Reverso (21)
Anna Calvi já nos tinha surpreendido com outras versões. Desta feita decidiu editar um EP onde podemos encontrar, entre outras, a versão que aqui é apresentada, de um original de Karen Ann. A principal diferença será o facto de a versão ser interpretada em dueto, onde a voz de Anna Calvi dialoga com a de David Byrne. A fragilidade da voz de Byrne confere à versão uma profundidade que não encontramos no original. Para ouvir com atenção.
Hoje
Poesia às Quintas – com Miguel Martins – 184ª sessão – Bar a Barraca – 28 de Abril – 22.30h – entrada grátis
Revelação sensacional!: após análise ao A.D.N., o Laboratório Nacional de Engenharia Genética, sediado no pólo tecnológico de Sever do Vouga e dirigido pelo prestigiado especialista russo Prof. Yuri Chernobyl, encontra-se em condições de afirmar que Manuel A. Domingos, expoente da elegância no que à lírica lusa diz respeito, é, na verdade, o produto de um cruzamento entre Mahatma Gandhi e Fernando Mendes.
Ora, na próxima 5ª, Manuel e MM ler-nos-ão
poesias de autoria dos próprios, capazes de comoverem um guarda prisional de
Guantanamo.
Quem não aparecer é porque gosta de jogar
à bisca com menos 6 ou 7 cartas, tiradas ao acaso.
Nota: A Casa Katy e a Retrosaria Matias,
que se encontram atrás do poeta na foto anexa, patrocinaram esta sessão com uma
verba de 88€/cada.
(...)
Aqui na escola está a decorrer a Feira do Livro. Uma das actividades, que a antecedeu, foi "Elos de Leitura". Alunos, funcionários e professores foram convidados a dar o título de um livro. Hoje, fui à Biblioteca Escolar (agora tem o pomposo nome de Centro de Recursos) e vi a lista dos "Elos de Leitura". E qual não foi a minha surpresa ao ler o título Prometo Falhar, de Pedro Chagas Freitas, repetido cinco vezes (nas turmas do sétimo ao nono ano). É o título que mais se repete. Não são os títulos Diário de um Banana, Capitão Cuecas, As gajas são lixadas ou Harry Potter. Não. O título mais vezes repetido é Prometo Falhar.
(...)
No passado dia vinte de Abril, a caixa de correio electrónico da Medula recebeu o seguinte e-mail:
Reclamação #1/2016
Boa noite
Quando acabei de escrever o meu livro, no já
longínquo ano de 2000, sabia que ainda não estaria pronto para o tentar editar.
Nem o livro, nem eu. Mas os anos passaram... e finalmente decidi que estava na
hora (ou o livro decidiu-se, como preferirem). Foi preciso alguma coragem, mas
lá me forcei a enviar o manuscrito para a vossa editora (e para algumas outras
também, confesso). Das "grandes" editoras esperava silêncio, mas da
vossa não. Pensei que, mesmo recusando a hipótese de publicação, poderia obter
da vossa parte um incentivo de qualquer tipo ou, imaginava eu, um breve dedo
apontando na direcção certa. Na minha mente instalara-se a certeza de que vocês
ou já tinham estado no meu lugar, ou tinham conhecimento de vários casos
semelhantes. O resultado foi o inverso do que esperava. Das classificadas de
"grandes" editoras recebi um cordial não, mas da vossa o mais fundo
dos silêncios. E isso desanimou-me. Muitos pensamentos, a maior parte deles
pouco agradáveis, percorreram a minha mente. Mas um deles era recorrente e
tomou forma de questão: mas será que, mesmo não gostando das minhas palavras,
não poderiam ao menos ter enviado uma resposta? Foi esta a razão que me levou a
escrever-vos esta reclamação. Não possuo os meios para criar uma editora
(in)dependente, nem contactos suficientes para arriscar uma edição de autor que
não resulte num monte de livros encaixotados na minha sala. Não pensem, porém,
que isto é uma espécie de carta amargurada. É apenas um desabafo, talvez. E a
única forma que encontrei de acabar foi com uma citação do grande W.B. Yeats:
"Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos. Eu estendi meus sonhos
sob os teus pés. Caminha suavemente, pois caminhas sobre os meus sonhos."
