Discos (205)




Tarde. A casa aquecida. Lá fora as nuvens cinzentas deram a sua vez ao céu azul, que sempre ali esteve, só que escondido pelas nuvens. Tu acabaste de ver um filme que alugaste no video-clube. Estavas à espera de mais, por isso: desiludiu-te um pouco. Estavas à espera de mais. Como sempre e como quase todos: estás sempre à espera de mais. Na poesia, às vezes, esperas sempre mais. Dos poetas, raras vezes, esperas sempre mais. Das pessoas quase nunca esperas mais. Valha-te, ao menos, o jazz. Nunca que te desilude. Nunca te deixa a pensar "ah! estava à espera de mais.". Não. O jazz não te faz isso. O jazz dá-te sempre mais. 

Ensino Recorrente



Um poema de Francisco Rodrigues Lobo


[Vai o rio de monte a monte...]


Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?

É o vao mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D’aquém fica meu desejo
E d’além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?


em Antologia Literária Comentada: Época Clássica - Século XVII, organização e comentários de M. Ema Tarracha Ferreira, de acordo com o programa de Português para o Curso Complementar do Ensino Secundário, Lisboa: Editorial Aster, s/d, p. 71.

(...)


A verdade é que arrefeceu. Sentiste o frio quando ao meio da manhã saíste para ir tomar o café. Não estavas à espera que estivesses tanto frio. E só depois é que reparaste que havia neve no alto da Serra. Pouca, mas há neve. A suficiente para a sentires no teu rosto. No café de sempre tomaste a bica (sem açúcar, como é teu hábito) e depois foste comprar peixe fresco à única peixaria que aqui existe. Passaste  por um termómetro: marcava 6ºC. Era meio-dia. Agora, enquanto escreves este pequeno apontamento, ouves Eric Dolphy At the Five Spot, com Richard Davis (contrabaixo), Ed Blackwell (bateria), Mal Waldro (piano) e o fantástico Booker Little (trompete). E pensas, ao ouvír a música que tocaram, "porra, gostava de ter estado lá". Só que o teu "lá" é "lá fora", onde o sol deixou de brilhar e o "astro" (como aqui se diz quando queremos falar do céu) está em tons de cinzento claro, o que, às vezes, é sinal de neve. Ela, a neve, pelos vistos, está prevista. Acima dos 600 metros.

Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses



Durante muitos anos comprei livros na Papelaria Progresso, em Manteigas. Os livros disponíveis estavam limitados aos catálogos dos Livros de Bolso Europa-América e à Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses. A maior parte dos livros que comprei foram da Europa-América (estrangeiros); mas os autores portugueses chegaram até mim através da Ulisseia: Fialho de Almeida, Raul Brandão, Bocage, Florbela Espanca, Fernão Lopes, Camões, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Trindade Coelho, Padre António Vieira, Gil Vicente, entre outros. A Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses foi para mim muito importante.

Fialho de Almeida


E o que mais confrange, é esta abdicação, no Estado como no indivíduo, ser feita de indolência estúpida, de desgoverno insólito, de falta de brio cívico. Não nos cerceia a miséria filha de um estancamento completo de recursos: cerceia-nos o desleixo, derivante dum descaminho de força, e duma aplicação viciada de predilecções e faculdades. A maioria das nossas populações é feita desses tipos intermédios, expectantes, passivos, em que lhes falei no começo destas notas, que os fortes pisam e manietam ao seu carro, e para que não há lugar na vida agitante dos nossos dias. O resultado é este: em cima, o país gozado por dez ou doze charlatães, de parceria com dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jiga-jogas de negociatas, que lhe permitam aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho: em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os bêbados, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair alfim no próprio vómito, onde a letargia a açovaca, até que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar!


em Os Gatos, selecção e introdução por M. Antónia Carmona Mourão e M. Fernanda Pereira Nunes, Lisboa: Ulisseia, colecção Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1986, p. 131.

(...)


A noite. Sempre a noite. Desta vez acompanhada com algum vento. Muita chuva. Sobre a cama e no quarto aquecido ouves a voz de David Lindley perguntar-te: what is a soul of a man. Claro que é uma pergunta que não espera resposta da tua parte. Mas ela fica a pairar no quarto, como uma espécie de sombra que o candeeiro da mesa-de-cabeceira amplia na parede em frente. Olhas para ela, para a parede. Lembras o tempo em que estava coberta de posters. Mas já lá vão alguns anos. E nesses anos, esses mesmos que já lá vão, não serias tão assombrado pela pergunta que David Lindley te faz.

Discos (204)




Let there be light
Sound
Drums
Guitar
Let there be rock

AC/DC


Só tenho dois discos: Nevermind, dos Nirvana, e este Live, dos AC/DC. É um álbum duplo. A música, isto é, os discos, chegaram muito tarde cá a casa. A primeira aparelhagem foi-me oferecida quando passei do nono para o décimo ano. E não tinha leitor de cd. Mais tarde comprei um. Durante muito tempo ouvia os discos dos outros e gravava tudo em cassetes. Depois, quando comprei o leitor de cd, continuei a gravar cassetes, mas também comecei a comprar cds, que mandava vir da Carbono (Lisboa), ou da Jo-Jo's (Porto). Ouvi muito os AC/DC na altura. E ainda hoje os ouço e sinto um arrepio na espinha. Estou a ouvir a juventude, lá longe. E poderia dizer que isso é mau. Não é.

TDK SA



Não sei quantos escudos gastei em cassetes. A maior parte delas eram TDK SA. Depois, passaram a ser as SA-X. Mas a maior parte delas eram SA. Lembro que as de 90 minutos chegavam a custar 450$00. O que era muito dinheiro. Devido a isso tentava aproveitá-las ao máximo: dois álbuns numa cassete. Às vezes isso não era possível, porque começaram a aparecer álbuns com mais de 60 minutos. Tenho um caixote, ali no sótão, cheio de cassetes destas. 

