigo e depois o regresso. Nada de complicado. Portanto.

(...)


Sais para ir tomar café, escrever e ler um pouco. Conheces muitas pessoas numa terra tão pequena. Tomas café.

Um poema de Gil Pérez Conde


Pôs conta el-Rei en todas fronteiras
que nen en vilas nen en carreiras
que non cômian galinhas na guerra
ca diz que dizen as veedeiras
que será perdimento da terra.

A concelhos e a cavaleiros
mandan comer vacas e carneiros,
mais non cômian galinhas na guerra;
ca diz que dizen os agùireiros
que será perdimento de terra.

Cômian porcos frescos e toucinhos,
cabritos, cachaç' e ansarinhos,
mais non cômian galinhas na guerra;
ca diz que lhe dizen devinhos
que será perdimento de terra.


em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Séculos XIII-XIV, fascículo nº 2, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 45.

Uma imagem para o dia



Ruben A.


Por unanimidade aprovou-se que era uma sessão solene.
(…)
Durante as sessões preparatórias as crianças não tinham sido admitidas.
Os ensaios à porta fechada (lá fora estavam foguetes de coroas funerárias) urdiam-se na mesquinha equipagem de cada um se julgar presidente, ninguém e todos queriam assumir a cadeira principal ― havia até capachos de luxo para o dia marcado.
Por escrutínio secreto a mesa foi formada na madrugada da primeira convocação. ― 2 dos 6 foram imediatamente considerados indiscutíveis pois possuíam qualidades de estupidez que os classificava ipso facto de muito bons tipos ― agora os 4 restantes não se nomearam sem discussão.


em Páginas II, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, pp. 105-106.

A verdade é que nos espantamos com pouco


(clicar na imagem para aumentar)

(...)


No capítulo V de Páginas II, Ruben A. faz um retrato mordaz da sociedade portuguesa das décadas de 30 ou 40 do século passado. A Sessão Solene é um conto (ou uma espécie de conto, pois com Ruben A. [e principalmente nas suas Páginas] nunca temos a certeza de nada, isto é, de que género literário falamos, e talvez devido a isso ele é um dos grandes autores "silenciados" do século XX português; cânone não é com ele e isso, no nosso país, torna tudo mais difícil) que pisca o olho ao surrealismo, sem ser surreal, tendo em conta a realidade do que é contado. E o mais impressionante é a actualidade do texto. Ainda há muita sessão solene neste país. Penso que cada vez mais.

Um poema de Diogo Marquam


Outra sua

É gram pena de sofrer,
é gram mal de consentir
haver sempre de fengir
a quem quero nam querer.

E por força demonstrar
a contra do que me praz,
porque mais dano me traz
descobrir que me calar.
Em tal caso de sofrer
me convem, por encobrir
meu desejo, por fengir,
a quem quero nam querer.


retirado de Cancioneiro Geral de Garcia de Resende em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Século XVI, fascículo nº 10, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999, p. 52.

Ensino Recorrente



Livros (129)




Não será necessário ler este livro para entender aquilo que é o totalitarismo, quais as suas origens. No entanto, será necessário ler este livro para melhor entender aquilo que é o totalitarismo, quais as suas origens. Arent escreve desassombradamente, isto é, o comum dos mortais consegue entender aquilo que ela escreve e aquilo que ela quer dizer. Outra vantagem deste livro é o facto de não ser necessário grande know how sobre o assunto. Arent explica tudo como se o leitor fosse uma criança de dez anos. Um livro, quanto a mim, fundamental.

(...)




(Miguel Martins | manuel a. domingos)