Atenciosamente
nuno
O mais interessante é o seguinte: nunca a Medula recebeu qualquer original do referido Senhor. Um outro dado curioso é o nome do assunto: Reclamação #1/2016. Significa que é a primeira reclamação deste ano? Haverá mais?
Outro pormenor: mas lá me forcei a enviar o manuscrito para a vossa editora (e para algumas outras também, confesso). Não precisava, afinal, o Senhor Nuno de confessar nada, pois o e-mail que enviou vinha com CC em vez de BC. Isto é: sei para que outras editoras o livro foi "enviado".
Lí por aí
Ontem, até quase à meia-noite, não li jornais, não
ouvi rádio e não estive perto de nenhuma televisão. Isto para dizer que não
acompanhei as celebrações protocolares, oficiais e oficiosas, do dia. Mas
depois do jantar vi em diferido um painel da TVI onde Judite de Sousa juntou
duas resistentes comunistas com Fernando Medina, filho e neto de comunistas. As
duas senhoras, Faustina Barradas (1944) e Mariana Morais de Oliveira (1949),
falaram da sua experiência na clandestinidade, em particular sobre o drama dos
pais que eram obrigados a separar-se dos filhos. Faustina sem conter a emoção,
Mariana com travão ideológico. Faustina veio do Alentejo da fome, Mariana foi
aos 17 anos estudar dialéctica para a União Soviética, e relatou com pormenor
as peripécias do salto de fronteira. Medina, que no 25 de Abril tinha pouco
mais de um ano de idade, nasceu longe do pai, algures na clandestinidade. Foi
por um anúncio de jornal (uma senha) que teve conhecimento do nascimento do
filho, que é hoje presidente da Câmara de Lisboa. Memórias muito diferentes,
todas comoventes. Fica-se sempre com um nó na garganta. Há ocasiões em que nos
reconciliamos com a televisão.
Discos (213)
Foi o teu padrinho quem pela primeira vez te falou no nome. Zorn: John Zorn. E soou-te a algo estranho. Até que o confirmaste quando ele te fez ouvir um dos seus discos. Sim, discos. Só mais tarde descobriste outro Zorn. Verificaste que Zorn era um nome que se multiplicava. Tal como a sua música: uma multiplicação de sons, sonoridades, ambientes, estados, silêncios. Zorn.
Paulo da Costa Domingos
e nós, tempo há-de haver
de ter cara para aparecer
a quem passa e dizer-lhes na cara:
depressa, «fazei todo o mal que
puderdes». E dos ossos fazei
pentes, e da pele tambores,
e do nervo corda para forcas;
tempo há-de, sem amores, de haver
coragem.
em Cal, prefácio de Vitor Silva Tavares, Lisboa: Averno, 2015, p. 35.
(...)
Trazes Eça na mala. Procuras com ele fazer as pazes. Desde o Secundário que nunca mais o leste, pois teres sido obrigado a ler Os Maias deu cabo de qualquer vontade. Dizem-te que é muito bom. Lês que é muito bom. "Eça é um dos grandes", disseram-te um dia. E tu torces o nariz. Agora trazes Eça na mala. Talvez tenha chegado a sua vez. Talvez seja desta.
Livros (128)
Lembro-me de ver o programa na televisão. Sempre ao mesmo dia e hora. Lembro os meus pais escolherem o livro, para me oferecerem. Lembro o meu espanto ao abri-lo e nele ver um close up de um Grande Tubarão Branco. Lembro de ler e ler e ler. Por vezes ainda o abro. Percorro as suas páginas. E talvez exagere ao dizer que o fascínio é o mesmo. Só que não exagero.
David Attenborough
Quando chega a Primavera, porém, as florestas do Norte mudam de aspecto à medida que as horas de luz vão aumentando, e as coníferas aproveitam essa luz adicional para um surto de crescimento.
em O Planeta Vivo - Um Retrato da Terra, edição aumentada de Selecções do Reader's Digest/Baseada na edição original Collins-BBC, tradução de Cynthia Ayer, Lisboa: Selecções do Reader's Digest, 1985, p. 102.