Marcos Pinto (Manuel Bento de Sousa)


Há neste mundo duas ciências. Uma, que a humanidade vai fazendo e desfazendo cada dia, e que consta de uma teorias hipotéticas firmadas em factos imaginários, massa confusa que a mesma humanidade conduz às costas sem saber o que leva. Outra que é a obra pensada e criada pelos eleitos de Deus, pelos génios raros que de tempos a tempos vêm, ninguém sabe donde, a realizar as grandes descobertas e os grandes inventos, de que o homem se aproveita, sem os agradecer a quem lhos dá.
A primeira adula a vaidade do vulgo, espoja-se nas academias, faz diligências para perpetuar-se nos livros que a traça há-de-roer, e todos os dias vai renovando as doutrinas efémeras de que se compõe, substituindo cada hipótese, que se fez velha, por um novo erro, que só dá, como produto real, uma casaca nova para quem o inventa e que dura apenas o tempo que a mesma casaca leva a romper-se.
A segunda cresce sempre e indefinidamente, nada perde do que já possui, ressuma contínuos benefícios, mata a fome de uns, enxuga as lágrimas de outros, vai levantando arco sobre arco na ponte que há-de unir o homem a Deus, e tem uma história longa e eterna, da qual cada capítulo tem por título um nome célebre e imortal.
A primeira dá, aos que a geram, a celebridade enquanto vivem e o esquecimento no dia em que morrem, ainda mesmo que as inutilidades, que produzem, logrem durar através dos tempos. Tanto sabemos nós hoje quem em épocas remotíssimas edificou as pirâmides egípcias como sabemos quem, já no fim do século passado, inventou os chapéus redondos.
A segunda ganha, para os que a criam, o escárnio dos contemporâneos e a glória póstuma. As suas obras ficam para sempre, e com as suas obras ficam os seus nomes, desde Noé, que nos princípios do Mundo fabricou o vinho às gargalhadas da família, até Franklin, que inventou o pára-raios, enquanto os seus patrícios julgavam que ele andava apenas divertindo-se a lançar papagaios ao vento.
Os filhos de Noé descompuseram o seu pai, e a academia de Londres censurou a banalidade de Franklin; e contudo nós ainda hoje bebemos vinho e abrigamo-nos seguros com o pára-raios.
O autor das pirâmides foi provavelmente muito celebrado, e o fabricante dos chapéus provavelmente condecorado; e todavia as pirâmides só vivem hoje para aninhar serpentes e os chapéus redondos para nos darem dores de cabeça.
Há, pois, duas ciências: uma, que é a verdade que sobrevive; outra, que é o erro que morre; uma, que é criada pelo génio; outra, que é produzida pelo orgulho; uma, que é o sopro de Deus; outra, que é o arroto do homem; uma, que é um bolor de podridão estendido pela superfície da terra; outra, que é a vegetação virente a que chega a cultura pavonesa.
Da primeira ciência riem-se os parvónios, e não a querem para si; a segunda estimam-na, apreciam-na e guiam-se por ela.
E por que será isto?
É pelo que estou farto de repetir. É por uma razão de coerência. É porque em ciência, como em tudo o mais, a Parvónia é povo de bom senso.


em A Parvónia – recordações de viagem, Lisboa: Frenesi (conforme as edições de 1868 e 1894), 2007, pp. 152-154.

Movimento de Terras - António Amaral Tavares



António Amaral Tavares
Movimento de Terras
Língua Morta
2016


António Amaral Tavares (1964) nasceu em Tábua. Foi cedo morar para Lisboa e vive em Coimbra desde 2000. Publicou Trabalhos em Vidro (Palimage, 2012) e Talvez seja essa certeza (Medula, 2014), livro que lhe valeu o Prémio Nacional de Poesia Diógenes 2014, atribuído pela revista Cão Celeste. Movimento de Terras é o seu terceiro livro.

George Carlin




O seu humor não faz apenas rir. Faz-nos, também, pensar. A palavra e o uso das palavras eram o seu material predilecto (veja-se o que ele diz sobre o prefixo "pre-"). Não conheço muitos humoristas que, tal como ele, desmontem a língua e a linguagem, de maneira a podermos descortinar certos e alguns obejctivos políticos. George Carlin não sei se fez escola. Provavelmente seria o primeiro a destruí-la. Mas sei que me faz rir e pensar.

(...)


"A tradição está a perder-se" foi a frase que hoje mais ouvi. A mesa foi posta, a porta ficou aberta, mas a "tradição está a perder-se". E não deixa de ser verdade. Alguém diz ― há cinquenta anos não era nada disto ― e eu penso “nem há vinte, quanto mais há cinquenta”. E depois novamente ― antes em funde vila era porta-sim-porta-sim e só garotada na rua e gente que nunca mais acabava ― e eu a lembrar que sempre ouvi esta conversa, esta comparação.
 

Ruben A.


Um ser humano é como um relógio de precisão, à mínima oscilação a máquina empena, atrasa ou recua. O modelo de virtude apenas se atinge por muito pouco tempo, escangalha-se logo, e quem não tem vocação para santo sofre para burro ao ver que de santo só tem um átomo, e às vezes quando está a dormir é que se manifesta, e em sonho para não perder a virtude de ser sempre desvirtuoso.


em O Mundo à Minha Procura II, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição (1ª edição: Parceria A.M. Pereira, 1966), 1993, pp. 122-123.

(...)


O cheiro a borrego assado invade a casa. Também o das "ervas" acabadas de fazer. A Serra ali continua: petrificada em Tempo. O Tempo está do seu lado. Talvez seja a única coisa que tenha a seu favor. Ao contrário de nós. 

Uma imagem para o dia



Discos (203)



You can hear
his bones humming.