Discos (212)
Feel the sun
early morning millionaire
Cocteau Twins
Não sabes quando foi a
primeira vez. Mas lembras um pé que batia ao ritmo da música e o teu primo
olhou para ti, sorriu. Tinhas dez, ou onze anos. Disso tens certeza. A luz entrava
por uma pequena clarabóia, iluminando a pequena sala onde uma salamandra
aquecia o ar. O teu primo ouvia música e tu, encostado à porta da sala, ouvias
também e o pé batia ao ritmo da música e o teu primo olhou para ti, sorriu.
Talvez tenha sido esse o teu dia claro
inicial inteiro e limpo.
(...)
Há trinta e quatro anos a minha Mãe decidiu mandar tirar esta fotografia. Aproveitou um senhor que estava a tirar fotografias aos alunos da escola primária e pediu-lhe. No dia anterior (ou foi nesse dia ao almoço?) tinha caído do banco e bati com a cara na esquina. Fiquei marcado do lado esquerdo, por debaixo do olho (com atenção pode ser visto). Como será de esperar, tinha muito mais cabelo do que hoje. Era trinta e quatro anos mais novo. "É uma vida". Como se costuma dizer.
Um poema de Dom Joham Manuel
Regra sua pera quem quiser viver em paz
Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada.
Tua porta cerrarás,
teu vezinho louvarás,
quanto podes nam farás,
quanto sabes nam dirás,
quanto ves nam julgarás,
quanto oves nam crerás,
se queres viver em paz.
Seis cousas sempre vê,
quando falares te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.
Nunca fies nem perfies,
nem a outro enjuries,
nom estês muito na praça,
nem te rias de quem passa,
seja teu todo o que vestes;
a ribaldos nam doestes,
nam cavalgarás em potro,
nem ta molher gabes a outro;
nem cures de ser picam
nem travar contra rezam.
Assi lograrás tas cãas
com tuas queixadas sãas.
retirado de Cancioneiro Geral de Garcia de Resende em História e Antologia da Literatura Portuguesa - Século XVI, fascículo nº 10, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999, p. 46
(...)
Desces à Vila. Bebes a bica no
lugar de sempre. Vais comprar fruta. Encontras amigos do teu Pai que já não
vias há muito. Perguntam como vais ― e por onde andas este ano? Beja? Évora?
Braga? tu que andas sempre aos saltos ― e dizes que este ano calhou-te a zona
de Mafra ― já lá fui a um casamento ― alguém diz. Depois relembram-se estórias
do passado, do tempo do futebol ― quando o teu pai nos treinava ― e rimos alto
e de boca larga no meio da rua. E mais um pouco na conversa ― queres vir beber
um copo connosco? ― e tenho de recusar, pois ainda é cedo para mim ― olha: eu
ao domingo como dois pratos de sopa ao pequeno-almoço e depois já aguento melhor dois
ou três brancos. Rimos.
Ruben A.
Não há dúvida: ― O Keats era um
gajo porreiríssimo aos altos de expressão mas somos nós os poetas máximos a
ouvir o mar ―
em Páginas II, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 68.
Pensamento do dia
Vassilis Tsabropoulos
Smoke and Mirrors
The Promise
2009
Livros (127)
Após vários anos a repousar numa das estantes do meu antigo quarto na casa dos meus pais, eis que ontem termino a leitura deste livro e logo para aqui o remeto. Só tenho esta selecção. Gostaria bastante de ler a obra nos seus vários volumes (que penso serem seis). A prosa de Fialho de Almeida é muito boa e implacável. Será que podemos falar em verve? O que mais me espantou, após a leitura dos textos neste livro incluídos, é que pouco, afinal, mudou no nosso país. Ou pouco ou nada. Creio estar mais inclinado para o nada. No outro dia foi-me oferecido O País das Uvas. Será o próximo.