Coil

Falemos dos dias e dos joelhos esfolados pela paragem repentina depois da corrida. Há também a luz. E nela estranhos movimentos, sombras que dançam ao som dos pássaros que, lá fora, preparam a partida (ou será a chegada?). A janela aberta traz o mundo, mas não o explica. Isso fica para os tratados e compêndios. E há também uma leve brisa, morna como uma mão sobre o peito. Falemos dos dias. Da luz. Essa penumbra. 

(...)


A Vila envolta em nevoeiro. A chuva. A chuva forte que bate na janela, a sua força pela caleira abaixo. Abres os olhos ao assombro de estares vivo e saberes que tudo acabará um dia. Porque tudo acabará um dia. Tudo. O mundo acabará para ti da mesma maneira que tu acabarás para o mundo. E nesse assombro prossegues e persegues os dias.

Reverso (20)




Leonard Cohen é uma presença constante como influência de vários grupos. Em alguns essa influência é mais evidente. Nos Coil a influência de Cohen passa um pouco ao lado. Mas existe, como os próprios Coil sempre disseram. Em 1986 a música Who By Fire aparece no álbum Horse Rotovator dos Coil. E, verdade seja dita, caso não soubéssemos da existência do original, de Leonard Cohen, diríamos que era um original dos Coil. 

Pensamento do dia



Eric Dolphy
Softly as in a morning sunrise
The Illinois Concert
1999

Uma imagem para o dia



Hanif Kureishi




Cheguei aos livros de Hanif Kureishi através do filme Intimidade, de Patrice Chereau. No entanto, já antes tinha visto A Minha Bela Lavandaria, de Stephen Frears, cujo argumento foi escrito por Kureishi (mas quando vi o filme desconhecia, por completo, esse facto). Este blogue começou com uma epigrafe do autor inglês. O título também é o título de um livro dele. Muito cá de casa, portanto.

Vasco Gato


Cai a persiana
como se o sol

se desatasse

e mora agora
em mim
a penumbra

das coisas
claramente vistas


em Primeiro Direito, Lisboa: Artefacto, 2016, p. 39.

Discos (202)




desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.

Al Berto


A noite estava fria. O pequeno auditório começava a encher. Procuraste um lugar ao meio, para que o som te envolvesse. Olhaste à tua volta. Ninguém conhecido, apesar de Al Berto ser, na altura, o poeta. As luzes foram diminuindo. Aconchegaste o corpo à cadeira. E deixaste que a música e as palavras te levassem.

(...)


Deitado sobre a cama neste quarto aquecido: escrevo. Lá fora a Serra ergue-se no seu tempo, e parte desse seu tempo é meu, também. Não sei se estará frio, pois ainda hoje não saí. Apenas abri a janela para o ar se renovar. Tomei o pequeno-almoço na cozinha: café-de-saco e pão com manteiga. Bebi três chávenas, o que permitirá não beber mais café hoje. O almoço invade a casa. 

Hanif Kureishi


À medida que vamos ficando mais velhos e doentes e o nosso corpo vai deixando de ser um artigo de moda, menos pessoas querem tocar-nos. Passamos a ter de pagar. Os massagistas e as prostitutas acariciam-nos se lhes dermos dinheiro. Quantas terapias envolvem actualmente a ‘imposição das mãos’? As enfermeiras tratam dos doentes. Os médicos passam a vida a tocar em corpos, e é por isso que os jovens querem ir para a escola de medicina. Os dentistas e ginecologistas adoram o lado escuro. Alguns trabalhadores, como os empregados das sapatarias, podem pegar em partes do corpo sem ter recebido lições de anatomia. Os padres e os políticos dizem às pessoas o que devem fazer com o corpo. As pessoas escolhem sempre o trabalho de acordo com as suas preferências em relação ao corpo. Os consultores de carreiras devem ter isto em mente. Por trás de cada vocação há um fetiche.


em O Corpo, tradução de Maria Augusta Júdice, Lisboa: Teorema, 2003, pp. 44-45.

Pensamento do dia



Charles Mingus
No Private Income Blues
Mingus in Wonderland
1959

Byung-Chul Han



Não sendo eu um regular leitor de filosofia, foi com muito agrado que li dois livros de Byung-Chul Han, publicados recentemente, entre nós, pela Relógio D'Água. São livros muito acessíveis e que desenvolvem temas muito próximos da nossa realidade, vida. Sei que quase todos os filósofos o fazem. Mas quase todos aqueles que eu li: cansam-me. Byung-Chul Han: não. Continuarei a lê-lo.

Discos (201)




Uma vez, numa aula, fizeste a experiência. Colocaste o CD e esperaste pela reacção dos alunos. E, surpresa das surpresas, ninguém se riu, ninguém fez má cara. Houve apenas um silêncio duradouro. Enquanto os alunos faziam os exercícios, a música invadia a sala de aula. Um silêncio duradouro. Sim. Duradouro.

(...)


A conta do gás foi demasiado alta e por isso começas a demorar menos tempo no duche. No entanto, nunca te demoraste muito – um hábito que adquiriste na residência de estudantes do secundário, pois se demorasses mais do que cinco minutos levavas com uma bacia de água fria. Pensaste numa possível fuga. Mas ontem o técnico descartou essa possibilidade. “O gás aqui é um dos mais caros do país”, disse-te. A água é a mais cara do país. Foi privatizada. Pertence a um consórcio chinês. Foi privatizada, a água, e passou a ser mais cara. Quando é que foi a última vez que viste algo a ser privatizado e os preços baixarem? 

Vergílio Ferreira


Indicar nomes de escritores válidos de hoje? É perigoso… Se os não indico todos, válidos e inválidos, como em lista telefónica, haverá logo protestos e injúrias…


em Um escritor apresenta-se, apresentação, prefácio e notas de Maria da Glória Padrão, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1981, p. 301.

Livros (123)



Cossery continua a explorar o valor do kinismo como forma de combate ao poder e à violência por ele exercida. O personagem Gohar é um autêntico Diógenes, vivendo despojado de qualquer bem material e tendo renunciado a uma carreira promissora enquanto professor universitário. Mesmo manchado pela morte de uma jovem prostituta, Gohar entrega-se às delícias do haxixe. O escárnio é a sua arma de eleição. A modernidade o seu alvo.

Reverso (19)




As versões são sempre, quanto a mim, homenagens. Mesmo quando, de uma ou outra forma, parodiam o original. Todos nós conhecemos as versões de Yankovic, autênticos hinos ao humor. Em 1980 os The Fools fizeram a sua versão bem-humorada de Psycho Killer, dos Talking Heads. Psycho Chicken mantém o ritmo e a melodia do original, mudando apenas a letra. Um must. 

Livros (122)




Este livro é, quanto a mim, uma pequena preciosidade. Foi o único livro que li do autor. Sei que tem mais livros publicados, mas este foi o único que lhe li. O mais curioso é que o recebi como oferta, por ter comprado outros dois. É constituído por pequenos poemas. A economia das palavras contrasta com a força de algumas imagens. Está um poema dele ali na coluna ao lado. 

(...)


Acordas à mesma hora de sempre. A rotina engatilhada. Nada de novo, portanto. Quando sais do bloco de apartamentos ninguém te segue. Poucos são aqueles que, aqui, se levantam tão cedo como tu. Chegas ao café e as mesmas caras de sempre. Reparas, hoje, que vão chegando pela mesma ordem de todos os dias: primeiro o mecânico, depois a executiva, a seguir o reformado. O mecânico pede apenas um café. A executiva um chá preto e torrada. O reformado uma meia-de-leite e torrada. Cada um ocupa a mesma mesa de sempre. Tal como tu.

Reverso (18)




Houve o punk dos Suicide e dos Black Flag. Depois Henry Rollins apostou tudo no hard-core. E fez esta fantástica versão do clássico dos Suicide. Onde estes são sintetizadores e ritmo acelerado, aquele é guitarras distorcidas e arrastadas. A extensão da versão de Rollins também é uma grande diferença. Ouçam com atenção.

Klimt




Falar dos quadros de Klimt é um dos lugares-comuns que eu melhor conheço. Poucos são aqueles que não admiram a sua obra. Eu incluo-me nesse grupo. Quando pela primeira vez vi alguns dos seus quadros, fiquei fascinado pela luz que verdadeiramente os invade. E depois ainda tive tempo para os frescos na Secession, em Viena. Quando a mim, Klimt foi, em primeiro lugar, um grande desenhador. E só depois: um grande pintor. 

Discos (200)




No carro ouves na rádio os números: quatrocentos mil mortos, cinco milhões de refugiados, esperança média de vida reduzida em vinte anos, níveis de pobreza astronómicos, um país completamente destruído. Ouves na rádio os números e ligas a sofagem do carro pois a manhã começou fria. No lugar de sempre, onde agora tomas o primeiro café do dia, há quem comente a fina e estaladiça massa do pastel de nata, ou então o jogo de futebol do dia anterior. Tu: saboreias o primeiro café do dia, enquanto pensas que tens de pagar a conta da luz, do gás, da água, e que tens de ir ao supermercado comprar qualquer coisa para o jantar de hoje. Quatrocentos mil mortos, cinco milhões de refugiados. São números demasiado grandes, mas estão muito longe de ti.

Uma imagem para o dia



Livros (121)



Poucos são os homens que admitem o seu gosto, ou fascínio, por "lolitas". Não é politicamente correcto. Não nos tempos de hoje. É tema tabu. Nabokov escreveu um grande livro sobre um tabu. Foi um livro que li avidamente. E ainda hoje recordo o seu início (um dos melhores primeiros parágrafos da literatura do século XX). 

(...)


As traseiras do apartamento dão para uma coudelaria. Às vezes também por lá andam outros animais. O cheiro a merda, pela manhã, é forte. Principalmente depois de um dia de chuva. O que mais me impressiona não é o cheiro a merda; são antes os cavalos. Explico: Faça chuva, ou sol, ou vento, os cavalos estão sempre serenos. Parece que nada os perturba. O que me deixa bastante perturbado. Ainda no outro dia chovia e o vento soprava forte. Os cavalos, esses, permaneciam quietos, nos lugares de sempre. Eu, duma das janelas do apartamento, observava-os. Enquanto isso bebia chá preto. Tentava, sem sucesso, aquecer. 

Júlio Henriques




Reparei no outro dia que, depois de Aníbal Fernandes, Júlio Henriques é, talvez, o tradutor que mais li: Cossery, , Orwell, Fonollosa,  só para citar alguns nomes. A sua descrição contrasta com a divulgação que os livros por si traduzidos têm. Há algum tempo foi reeditado o seu Deus Tem Caspa. Quando vejo o seu nome sei que a tradução é de qualidade.

Paulaner



Cerveja de Trigo

Henrique Manuel Bento Fialho


A GRUA (décimo andamento)


desci os estores até ficar tudo escuro

é o primeiro dia de sol do ano
e eu não quero insultá-lo com as minhas dores

prefiro ficar no escuro até que me passem
ou passe eu por elas
a falar sozinho sobre os temas inúteis
que insistem em ocupar-me diariamente:
o cheiro a primavera ao fim de uma noite de trabalho
reuniões sofridas por antecipação
pesadas idades que talvez pudesses levantar
não estivesses também tu condenada ao fracasso

eu ainda tenho o cão por companhia
e do teu perfil ao longe faço o último reduto da esperança
mas tu
quem poderás tu ter
que te reinvente as cores do mundo
e te iluda os caminhos do degredo?

estás só como as coisas mais belas
para quem da solidão saiba apenas o nome
tudo o mais é ignorância consentida
que se satisfaz a si própria

eu e tu unidos em pensamento


a driblar no escuro os estorvos da distância



retirado daqui

Discos pedidos (199)




It doesn't matter how hard you try to deny
What I can see clearly with my drinking eye.