Discos (211)
Bet you never knew it
Cigarettes After Sex
De todos os malefícios do tabaco, nunca consideraste o fumar depois de fazer amor, pois desde muito cedo aprendeste que as três melhores coisas do mundo são um wiskey antes e um cigarro depois. É claro que não foi isso que te levou a beber pela primeira vez (aos sete anos) e a fumar pela primeira vez (não recordas já a idade: sabes apenas que o fizeste com tiques de adulto: uma beata deixada por um trolha numa obra). Pensas em tudo isto ao som da música que há pouco tempo descobriste. Pensas em tudo isto e não pensas em tudo isto. A música, como também cedo aprendeste, dá-te essa possibilidade: pensar em algo e no seu oposto; pensar em tudo ou em nada. Agora, que não caminhas para mais novo (apesar de quase todos pensarem que pensar isso, aos trinta e oito, é um exagero), lembras todos os cigarros que fumaste. Todos os copos que bebeste. Porra prá música, pá.
(...)
Ao certo não sabes quando tudo começou. A tua primeira recordação é uma queda e depois acordares com os rostos dos teus pais por cima do teu. Um pano frio na nuca. Talvez tenha sido esse o momento inicial, aquele que para sempre te iria marcar. Talvez tenha sido esse o momento: aquela queda. Foi ele, talvez, que ditou para sempre essa tua tendência para o pessimismo, para a derrota, para o absurdo. Talvez. Mas não queres pensar muito nisso.
Diálogos (20)
Anselmo: That
sentry...he looks like a man from my village. He's very young. He must die?
Jordan: You
couldn't do it, Anselmo?
Anselmo: I would
kill the sentry, yes...considering the necessity of the bridge. But if I live
later, I'll try to live in such a way, doing no harm to anyone, that it will be
forgiven.
em Por Quem os Sinos Dobram
(For Whom the Bell Tolls) de Sam Wood
(1943).
Livros (126)
Este é um dos melhores livros que até hoje li. Quer pela estória que é contada, quer pelo estilo da escrita. Hemingway tinha o dom de saber escrever uma frase, isto é, o dom de se fazer entender em poucas palavras, sem rodriguinhos, ou deuses-que-o-valham. Os diálogos contidos neste romance são de uma simplicidade brutal, o que não os impede de serem cheios de tensão. Os personagens estão bem construídos. Este é um dos melhores livros que até hoje li.
(...)
Ligas o computador e decides descobrir algo novo. Algo que desperte os teus sentidos e evoque. Vais ao Youtube e descobres os Cigarettes After Sex. E o mundo lá fora parece-te outro. Menos camelo, pelo menos. E no outro dia a pensares que o slow core estava morto.
Discos (210)
A cidade. A sua luz familiar. Nas pausas do bandoneon ouves o seu respirar: palavras que suspensas recuperam fôlego. A cidade passa por ti à velocidade do carro que conduzes. O relativo trânsito deixa-te apreciar os prédios, as avenidas e as pessoas que nelas passeiam. E o bandoneon expira-inspira-expira-inspira. E tens a certeza de que não irá chover, porque também tu queres caminhar pelas avenidas. E expirar-inspirar-expirar-inspirar a cidade que se te abre.
Diálogos (19)
Harry Callahan: Well,
opinions are like assholes. Everybody
has one.
em Na Lista do Assassino (The
Dead Pool) de Buddy Van Horn (1988).
(...)
Processas os acontecimentos diários à tua maneira. Ouves aquilo que as notícias te dizem, aquilo que do lado de lá se passa. Ficas incrédulo. Segues em frente. Depois, as notícias do lado de cá. Aquelas que passam ao lado. Na realidade: também passam ao teu lado. Cada vez te desligas mais das notícias que confirmam aquilo que pensas dessa coisa chamada "humanidade". Depois há a conversa sobre "cartão de cidadão" ou "cartão de cidadania". Essa conversa faz-te rir. Ou melhor: sorrir. Lembra-te a anedota que há muito conheces:
Dois soldados:
— ‘Tou cá cuma
larica quéra capaz de comer dois pões!
— Não é pões! É PÃOS!!
— ‘Tás a gozar ou
quê?! Tenho a quarta classe e sei que é pões!
Passa por ali um
capitão:
— Meu Capitão!
Devemos dizer pões ou pãos?
— Nessa questão há
diversas opiniães.