Arab Strap


Lembro-me que o concerto marcado era dos Kula Shaker. Mas quando chegámos não eram eles que estavam em palco. Antes: um trio. O vocalista tinha uma geleira atrás de si. Dela foi retirando, durante uma hora, latas e latas de cerveja, que bebeu sofregamente. Pelo ar assobios e impropérios contra a música que se ouvia. Não fiquei admirado: a maior parte de nós ia preparado para uma espécie de rock psicadélico e, em vez disso, um lamento em tom arrastado. O vocalista terminou o concerto a balbuciar a última canção. Notoriamente embriagado saiu do palco apoiado em alguém. A verdade é que nunca mais ouvi Kula Shaker. 

(...)


Não deste pela noite passar e acordas a pensar que talvez seja bom sinal. Abres a janela e há o ar fresco da manhã. Os montes, em frente, reflectem a luz do sol. Duche. Escolhes a roupa. Tomas o habitual comprimido. Pequeno-almoço. Café no lugar de sempre e, na tua cabeça, a música Strange dos Galaxie 500. 

Livros (120)




Quando comprei este livro não sabia o que me esperava. Comprei-o com um único objectivo: ter um livro de poesia de um autor holandês. Depois: foi um murro no estômago. A poesia de Herzberg é muito boa. E existe um poema seu que é uma espécie de guia para os meus dias (está ali na coluna ao lado, caso tenham curiosidade). No ano lectivo 2008/2009 leccionei Português para Estrangeiros em São Teotónio, concelho de Odemira. Muitos holandeses assistiam às aulas. Uma noite pedi a um dos alunos holandeses que me lesse um poema de Herzberg.

Poema e outros Poemas - Pedro Dias de Almeida



Pedro Dias de Almeida
Poemas e outros Poemas
CalaFrio
2016

Amadeo de Souza-Cardoso



Amadeo é o meu pintor português. Gosto muito dos seus quadros. A primeira vez que vi uma reprodução de um quadro seu foi num pequeno livro lá de casa intitulado 100 Obras-Primas da Pintura Europeia (Livros RTP). Aquilo que mais me fascinou foi o facto dele ser português, pois a sua forma de pintar parecia tudo menos portuguesa. Até hoje só lhe vi um quadro ao vivo. Não me recordo já onde. 

Coda - Miguel Alexandre Marquez



Miguel Alexandre Marquez
Coda
desenhos de Bruno Dias Vieira
Língua Morta
2016

Ensino Recorrente



(...)


Acordaste demasiado cedo. Mesmo assim cumpriste a rotina: inibidor da bomba de protões, duche, pequeno-almoço, café. As ruas e a estrada nacional ainda estavam desertas quando saíste de casa e, no café do costume, as mesas vazias foram sinal da hora a que chegaste. O funcionário trocou contigo algumas palavras sobre a vitória do Benfica e sobre o melão de JJ. Sorriste e pediste a bica.

Discos pedidos (198)




Quando abres a janela a cidade abre-se para a casa. Sabes, há muito, que não é apenas Nova Iorque que não dorme. Para ti: todas as cidades não dormem. Há sempre alguém, ou algo, que passeia pelas suas ruas, vielas. As cidades têm essa capacidade. Sentes o ar fresco da manhã a lavar o teu rosto. Falta o café para acordares de vez. Alguém, do lado de lá da alameda, grita com alguém. Pensas que é demasiado cedo para tanta gritaria. As cidades têm essa capacidade. Escolhes a camisa, as calças, a camisola. O sobretudo há muito que sempre te acompanha. Sais.

Livros (119)




Poucos são os autores que me prendem tanto às páginas dos seus livros. Cossery é um desses autores. A Violência e o Escárnio é um livro fantástico sobre a força das palavras. Cossery defende que só elas poderão destronar os tiranos que nos governam, e não a força, a violência. Para os defensores da acção directa através da força, este livro poderá ser difícil de engolir. 

Albert Cossery


É certo que a sua fealdade o livrava de todos esses perigos, pois só um cego poderia desejar sodomizá-lo. E felizmente não havia cegos na cadeia.


em Mendigos e Altivos, tradução de Júlio Henriques, Lisboa: Antígona, 2ª edição, 2002, p. 48.

Livros (118)




Antes de 1984 (Orwell) e Admirável Mundo Novo (Huxley), havia Nós, de Zamiatine. Foi um livro que li recentemente: terminei ontem. Mas irá ficar-me para sempre e ganhou o seu lugar nesta lista que criei. A racionalidade rege o mundo e tudo é possível dentro do Estado Único, desde que seja o próprio Estado a dizer o que é possível ou não. Não há lugar para as emoções, nem para a individualidade. Tudo é eficaz e asséptico. Inclusive as relações sexuais. A felicidade é o objectivo último do Estado Único: «Era evidente que todos eles estavam salvos, só para mim não havia salvação: eu não queria ser salvo.» (p.220).

(...)


O vento. Sempre o vento. Aqui, é o vento que tem um nome diferente em cada rua, e não o frio, como na Guarda. Agora entendo melhor tanta "eólica" e tanto moinho. E depois: a humidade. Sempre a humidade. A roupa nunca parece estar seca. E depois é o frio que a seca, mas na realidade não a seca: cola-se a ela e fica ainda mais frio. Em Manteigas o frio é seco. Uma pessoa veste mais uma camisola e consegue aquecer. E depois há o truque de respirar o ar frio apenas pelo nariz. Ou então colocar o cachecol à volta da boca e do nariz. Mas aqui: não. Nenhum desses truques funciona. O vento. Sempre o vento. A humidade. Sempre a humidade. O frio. Sempre o frio.

Ensino Recorrente



O Fim da Conversa


A minha história com o Senhor Jorge Melícias é longa. Li a sua poesia no início, tendo ficado deslumbrado (é a palavra correcta) com algumas imagens. Mas, com o passar do tempo, fui-me afastando da sua poética.

Mais tarde fiquei a conhecer, através dos blogues (o que não será suficiente para dizer que se “conhece” alguém), a sua pessoa. Essa revelou sempre uma atitude bastante interventiva no que diz respeito a questões de poesia, defendendo a sua visão poética. No entanto, também se revelou uma pessoa bastante conflituosa, truculenta e, algumas vezes, mal-educada. Sempre lidei bem com essa sua faceta.

Depois de vários anos houve uma aproximação da sua parte. Chegamos a conhecer-nos pessoalmente, e o Senhor Jorge Melícias pareceu-me mais calmo e menos truculento. Até ao dia em que me enviou o seguinte e-mail:

Caro Manuel,

Tudo fino contigo, desde o nosso último encontro na Bertrand?

Entende, por favor, este meu gesto como uma partilha.

Porque acredito que há gente que, ao revés da petite histoire, se arroga ainda o direito de tentar escrever contra o Tempo, tomo a liberdade de te enviar em pdf. dois projectos: felonia (saído em 2014) e profligação (a sair já no próximo janeiro de 2015).

São duas propostas sólidas, ainda que não sejam a tua praia, sei-o bem. Mas dá-lhes um hipótese de leitura séria e sustentada. Pode ser que te surpreendas. Ou não. Se dizes ainda não ter entrado bem na poesia do Quintais, imagino o que dirás da minha....
Mas, seja como for, a partilha está aí. Propores-te a ti mesmo usufruir dela é uma decisão que só a ti cabe.

Nos meus livros (sobretudo nos últimos) lanço mão de uma série de termos que têm a sua máxima utilização em saberes tão distintos como a filosofia, a teologia, e a própria economia. E faço-o precisamente (ainda que esta minha asserção se possa constituir como um paradoxo aos teus olhos) com o intuito de abrir a poesia a outras áreas e não de a fechar em si mesma e na sua imarcescível subjectividade.
A filosofia é difícil, a biologia evolutiva também e a física quântica não o é menos, e, porém, nunca ninguém teve a ideia peregrina de aligeirar a terminologia que sustenta essas artes.
Sei bem que a poesia não é nem filosofia, nem física quântica, mas é esse precisamente, a meu ver, um dos grandes problemas que assalta muita da poesia que por estes dias se faz, o fechamento que ela a si própria impôs relativamente a todos os outros campos do conhecimento humano. E daí resulta, inevitavelmente, o seu confrangedor empobrecimento, encontrando-se muita dessa poesia assente no primado de um eu empobrecido, no subjectivismo auto-referencial e na coloquialidade mais rasa.

O agudizar do tonos reflexivo acarreta, naturalmente, uma densificação do léxico. Estranho é pensar o contrário.
Aristóteles, elíptico, obscuro e enigmático no seu modo de expressão, não é menor filósofo que o cristalino Descartes ou o elegantíssimo Bergson. Há poetas sensibilizados pela Filosofia, como, entre outros, foram, declaradamente, um Fernando Pessoa ou um Mário de Andrade e outros não. Como filósofos há indiferentes à Poesia, como o não foram Nieztsche, Wittegenstein ou Heidegger.

Sempre fui um leitor de filosofia e de teologia e isso reflecte-se, sobretudo, e de uma forma mais acintosa, nos meus últimos trabalhos. À "Dialéctica Negativa" de um Adorno ou de uma Anna Arendt, à "Fenomenologia do Espírito" de Hegel, mormente a "Dialéctica do Senhor e do Escravo", só para citar alguns exemplos, juntaram-se nestes últimos tempos, contribuindo de uma forma indelével para a feitura destes dois  livros, as leituras e descontruções que fiz sobretudo de filósofos próximos do existencialismo cristão, todos eles devedores da Angústia kierkegaardiana (Levinas e o seu "Deus Ausente", Gabriel Marcel e o "Indesmonstrável Absoluto", toda essa gente simpática e bem resolvida).

Estou plenamente ciente que serei sempre um poeta lido por poucos, inclusive por pouco poetas, mas o argumento da dificuldade, a tecla batida até à exaustão, parece-me demasiado redutor. Podem acusar a minha poesia de muita coisa (de não apontar caminhos - como se fosse esse o papel da arte!!!-, de ser obscura, wathever...) mas nunca a poderão acusar de gratuitidade.
Até posso levar ao extremo a máxima de Flaubert mas a minha poesia não peca por garrulice ou loquacidade surrealista.
As palavras que a compõem (sejam as mais ou as menos inusitadas) fincam-se com justeza no espaço que ocupam, ainda que o contexto possa não ser o mais óbvio nem o seu sentido último o mais imediatamente reconhecível.
E depois há sempre o supremo prazer da dificuldade ultrapassada (falo-te agora como mero leitor, de poesia, de filosofia, de astrofísica, do que seja...). O Anabase, do Perse, foi um livro que li aos 18 anos, aos 28, aos 38, e que continuarei a ler (assim o futuro mo permita) pela minha vida fora. Se o entendi plenamente aos 18, aos 28, aos 38? Não creio, aliás, tenho a certeza que não, mas consigo ter a humildade de não colocar o ónus do meu parcial falhanço nas costas do autor (com aquele mais que pueril e requentado "isto não quer dizer nada, se ele tem alguma coisa para dizer que fale clarinho..."), mas na minha falta de acuidade. E cada vez que saio de novo do Anabase saio com a convicção de que conquistei mais uma chave que me permitiu entrar um pouco mais naquele universo ímpar. Conquistei-a a pulso, é verdade, mas esse prazer é inestimável.

Peço desculpa pelo enorme preâmbulo. Não o entendas como um discurso defensivo ou como um arroubo de ressabiamento (as minhas verdadeiras mágoas não passam por estas cercanias). Apenas como uma troca de ideias, quase como um desabafo, com alguém que conheço e que tem uma visão diametralmente oposta da que eu preconizo. O que nos separa é o que em última análise nos une, nada mais que um concordarmos em discordar.