Pensamento do dia
Gateway
Gateway
1976
Livros (125)
Sejamos claros: o filme é mais forte e intenso do que o livro. Não podemos esquecer, também, que o filme baseia-se neste livro, mas também em alguns contos de um outro do mesmo autor: Meia-Noite Todo o Dia. Mas foi este o primeiro livro que li do autor. Li-o, é certo, depois de ver o filme (o que poderá, em certa medida, condicionar a minha opinião sobre ele). Não deixa, contudo, de ser um muito bom livro. Recomendo-o sempre. Ou quase sempre.
(...)
Fim das aulas e um peso enorme nos olhos. Os alunos cumpriram as suas tarefas. Esperas que tenham aprendido um pouco mais de Inglês. Fazes um esforço para chegar ao carro. Depois ao apartamento que tens alugado. Sabes que os dias se resumem a isto. Às vezes tens uma surpresa: um poema que te deslumbra, uma música que te emociona, um aluno que diz no final da aula — hoje foi fixe! — e sai a sorrir. Mas, o habitual, é o esforço.
Discos (209)
Mais estranho do que a ficção só mesmo a realidade. A realidade, essa coisa que nos lixa os cálculos tão lindos da folha de excel. A realidade, essa palavra terrível, principalmente quando se fala de Poesia. A realidade da chuva, do sol, do calor, do mar, do sobrar mês. A realidade do "pagas a multa e agora refazemos o "contrato" e passas a fazer mais com o mesmo". A realidade. Apetecia-me dizer: a realidade, essa puta.
(...)
Ontem foi dia E se fosse eu? na escola. No primeiro tempo da manhã os alunos viram um video e debateram a questão E se fosse eu?. Cumpriu-se o dever lectivo. No entanto, não posso deixar de considerar que tal "actividade" está revestida, inquinada, de uma profunda hipocrisia, digna de um país armado em fino, que até quer receber refugiados, mas que também não se importa de pagar à Turquia para que esta os mantenha lá longe.
Enquanto professor acredito que a Escola não cumprirá a sua função se apenas ensinar os conteúdos programáticos, replicando-os, com o objectivo de atingir as tão famigeradas metas. Se a função do professor é essa, é uma pobre função e uma pobre profissão. O professor deve, também, alertar, fazer os alunos pensar para além de. Fazer ver aos alunos que até uma bola tem dois lados: o de dentro e o de fora.
Assim, hoje, e depois de cumprido o dever lectivo, dei a minha opinião aos alunos sobre a actividade E se fosse eu?. E disse-lhes que a poderiam partilhar em casa com os pais. Disse-lhes que não concordava com a referida actividade. E coloquei-lhes a questão: E se fosse eu? Todos responderam o que levariam nas respectivas mochilas. Até aqui, tudo bem. Mas, depois, perguntei: E se fosse eu a receber um refugiado em minha casa? E, aí, as respostas prontas converteram-se em silêncio. Um silêncio incómodo. Olhavam-se entre eles. Mostravam surpresa. Nenhum deles me deu uma resposta. Nada. Só admiração, espanto. Perguntei se dividiriam o quarto deles com um refugiado da idade deles. A maior parte disse que não. E foram bastante incisivos no não. Todos souberam fazer uma mochila, num instante, se fossem eles. Mas receberem alguém com uma mochila em casa: não é assim tão fácil.
E penso que é neste último ponto que toda a campanha falha. Excepto na fanfarra mediática. Essa foi cumprida. Sem qualquer sombra de dúvida.
E penso que é neste último ponto que toda a campanha falha. Excepto na fanfarra mediática. Essa foi cumprida. Sem qualquer sombra de dúvida.
Movimento de Terras | Sexta | 8 de Abril | 21h30m
Diálogos (18)
Donovan: Good morning, sir. My name is Jim Donovan. These are my credentials.
(Both men stand looking at each other, Abel
still at the threshold. After a beat he moves in further, his gaze holding on
Donovan who glances at papers on table.)
Donovan: I’m a partner at Watters, Cowan and Donovan. I was admitted to the New York
Bar in 1941.
(As the guard slams the door shut, Abel picks up
the papers and inspects them. Donovan watches him, trying to read him.)
Donovan: ...You’ve
been charged with three counts and nineteen overt acts; conspiracy to transmit
United States defense and atomic secrets to the Soviet Union; conspiracy to
gather secrets; and failing to register as a foreign agent.