Sobre os livros, propriamente ditos: estes são dois projectos curtos, como é do meu timbre, aliás, e como também é comum giram em torno de umas quantas poucas palavras-conceito e da reiterada desconstrução e construção desses semantemas.

Dou-te o exemplo de dois versos do felonia que me parecem disso paradigmático e fazem, ao mesmo tempo, um pouco de luz sobre uma ideia que me é muito cara, a da orfandade e a da soberba que deverá presidir a essa orfandade (tema central dos dois livros supracitados):

"À asseidade de deus/ eu aponho a minha autarcia."

É um verso forte, creio, mas cuja cabal fruição depende de algum grau de hermenêutica. Rien à faire..
Da "asseidade" como o atributo teológica "daquilo que existe por si mesmo" até à sua relação com a mais terrena "autarcia", como "a qualidade do que se basta a si próprio". E de um lado deus e do outro o homem.

Trata-se nestes livros da plena assumpção da falta. Não a hamartia trágica, não o desculpabilizante "erro sem culpa" aristotélico, não o sofisma da tergiversação edipiana, mas o dolo premeditado. Nada menos que o dolo premeditado.
Como humilde representante da raça humana não me vendo por menor quinhão.

Apenas mais um pormenor: se no profligação a tese me cabe a mim, a antítese e a síntese são prerrogativa de deus.
Esse é, aliás, um livro muito assente na "síntese hegeliana", na ideia de que a síntese suspende dialecticamente um pensamento para se tornar, ela mesma, numa nova tese.
Como poderás aferir (se tiveres a generosidade de os ler) nos 3 poemas (repartidos pelos 2 livros que envio em anexo) que abrem e fecham com aspas - e que levam travessão ao início - é deus quem fala.
Se fala bem ou não é outra questão...


Deixo-te um abraço amigo e tudo de bom para ti,

Jorge

O mail anterior tem data do dia 19-12-2014. No dia 28-12-2014 recebo o seguinte e-mail:

Caro Manuel,


Desculpa lá se o meu gesto não foi do teu agrado ou te assustou.


Tudo de bom para 2015 e um abraço,

J.

Nesse mesmo dia respondi:

Boa tarde, Jorge.

Só hoje irei ter mais tempo para aqui vir e ler tudo com mais atenção. A tua atitude não me assustou, mas ainda não tive tempo para ler o que me enviaste, embora já tenha lido o teu mail. Ando a "pensar" na resposta, que irei dar.

Todas as questões que levantas me dizem muito. A tua poesia está cá em casa ("A Luz nos Pulmões" e "O Dom Circunscrito").

Em breve direi algo.

Abraço e bom 2015

Nesse mesmo dia recebo novo e-mail do Senhor Jorge Melícias:

Boa noite, Manuel,

Obrigado pela atenção e disponibilidade.

Sobre os dois livros que referes: vejo-os como juvenília inconsequente, pouco mais.
No novo volume que sairá nos começos de 2105 (e que é intitulado segundo o conceito clássico de hybris) esses dois projectos (bem como o iniciação ao remorso) já não figuram. Os livros agregados no hybris serão pois: incŭbus (2004), a longa blasfémia (2006), agma (2009), felonia (2013) e profligação (2014). Uma década de poesia, portanto, 2004 | 2014. E aquilo que verdadeiramente considero como o meu corpus poético.
Os livros não contemplados nesse volume continuam por aí, disponíveis para exercícios de hermenêutica a quem possa interessar.
Não se retalha um filho impunemente, e uma abscisão é sempre a assumpção de um falhanço. Mas é esta a insólita crueldade da poesia: eu não tenho que amar um filho. Sequer tenho que perfilhá-lo. Basta-me reconhecer a sua existência, com maior ou menor fastio. Mais devastador é perfilarmos uma prole (como se intenta na reunião de uma poesia) e apenas conseguirmos amar uns poucos por apenas nesses poucos conseguirmos ainda nos rever.
Há quem talvez prefira encontrar nesta rasura a manifestação de um capricho insondável. Eu vejo-a como um exercício de humildade.

Seguiremos então com o nosso diálogo. Um abraço amigo

Segundo os parâmetros do Senhor Jorge Melícias, a minha resposta tardou. Ele, impaciente, escreveu-me no dia 04-01-2015:

Boa tarde, Manuel,


Não te coíbas de me fazer saber a resposta em que andas a pensar...


Abraço,

J.

Como voltei a não responder em tempo útil, o Senhor Jorge Melícias insiste. No dia 06-01-2015, recebo novo e-mail:

Caro Manuel,

Bom dia. Tudo bem contigo?

A proposta que te fiz era uma proposta de diálogo. Não visava converter ninguém à visão que tenho da poesia, nem a tua resposta a esse meu convite deveria ter como móbil último qualquer tentativa de aliciamento para o teu "lado da barricada". De certeza que estás ciente desse facto. Já andamos há uns tempos nisto e "burro velho não aprende línguas".

Era mesmo uma porta aberta ao diálogo, com a certeza de que, como diz o Fernando Guimarães, "a diferença é uma forma de encontro".
Isto para te dizer que não entendo muito bem o teu prolongado silêncio, para mais quando - e corrige-me, pf, se estiver errado - julgo te sobrar (agradece ao escroto do Crato...), por estes dias, tempo.

Seja como for: até posso me ter alongado, aquando do 1.º e-mail que te enderecei, nas considerações que teci em torno da minha poesia e da ideia que tenho de poesia mas nunca esperei que a tua resposta fosse tão penosamente pensada. Era suposto ser uma work in progress, um diálogo, em suma.

Acredito piamente que tenhas encontrado algumas dificuldades hermenêuticas na leitura dos dois projectos que te fiz chegar. Ainda assim...