Abel: Do many
foreign agents register?
em A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies) de Steven Spielberg (2015).
Discos (208)
Nunca procuraste a perfeição. Sempre a consideraste um embuste, algo que alguém inventou para submeter a sua vontade a vontade de cada um. Afinal, o que é a perfeição? Não haverá, porventura, conceito ou ideia mais relativa do que o conceito ou a ideia de perfeição. O céu é perfeito? A noite é perfeita? Um pôr-do-sol é perfeito? A Arte da Fuga de Bach é perfeita? O mundo sabemos, de certeza, não é perfeito. A perfeição, podemos concluir, sempre foi sobrevalorizada. Segue, por isso, a imperfeição. Deixa que ela seja a tua principal característica. Não procures apurá-la. Não te deixes enganar por aqueles que consideram que, mesmo a imperfeição, pode ser melhorada.
Marcos Pinto (Manuel Bento de Sousa)
Já que falei
em poetas, vou entrar com eles, fazendo primeiro a advertência de que os poetas
parvoneses se dividem em dois bandos adversos, que não se podem ver um ao
outro, e que podemos designar assim: poetas de grenhas e poetas das brenhas.
Os primeiros,
disciplinados e comandados por um chefe, que dá a senha literária, submetem a
este as suas obras, e só as mandam correr mundo quando o chefe, depois de
consultar como os romanos os animalejos do seu quintal, lhes permite que
corram, porque ouviu cantar as cigarras na copa da sua olaia!
Os segundos
não têm rei nem roque, adoram o ideal, e dão marradas poéticas no senso comum de
quem não estiver à altura da inteligência parvonesa, como a mim me aconteceu
por muito tempo.
em A Parvónia – recordações de
viagem, Lisboa: Frenesi (conforme as edições de 1868 e 1894), 2007, p. 187.
(...)
Penso que são as pequenas coisas
que nos situam no nosso tempo, ou num determinado tempo. Há quem defenda que
estamos na pós-modernidade. Há quem defenda que estamos na era do capitalismo
selvagem. Há quem defenda que estamos no neoliberalismo. Há quem defenda que
estamos num beco sem saída. Sou adepto desta última teoria: estamos num beco
sem saída. Exemplos há muitos. Vou apenas, convosco, partilhar um. Ontem chovia
bastante. Nos dias de muita chuva o trânsito à
porta das escolas aumenta exponencialmente. Ontem o trânsito, aqui, estava
caótico. Mas não é isso que importa aqui destacar. Aquilo que eu quero destacar
é o seguinte: estava eu a chegar ao portão da escola e um carro estaciona mesmo em frente ao portão; um adulto sai do carro
com um guarda-chuva que, prontamente, abre; contorna o carro até à porta do
passageiro; abre a porta do passageiro e protege, da chuva intensa, o seu
educando; leva o educando até ao portão da escola, protegido pelo guarda-chuva; depois deixa ir o educando à chuva até à entrada dos alunos; e, acreditem ou não, diz "vai com cuidado e não te molhes muito". Isto é: temos um
encarregado de educação que traz o seu educando de carro até ao portão da
escola, abre-lhe a porta, protege-o com o guarda-chuva e depois não lhe dá um
guarda-chuva para o resto do caminho, nem para o resto do dia. E é isto:
estamos num beco sem saída. Ou, então, numa época muito parva.
Diálogos (17)
Macy: So... This is your
specialty.
Alejandro: Hmm?
Macy: He said the cartels in Mexico
are your specialty.
Alejandro: Yes.
Macy: Anything I should know?
Alejandro: You are asking how a watch
works. For now, only focus on knowing the time.
em Sicário -
Infiltrado (Sicario) de Denis
Villeneuve (2015).
Discos (207)
Não te bastava a chuva, o vento. A gabardina faz os possíveis para proteger. Mas o vento não dá tréguas. Movimentas o guarda-chuva: frente-trás-esquerda-direita-frente-trás-direita-frente: na tentativa de te molhares um pouco menos. De nada serve. Na tua imaginação (aquela que há muito aprendeste ser a tua pátria, através do escritor que até hoje mais leste) ouve-se um piano e um lento contra-baixo. Os óculos-de-sol protegem-te do inferno que são os outros. E, a bem da verdade, também te dão algum estilo. Principalmente num dia como hoje.