Um abraço,

J.

Nesse mesmo dia, 06-01-2015, respondo:

Boa tarde, Jorge.

Tens razão quando dizes que, graças ao Crato, tenho tempo. Só que, para meu bem (e sanidade mental), a escola não ocupa todo o meu tempo. Tenho outros afazeres, nomeadamente domésticos e familiares, que me tiram o tempo possível para poder responder ao teu e-mail, e ler os dois livros que me enviaste, merecedores de toda a minha atenção. Estes dias, com Natal (e vinda dos meus pais até cá) e Ano Novo, tem sido preenchidos com outras coisas, entre elas enviar currículos e andar pela cidade a entregá-los; mas também ocupados com uma pedra nos rins.

Depois, houve ainda a apresentação do livro do António Amaral Tavares e respectivo envio de encomendas (que só ontem seguiram no caminho).

Sem ainda ter lido os livros que me enviaste, tentarei, no entanto, dar uma resposta ao conteúdo do teu e-mail (agora, depois de uma visita aos HUC — uma pessoa amiga de Manteigas que se encontra internada).

De facto, utilizar o argumento de que a tua poesia é difícil é um argumento batido. O mesmo dizer que utiliza palavras difíceis, ou "caras". Contudo, não é um argumento descabido para quem, como eu, tem uma fraca cultura ao nível da filosofia, teologia e economia. O exemplo que citas ( À asseidade de deus/ eu aponho a minha autarcia.) é disso exemplo. Eu não conseguiria descortinar estes dois versos sem o auxílio de um dicionário, o que torna uma leitura de poesia um tanto ou quanto penosa (e digo isto sem qualquer ponta de ironia ou sarcasmo ou seja o que for). Não digo que a tua poesia não procura o rigor. É notória a economia verbal e o tão estimado (por mim) peso das palavras. Só que as palavras que utilizas são demasiado pesadas para mim, apesar do verso ser limpo e bem limpo.

E depois há ainda as várias referências ao filósofos que citas. Conheço-os a quase todos pela rama, pois nunca me dei muito bem com filósofos e filosofias (apesar de apreciar bastante a leitura de Cioran, Onfray, Lipovetsky, Sloterdijk, Debord, Camus e às vezes o terrível dinamarquês). Sou mais Cossery, Bernhard, Camus (romancista), Sade, Dostoiévski, Vergílio Ferreira, Raúl Brandão e por aí fora.

Irei ler os teus dois livros com a atenção que merecem. Vou, de certeza, ter dificuldades hermenêuticas. Mas vou tentar.

Abraço,
Manuel

E foi esta minha resposta que colocou o burro nas couves, como é costume dizer na minha terra. A minha incapacidade de juntar dois neurónios levou-me a escrever a resposta que o Senhor Jorge Melícias não quis ler. No mesmo dia, 06-01-2015, o Senhor Jorge Melícias responde:

Caro Manuel,

E não tens filhos, ao que sei. Eu tenho 4, cá em casa também há natal e ano novo, também ponho a máquina da loiça a fazer e estendo a da roupa, ainda dou uma perninha a varrer a casa, quando é preciso, e consigo, apesar disso tudo, arranjar tempo para tentar não passar por desinteressado e arrogante.

Porque é de arrogância que o teu e-mail trata, apenas transvestida de humildade doméstica. A mesma arrogância que me leva a crer que nunca irás conseguir adoptar, perante o texto, uma atitude de sóbria humildade e verdadeira atenção (como a de que te falava relativamente ao Anabase, do Perse).
Não quando me vens com essa das palavras "caras". Não são palavras caras, meu caro. Nem, tão pouco, baratas, creio. Não são vendidas a preço de granel e não contribuem para o PIB. São palavras justas, tout court, e como todas as palavras têm um conceito (mais ou menos complexo) que lhes está adjacente.

Podem não ser as palavras "retrete" (qualitativamente falando), "taberna" (no Bairro Alto ou não), "melancolia" (fin de sècle, de preferência), "amor", "dor de corno" e "matraca chorona" (falha-me agora a quem possa atribuir estes epítetos), mas merecem tanto respeito como essas e um equivalente esforço exegético.

De resto não percebo o que é que ler Cossery ("Mendigos e Altivos", "A violência e o Escárnio" e "As cores da Infâmia" são três grandes livros), Tomas Bernhard ("Perturbação" foi um livro que, passo a jocosidade, me perturbou profundamente, como quase tudo, aliás, que dele conheço), Camus (a minha juventude foi passada entre "chinesas" e os livros do escritor franco-argelino."A Peste", "A Queda", "O Mito de Sìsifo" fazem parte do que sou), Sade (vá, meu caro, quem é que, na sua fase mais contestatária, não se deixou contaminar pelo "Justine". pelos "Contos Libertinos" ou pelos "120 dias de Sodoma" ???), Dostoiévski (again, "Crime e Castigo", "O Idiota", "O Jogador", "Os Irmãos Karamazov"), Vergílio Ferreira (um dos maiores filósofos, para ti que os abominas tanto, que alguma vez pisou este triste rectângulo e sobre a condição humana reflectiu), Raúl Brandão (bastava-lhe o "Húmus", das coisas mais extraordinárias que já me foram dadas ler, para se arvorar à excelência absoluta), o que é que ler toda essa gente, dizia eu, obsta a que não se leia mais nada e a que disso se faça gala é algo que me ultrapassa... Mas tu lá saberás das tuas opções.

Obrigado pelo tempo que me dispensaste e um abraço,

J.

Desta vez não lhe respondi. E, a partir desse dia, o Senhor Jorge Melícias voltou à carga, tanto aqui como noutros lugares onde tenho colaborado com alguns textos.


Esta minha atitude, que pode ser considerada muito pouco correcta, serve apenas para colocar um ponto final nas conversas com o Senhor Jorge Melícias.