Livros (124)
Lembro-me que andava eu pela Rua da Anchieta e fui à banca de Paulo da Costa Domingos. Como sempre, recomendou-me um livro. Nesse dia trouxe este A Parvónia - Recordações de Viagem, de Marcos Pinto, pseudónimo de Manuel Bento de Sousa. Este livro, publicado pela Frenesi em 2007, é uma reedição das edições de 1868 e 1894. No entanto, a actualidade do livro é espantosa, nomeadamente os capítulos que dizem respeito à Política e às Artes. Um livro muito bom.
António Amaral Tavares
É ofício do poeta contactar o
medo
expor o avesso do rosto perante
a ferida. As coisas breves
os touros de carvão a luz
de abril que agora me apavora
viram partir as palavras
para a conclusão do nome.
De tudo o que foi e é ainda
a razão do sangue
restará sempre abrir o medo
às coxas das mulheres
ouvir à noite o uivo
das sombras geladas
o halo da luz crua
dos fantasmas esvoaçantes
dos ventres das mães.
em Movimento de Terras,
Lisboa: Língua Morta, 2016, p. 130.
(...)
Chego à escola e ouço alguém a desejar-me "bom ano". E eu respondo "bom ano". Depois ouço a explicação: "bom ano porque mais parece Dezembro do que Abril e nem parece que já estamos na Primavera e ando farta de chuva e isto é sempre a mesma coisa e os garotos estão insuportáveis e já não tenho a paciência que tinha e ando farta é isso e por isso bom ano.". Tira o café da máquina e é a minha vez de fazer o mesmo. Mas em silêncio. Prefiro queixar-me aqui.
Um poema de D. Tomás de Noronha
A uns noivos que se foram receber, levando ele os vestidos emprestados, e indo ela muito doente e chagada
Saío a noiva muito bem trajada,
Saío o noivo muito bem trajado,
O noivo em tudo muito conchegado,
A noiva em tudo muito conchagada.
Ela uma enágoa muito bem bordada
ele um capote muito bem bordado;
Do mais do noivo tudo d'emprestado,
Do mais da noiva tudo d'emprastada.
Folgámos todos os amigos seus
De ver o noivo assim com tanto brio,
De ver a noiva assim com tantos brios.
Disse-lhe o cura então: ― Confio em Deos,
E respondeo o noivo: ― E eu confio.
E respondeo a noiva: ― E eu com fios.
em Antologia Literária Comentada: Época Clássica - Século XVII, organização e comentários de M. Ema Tarracha Ferreira, de acordo com o programa de Português para o Curso Complementar do Ensino Secundário, Lisboa: Editorial Aster, s/d, p. 46.
Discos (206)
Em 1962 a Guerra Colonial ia no seu segundo ano. A NATO fechava os olhos às armas que lá eram utilizadas por nós. Tudo era permitido, desde que os comunistas fossem derrotados. Tive tios que combateram na Guerra. A maior parte deles não fala no assunto. Um dia aconteceu ser o meu vigésimo terceiro aniversário. Tocaram à campainha e era o Senhor Gilberto, carteiro de profissão, com uma encomenda para mim (uma prenda da namorada daquela altura). Convidei-o a entrar e a beber um copo ― faço anos ― quantos
são? — vinte e três ― sabes onde estava eu no dia em que fiz vinte e três anos?
— não ― num lugar qualquer em Angola, no meio do mato, numa emboscada. Eu
fiquei de olhos bem abertos até ― então esse copo vem ou não vem? — e disse-o com um
sorriso no rosto. Servi dois. Bebemos em silêncio.
Fialho de Almeida
Caracteres
da Literatura Contemporânea
Hoje capta-se a aura condensando tudo em
parágrafos curtos, dizendo tudo em linguagem inaudita, louco-lúcida, e incisiva,
e perturbante entrando na carne em epilepsias de som, de emotividade mordente,
de vertiginosidade paradoxal e maquiavélica. Uma linha de prosa moderna deve
conter o sumo de cinquenta ou sessenta páginas antigas: cada imagem deve ser um
mundo, e cada nótula de observação uma psicologia humana fumegante. Escritor que
não dê no papel esta transmissibilidade de acção vertiginosa, que não esteja
disposto a dar pedaços da vida em cada volume de 3 fr. 50, contenha ele embora
na omnipotente fantasia um cosmos prodigioso, seja um revelador sinistro como
Dostoievsky ou Shakespeare, ninguém o escutará se for moroso, e se não possuir
modo de visionar o assunto, essa espécie de delírio agitante dos génios
alcoólicos, tão bem iniciado para a arte em certas alucinações de Poe, Henri
Heine, e Villiers de l’Isle-Adam.
Ao mesmo tempo a tensão cerebral imposta aos
homens de letras por esta literatura exigentíssima, nem dá masculinidade às
criações, nem tão-pouco assenta o público numa permanência de escola duradoura.
Com o ser fisiologicamente uma expressão vital da época, ela ingurgita-se de
todas as desfalências e saburras contemporâneas: tem o sentimento de mau-estar,
que é o mal de viver, com zargunchadas dolorosas que a levam ao pessimismo
directamente: tem a acuidade analítica, sem saúde moral, característica das
agrupações que sofrem da vontade, resultado da convicção da anomalia interior e
do destino falho: tem a vaidade suprema, que exagera tudo, e faz de mil
autobiografias ridículas, constantemente assuntos de epopeia: tem o egoísmo
mesquinho, o predomínio dos impulsos grosseiros e dos exasperos animais de
extrema crápula, tem o estilo agitado, a imagem fúnebre, o delírio das
grandezas no modo de espargir a cor e instrumentar a frase pictural — e a
insociabilidade, a cólera impulsiva, a obsessão da palavra técnica e preciosa —
finalmente, todos os característicos de uma sociedade liquidante, e duma
literatura escrita por doidos, devassos tabéticos, e facínoras das galés.
Ora como os escritores não podem deixar de ser a
quintessência dos détraquements doentios da sociedade extravagante em que
nasceram, resulta que a obra deles reflectirá em amplificado as diferentes
modalidades de desequilíbrio que fixei, e essa amplificação descambará ainda na
deformidade, se aos desarranjos que poderemos chamar profissionais,
acrescentarmos os resultantes da necessidade de dinheiro, que os força a
produzir certo por hora, a produzir à bruta, e a manter o seu rang à custa de uma originalidade buscada ao
poder de excitações. De exagero em exagero, assim a moderna literatura foi
debochando os paladares, desviando o ideal do seu límpido voo para as regiões
clássicas do belo, desorientando as sensações, forçando a nota das catástrofes,
explorando o caso raro, arvorando em assunto de arte a anomalia; e falseando
paralelamente a isto o destino educador e sanitariamente intelectual do seu
papel, cedendo o passo os caprichos da turba, e aceitando por fome a imposição
dos gostos grosseiros, e dos instintos desregrados da canalha! A ponto, que
chegamos ao seguinte: a literatura apeada do pontificado mental das sociedades,
industrializadas a bon marché, e os
seus cultores reduzidos a escriturários e serventes do público, que lhes dita
revoluções literárias ao semestre, por um figurino grotesco, paralelo ao dos chapeleiros e alfaiates. Finda a
estação, a moda acaba, e sucede-lhe outra atinente às inconstâncias do clima,
às alturas do sol, e variabilidade da pressão. Neste corropio os homens de
letras, passados a simples entretenedores de ociosidades doentias, a
fabricantes de blagues para matar o
tédio, os homens de letras vão rebentando como esse Maupassant, em meia dúzia
de anos a galope atrás do favor de gentes fúteis e maníacas. Alguns cheios de
talento, alguns febris de génio, mas sem tempo material para produzir obras
pujantes, atolam-se como malditos na banalidade da produção a vapor, da
produção espontânea sem ranhuras, para fazer com trezentos e sessenta artigos
por ano, as setecentas libras necessárias ao prego e à vida factícia dos
restaurantes e dos cafés!
em Os Gatos,
selecção e introdução por M. Antónia Carmona Mourão e M. Fernanda Pereira Nunes,
Lisboa: Ulisseia, colecção Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1986,
pp. 191-193.
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